Artigos Destaque Formação

Copa do mundo: a paz ao nosso alcance

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia

 

Há momentos em que descobrimos ser melhores do que imaginávamos. A experiência da Copa do Mundo de Futebol na Rússia está sendo um desses momentos. Vive-se uma mistura de sentimentos: alegria, festa e abraços, situações marcadas pelo choro, pelas lágrimas e por despedidas antecipadas. As línguas diferentes, longe de criarem muros entre as pessoas, as fazem descobrir criativas formas de comunicação. Acima de tudo, descobrimos, surpresos, que podemos viver como irmãos.

Desde a primeira vez em que abrimos um livro de História, percebemos que as guerras fazem parte da vida da humanidade. Viver é conviver; na vida de muitos povos, viver foi guerrear sempre, por diferentes motivos e com diferentes inimigos.

Curiosamente, o sonho humano foi sempre envolvido pelo desejo da paz. Mas, o que é paz? É a ausência de guerra, afirmarão alguns; outros, mais pessimistas, dirão que é a trégua entre uma guerra e outra. Para os profetas do Antigo Testamento, a paz, expressa pela palavra “shalom”, é um dom de Deus que não pode ser confundido com a paz humana, frágil e ilusória. O profeta Isaías dirá que “a paz é fruto da justiça”. A verdadeira paz se obtém com a observância da lei de Deus.

No tempo de Jesus, os romanos dominavam a região da Palestina. Julgava-se, então, que a paz seria obtida quando os invasores estrangeiros fossem expulsos, mesmo que para isso fosse necessário o uso da violência. Para surpresa de alguns e decepção de muitos, Jesus defendeu a necessidade de as pessoas, antes de tudo, mudarem o próprio coração, como caminho necessário para conseguirem a paz. Ele ensinava que até o inimigo deveria ser amado! Coerentemente, pregado na Cruz, pediu: “Pai, perdoai-lhes! Eles não sabem o que fazem!”

Para a Igreja, a paz não pode ser reduzida a um equilíbrio estável de forças contrárias e, menos ainda, como o resultado de uma despótica dominação. Em nosso mundo, dada a fragilidade e nossa inclinação ao pecado, a paz nunca estará completamente construída. Ela é dom de Cristo ressuscitado. O apóstolo Paulo chegou a afirmar: “Cristo é nossa paz!”.

Como é bom, pois, viver momentos como este da Copa do Mundo, mesmo que muitos não gostem do resultado final. Não se descobriu, ainda, uma forma de fazer com que todos os países sejam campeões. Mas é reconfortante descobrir que podemos viver e conviver em paz, desde que respeitemos nossas diferenças e olhemos o outro não como um adversário a ser destruído, mas como um irmão que nos enriquece. Isso vale para o mundo e vale também para nossos relacionamentos pessoais. A paz é possível e está a nosso alcance, mas é necessário que a construamos. Os que o fizerem, serão chamados, segundo Jesus, de “filhos de Deus”.

 

Adicionar comentário

Clique aqui para postar um comentário