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A síndrome do esgotamento profissional

De repente, nos deparamos com: um cansaço que não passa depois de uma noite de sono, com alterações no humor que variam entre uma tristeza profunda, irritação, agitação e atitudes que usualmente não fazem parte da pessoa. Entre outros sintomas, há uma falta de sentido na vida. É a Síndrome de Burnout, ou Síndrome do Esgotamento Profissional e que confunde-se com uma diversidade de quadros emocionais. Burn quer dizer queima e out exterior. Podemos fazer a correlação com um pavio que se queima até esgotar completamente.

Resultado de acúmulo de tarefas, excesso de cobranças e de atividades, uma boa dose de perfeccionismo e a falta de outras atividades que gerem prazer, o estresse no ambiente profissional é uma realidade presente em quase todas as profissões e mercados.

Duas situações são observadas nas pessoas que passam por isso: o absenteísmo, ou seja, a ausência no trabalho para realização de tratamento médico, exames, psicoterapia, entre outros; e o presenteísmo, ou seja, a pessoa que está no trabalho, mas com uma redução drástica em sua produtividade e numa situação de “mente distante” da realidade onde está.

Estudos realizados pela Universidade de São Paulo, no Instituto de Psiquiatria, revelaram que contribuem para o quadro de esgotamento: a necessidade de controle das situações, a falta de paciência e a dificuldade para tolerar frustrações ou delegar tarefas, e o trabalho em grupo. Sentimento de injustiça, falta de participação nas decisões e de apoio, e conflitos com colegas podem agravar o quadro.

Rever as situações profissionais e como elas são encaradas, é um passo bastante importante. Todavia, o diagnóstico deve ser feito por um médico, com a avaliação do estilo de vida da pessoa, de sua profissão e da forma como ela lida com suas emoções.

Os sintomas característicos desse problema estão relacionados ao cansaço, aos distúrbios do sono, às dores na musculatura e também de cabeça, à alteração do apetite, à dificuldade para iniciar uma atividade e às alterações constantes no humor. A produtividade de uma pessoa que passa por essa situação cai de forma perceptível. Há ainda a tendência ao isolamento social.

As alterações hormonais provocadas pela irritação, podem produzir efeitos em todo nosso organismo, desde a pressão arterial, diabetes, doenças do coração, dentre outras. Ou seja, trata-se de um quadro que requer observação, pois pode comprometer muito o bem-estar.

É comum associar esse quadro à depressão, por isso o diagnóstico é essencial, para reconhecer o que, de fato, está acontecendo com a pessoa. Nem sempre, por exemplo, as férias poderão aliviar tal quadro, pois a melhora virá de mudanças em todo contexto profissional.

E como evitar esse esgotamento?

– Tenha outras fontes de satisfação além do trabalho: descubra gostos, hábitos, animais de estimação, um encontro com amigos, sair (para um lugar que não seja um shopping, por exemplo, onde os estímulos são excessivos e a pressão por compras é grande).

– Avalie como tem conduzido seu dia de trabalho: O que lhe atrai no emprego atual? Vê possibilidade de mudança? Se pensa em mudar de empresa, organize esta transição, preparando seu currículo e avaliando as possibilidades.

– Como é sua visão sobre as situações? Por vezes, valorizamos apenas os aspectos negativos de uma situação. Treine também a visão sobre o que você tem vivido de bom.

– Tenha regularidade nos horários: alimentação, sono, trabalho, lazer. A falta de rotina para necessidades básicas faz com que nosso corpo entre em crise. Reveja sua rotina diária.

É muito importante observar os sinais do seu corpo, e, sempre que possível, receber orientação médica para sintomas que podem estar associados a problemas cardiológicos, endocrinológicos entre outros.

– Atividade física, por mais simples que seja, auxilia muito a combater os estados de cansaço,  auxiliam no metabolismo e na circulação.

– Conte com amigos, com a família, com a prática de espiritualidade, pois todos esses apoios são essenciais.

Nossa saúde emocional e física é essencial para que nossa atividade profissional e demais áreas da vida possam ser realizadas com sucesso. Portanto, rever nossos hábitos, nossa forma de conduzir a vida e nossos relacionamentos é essencial para uma vida saudável.

*Elaine Ribeiro é psicóloga clínica e organizacional da Fundação João Paulo II / Canção Nova.

A Bíblia: o que é? O que não é?

Bíblia - Catiane Leandro 26-08-15 (4)Por padre Carlos André Leandro

Sempre, e cada vez de maneira diferente, se repete as mesmas perguntas sobre a Bíblia: O que diz a Bíblia? Porque diz isso? O que significa isso ou aquilo? E se escuta também sem parar as mesmas lamentações: não entendo, é difícil de ler, é complicada, não consigo. Então, para começar nossa conversa, vamos separar alhos de bugalhos, ou como prefere Jesus, joio de trigo!

