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As bem-aventuranças dos políticos

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

            No início deste ano, numerosos políticos assumem cargos tanto no Poder Executivo (01/01) como no Poder Legislativo (01/02); alguns foram reconduzidos a cargos que já ocupavam, outros foram eleitos para um primeiro mandato.

Com o Papa Francisco, lembro que a política é um meio fundamental para se construir a cidadania; com o Papa S. Paulo VI, recordo que tomar a sério a política nos seus diversos níveis é afirmar o dever de realizar o bem da cidade ou da região. Aqueles que receberam um mandato para servir a seu estado ou a seu país têm o desafio permanente de lutar pelo bem-estar das pessoas e de trabalhar para que todos possam ter realizado o sonho de um futuro digno e justo.

Nem todos os cidadãos têm vocação para a política, mas aqueles que se sentem chamados a dar sua colaboração nesse campo praticam uma excelente obra de caridade, se suas iniciativas forem fundamentadas na justiça, no respeito mútuo, na sinceridade, na honestidade e na fidelidade aos princípios da ética.

Convicto disso, Francisco Van Thuan, cardeal vietnamita, falecido em 2002, escreveu as Bem-aventuranças do político: “Bem-aventurado o político que tem uma alta noção e uma profunda consciência de seu papel. Bem-aventurado o político que trabalha para o bem comum e não para os próprios interesses. Bem-aventurado o político que permanece fielmente coerente. Bem-aventurado o político que realiza a unidade. Bem-aventurado o político que está comprometido na realização de uma mudança radical. Bem-aventurado o político que sabe escutar. Bem-aventurado o político que não tem medo”.

Para o Papa Francisco, é preciso levar em conta, igualmente, os vícios que, lamentavelmente, também existem na política. Eles “enfraquecem o ideal de uma vida democrática autêntica, são a vergonha da vida pública e colocam em perigo a paz social” (01.01.19). Como não lembrar, por exemplo, a corrupção – nas suas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos -, o enriquecimento ilegal e a exploração ilimitada dos recursos naturais?

A boa política está a serviço da paz e promove os direitos humanos fundamentais. A paz é fruto “de um grande projeto político, que se baseia na responsabilidade mútua e na interdependência dos seres humanos. Mas é também um desafio que requer ser abraçado dia após dia”. A paz é fruto da conversão do coração.

Somos chamados a acompanhar, com senso crítico, as iniciativas dos políticos, superando um juízo superficial e falho: se forem do meu partido, aprovarei tudo o que eles fizerem; se forem de um partido contrário, rejeitarei tudo o que eles propuserem… Não será melhor rezar para que nossos políticos cumpram com sabedoria e amor a missão que receberam e assumiram?…

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