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A festa da proximidade

Dom Gilson Andrade da Silva

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador

O Papa Francisco quando esteve em Cracóvia durante a Jornada Mundial da Juventude, celebrada em julho deste ano, em conversa com os bispos poloneses foi interpelado sobre como a Igreja poderia de novo oferecer a mensagem evangélica a um mundo indiferente e muitas vezes hostil à mensagem de Cristo. O Papa imediatamente recordou-lhes uma atitude fundamental que é a proximidade. E fez uma afirmação muito oportuna para os dias que estamos vivendo, na celebração do Natal do Senhor: “Sem proximidade existe apenas palavra sem carne”. Com isso queria indicar a atitude pastoral decisiva diante dos desafios que a missão dos cristãos enfrenta no momento presente. É preciso encontrar modos de aproximar-nos de todos, sem exceção.

Com muita facilidade, o cristão pode se deixar levar por uma atitude de afastamento dos seus contemporâneos por sentir a distância entre o que ele professa e o modo de pensar e agir mais coerente. O gesto de Deus foi o de se aproximar. A bela parábola do bom samaritano é emblemática neste sentido. Um estrangeiro se aproxima de um homem caído à beira da estrada e tem compaixão dele. Não se perde em perguntas acerca dos obstáculos que naquele momento podiam impedi-lo de ter o gesto de misericórdia, mas simplesmente olha o homem necessitado como se visse a si mesmo nele e se desdobra em gestos de atenção e de cuidado.

O cristianismo é pautado pela aproximação de Deus aos seres humanos. Desde a história da criação do homem e da mulher, passando pela eleição do povo de Israel até chegar ao momento sublime da encarnação do Verbo, a iniciativa foi sempre de Deus. A decisão divina foi a de se aproximar e propor a possibilidade de uma vida integrada no Seu amor, superando assim a ruptura imposta pela decisão equivocada de afastar-se de Deus, ou seja, a escolha do pecado.

Chegamos à celebração do Natal do Senhor. Não se trata simplesmente de uma recordação histórica de algo ocorrido há séculos, mas de um fato que se perpetua na história. O Messias prometido, Filho da Virgem Maria, é o Emanuel, Deus conosco para sempre. Com o seu nascimento, a história de toda a humanidade e de cada pessoa foi marcada pelo gesto de aproximação de Deus. Ele está perto de cada pessoa e essa proximidade devolve a todos a possibilidade de viver conforme o melhor que há em si, ou seja, à dignidade de filhos e filhas de Deus.

Não é por acaso que a festa do Natal tem sido assumida como inspiração para crentes e não crentes de gestos de humanidade, de renovação do olhar dos homens entre si, de acolhida mais generosa de uns para com os outros, pois o extraordinário do Deus transcendente quis ser reconhecido na imanência de um ser humano, limitado pelas contingências mais adversas, nascido na obscuridade da rejeição e de um lugar inóspito. Desse modo, Deus não apenas se aproximou dos seres humanos, mas fez a escolha de se aproximar dos últimos, dos esquecidos, dos abandonados e rejeitados, indicando assim que a dignidade de um homem e de uma mulher está na sua relação com Ele. O rosto de qualquer ser humano é reflexo do Eterno que nos nossos dias se fez homem e habitou entre nós.

Na mesma ocasião mencionada acima, o Santo Padre recordou aos Bispos da Polônia que “a proximidade é tocar a carne sofredora de Cristo”. Portanto, somos convidados na oportunidade da celebração do Natal do Senhor tornar-nos próximos, sobretudo dos que se encontram mais parecidos com Cristo que assumiu as dores da humanidade precisada de esperança. Que a gruta de Belém seja o coração de cada um, capaz de reconhecer um Deus necessitado vindo ao seu encontro no rosto sofredor dos irmãos. Feliz Natal!

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