É sempre mais fácil começar a definir algo pelo que não é, então vamos começar dizendo que a Bíblia não é a Palavra de Deus! Hã? Isso mesmo que você leu, a bíblia não é a Palavra de Deus, pois ela não poderia conter em suas páginas mais do que uma reflexão sobre o que Deus revelou aos homens. A Palavra de Deus dizemos que é Jesus, a Palavra de Deus é a natureza, a Palavra de Deus é toda manifestação de Seu amor por nós, inclusive na Bíblia encontramos por excelência o testemunho deste amor!!! Por isso, a Palavra de Deus é muito maior do que a Bíblia. A Palavra de Deus se encontra registrada nas páginas da Bíblia em forma de reflexão, poema, histórias, novelas, anedotas, ditados populares, ensinamentos etc. Assim como dizemos “Deus é mais”, a Sua Palavra também é mais do que um livro pode conter.

Uma vez compreendido isso, fica mais fácil aceitar que a Bíblia não é um livro de regras para bem viver; não é um livro de história; não é um livro “caído do céu”, direto das mãos de Deus. Por fim, a Bíblia não é UM livro, mas são vários livros reunidos num único volume por uma questão de comodidade. Já que começamos a dizer o que a Bíblia é, vamos continuar. Nesta coleção de livros que é a Bíblia, muitos outros tentaram entrar e teve até quem já esteve mas saiu. Isso se chama CÂNON, ou lista de livros aprovados como dignos de conter um ensinamento válido sobre o que se deve crer. Ora, ao dizer isso já estamos explicando que a escolha dos livros que vão formar a Bíblia pode ser diferente entre as comunidades cristãs e judaicas. Conforme as tradições ou a fé professada por cada comunidade e na medida que mais livros fazem parte da lista aprovada por elas,o tamanho da Bíblia pode ir aumentado, nesta ordem: Hebraica > Protestante > Católica > Ortodoxa.

Mas o que a Bíblia é não se reduz a uma lista de livros. Ela é antes de tudo expressão da fé destas comunidades que conservaram e transmitiram seus livros. Por isso, a Bíblia é o reflexo escrito de uma experiência que antes foi vivida, compartilhada e confirmada no tempo. E como tudo que é escrito, a Bíblia é um livro criativo, cheio de imagens, símbolos e histórias contadas sem medo de parecer irreal, por isso espera que o seu leitor seja inteligente para discernir a verdade em cada fantasia. A Bíblia é também um livro que imita a vida humana da forma mais simples possível, de modo que qualquer um, onde quer que esteja e em qualquer época possa se identificar. Quer alguns exemplos? Então veja como a Bíblia conta a fantasia de um peixe que engole Jonas e o devolve numa praia, mas imita a vida quando mostra a violência, o ódio, a vingança, mas também a ternura, o amor o heroísmo. Por isso a Bíblia é como um espelho, cada um que a lê percebe algo de si dentro dela, assim o convite a entrar nas suas histórias significa estabelecer uma relação com Deus, da mesma forma que fez quem a escreveu.

Uma vez mais, a Bíblia não é a Palavra de Deus, mas precisamos completar isso. O texto da Bíblia é composto de palavras extraídas da experiência humana, elas tentam traduzir literariamente aquilo que Deus quis comunicar. É essa comunicação a Palavra de Deus e não as palavras da Bíblia (só uma observação: entende porque na missa não dizemos, após cada leitura, “Palavras”, no plural, mas “Palavra do Senhor”, no singular?). Essa é a razão porque precisamos interpretar as palavras da Bíblia com cautela, pois não devemos deduzir uma comunicação divina diretamente do texto, isso seria o que chamamos de fundamentalismo. Não existe comunicação sem interpretação, não existe nenhum meio mágico pelo qual todo ser humano de todas as épocas fosse capaz de entender sempre a mesma mensagem de um mesmo livro. O Espírito Santo não é feiticeiro! Por isso, assim como a Bíblia não se formou sem a inteligência e a criatividade humana, não será sem essas qualidades que Deus vai continuar a nos ensinar através das páginas sagradas.

Uma mulher que descobriu seu valor, a que se pode compará-la?

*por Djanira Silva

A mulher que descobriu seu valor demonstra  sempre grande atenção em suas relações, porque sabe reconhecer nas pessoas o bem que cada um carrega na alma, embora muitas vezes esteja coberta pelos escombros da perda e  dor. Ela sabe quem é, de onde veio, e para onde vai, por isso, não pára no que é vazio, transitório e mesquinho. Comunica-se sempre com respeito porque sabe que é dele que depende o sucesso de toda e qualquer relação neste mundo.

Para com todos,  usa de delicadeza e maturidade, procurando compreender e praticar o que a caridade exige a cada momento, sem deter-se no julgamento. Nunca perde de vista a dignidade, nobreza e as inspirações mais íntimas de sua alma porque sabe que é aí onde Deus mora. É uma pessoa de paz porque não é apegada às próprias ideias, sabe falar, mas também sabe ouvir sem se chocar com os outros. Preocupa-se, geralmente, em fazer tudo com amor, bem feito, por isso é segura em seu agir.

Por outro lado, a mulher que ainda não descobriu seu real valor, pode até estar convencida de sua popularidade, mas na prática, muitas vezes se comporta como um elefante em uma loja de porcelana. A delicadeza, expressão nata da alma feminina não se compra em lojas, nem se produz com filtros ou efeitos especiais, é um dom dado de graça pelo Criador, que aliás teve também a ideia de fazer o coração da mulher bem parecido com o d’Ele: disposto a amar até às últimas consequências.

