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Dom Murilo presidiu Missa pelos mortos em naufrágio na Baía de Todos os Santos

O Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger, presidiu na noite de ontem (30) a Missa de sétimo dia pelas almas das vítimas do naufrágio ocorrido na Baía de Todos os Santos. A Celebração Eucarística, marcada por muita emoção, aconteceu na matriz da paróquia Sagrado Coração de Jesus, em Mar Grande. Inúmeros fiéis participaram da Missa e no momento do ofertório 19 homens do Grupo de Oração Terço dos Homens (GOTH’s) ofertaram rosas brancas, recordando os mortos.

Confira, na íntegra, a homilia proferida por Dom Murilo:

Mar Grande – Ilha de Itaparica – 39.08.17

Missa de 7º dia pelos que morreram no Naufrágio na Baia de Todos os Santos

Leituras: Rm 8,14-23; Sl 22; Jo 11,17-27

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

Nesta missa de 7º dia pelos mortos da tragédia na Baia de Todos os Santos, ocorrida na manhã do dia 24 de agosto último, vou desenvolver minha homilia em dez pontos.

1º – O fato. Cada um de nós tem uma lembrança viva do lugar em que estava e da hora em que recebeu a notícia da tragédia ocorrida na Baia de Todos os Santos, na quinta-feira passada. Até então, um acontecimento assim parecia acontecer somente longe de nós, envolvendo pessoas desconhecidas. De repente, descobrimos que também perto de nós pode ocorrer uma desgraça dessas dimensões, sem limites, envolvendo pessoas ou famílias conhecidas. Pior foi a consciência que, pouco a  pouco, foi se impondo: essa tragédia não precisaria ter acontecido, não poderia ter acontecido, mas aconteceu por falhas humanas.

2º –  A comoção. Se a dor da tragédia atingiu especialmente os familiares das vítimas, tal dor foi partilhada por todos. Poucas vezes a gente sentiu de perto o quanto somos irmãos; o quanto a dor do próximo é também a nossa dor. A Ilha de Itaparica chorou; Salvador chorou; o Estado da Bahia viveu um dos momentos mais tristes de sua história. E, de repente, percebemos que todo o Brasil participava dessa dor, que o mundo acompanhou de perto. Muitos se perguntavam: Por que isso aconteceu? Por que? Como entender isso?

3º – O sofrimento. Foi (e está sendo) um sofrimento sem limite. Foi uma dor sem tamanho. Segundo uma antiga tradição cristã, no caminho que Jesus percorreu até o Calvário, uma mulher, Verônica, enxugou o seu rosto. Para recordar aquele momento, em nossas procissões de Sexta-feira Santa alguém, representando Verônica, abre um lenço onde está impresso o rosto de Cristo. Enquanto isso, ela canta: “Vós, que passais pelo caminho, vede se há dor semelhante à minha dor!” Tendo aqui, diante de nós, familiares que sofrem pela trágica ocorrência na Baía de Todos os Santos, nós nos perguntamos: “Será que há dor semelhante à dor destes nossos irmãos e irmãs?…”

4º – As reações. Técnicos deram sua opinião sobre as causas do acidente; jornalistas fizeram reportagens emocionantes sobre os fatos e as pessoas envolvidas; autoridades buscaram explicações; psicólogos analisaram as reações… A lista de pessoas que se manifestaram poderia ir longe. Todos demonstraram ter a mesma convicção: estamos diante de um acontecimento que levaremos muitos anos para entender – se é que um dia o entenderemos. A verdade se impõe: esta tragédia deixou marcas profundas na vida de inúmeras pessoas. Qualquer explicação humana será sempre limitada, imperfeita, incompleta. A fé vem nos lembrar que somos muito mais responsáveis por nossos atos do que imaginamos.

5º – A esperança. Nasce em nosso coração o desejo de que um fato como esse não volte a acontecer. Aliás, não pode acontecer! Nossa esperança não pode ser decepcionada. Todos nós temos o direito de sonhar com viagens e travessias com mais conforto e segurança. Desde que Deus disse – e isso está logo no começo da Bíblia -: “Dominai a terra!”, deixou claro que, a partir daí, a vida estaria em nossas mãos. Ele não faria intervenções a toda hora para corrigir nossos erros, completar nossas omissões ou para fazer o que cabe a nós fazer.

