Homilias

Homilia da Missa em memória aos 300 anos da morte de Madre Vitória da Encarnação

300 anos do falecimento de Madre Vitória da Encarnação

Convento Santa Clara – Salvador – 19.07.15

16º Domingo do Tempo Comum – Ano B

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

  1. Qual ovelhas em torno de seu Pastor, estamos aqui para escutar o nosso Pastor, nosso Bom Pastor: Jesus. É ele que nos reúne em torno de si, repetindo o que costumava fazer com aqueles que pertenciam ao primeiro grupo de seus discípulos. Ele nos acolhe para nos falar ao coração. Mas antes de escutarmos os seus ensinamentos, ele quer nos escutar; deseja que lhe falemos sobre o que vimos e ouvimos, o que fizemos e ensinamos. Em nosso nome, é a Mãe Igreja que lhe descreve o que testemunhou ao longo de seu caminho, de sua História. Nessa descrição, fixa seu olhar sobre uma filha sua, Madre Vitória da Encarnação, que 300 anos atrás, aos 54 anos, morria aqui, nesta cidade, neste Convento, com fama de santidade.
  2. Madre Vitória da Encarnação é uma prova viva de que Deus jamais abandona o seu povo. Como nos testemunha o profeta Jeremias, ele não abandonou o povo escolhido, mesmo depois de suas inúmeras infidelidades. Permitiu, sim, que o seu povo fosse várias vezes derrotado e deportado, justamente para que não confiasse em armas, no dinheiro e no poder, mas nele, o Pastor de Israel. O SENHOR prometeu: “Suscitarei para elas [as minhas ovelhinhas] novos pastores que as apascentem; não sofrerão mais o medo e a angústia, nenhuma delas se perderá”. Deus continua suscitando no meio de nós pessoas que nos obrigam a pensar naquilo que é essencial em nossa vida.
  3. Numa época em que a vida consagrada contemplativa havia perdido muito de seu brilho, Deus fez nascer nesta cidade, e precisamente neste Convento das Clarissas, uma vocação que seria um sinal para suas coirmãs, um sinal para a Igreja. Refiro-me, sim, à Madre Vitoria da Encarnação. Tão forte foi esse sinal que apenas cinco anos após o seu falecimento, o Arcebispo da época, o grande Dom Sebastião Monteiro da Vide, publicou um livro com um resumo da vida desta religiosa.
  4. Mas, como surgiu este Convento que um dia acolheu uma santa tão extraordinária? No dia 29 de abril de 1677, chegaram à Salvador quatro Clarissas do Mosteiro de Évora, Portugal. Por alguns dias precisaram ficar no navio que as trouxe, pois as obras deste Convento, que era chamado de Convento de Santa Clara do Desterro, ainda não estavam concluídas. Acolhidas festivamente pelo povo desta terra, passaram a viver naquele que era o primeiro mosteiro feminino da Colônia portuguesa.
  5. Para as famílias da época, ter uma filha neste Mosteiro dava “status” – motivo, pois, de um certo orgulho. Quis o pai de Vitória que sua filha, que por ocasião da chegada das religiosas portuguesas tinha 16 anos, se tornasse religiosa. A reação que ouviu o surpreendeu: ela preferia que a sua cabeça fosse cortada a tornar-se freira. Mas os caminhos de Deus são surpreendentes: após algumas experiências místicas, a jovem decidiu fazer parte do Convento do Desterro. Ela tinha, então, 25 anos.
  6. Feitos os votos, abraçou decididamente o caminho da santidade – caminho que tinha, naturalmente, as marcas de sua época. Dentre as características da espiritualidade de Madre Vitória da Encarnação, destaco cinco:

1ª – Especial amor à Paixão de Cristo. Era grande o seu espírito de sacrifício. Em seu tempo, dava-se, na Igreja, um lugar especial aos sofrimentos do Senhor. Prova disso era a devoção – que ainda persiste – ao Senhor Bom Jesus, sob vários títulos: do Bonfim, dos Passos, da Lapa etc.; prova disso eram as procissões penitenciais e a valorização de sacrifícios que buscavam unir os fieis aos sofrimentos que Cristo enfrentou e viveu em sua Paixão. Em outras palavras: tentava-se colocar em prática o que Paulo escreveu aos cristãos de Éfeso: Cristo quis reconciliar com Deus os judeus e os pagãos, unindo-os num só corpo, “por meio da cruz”, por meio de seu sangue. Madre Vitória da Encarnação assumiu essa proposta com determinação, o que fez com que ela levasse uma vida sumamente austera, marcada por cilícios, jejuns e renúncias. Hoje, muitos dirão: Como isso era possível? Não havia exageros naquilo que ela fazia? Se formos perguntar aos atletas que estão competindo nos Jogos Pan-Americanos do Canadá o que eles tiveram que enfrentar para tentar ganhar uma medalha, que não levarão consigo para a eternidade; se interrogarmos as modelos e as atrizes de novela sobre as renúncias que fazem para manter seu corpo em forma; se formos entrevistar aqueles que frequentam academias para ter um corpo sarado, veremos que os sofrimentos e as renúncias se repetem ao longo dos séculos, e quase que num mesmo grau. O que muda é a motivação: uns enfrentam tudo isso por Jesus Cristo, em vista dos irmãos e da eternidade; outros, por um momento de glória ou por dinheiro.

2ª – A vida de Madre Vitória da Encarnação foi marcada por uma intensa vida de oração. Dom Sebastião da Vida escreveu a esse respeito: “Ao exercício de tão rigorosas penitências, costumava Madre Vitória ajuntar o da oração fervorosa… Passava a noite em vigílias…” Dormia de duas a três horas. “Gastava o resto da noite, que sempre era a maior parte dela no coro, velando como tocha acesa no amor divino diante do Santíssimo Sacramento, com os braços em cruz, como outro Moisés, ou prostrada em terra, como Cristo Nosso Senhor no Horto, ou em alguma outra devota postura; e depois de longa oração, percorria ora o Caminho da Via Sacra, ora os Passos com a Cruz às costas, e coroada de espinhos”.

3ª – Devoção às almas do purgatório: pelas almas ela fazia orações, oferecia sacrifícios e obras de humildade. Queria, como escreveu Dom Sebastião, “favorecê-las…, encurtando o tempo de seu padecimento”. Nesse sentido, invocava particularmente o Arcanjo São Miguel, convencida de que a “esse bendito alferes da Milícia Celeste” cabia o cuidado das Almas do Purgatório.

4ª – Destacado amor aos pobres: ora os atendia diretamente, especialmente no tempo em que era porteira deste Convento, ora motivava suas coirmãs e a ajudá-los; ou, então, diante de casos concretos, pedia que seus familiares fossem em socorro de famílias necessitadas que haviam pedido a sua ajuda. Sentia, no seu coração, aquilo que ouvimos no Evangelho proclamado há pouco, referente a Jesus: “Viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor”.

5ª Devoção a Nossa Senhora. Dom Sebastião destaca três características da devoção de Madre Vitória da Encarnação à Mãe de Jesus: a) Sabendo que o que mais agrada à Maria é que seu Filho não seja ofendido em nenhum caso, Madre Vitória “procurava não dar esse dissabor à sua Santíssima Mãe”; b) Fazer todas as boas obras, principalmente as espirituais, com a maior perfeição que fosse possível, em hora e louvor a Nossa Senhora, não só para agradar a Deus, mas também à sua gloriosíssima Mãe; c) Rezar com muita devoção e atentamente o Rosário cada dia, por ser uma devoção admirável e sumamente eficaz. “O Rosário de Nossa Senhora, rezado com devoção, é um caminho direto e certo para o céu”.

  1. Conforta-nos saber que nesta terra do Salvador tenha florescido uma filha que alcançou tamanho grau de santidade. Talvez seu processo de beatificação não tenha progredido pelas dificuldades de comunicação da época. Beatificada ou não, Madre Vitória da Encarnação é um exemplo e um estímulo para todos nós – bispos, sacerdotes, diáconos, consagrados e consagradas, leigos e leigas -, buscarmos o caminho da santidade.

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