A Sagrada Escritura não relata muitas coisas a respeito da feminilidade de Maria, a Mãe de Jesus, mas chama-me a atenção a maneira como descreve tão detalhadamente a passagem das “Bodas de Caná” (Jo19, 25-27), permitindo que imaginemos o agir daquela que é “bendita entre as mulheres.”

A mulher que a exemplo de Maria já descobriu seu valor, tem posse de um comportamento delicado,  mas também a coragem de agir quando é preciso. Maria não apenas percebeu que faltava o vinho e assimilou o embaraço dos noivos, como também foi procurar a solução para o problema e a encontrou em Jesus. Ela mais do que ninguém, já sabia que está Nele a capacidade de fazer a transformação que a humanidade precisa e continua a nos ensinar o mesmo caminho apresentado em Caná: “Fazei tudo o que Ele vos disser”…

Por isso, quando pensamos em uma mulher que descobriu sua dignidade e valor, podemos certamente compará-la a um raio de sol que desponta anunciando um novo amanhecer. Ilumina tudo com seus variados tons e aquece o universo com o calor do seu fecundo amor. Diz, muitas vezes, mesmo sem palavras, que a vida não acaba no entardecer de uma perda; existe uma nova chance em cada amanhecer. Portanto, a exemplo de Maria, podemos ir hoje até Jesus, com a água que temos, para que Ele a transforme em “vinho novo”, capaz de saciar o mundo que tem tanta sede de amor.

* Dijanira Silva é missionária, autora do livro “Por onde andam seus sonhos”, da Editora Canção Nova e apresentadora da Rádio América em São Paulo e do programa “De mãos unidas” da TV Canção Nova.

Biomas brasileiros e defesa da vida

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

           

            No início da criação, os seres humanos receberam de Deus a ordem de dominar a terra (Gn 1,28) – ordem de dominar, não de destruir o que estavam recebendo. Pouco a pouco, porém, a humanidade se  esqueceu disso e passou a pensar que era proprietária dos bens recebidos, autorizada, pois, a saqueá-los e destruí-los. Com o tempo, os efeitos da destruição da natureza começaram a se sentir.

Em resposta a isso, há vários anos a Igreja no Brasil, por meio da Campanha da Fraternidade, procura estimular os brasileiros  a  refletirem sobre questões ecológicas. Ela o faz convicta de que é necessário dar uma resposta adequada aos desastres ambientais. A Campanha da Fraternidade de 2017 segue essa linha: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”, e como lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15).

A palavra “bioma” vem do grego: “bio” (vida) e “oma” (massa, grupo ou estrutura de vida). Um bioma é formado por todos os seres vivos de uma determinada região, cuja vegetação é similar e contínua, cujo clima é mais ou menos uniforme, e cuja formação tem uma história comum. No Brasil temos seis biomas: a Mata Atlântica, a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Caatinga e o Pampa. Poucos países do mundo contam com uma riqueza natural dessa grandeza. É hora, contudo, de nos perguntarmos: qual o destino que estamos dando a tantas riquezas, e que Brasil queremos deixar para as futuras gerações?

Como objetivo geral, a Campanha da Fraternidade quer despertar em todos a preocupação de cuidar da criação, especialmente dos biomas brasileiros. Os objetivos específicos são vários: aprofundar o conhecimento de cada bioma, de suas belezas, de seus significados e de sua importância para a vida no planeta; conhecer melhor as populações que nelas vivem e reconhecer seus direitos; compreender o impacto das grandes concentrações populacionais inseridas  nos biomas brasileiros; comprometer as autoridades públicas com esse tema, motivando-as a  assumirem a responsabilidade que lhes cabe, na preservação do meio ambiente; compreender o desafio da necessária conversão ecológica etc.

É preciso superar a tensão entre economia e ecologia. Nem tudo o que é economicamente lucrativo é ecologicamente correto e adequado. O futuro da humanidade, e de todos os seres vivos que habitam a Terra, depende da união de toda a família humana na busca de um nível de desenvolvimento sustentável e integral. “Precisamos de nova solidariedade universal”. Deus nos dará força e luz para conseguirmos isso. “Ele não nos abandona, não nos deixa sozinhos, porque Se uniu definitivamente à nossa terra e o seu amor sempre nos leva a encontrar novos caminhos. Que Ele seja louvado!” (Papa Francisco, LS, 14 e 245).

O caminho do céu: descer e subir

Dom Hélio Pereira dos Santos

Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Salvador

 

O caminho para o céu comporta muitos altos e baixos. Ninguém voa para o céu sem passar por turbulências.  À medida que tomamos consciência das nossas limitações, dos nossos pecados, damos os passos na direção de Deus que, sem perder oportunidade, aproveita até dos espaços quebrados do nosso ser para entrar em nossa vida e nos elevar.

Para subir à presença de Deus temos que descer da importância, descer do presbitério, descer da montanha, descer do título e andar no chão de nossa realidade, percorrendo a planície do serviço e da valorização de tantos que caminham conosco.  Quanto mais firmes os pés no chão, mais chance para galgar com sucesso o caminho do céu.

Na História da Salvação nos deparamos com muitos exemplos de pessoas que no caminho para Deus tiveram que primeiro descer. José (Gn 37,1s) desceu ao fundo do poço pela inveja dos irmãos. Na sequência José desceu ao Egito onde foi vendido para Putifar.  No Egito José desceu a prisão por falso testemunho levantado pela mulher de seu senhor.  Por fim, José subiu, saindo de todas essas situações, dando primazia a Deus e à fraternidade.