6º A fé. Continuo meu pensamento anterior: muitos gostariam de ter visto uma intervenção direta de Deus, para que tal tragédia não tivesse acontecido. Não é assim que age o Deus de Jesus Cristo. Ele nos deu inteligência e vontade para construirmos um mundo melhor, mais justo e fraterno. A fé, nossa confiança em Deus, não pode ser vista como uma desculpa para nossa omissão ou mediocridade.

7º – Deus. O que o SENHOR tem a nós dizer? Ele já nos falou. Sua Palavra foi proclamada no início desta celebração. Primeiramente, nos falou por meio do apóstolo Paulo:

  • “Somos filhos e filhas de Deus; filhos, portanto herdeiros”. Anima-nos, pois, a certeza: mais do que nunca, Ele está ao lado dos que estão sofrendo, pois são filhos e filhas queridas, que precisam muito de Seu carinho.
  • “Não há proporção entre os sofrimentos do tempo presente e a glória que deve um dia revelar-se a nós”. Com nossos sofrimentos, completamos em nossa carne o que falta à Paixão de Cristo.
  • “Esperamos a redenção do nosso corpo”. Um dia, o nosso corpo ressuscitado e transfigurado será chamado a participar da glória de Deus.
  • O Salmista nos conforta: “O Senhor é o meu pastor. Nada me faltará”.
  • Deus nos falou por Seu Filho, Jesus Cristo. Em resposta à observação de Marta – “Senhor, se estivesses estado aqui, meu irmão não estaria morto” -, Jesus lhe ensinou: “Teu irmão ressuscitará. Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crer em mim, não morrerá para sempre”.

8º – Nossa resposta. A partir de um acontecimento como este, o que Deus espera de nós? Ele quer que nos lembremos que a vida é frágil; é delicada como uma flor. Por isso, precisa de muito cuidado.Deus espera, pois, que aproveitemos nossos dias para consolar os que sofrem e manifestar nossa solidariedade com quem tem alguma necessidade. Espera, também, que vivamos de tal modo que estejamos sempre preparados para nosso encontro com Ele, mesmo que for inesperado. Viver na graça, viver na amizade com Deus, é a vocação que recebemos no batismo.

9º – Amigos de Jó. Há um livro bíblico que não foi aqui proclamado, mas é que de todos conhecido: o livro de Jó. Ele era um homem rico e saudável, com uma bela família. Deus permitiu, então, para testar sua fé, que ele perdesse tudo: bens, familiares e saúde. Então, Jó ficou só. Três amigos seus, de lugares diferentes, tendo ouvido falar de sua situação, foram visitá-lo, para consolá-lo. Ficaram surpresos com seu deplorável estado. Então, sem falar palavra alguma, ficaram a seu lado sete dias e sete noites, para lhe demonstrar o quanto estavam unidos a ele. Sei que as famílias enlutadas receberam muito conforto e gestos de amizade. Como isso foi importante para elas! O risco, agora, é o de esquecermos tais famílias. Isso não pode acontecer. Mais do que nunca elas devem sentir, a seu lado, amigos como os que Jó tinha.

10º – Uma preceSenhor, olha com compaixão para os que sofrem aqui, tão perto de nós. Só tu és capaz de conhecer em profundidade a dor de cada um, pois tu, Jesus, és o Homem das Dores. Na Cruz, tu assumiste todo sofrimento humano, dando-lhe sentido. Faz com que nossas cruzes sirvam para nossa santificação e salvação. Olha para cada pai que perdeu seu filho; para cada mãe que está inconsolável; para o esposo ou a esposa que chora a ausência da pessoa querida; olha para os filhos que perderam pais; olha para todos aqueles que fazem sua a dor dos que sofrem. Que ninguém se esqueça de que, mais do que nunca, tu cumpres o que prometeste: “Eis que estarei convosco todos os dias…” Todos os dias… também hoje, também nesta noite, também agora.

Amém!

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