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A vida entre o sucesso e o fracasso

Por Dom Gilson Andrade da Silva

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador

Vencer ou perder: parece que este é o grande dilema da vida e que ela poderia ser tomada como um jogo onde uns vencem e outros perdem. Esta é a sensação que normalmente se tem diante dos modelos que diariamente são apresentados pelos parâmetros que a mídia usa para falar dos vencedores ou perdedores. A vitória e o fracasso são descritos de acordo com uma conveniência relativa àquilo que o bem-estar é capaz de oferecer e, assim, são apresentados, sobretudo, com a cara do sucesso ou da derrota nos campos profissional, familiar, religioso etc. Parece que todos precisam alcançar um sucesso para dar sentido à vida, de outra forma, não teria valido a pena, por exemplo, uma vida com tantos sacrifícios como costuma ser a vida de qualquer pessoa humana.

Diante dessa realidade que faz parte do nosso dia a dia, um cristão se pergunta sobre a luz que a fé pode oferecer a essa “preocupação” que consome a vida de muitas pessoas no mundo de hoje.

Jesus, no evangelho de São Lucas, nos conta uma parábola que ilustra dois modos de viver que são determinantes para o destino final que marcará o desfecho da própria vida com a realização ou a frustração, a parábola do rico e do pobre Lázaro (Lc 16, 19-31). Nesta parábola se sugere que sucesso ou fracasso não são definitivos aqui na terra, mas é na eternidade que se revelará se uma pessoa fracassou ou teve êxito de verdade.

O rico da parábola, dotado de grande bem-estar no tempo, fracassa na eternidade e o pobre Lázaro, coberto de humilhações e desprezo durante a vida, encontra no além a realização da vida. O rico do Evangelho frustra a sua vida porque não é capaz de ler os sinais dos tempos e de perceber o que está acontecendo ao seu redor e os apelos do tempo presente. Não abre a porta ao pobre que jaz à entrada de sua casa, justamente aquele pobre que poderia abrir para ele a porta da vida. O pecado do rico, que o condena depois da morte a uma eternidade infeliz, é a incapacidade de olhar o mundo à sua volta e perceber os apelos à compaixão. É um homem que não faz mal a ninguém, mas padece de uma doença pior que a de Lázaro, está cego e não consegue olhar para além do mundo das suas satisfações pessoais e do seu bem estar. Não enxerga o pobre Lázaro, porque não se interessa com o que acontece fora do seu pequeno mundo.  Em palavras do Papa Francisco: ele “não vê com os olhos, porque não sente com o coração” (Homilia no Jubileu dos Catequistas, 25 de setembro de 2016). Desse modo, torna-se indiferente ao pobre, e seu destino será a infelicidade eterna, pois não pode ser feliz no céu quem não aprendeu que a felicidade está no encontro com o outro que sempre pede de mim atitude de acolhida e compaixão. O outro não é o inferno, como sugeriu Sartre, mas o outro é a possibilidade do meu céu.

Deus, porém, não esquece os seus pobres, são os seus filhos prediletos, prova disso é que o nome do pobre, Lázaro, é conhecido por Deus, e seu nome significa “Deus ajuda”. O rico, no entanto, não faz história, cai no esquecimento, “porque quem vive para si mesmo não faz a história” (Francisco, ibid).  No Salmo se diz que “o Senhor é fiel para sempre, faz justiça aos que são oprimidos; ele dá alimento aos famintos, é o Senhor quem liberta os cativos” (Sl 145).

O que torna bem sucedida a vida do pobre não é a sua pobreza, nem o estado de humilhação em que vive, mas a confiança em Deus, que socorre os pobres, e o consequente modo de viver sob o olhar de Deus e atento aos seus apelos.

Assim, a vida do ser humano encontra seu sucesso ou seu fracasso sempre diante da eternidade, seguindo os parâmetros que a Palavra de Deus nos indica para uma vida bem-aventurada e feliz.

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