Davi (Livros 1 e 2 de Samuel) o caçula, o último dos herdeiros, ao contrário do irmãos caçadores e guerreiros, desceu ao campo para cuidar de ovelhas.  O excluído daquela família foi exaltado por Deus e se tornou Rei de Judá e de Israel. Davi desceu quando mandou matar Urias para ficar com Betsabéia, esposa de Urias (2 Samuel 11,1s), mas subiu a Deus quando se arrependeu e pediu perdão (2 Samuel 12,13).

Deus ordenou Jeremias a descer à casa do oleiro (Jeremias 18,2). Jeremias deve ter estranhado a ordem de Deus.  Ir a um lugar de barro, de lama?  Nós, às vezes, estranhamos quando recebemos uma missão para um lugar que achamos sem futuro.  Deus com o trabalho do oleiro em consertar um vaso, transformando-o em vaso novo, passa uma grande lição a Jeremias.

Ezequiel (Ez 37, 1-14) desceu a um vale de ossos secos e lá subiu na compreensão do poder de Deus que fez os ossos viverem, firmando-se como um imenso exército.

Agur perguntou: “Quem subiu ao céu e de lá desceu?” (Provérbios 30,4). Muitos séculos mais tarde, Jesus, dirigindo-se a Nicodemos, deu a resposta: “Ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem”(João 3,13). Notamos que até Jesus, o Filho Deus, passou pela dinâmica de descer e subir.

Naamã (2 Reis 5,1-27) recebeu a ordem do profeta Eliseu para descer ao Jordão, mas ficou irritado, pois se encontrava no pedestal do orgulho de chefe do exército do rei Aram e conhecia muitos rios limpos como os de Damasco. Depois Naamã desceu ao Jordão e foi curado, seguindo na direção do céu ao revelar seu entendimento sobre Deus.

Sidrac, Misac e Abdênago (Daniel 3,1-100) por não adorarem a estátua de ouro desceram à fornalha. Na mesma linha do testemunho de fidelidade ao Deus verdadeiro, temos a história de Daniel que desceu à cova dos leões (Daniel 6, 2-29).

O Novo Testamento também tem muitas histórias de descidas e subidas no caminho para Deus: a descida dos discípulos do Tabor (Mt 17, 9); o bom samaritano (Lc 10, 30-37); o Apóstolo Paulo desceu do “cavalo da presunção” (Atos 9,3-5); Zaqueu desceu ao encontro de Jesus (Lc 19,1-10).

Ao longo dos tempos, homens e mulheres passaram por quedas e buscas do infinito. Santos! Deus seja louvado. Pecadores! Deus seja buscado, pois, a fraqueza humana e até o pecado abrem o acesso para Deus, como cantamos no Hino da Proclamação da Páscoa: “Ó pecado de Adão indispensável, / pois o Cristo o dissolve em seu amor; / ó culpa tão feliz, que há merecido / a graça de um tão grande redentor!”.

Cuidado com o planeta é tema da Campanha da Fraternidade

* Por padre Marcio Prado

A Campanha da Fraternidade a cada ano procura refletir sobre um determinado tema que seja relevante ao seu tempo.Organizada pela CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) que, à luz da fé, motiva os fiéis através de subsídios, dados, cartazes e outros meios sobre um ou mais assuntos.

Com o tema: “Fraternidade: Biomas brasileiros e defesa da vida e o lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15)”, a reflexão está em sintonia com a recente carta encíclica escrita pelo papa Francisco, “Laudato Si”, Louvado Sejas, onde o pontífice claramente escreveu sobre o cuidado com a casa comum, o planeta terra.

Em outros anos, a Igreja no Brasil já havia demonstrado essa preocupação com a Terra. No ano passado inclusive o foco foi o saneamento básico e, neste ano, os bispos no Brasil resolveram continuar a pensar na casa comum, nos biomas do Brasil.

Como explica o texto-base da CF-2017, a expressão bioma vem de “bio”, que em grego quer dizer “vida” e “oma”, sufixo também grego que quer dizer “massa”, grupo ou estrutura de vida. Em outras palavras, “um bioma é formado por todos os seres vivos de uma determinada região, cuja vegetação é similar e contínua, cujo clima é mais ou menos uniforme, e cuja formação histórica é comum”.

São seis biomas em nosso solo brasileiro: a Mata Atlântica, a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Caatinga e o Pampa. A Campanha da Fraternidade visa alertar exatamente para esses biomas que se não forem preservados, cuidados, infelizmente acabarão. Trata-se de uma riqueza natural, de um bem do Criador, que foi confiado ao homem para que cultive e guarde toda essa bênção divina.

Quando o livro do Gênesis narrou a criação de Deus, fauna e flora, a criação do homem, sua imagem e semelhança, mostrou que tudo foi feito por amor. Deus deu ao homem a oportunidade de dela retirar seu sustento, e também zelar pela terra, o solo, os animais, as árvores… Tudo é dom de Deus.

