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Fascinados por Jesus Cristo

Dom Hélio Pereira dos Santos

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador

 

Há mais de dois mil anos a humanidade recebeu a notícia extraordinária: todos podem ser felizes (Mt 5,1-7,28). O povo ficava fascinado por Jesus (Lc 19,48) e as multidões ficavam extasiadas com o seu ensinamento (cf. Mt 7,28).O verbo fascinar traz a ideia de encantar, entusiasmar, deslumbrar, enfeitiçar, apaixonar, inclinar, pender, dominar etc.

Um dos grandes males que atinge o povo de Deus é a falta de entusiasmo por Jesus Cristo, principalmente quando se fala do Cristo da cruz. Ficamos fascinados por muitas realidades: pessoas talentosas, dinheiro, profissão, comidas, novas tecnologias, milagres da prosperidade etc. Diante do exposto, fica a sensação que perdemos a capacidade de separar o essencial do acessório.

É urgente cultivar o deslumbramento pelo Cristo da cruz que “nos amou e se entregou por nós a Deus como oblação e sacrifício de agradável odor” (Ef 5,2). Exultemos como fizeram os primeiros cristãos quando perceberam a ação de Deus na pessoa de Jesus Cristo: “Bendito seja o Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, que, em Sua grande misericórdia, nos gerou de novo, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos, para a esperança viva” (1 Pedro 1,3).

O fascínio pelo Cristo da cruz torna as dificuldades do cotidiano pequenas em vista de todas as maravilhas que nos aguardam na eternidade. Pessoas fascinadas por Cristo não limitam suas alegrias às circunstâncias terrenas, mas fazem dele sua fonte de esperança e vida, “pois o Reino de Deus não consiste em comida e bebida, mas é justiça, paz, alegria no Espírito Santo” (Rm 14,17).

Ponderando o cuidado para não nos perdermos no labirinto de fascinações, destacamos algumas características da vida de Jesus Cristo que não perderam a validade: liberdade; agir prático e oração.

  1. Liberdade – Jesus admira o testemunho de João Batista, mas não se prende aos seus ensinamentos e expressa tamanha liberdade que até os seus seguidores ficam admirados e não compreendem o comportamento tão livre como no encontro com a samaritana (cf. Jo 4,5-42) e no caso da mulher do perfume em que alguns ficam indignados e Jesus os repreende: “Deixe-a. Por que a aborreceis? Ela fez uma obra boa para comigo” (Mc 14,6).
  2. Agir prático – Jesus não se perde na vastidão moralista de mais de 613 preceitos do Código Levítico e ensina com admirável praticidade: “amarás o Senhor teu Deus e o teu próximo” (cf. Mt 22, 37-39); “Dai, pois, o que é de César a César, e o que é de Deus, a Deus” (Mt 22,21). A praticidade de Jesus faz falta em nossos dias. Com nossas agendas cheias nos jogamos numa rotina frenética de reuniões, atividades diversas, e não reservamos tempo para apreciar o presente. Caímos no perigo de sermos repreendidos por Jesus como fez com Marta que estava agitada por muitas coisas desnecessárias (cf. Lc 10,41-42).
  3. Vida de oração – A oração de Jesus se insere no ordinário de cada dia e se intensifica nos momentos marcantes como: Batismo (Lc 3,21-22); a escolha dos apóstolos (Lc 6,12);a transfiguração (Lc 9,28-29); antes da multiplicação dos pães (Jo 6,11); antes da ressurreição de Lázaro (Jo 11,41); nas horas da Paixão (Jo 12,27s); no Horto das Oliveiras em que clama por Deus, chamando-o de “Abbá” (Mc14,36) e principalmente a oração confiante no instante de expirar: “Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23,46).

Considerando que “Jesus Cristo é o mesmo, ontem e hoje, ele o será para sempre” (Hb13,18), tudo indica que arrefecemos na capacidade de admirar as coisas bonitas da vida. Fala-se que um homem estava viajando de trem. Logo que a máquina começou a atravessar pelas mais belas paisagens, o homem começou a dizer: “Que maravilha!” E repetia: “Que maravilha!”.  Um passageiro ficou irritado e disse: “Por que você não para de dizer ‘que maravilha! que maravilha!’?”  O homem respondeu: “Eu era cego e acabei de fazer uma cirurgia. Agora posso ver. O que para você é algo comum, para mim é uma maravilha!”.

Deus nos livre de ficarmos insensíveis às coisas bonitas da vida. Deus nos livre de perdermos o fascínio pelas coisas do infinito e menos ainda de nos contentarmos somente com o céu provisório ou o Cristo sem cruz. Cada batizado é convidado a retomar o caminho do encanto para viver a fé com alegria, leveza e praticidade: “Recorda-te, pois, de onde caíste, converte-te e retoma a conduta de outrora” (Ap 2,5).

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