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Iluminar a dor

Por Dom Gilson Andrade da Silva

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador

Quantas vezes eu me deparo com pessoas que, mesmo fiéis à fé católica, ao se encontrarem mergulhadas numa dor profunda, começam a se perguntar sobre a razão daquela situação. Normalmente, nesta hora tende-se a procurar um responsável, por isso se questiona sobre o que fez para merecer passar por aquele revés, ou então se atribui a Deus ou a outros a razão da dor.

É normal que diante da dor procuremos razões, pois o hábito de pensar acompanha todas as circunstâncias que vivenciamos, das mais elementares às mais complexas. Porém, quase sempre é difícil explicar o porquê do mal que nos atinge.

Os sofrimentos provêm de muitas fontes e às vezes podemos até identificar razões plausíveis. Por exemplo, quando alguém sofre em consequência da injustiça praticada por outros. Mas como uma mãe ou um pai encontrarão razões suficientes para justificar que seu filho pequeno sofra porque lhe foi diagnosticado um câncer? Há situações onde é mais difícil poder identificar os “responsáveis” pelo sofrimento. Nesta hora, espontaneamente, muitos começam a se questionar sobre a bondade de Deus que parece assistir a dor do ser humano de forma impassível.

O mês de setembro traz no seu calendário litúrgico duas festas que nos oferecem oportunidade de iluminar essas situações com a luz dos fatos da fé. A fé é feita de um conteúdo preciso e não apenas de confiança. Esses conteúdos nos sustentam quando precisamente a confiança ameaça ser abalada. Refiro-me às festas da Exaltação da Santa Cruz e de Nossa Senhora das Dores. Ambas as festas lembram um gesto importante da ação de Deus diante do sofrimento humano que é a compaixão. A Cruz foi o lugar da compaixão de Deus para com a humanidade pecadora, Deus se aproximou do homem caído para levantá-lo através de um amor que foi até às últimas consequências. A Virgem Maria é também um sinal da compaixão materna de Deus que acompanha o homem e a mulher em sua dor e não os deixa sozinhos.

João Paulo II, certa vez, numa entrevista onde lhe perguntavam sobre por que o ser humano sofre, respondeu dizendo que o próprio Deus não se deteve em nos explicar o sofrimento, mas que diante dele assumiu a atitude de compaixão, colocou-se ao lado do sofredor, manifestando assim o seu amor. Desse modo, “o escândalo da Cruz é para sempre a chave de interpretação do grande mistério do sofrimento, que pertence de modo quase orgânico à história da humanidade. […] Cristo crucificado é uma prova da solidariedade de Deus com o homem sofredor. Deus fica do lado do homem” (Cruzando o limiar da esperança, p. 73).

Com isso, não se elucida definitivamente o problema da dor, pois ela é vivida na vida e nas circunstâncias concretas das pessoas, mas já não se está sozinho, não simplesmente por se ter uma companhia divina na hora extrema da dor, mas também porque Cristo, em vez de dar explicações sobre o sofrimento, encheu-o de sentido, o sentido do amor. Fomos salvos por causa desse amor que se doou sem reservas. Mas do que deter-se nos porquês, aprendemos com Cristo a dar um para quê às dores da vida.

No nosso sofrimento não estamos sós, Cristo conheceu a dor e nos sustenta e nos une à sua dor, pela sua graça, dando-lhe sentido divino para a salvação de todos. A fé nos oferece esse horizonte que não é teórico, mas que é parte do caminho daqueles que seguem o caminho da vida. Ao mesmo tempo nela encontramos a necessidade de tornar-nos solidários com os demais, imitando o gesto de Cristo e tornando-o presente ao lado do irmão sofredor.

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