A Campanha da Fraternidade que inicia na Quaresma chama o povo à conversão para que se volte para Deus, para o próximo e para a defesa da criação. Não é simplesmente de cunho social/ecológico, mas, antes de tudo o convite é olhar para Deus. Do olhar para o Criador um olhar para o próximo – o próximo é irmão e não inimigo – e do olhar para o próximo um olhar para a natureza. Se o caminho assim for feito, não se cairá num partidarismo, “isso é mais importante que aquilo”, não! O olhar deve ser para o todo.

O papa em sua encíclica Laudato Si’, propõe uma ecologia integral. O texto-base da Campanha apresenta as riquezas de cada bioma, alerta sobre os riscos e as perdas que já ocorreram, aponta a contribuição da Igreja em cada bioma e deseja que cada cidadão faça sua parte. As autoridades, os governos, os empresários, ou seja, aqueles que detêm o poder são convocados a contribuir para a preservação dos biomas brasileiros.

Por fim, cabe ao povo cristão e a toda pessoa de boa vontade, tomar consciência que com pequenas iniciativas se consegue bons resultados, como: separar o lixo orgânico do reciclável, economizar água, não sujar as ruas, plantar árvores… E se conta muito com os governos e os parlamentares para que façam e cumpram leis que protejam o meio ambiente. Espera-se que as autoridade políticas tenham uma conduta em que não se deixem dominar pela corrupção e, assim, não se preocupem apenas com os bens materiais, mas que sejam desapegados e cuidem da população com políticas que conscientizem seus eleitores e que promovam a defesa da vida humana e ecológica.

* Padre Marcio Prado, natural de São José dos Campos (SP), é sacerdote da Comunidade Canção Nova e Vice-Reitor do Santuário do Pai das Misericórdias. É autor dos livros “Entender e viver o Ano da Misericórdia” e “Via-sacra do Santuário do Pai das Misericórdias”, pela editora Canção Nova.

Confira entrevista com Dom Murilo sobre a Campanha da Fraternidade 2017

Dom MuriloPara melhor compreender a proposta da Campanha da Fraternidade 2017, que este ano tem como tema “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”, a Pastoral da Comunicação (Pascom) preparou uma entrevista especial com o Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger.

Pastoral da Comunicação (Pascom) – Mais uma vez a Campanha da Fraternidade traz à tona a questão do cuidado com a natureza. Porque ampliar a questão?

Dom Murilo Krieger – Uma das características da Campanha da Fraternidade é introduzir, não só no interior da Igreja, mas na sociedade brasileira, a discussão de um tema que esteja sendo um desafio para a vida humana, quando não um problema. Lemos no Livro do Gênesis que é preciso “cultivar e guardar a criação” (cf. Gn 2,15). Ora, não temos tido o devido cuidado com os biomas brasileiros. Como “bioma” não é uma palavra do dia a dia, explico-a: Bioma quer dizer a vida que se manifesta em um conjunto semelhante de vegetação, água, superfície e animais. Trata-se de uma “paisagem” que mostra uma unidade entre os diversos elementos da natureza. Um bioma é formado por todos os seres vivos de uma determinada região, cuja vegetação é similar e contínua, cujo clima é mais ou menos uniforme, e cuja formação tem uma história comum. Temos, em nosso país, seis biomas: a Mata Atlântica, a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Caatinga e o Pampa.

Pastoral da Comunicação (Pascom) – O texto base também apresenta uma reflexão dos Papas a respeito da questão ecológica. A reflexão da Igreja sobre o cuidado com o meio ambiente vem de muito tempo. O que a Doutrina da Igreja diz sobre essa questão?

Cartaz da Campanha da Fraternidad e2017 [Clique na imagem para ampliar]

Cartaz da Campanha da Fraternidad e2017 [Clique na imagem para ampliar]

Dom Murilo Krieger – Na Carta Encíclica “Laudato Si”, o Papa Francisco insiste na seguinte tese: Deus deu o mundo ao ser humano para que esse se beneficie dele, não para destruí-lo. Cada criatura tem sua mensagem, que precisa ser respeitada e entendida. Há muito tempo a Igreja Católica tem sido uma voz profética a respeito da questão ecológica. Ela se preocupa com o mundo que deixaremos para as próximas gerações. Não podemos entregar um mundo em que o ar e as águas estejam poluídos, em que muitas espécies de animais e plantas não existam mais, em que nossa “casa comum” deixe de ser um ambiente adequado para a vida humana. Alguém poderia perguntar: Mas cabe à Igreja preocupar-se com isso? Sim, cabe, pois a Igreja é formada por seres humanos, não por anjos. Anjos não precisam se preocupar com a ecologia.

Pastoral da Comunicação (Pascom) – Qual a melhor forma de trabalhar a Campanha da Fraternidade deste ano? 

Dom Murilo Krieger – Em primeiro lugar, é preciso se interessar por esse tema. O texto-base da Campanha da Fraternidade, à venda nas livrarias católicas, tem reflexões belíssimas e oportunas sobre os biomas, além de uma série de sugestões. Precisamos tomar consciência da beleza dos biomas e a necessidade de cuidado; exigir das autoridades públicas leis e verbas para o cuidado da criação; defender o desmatamento zero para todos os biomas; fortalecer as redes e articulações em todos os níveis, como melhores formas de suscitar uma nova consciência ecológica; motivar as pessoas de boa vontade a defender a natureza; aprofundar os estudos, promover debates, seminários e celebrações sobre o tema; etc.

