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A fidelidade ou o amor sem ocaso

Dom Gilson Andrade da Silva

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador

Prometer fidelidade por toda a vida é um compromisso assumido no casamento e condição para desfrutar o melhor da vida familiar. É certamente um caminho exigente percorrido no dia a dia, mas que, ao mesmo tempo, é fonte de uma felicidade que atinge a todos os membros de uma família. Trata-se de uma realidade que precisa ser redescoberta na atualidade não como um peso, mas como consequência normal de um amor que não quer ver jamais o ocaso.

A fidelidade no casamento é poder confiar-se totalmente a alguém e não voltar atrás. Dizer cada dia: «é a ele (a ela) que eu quero entregar-me». É compreender que se escolheu uma pessoa com tudo o que ela é, e não um catálogo de qualidades, vantagens ou coisas que nos agradam.

Para viver esta fidelidade é preciso aprender a cultivar o amor. Como é importante saber reservar um tempo para estar juntos. Em se tratando de casal, esse espaço da convivência mútua é uma necessidade. É como o ‘oxigênio’ que sustenta a vida do casal, sua respiração. É verdade também que no quotidiano a fidelidade passa por caminhos bem concretos, como por exemplo, a decisão de não deixar passar uma semana sem um tempo de partilha, de não deixar de pedir perdão todas as noites, pois o amor cresce à medida da capacidade de perdoar e etc.

Aprender a exercer a fidelidade nas pequenas coisas, aproveitar as pequenas oportunidades. Aqui também é valioso o conselho de Jesus: fidelidade no pouco para ser fiel no muito. É precisamente no descuido dessas pequenas realidades quotidianas que se pode arriscar a perda da fidelidade. Mas também é preciso levar em conta que se se apresenta uma tentação contra a fidelidade, a fuga é a melhor solução. Fugir daquilo que pode nos tornar infiéis. Aqui o corajoso é aquele que foge da realidade que o provoca e assim o faz precisamente porque não quer perder o que de mais valioso possui, o amor de seu casamento. Um bom conselho dava S. Josemaría Escrivá: «Não tenhas a covardia de ser “valente”; foge!»(Caminho, n. 132).

Uma grande prova que toda fidelidade enfrenta é o passar do tempo, a duração. A rotina pode ir deixando suas marcas negativas se não combatemos com vigor e o amadurecimento do amor pode ser confundido com a “falta do sentimento de antes”. É muito comum ouvir-se dizer que já não é mais a mesma coisa e, com muita facilidade, conclui-se que o amor acabou e a separação parece ser a única saída. Acontece que o processo do amor conjugal passa pelo crivo dos anos e vai amadurecendo. Portanto a melhor coisa nesses momentos é poder contar com a graça própria do sacramento do matrimônio e, portanto, da oração como casal. Por outro lado recorrer à ajuda de pessoas que acreditam na família e que podem orientar o casal para perceber que aquelas situações simplesmente desafiam o crescimento no amor e de modo algum são instrumentos de destruição. A solução mais fácil nem sempre é a melhor. Para que um casal seja fiel é preciso decidir escolher-se todos os dias. Aquela escolha definitiva feita no dia do casamento deve ser renovada diariamente. Cada dia como o primeiro, como o único.

Quando se faz essa escolha acaba-se por compreender que é preciso toda uma vida para aprender a amar alguém. Não bastam uns poucos anos, é preciso toda uma vida. Desse modo passa-se tranquilamente de um amor possessivo a um amor que é doação total ao outro. Mas isso não acontece num único dia, nem mesmo num mês, nem mesmo em alguns anos: é necessária a vida inteira. Passa-se por provações, desilusões, mas caminha-se em frente com a mesma pessoa. Só se cresce no amor e na unidade estando juntos e é isso que faz a nossa felicidade. O caminho da fidelidade é um caminho capaz de preencher enormemente o coração de um homem e de uma mulher, é como a realização da capacidade que o ser humano tem de amar.

É forte em nosso tempo a impressão de que tudo é inconstante, não dura muito. Essa atitude dificulta o verdadeiro conhecimento do amor que sem dimensão da fidelidade não pode preencher a necessidade de amor do coração humano que foi criado por Deus para amar com perseverança e fidelidade. Só um amor assim é capaz de tornar o homem mais humano e, consequentemente, mais feliz. Buscamos a felicidade? Tomemos a decisão da fidelidade!

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