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O Evangelho nas redes

Por Edson Nascimento*

Hoje, de fato, como nos afirmam os documentos do Magistério da Igreja, contemplamos muito mais do que uma época de mudanças, mas uma mudança de época. Entre as muitas transformações, constantemente nos deparamos com o surgimento de novas linguagens, novos meios, que resultam em múltiplas formas de comunicação mediadas pelas tecnologias. É evidente que estamos diante de uma nova realidade: a cibercultura, isto é, a cultura ligada ao digital. Esta cultura traz consigo não somente uma nova maneira de pensar e se comunicar, mas também um novo modo de ser de estar-presente-para-o-outro e, consequentemente, de acolher e viver a fé. Diante desta nova face, não podemos perder de vista que toda nossa experiência de fé é fruto de uma comunicação.

A nossa fé encontra seu fundamento na Autocomunicação de Deus para com a humanidade. Ela é a resposta concreta Àquele que saiu de si, deu-Se a conhecer no horizonte da história humana, transformando-a em história de Salvação. Deus, que outrora era visto como extremamente distante, totalmente Outro, veio ao nosso encontro, tornou-se próximo, encarnou-se. Ele comunicou a si mesmo como resposta àquilo que o homem busca como sentido mais profundo para sua existência. Esta resposta se revela historicamente na encarnação do Verbo, Jesus.

Portanto, olhando para o mistério da Trindade, e todo o seu projeto histórico-salvífico, compreendemos de forma mais profunda o que significa “comunicação”. Aprendemos que esta é muito mais do que divulgar fatos, fazer propaganda de um produto, mas é, acima de tudo, criar laços, edificar pontes, dar-se a conhecer. Neste sentido, é preciso admitir que existe certa mística dentro da comunicação e uma dimensão de alteridade que pressupõe um encontro.

A grande questão que se nos apresenta, diante desta realidade, é a seguinte: o homem de hoje, envolvido nesta cultura midiática, sem fronteiras, por vezes longe da realidade, pode responder de forma positiva ao Deus que vem ao seu encontro e lhe propõe uma vida de comunhão?

A primeira coisa que é preciso considerar, diante desta questão, é que o homem é um ser marcado por uma busca constante. Ele tem em si uma abertura ao infinito, ao eterno. Por isso, poder-se-á dizer também que existe no homem hodierno um profundo desejo de encontrar no virtual, no que está para além do real, uma satisfação. A experiência desta procura o revela a si mesmo como um ser incompleto, de necessidade, mas, ao mesmo tempo, uma referência, mesmo que pobre e limitada, para Deus.

Em Jesus, Deus se apresenta como resposta ao homem. Ele é o núcleo de nossa fé e razão de nossa esperança. Portanto, o conteúdo central da fé não muda e é possível a todo ser humano, afinal, Deus se fez carne assumindo toda a nossa realidade. No entanto, ele precisa ser comunicado numa linguagem que seja adequada ao tempo e ao meio em que se está inserido, precisa ser encarnada, inculturada. Portanto, os meios de comunicação, que são vistos como uma das muitas maravilhas do nosso século, também são lugares possíveis para o anúncio do evangelho e a promoção da verdade.

O Decreto Inter Mirifica (Dentre as Maravilhas), sobre os Meios de Comunicação Social, segundo documento do Concílio Vaticano II, promulgado pelo Papa Paulo VI em 4 de dezembro de 1963, já ressaltava a importância das grandes conquistas tecnológicas alcançadas pelos homens dos últimos tempos. Diante desta nova realidade, a Igreja “considera parte da sua missão servir-se dos instrumentos de comunicação social para pregar aos homens a mensagem de salvação e ensinar-lhes o uso reto destes meios” (IM, n. 3).