Pastoral da Comunicação (Pascom) – A partir do texto-base, o que o senhor pode destacar como ponto chave para a campanha?

Dom Murilo Krieger – Precisamos nos convencer disso: cada um de nós é responsável pela criação. Por isso, cada qual deve se perguntar: O que posso fazer, dentro e a partir do mundo em que vivo? Nossa casa comum, ensina-nos o Papa Francisco, é uma irmã, com quem partilhamos a existência. Essa irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. A Igreja deve se sentir responsável pela criação, chamada a louvá-Lo; deve defender a terra, a água e o mar como dons da criação que pertencem a todos. Enfim, “Deve proteger o homem contra a destruição de si mesmo” (Papa Francisco).

Em entrevista, Roberto Malvezzi (Gogó) fala sobre a Campanha da Fraternidade 2017

Roberto Malvezzi "Gogó"

Roberto Malvezzi (Gogó)

A Igreja no Brasil está se preparando para dar início à Campanha da Fraternidade 2017, que este ano tem como tema “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida” e como lema “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2, 15). Para melhor compreender a proposta, a equipe da Pastoral da Comunicação da Arquidiocese de Salvador preparou uma entrevista com o filósofo, teólogo e membro da Pastoral da Terra, Roberto Malvezzi, conhecido como Gogó. Confira!

Pastoral da Comunicação (Pascom) – Você é formado em filosofia, teologia e estudos sociais, mas tem destaque como pessoa atuante na Pastoral da Terra. Baseado em seu conhecimento sobre meio ambiente, o que pode destacar sobre o tema da Campanha da Fraternidade desse ano?  

Roberto Malvezzi (Gogó) – A Campanha da Fraternidade de 2017 é sobre os biomas brasileiros. “Bio” vem do grego e quer dizer “vida”. “Oma” também vem do grego e quer dizer “grupo, estrutura, etc.”. Então, bioma é um grupo de seres vivos, animais e vegetais, que ocupam um determinado espaço, de forma contínua, sob um clima semelhante, assim como o solo e o relevo. Dessa forma, oficialmente o Brasil tem 6 biomas muito claros: Mata Atlântica, Cerrado, Amazônia, Caatinga, Pampa e Pantanal. Há cientistas que falam em 7, colocando os manguezais, a costa como um específico. Outros falam em 8, colocando os mares brasileiros com suas ilhas como mais um. Entretanto, a CF vai trabalhar a questão conforme o que está padronizado oficialmente pelas autoridades brasileiras

Pascom – Mais uma vez a Campanha da Fraternidade traz à tona a questão do cuidado com a natureza. Porque ampliar a questão?

Gogó – A questão ecológica é global e grave. Não é por acaso que o Papa Francisco fez uma carta como a LaudatoSí. O Brasil é um país chave na questão ambiental do nosso planeta. Ainda mais, para Francisco os cristãos têm uma responsabilidade aí derivada da fé, no sentido de cultivar e guardar a criação (Gen 2,15). Então, a destruição dos biomas, portanto da vida, em território brasileiro é um desafio de todos os brasileiros, mas os cristãos têm aí uma responsabilidade derivada da fé, que tem que ser integral. Para isso, precisamos de uma verdadeira “conversão ecológica”. Daí a insistência de tantas campanhas sobre essa temática que Francisco chama de socioambiental, porque inclui os desafios sociais e ambientais no âmbito de uma mesma crise.

Pascom – Qual o objetivo da CF desse ano?

Gogó – O objetivo geral escrito no texto básico é: “Cuidar da criação, de modo especial dos biomas brasileiros, dons de Deus, e promover relações fraternas com a vida e a cultura dos povos, à luz do Evangelho”. Especificamente nos pede um maior conhecimento de cada bioma, o cuidado com eles, a denúncia de tudo e todos que os destroem, demanda o empenho de toda sociedade para que eles sejam preservados para o bem das atuais e futuras gerações, retoma o saneamento básico para o meio urbano e quer ser um alerta sobre o desastre socioambiental que a civilização brasileira – parcela da mundial – está preparando para nossos descendentes.

Pascom – O que são os biomas citados no texto base da campanha deste ano, e porque tais regiões foram escolhidas para ter destaque na campanha?

Gogó – Já comentamos acima o que são os biomas e sua importância, essa imensa diversidade de vidas que está no território brasileiro. Eles foram escolhidos porque são eles oficialmente que formam o conjunto de vidas que temos e eles é que temos o dever de cuidar e cultivar.

Pascom – Dentre os problemas destacados pelo texto base da CF estão o trabalho escravo, o desmatamento, as disputas por terras, a exploração do solo, a poluição, a exploração e a destruição de florestas, rios e mares. Como a campanha sugere que lidemos com essas questões?

Gogó – O AGIR dessa CF é bastante longo e detalhista. Mas, não foram inventados. São lutas que já acontecem nesse país, particularmente a partir das vítimas dessa destruição. Então, foi proposto um AGIR geral, que inclui o desmatamento zero, a recuperação das áreas degradadas, a recuperação da cobertura vegetal e florestas, a retomada dos planos municipais de saneamento básico, assim por diante.

