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Notre Dame

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

 

À medida que o fogo tomava conta da Catedral de Notre Dame, crescia a comoção mundial. Quem não tinha ouvido falar de sua beleza e de sua importância na História da França? Para quem a visitou, então, era impossível ficar indiferente: doíam as chamas que cresciam e pareciam querer devorar tudo. Era difícil acreditar que uma obra como aquela, que parecia ser indestrutível e eterna, mostrasse, em tão poucas horas, toda a sua fragilidade.

Em meio às lembranças do que lá eu tinha visto (que belos vitrais!) e ouvido (que órgão extraordinário!), lembrei-me do que um dia me tocara profundamente: a leitura da conversão do poeta, dramaturgo e diplomata francês Paul Claudel (1868 – 1955). Ele viveu na Catedral de Notre Dame uma experiência que marcou profundamente a sua vida. Segundo ele próprio testemunhou, ao começar os estudos secundários passou a ler avidamente filósofos alemães e escritores franceses ateus. “Admirava Ernest Renan (sarcástico em relação ao Evangelho) e professava o culto da ciência… Esqueci completamente a religião; a seu respeito, a minha ignorância [religiosa] era a de um selvagem”.

No dia 25 de dezembro de 1886 – portanto, quando tinha dezoito anos -, Claudel entrou em Notre Dame para encontrar nas cerimônias católicas alguma matéria para seus trabalhos. “Nesta disposição de espírito, apertado e empurrado pela multidão, assisti à Missa com moderada alegria. Como nada mais interessante havia a fazer, voltei de novo à tarde para assistir às Vésperas [Oração da Tarde]. Começou, então, um canto que mais tarde reconheci ser o ‘Magnificat’. Eu estava de pé, no meio da multidão, junto da segunda coluna, perto da entrada para o coro, à direita, do lado da sacristia. E ali se deu o acontecimento que passou a dominar toda a minha vida. Em um momento, o meu coração sentiu-se tocado e tive fé com tal intensidade de adesão, com tal exaltação de todo o meu ser, com uma convicção tão poderosa, com tal segurança, que não ficou margem para nenhuma espécie de dúvida. (…) Que felizes são, de fato, aqueles que têm fé. Deus existe; está aqui presente! É alguém! É um ser pessoal como eu! Ele me ama! Ele chama por mim!” Sua descrição continua e é emocionante. No entanto, só dez anos mais tarde, depois de uma intensa luta espiritual (dizia que o respeito humano e o medo dos companheiros paralisavam seus passos), é que ele deu seu “sim” ao Senhor, e a ele permaneceu fiel até morrer, com 87 anos de idade.

A história de Paul Claudel é uma das muitas histórias que a Catedral de Notre Dame teria para contar. A maioria delas, contudo, continua guardada no silêncio dos corações. Essas histórias, e as conversões que ali ocorreram, fogo algum conseguirá destruir.

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