Alocuções

Palavras de Dom Murilo – Concessão do título de Cidadão de Salvador

Dom Murilo S.R. Krieger, scj
Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil
Câmara Municipal de Salvador, 04.07.12
Concessão do título de Cidadão de Salvador

(Saudação às Autoridades)

A partir deste momento sou o mais novo cidadão soteropolitano. Esse título que
a Câmara Municipal de Salvador acaba de me conceder, além de extremamente honroso,
traz consigo uma grande responsabilidade. Sinto-me honrado, porque os representantes
desta cidade, por sugestão do Vereador Sandoval Guimarães, me julgaram digno de ser
considerado um filho desta terra – um filho, mesmo que por adoção. Sei que assumo uma
responsabilidade, porque ainda não assimilei todo o jeito soteropolitano de ser, de pensar
e de viver. Vejo, contudo, que o que não falta nesta terra é paciência para esperar que um
novo cidadão de Salvador se adapte aos usos e costumes do povo aqui nascido.

Estou há um ano e três meses em Salvador. Agradecido pelo título que acabo
de receber, devo expressar o que sinto e como vejo esta cidade. Quando aqui esteve, em
1980, as primeiras palavras em público do Bem-aventurado Papa João Paulo II foram: “A
tradicional hospitalidade baiana de que sou objeto nesta hora, para meu gáudio e
felicidade…”. A tradicional hospitalidade baiana, digo eu, está na base do título que estou
recebendo nesta noite. Sim, desde que pisei este solo para assumir, como 27º Arcebispo
Metropolitano, esta Arquidiocese Primaz, fui tratado por todos como se eu fosse um
conhecido amigo que estava chegando. Desde os primeiros momentos, senti-me em casa
nesta cidade. Por isso, com João Paulo II, lembro: “Aqui foi criada a primeira diocese
brasileira. Esta cidade foi a primeira capital da Pátria, quando esta nasceu para a
independência. Creio que posso dizer, sem desdouro para as outras regiões do País, que
aqui tocamos com as mãos a brasilidade no que lhe é mais essencial” (06.07.1980). E há algo
mais brasileiro do que a hospitalidade? Desconfio que foi com os soteropolitanos que o
Brasil aprendeu a ser gentil…

Para expressar os sentimentos que dominam meu coração nesta noite, busquei
inspiração no Hino Popular do Senhor Bom Jesus do Bonfim, que me tocou profundamente,
desde a primeira vez que o ouvi. Aliás, bem que esse Hino Popular poderia ter sido escolhido
como Hino Oficial do Estado da Bahia… Para mim, vindo do Sul do País, a composição
musical religiosa e cívica de Arthur Salles (letra) e João Antônio Wanderley (música), de
1923, ano do centenário da Consolidação da Independência do Brasil, expressa como
nenhuma outra composição o jeito baiano de acreditar, de reconhecer e de pedir.

Glória a ti neste dia de glória,/ glória a ti, Redentor que há cem anos / nossos pais
conduziste à vitória /pelos mares e campos baianos.

Agradecido pela presença do Senhor na História desta terra, eu o glorifico. Uno-me,
assim, aos seus primeiros habitantes, que identificaram esta cidade com um dos títulos

mais importantes de Jesus Cristo: Salvador. É preciso, agora, estar atento à recomendação
do apóstolo Pedro, em sua segunda carta: “Crescei na graça e no conhecimento de nosso
Salvador” (2Pd 3,18). Sim, é preciso que o nome da cidade – Salvador – nos comprometa
com o dever de conhecer sempre mais a pessoa e a proposta daquele que veio nos
apresentar o caminho, nos trazer a verdade e nos dar a vida.

O Salvador, que conduziu nossos pais à vitória, conduza a cidade de Salvador a uma
outra vitória, não menos importante: a vitória sobre as desigualdades, sobre os preconceitos
e as discriminações. Uma cidade tem qualidade de vida quando dessa qualidade todos
se beneficiam; quando nela as pessoas se respeitam, aceitam as diferenças e cultivam
sentimentos de fraternidade.

Glória a ti dessa altura sagrada / és o eterno fanal, és o guia; / és, Senhor, sentinela
avançada,/ és a guarda imortal da Bahia.