Depois, há o AGIR específico para cada bioma. Nós, no Nordeste, temos mais especificamente a Mata Atlântica e a Caatinga. Então, para a Caatinga temos a proposta de apoiar e intensificar a “convivência com o Semiárido’, através da captação da água de chuva para beber e produzir, da agroecologia adaptada, da exploração da energia solar e eólica pelas famílias e comunidades, assim por diante.

Na Mata Atlântica, o mais agredido de nossos biomas, preservar o que resta, esforçar para reflorestar o que foi destruído, recuperar nascentes, insistir nos planos municipais de saneamento, assim por diante.

Para todos, reconhecer os direitos das populações ancestrais que aí vivem, como índios, pescadores, quilombolas, camponeses, tec.

Pascom – O texto base também apresenta uma reflexão dos papas a respeito da questão ecológica. Como a Igreja espera que o meio ambiente seja tratado a partir dessa reflexão?

Gogó – A consciência da questão ecológica não começou na Igreja. Ela veio da sociedade civil, quando se deu conta que o modelo de civilização estava esgotando os bens naturais da Terra. Entretanto, a questão ecológica, ou socioambiental como desde sempre entendemos, primeiro esteve nas bases da Igreja, só depois chegou ao Vaticano. Desde 1979 o Brasil já fala dessas questões em nossas Campanhas. Conheço bastante da Igreja Latinoamericana e o Equador, Bolívia e outros países já estão envolvidos com essas questões há tempos. Faltava uma palavra oficial da Igreja. Outros papas já tinham assinalado para a questão, mas Francisco faz um documento especial e único na história da Igreja, que se chama Laudato Si’. Então, a partir de Francisco, a questão ecológica passa a ser uma dimensão integrada e integrante de nossa fé. Essa é a diferença essencial, o salto de qualidade.

Pascom – O bioma da restinga é um bioma exclusivamente do nordeste? Como a Campanha da Fraternidade deste ano pode aguçar o olhar político para essa região?

Gogó – Não há o bioma restinga. Para alguns autores a zona costeira com seus manguezais – tantos detalhes biológicos e paisagísticos aí existentes – deveria ser um bioma. Oficialmente não é. Então, os manguezais, a restinga, etc., estão incluídos oficialmente no bioma Mata Atlântica.

Pascom – O que pode nos falar sobre o ver, julgar e agir destacados no texto base da campanha?

Gogó – É um velho e bom método da Igreja trabalhar. Primeiro, analisar a questão. Segundo, iluminar essa realidade pela palavra de Deus e pelos ensinamentos do Magistério da Igreja. Terceiro, agir, fazer, para tentar modificar a realidade para melhor.

Claro que, nesse processo, a reflexão avança para além do que já foi estabelecido, provoca, convoca. Foi assim que a Igreja Latinoamericana tanto contribuiu nessas questões socioambientais com a Igreja de todo mundo. Não só, com todos os homens e mulheres que tem a boa vontade da paz e da justiça.

Além do mais, Francisco acrescenta mais um passo no método. Ele quer que nós, além de vermos a realidade, de tentarmos entende-la à luz da fé, de agira, também celebremos o que acontece. Então, agora, o método é ver-julgar-agir-celebrar.

Pascom – No dia 19 desse mês a ASA – Ação Social Arquidiocesana, promoverá um seminário sobre a campanha e terá você como mediador. Sobre o que trata os seminário e qual será sua participação?

Gogó – Pela programação que recebi será bem amplo, com participação de pessoas da sociedade civil, inclusive autoridades  do governo, do Ministério Público, etc. Interessante. Nosso dever é também motivar e desafiar os demais setores da sociedade para uma causa que é de todos.

Pascom – Qual a importância de promover um seminário como esse? Até que ponto conseguimos conscientizar as pessoas sobre a questão do meio ambiente?

Gogó – Esses seminários cumprem o papel da motivação inicial, despertar os cristãos, outros setores da sociedade para as tarefas que se colocam. Elas são gigantescas, mas sempre temos que dar o primeiro passo. Além do mais, essa questão já vem sendo tratada de outras formas, agora se coloca nesse prisma dos biomas.

Pascom – Como a Campanha da Fraternidade desse ano impacta na atuação da Pastoral da Terra?

Gogó – A Comissão Pastoral da Terra sempre teve os olhos voltados para o povo do campo e seus direitos, particularmente o direito à terra para nela viver e trabalhar. Sempre lutou contra essas injustiças perpetradas contra os pobres do campo. Mantem-se fiel ao “Deus dos pobres e aos pobres da terra”. Então, essa questão mais ecológica, da importância das florestas, da água, dos solos, da biodiversidade para os camponeses, foi sendo assimilada aos poucos. Hoje está presente na leitura de mundo que a pastoral faz.

Outra pastoral importante nessa questão é o Conselho Pastoral dos Pescadores, o CPP, que sempre teve os olhos voltados para as águas, seja dos rios, das praias, dos mangues, por conta das atividades dos próprios pescadores e pescadoras.

Temos ainda que enfatizar o papel do Conselho Indigenista Missionário, o CIMI, que defende as nações indígenas e seus territórios.

A Cáritas também tem um pé nessa realidade. Essas pastorais do campo têm se reunido e construído uma agenda comum em defesa dos povos do campo.

