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Permitam-se desestabilizar

Dom Hélio Pereira dos Santos

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador

No encontro do Papa Francisco com os novos bispos em Roma, 16 de setembro de 2016, o Santo Padre, contrariando o mundo que prioriza a estabilidade, disse: “Vejo diante de mim aqueles que foram apanhados a partir do coração de Deus para guiar o seu povo. Permitam-se desestabilizar”.

Desestabilizar exige um novo estilo de vida, outros objetivos, uma mudança radical em nosso modo de utilizar o tempo e as energias, romper os esquemas pessoais e passarmos a viver mais desprendidos do nosso ego e dos nossos interesses pessoais.

Deus, por sua misericórdia, nos chama da zona de conforto.  Há tempos, por exemplo, em que ficamos apenas nos deleitando em novas revelações. Em outros momentos Deus nos convida para novas aventuras e sentimos nossa fé desafiada.

Deus quer que cresçamos na confiança de seu amor por nós e nas verdades de sua palavra. Por isso, muitas vezes, ele nos tira de nosso conforto para que possamos aprender mais e amadurecermos também.

Deus tira Abraão do conforto de sua terra, corta as ligações particulares que o prendem, e faz dele uma bênção que chega aos nossos dias: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, para a terra que te mostrarei. Eu farei de ti um grande povo, eu te abençoarei, engrandecerei teu nome; sê uma bênção!”(Gn 12,1-2).

Deus faz Moisés perder a segurança que desfrutava no deserto, cuidando do rebanho de Jetro, seu sogro, sacerdote de Madiã, e o envia para uma nova missão: fazer sair do Egito os israelitas (cf. Ex 3,1.10).

Deus desestabiliza Samuel. Na tranquilidade da noite, num momento em que os sentidos estão adormecidos, as atividades estão reduzidas, onde não queremos ser incomodados, Deus chama e temos dificuldades para entender a sua voz, como aconteceu com Samuel (cf. 1Sm 3, 1-21).

Deus muda a estabilidade de Natanael que estava na sombra, no conforto debaixo da figueira: “Antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estavas sob a figueira” (Jo 1,48).

Deus, por Cristo, chama a Samaritana da segurança do poço e lhe causa admiração: “como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a uma mulher samaritana?” (Jo 4,9).  Ao tempo em que Deus desconforta a Samaritana a contagia pelo ardor missionário: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz. Não seria ele o Cristo?” (Jo 4,29).

Nem Maria, a mãe de Jesus, ficou livre da desestabilização, pois diante do anúncio de que seria a mãe do Filho do Altíssimo, num gesto de admiração, disse: “como é que vai ser isso, se eu não conheço homem algum?” (Lc 1,34).

As desestabilidades causadas por Deus trazem sempre benefícios incomensuráveis, basta olharmos os frutos que surgiram na vida dos discípulos de Jesus, na vida de Paulo e de muitos judeus.   Deixar Deus tomar posse de nossa vida custa pouco e rende muito.  Ele sabe como nos liderar de forma perfeita e não vai nos deixar no meio do caminho.  Aquele que nos chamou sabe realmente quem somos e não tem medo de nossa pequenez.

Ponderando o momento de instabilidade mundial, muitas vezes, recusamos as mudanças, todavia urge ressaltar que o conforto nem sempre é confortável, pois se não temos um bem queremos conquistá-lo, e, se já o possuímos, tememos perder.

O motivo maior para superar o medo da desestabilização é o encontro pessoal com a amor de Jesus que nos salva, transformando-nos em comunicadores das maravilhas de Deus. Não podemos nos contentar com o menos, parar no meio do caminho ou ficar olhando para trás: “Quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus” (Lc 9,62).

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