Como precisamos do farol que nos ilumina, do guia que nos mostra os melhores
caminhos e da sentinela avançada que nos assegura a paz! Nós mesmos somos chamados
a ser “sentinelas da manhã”, na linha da proposta apresentada pelo profeta Isaías. Sete
séculos antes de Cristo, Isaías perguntou: “Guarda, o que resta da noite?” A pergunta
foi repetida: “Guarda, o que resta da noite?” O guarda respondeu: “O amanhecer vem
chegando, mas ainda é noite” (Is 21,11-12). Para muitas pessoas desta cidade, ainda é noite.
Penso, por exemplo, naquelas que não têm resposta às suas necessidades básicas, que não
sonham e não têm esperanças. São pessoas que sofrem as consequências do egoísmo de
nossa sociedade. Como entender, por exemplo, tantas mortes violentas? Quando a vida
é banalizada, famílias ficam sem o pai, jovens morrem antes mesmo de sonhar e crianças
vivem sem experimentar a segurança do afeto. Nossa cidade precisa de “sentinelas da
aurora”. “Ainda é noite”, é verdade, mas a noite dará lugar ao dia, se aumentar o número
dos que se dispuserem a trabalhar na construção da paz.

Aos teus pés que nos deste o direito, / aos teus pés que nos deste a verdade, / canta e
exulta num férvido preito / a alma em festa de tua cidade.

A festa é uma das marcas desta cidade. Seu povo é alegre, canta e dança para expressar
o quanto está de bem com a vida. É um povo que sonha. É próprio do ser humano imaginar
horizontes imensos, vastos como sua imaginação. Nossos sonhos fazem nascer em nós o
desejo de mudar o mundo em que vivemos, não nos conformando passivamente com a
realidade que nos cerca. No mais profundo do coração dos que sonham há uma força que os
impulsiona, que os deixa inconformados e os torna capazes de dar a vida para a construção
de um mundo melhor.

Temos sonhos porque o Criador faz arder em nosso coração a chama do infinito. “Feliz
de quem atravessa a vida tendo mil razões para viver”, dizia Dom Helder Câmara. É em
vista dessas razões que vivemos inquietos e inconformados, que trabalhamos e nos
colocamos a serviço dos outros, que sofremos e enfrentamos desafios. Mas, em que direção
caminhamos? Conseguiremos acabar com as exclusões e com as diferenças gritantes que
nos rodeiam? A globalização continuará sendo benéfica apenas para pequenos grupos? Será

apenas uma globalização econômica? A cidade de Salvador se tornará realmente a cidade do
Salvador se, juntos, levantarmos a bandeira da globalização da solidariedade.

A alma heróica e viril deste povo/ nas procelas sombrias da dor/ como pomba que voa de
novo/ sempre abriste o teu seio do amor.

O título que Jesus Cristo ostenta na sagrada Colina – Senhor Bom Jesus do Bonfim
– faz com que dirijamos para Ele nosso olhar. Devemos caminhar convictos de que, assim
como acompanha nossos passos cada dia de nossa vida, Ele nos acolherá na hora de nossa
morte, se lhe formos fieis. Afinal, Ele é nosso principio, nossa vida e nosso guia; é nossa
confiança e nosso fim. Que não desça, pois, sobre a cidade do Salvador outra luz, a não
ser a luz de Cristo; nenhuma outra verdade atraia a mente dos que aqui vivem, a não ser
as palavras do Senhor e único Mestre; que não tenhamos outra aspiração, que não seja o
desejo de lhe ser absolutamente fieis; que nenhuma outra esperança nos sustente, a não ser
aquela que nasce de seus ensinamentos.

(Estr.) Desta sagrada colina,/ mansão da misericórdia,/ dai-nos a graça divina / da
justiça e da concórdia.

Os desafios que nossa cidade tem pela frente não são pequenos nem fáceis. Por isso
mesmo, deixei para o final o estribilho do Hino do Senhor do Bonfim – estribilho que tem
frases marcadas pela esperança. “A esperança”, dizia Santo Agostinho, “tem duas lindas
filhas: a indignação e a coragem. A indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão;
a coragem nos ensina a mudá-las”.
Nossa esperança se fortalece quando subimos a sagrada colina e lá encontramos o
Senhor do Bonfim, que nos acolhe com os braços abertos. Abertos para receber os que a Ele
recorrem, para nos impedir de ficar com os braços cruzados, expressão de insensibilidade e
indiferença, e para nos enviar para a cidade que Ele contempla lá do alto.

O Senhor do Bonfim nos dê a graça divina da justiça e da concórdia. Peço isso para
cada soteropolitano, para cada habitante desta cidade, para os que governam a Bahia e
Salvador. Peço essa graça particularmente para o Excelentíssimo Senhor Vereador Sandoval
Guimarães, que propôs, e para os demais Vereadores que aprovaram, a concessão do título
de Cidadão Honorário de Salvador que acabo de receber

Muito obrigado!

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