Segundo o Papa, os leigos têm a missão penetrar de espírito cristão estes meios, a fim de que possam responder à grande esperança do homem e aos desígnios de Deus. No entanto, chama-nos a atenção para a necessidade de conhecer e praticar as regras de ordem moral que estão presentes neste campo. Alerta-nos: “considerem, pois, a natureza especial das coisas que se difundem através destes instrumentos, segundo a natureza peculiar de cada um; tenham, ao mesmo tempo, em conta todas as circunstâncias ou condições, isto é, o fim, as pessoas, o lugar, o tempo e outros dados que entram em jogo nos diversos meios de comunicação e aquelas outras circunstâncias que podem fazê-los perder a sua honestidade ou trocá-la, entre as quais se conta o carácter específico com que atua cada instrumento, nomeadamente a sua própria força, que pode ser tão grande que os homens, sobretudo se não estão formados, dificilmente sejam capazes de adverti-la, dominá-la e, se se der o caso, afastá-la” (IM, n. 4).

O meio virtual, também apresenta seus riscos. Neste ambiente a verdade constantemente é distorcida, dentro de um espaço marcado por muitas possibilidades. Por isso, é preciso ter uma íntegra consciência em relação aos seus usos, estar atento à obtenção e divulgação das notícias, buscando sempre uma visão crítica sobre o que se ler e ver. No que diz respeito aos destinatários das informações, o Papa chama atenção para que estes possam promover somente aquilo que possa contribuir para a virtude, para a ciência e para a arte e que se evite o que seja causa ou ocasião de dano espiritual e que coopere para as empresas que visam, com o uso desses meios, apenas o lucro, sem cuidado com a formação de uma opinião verdadeira (Cf. IM, n. 9).

Tem-se claro que a melhor mensagem que possuímos é Jesus Cristo. Ele é a Pessoa, a Palavra, o Evento que temos para anunciar. Esta notícia precisa ser comunicada, precisa ser colocada no ar, em todos os espaços, fazendo cumprir o que para a Igreja é um imperativo: “Ide por todo o mundo, pregai evangelho a toda criatura” (Mc 16, 15). A fim de que o homem encontre em meio a era da mobilidade, da imagem em movimento, algo que lhe seja definitivo, um ponto de referência. Diante desta missão de evangelizar, que constitui a sua identidade, a Igreja tem a clareza que não pode mudar nenhuma vírgula do conteúdo da mensagem de Jesus Cristo, mas que pode explorar as diversas formas de comunicá-la. Assim, é preciso buscar meios adequados para que o Evangelho esteja lançado nas redes.

Em sua mensagem ao Dia Mundial das Comunicações Sociais, para o ano de 2018, o Papa Francisco lembra que é preciso ter a ousadia de anunciar Jesus dentro de um sistema comunicador onde está presente a lógica de que uma “boa ação”, um serviço público (liturgia, no sentido etimológico do termo) não desperta o interesse das pessoas e que não tem espaço nas páginas dos jornais, nas redes sociais. Como resultado, o drama do sofrimento e o mistério do mal facilmente são elevados ao espetáculo.

O Papa Francisco pede para que tenhamos um modelo de comunicação diferente e que seja aberto e criativo. A nossa “boa notícia” deve ser outra: o Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. Segundo o pontífice, “esta Boa Notícia, é o Reino de Deus, que é o próprio Jesus, e ela não se diz boa porque nela não se encontra sofrimento, mas porque o próprio sofrimento é vivido num quadro mais amplo, como parte integrante do seu amor ao Pai e à humanidade”.

Assim, anunciar Jesus na cultura virtual em que estamos inseridos é para nós um grande desafio, mas o cristão deve ter em si o mesmo sentimento de São Paulo, que soube aproveitar muito bem os meios de comunicação de seu tempo: Ai de mim, se eu não anunciar o evangelho (1 Cor 9, 16). Para anunciar o Evangelho é preciso estar inserido nesta nova realidade, com o desejo de despertar nas pessoas, principalmente os jovens, uma experiência de fé que está para além do que é visto e ouvido no espaço virtual, fazer com que este possa acolher o Cristo que se revela no espaço real de sua vida, e que nos chama a adesão a uma autêntica vida de comunidade, que está fundamenta na experiência do amor.

Por outro lado, anunciar Jesus dentro de todo o quadro de sofrimento e tensão em que o homem de hoje se encontra é mostrar que, em Cristo, Deus fez-Se solidário com toda a situação humana; mostrar que não estamos sozinhos, que temos um Pai que nos ama e não abandona os seus filhos.

*Edson Nascimento é seminarista e atualmente desenvolve estágio pastoral na Pastoral da Comunicação (Pascom).

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