Entretanto, a questão urbana é fundamental nessa CF. A tendência é que as pessoas que moram em grandes centros urbanos achem que residem em outro planeta, não na caatinga ou outro bioma. Salvador é uma cidade situada no coração do que era a Mata Atlântica e no sul da Bahia, com a chegada dos portugueses, foi onde começou a civilização predatória que temos até hoje.

É um momento de encruzilhada da civiliza mundial, incluindo obviamente nós do Brasil. Francisco diz que se a reação tardar, será tarde demais. Então, é a hora.

Bom dia, esperança!

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

Era famosa, na mitologia grega, a figura de Pandora (em grego antigo: “Aquela que possui tudo”), que teria sido a primeira mulher que existiu. Dizia-se que, uma vez criada, Pandora recebeu inúmeros presentes dos deuses, colocados numa caixa. Um dia, inadvertidamente, ela abriu essa caixa e todos os seus bens escaparam, exceto a esperança. Era dessa maneira que os gregos explicavam aquilo que nosso povo traduz com a frase: “A esperança é a última que morre!”.

É incrível a capacidade humana de superar-se diante dos problemas. Avolumam-se os problemas econômicos, cresce o desemprego, multiplicam-se notícias da Lava-Jato… e, quando tudo faria crer que estaríamos diante de pessoas derrotadas, somos surpreendidos pelo sorriso de alguém, ouvimos um “Vamos em frente” de outro ou nos lembramos da mensagem positiva do poeta, consagrada em conhecida canção popular: “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

“A esperança é a última que morre!”. Esperamos que neste ano de 2017 seja encontrada a fórmula ideal para nossos desafios econômicos; esperamos concretizar os inúmeros planos que nos acompanham há anos; esperamos que tenham fim as notícias de corrupção, falcatruas e desonestidades; esperamos que a violência e o medo se tornem apenas lembranças do passado…

A esperança é uma “flor” frágil e delicada, que precisa de muito cuidado, se não será sufocada e não nos mostrará toda a sua beleza. Cada um de nós é chamado, pois, a colaborar para que ela se mantenha viva e forte. Comecemos por nossos relacionamentos familiares, respeitando os que vivem conosco; dialoguemos com as pessoas que encontrarmos, sem querer logo impor-lhes nossas razões; assumamos o compromisso de não valorizar demais pequenos problemas que, muitas vezes, dão origem a grandes desentendimentos.

Para o cristão, a esperança é vista como um dom de Deus. Essa virtude deve animar toda a sua vida, levando-o a caminhar na alegria, mesmo em meio a sofrimentos e provações. O contrário da esperança é o desespero. Dante Alighieri, autor da “Divina Comédia” (século XIV), procurou traduzir isso de forma poética. Ele descreveu que na porta do Inferno há uma placa com a frase: “Vós, que aqui entrais, deixai fora a esperança!”.

A esperança cristã tem um nome: Jesus. Ele, que é a “nossa esperança” (1Tm 1,1), passa por nossos caminhos e nos convida a segui-lo. Por ela, desejamos, como nossa felicidade, o reino dos céus e a vida eterna; pomos nossa confiança nas promessas que ele nos fez e apoiamo-nos não em nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo. Portanto, muito mais do que um bem que ficou no fundo de uma caixa, a esperança é o motor que impulsiona nossos passos. Procuremos cultivá-la!

A corrupção em nosso país

*por Christian Moreira

 Em 1940, os estúdios Disney “homenagearam” o Brasil com um personagem destinado ao público infantil, que acompanharia o Pato Donald em sua viagem para o país, criando assim o Zé Carioca. Dentre muitas características, a que mais chamava a atenção, como traço identificador da brasilidade do Zé, era a sua malandragem explicitada na forma com que escapava das situações, sempre dando um “jeitinho”.

Assim o mundo tomou conhecimento do “jeitinho brasileiro”, forma pela qual têm sido resolvidas as demandas em nossa nação há séculos. Esse jeitinho a que me refiro não consiste na capacidade inventiva de alguns em encontrar soluções inovadoras e extraordinárias, quase sempre de baixo custo, para problemas da vida concreta. Tratamos aqui das práticas furtivas à margem da legalidade, na quebra das regras, a fim de atender as demandas de outrem em virtude de algum benefício próprio. Em outras palavras, o jeitinho é uma ação corruptora e corruptível.

A palavra “corrupção” vem do latim  corrumpere, e significa “destruir, estragar”, sendo a união de  com-, intensificativo, mais rumpere, “quebrar, partir, arrebentar”. Na origem etimológica da palavra está contida a descrição dessa prática no indivíduo, em suas relações, na sociedade.

A corrupção destrói, estraga, quebra, arrebenta e desfigura. Nesse aspecto, não há como não associar a corrupção ao pecado. Afinal, como está escrito, “o salário do pecado é a morte”. (Rom 6,23)

Essa reflexão é profundamente pertinente aos nossos dias. Assistimos aos noticiários diários, que, de forma sistêmica e insistente, relatam a descoberta de algum novo desvio de verba pública, esquema de propinas, atos de improbidade administrativa, independentemente da esfera, seja ela municipal, estadual ou federal.

Não se trata de uma geração específica de homens públicos ou de uma bandeira partidária: a corrupção no Brasil tornou-se uma endemia institucionalizada. Indignamo-nos com os malfeitos alheios, atiramos pedras principalmente nos políticos por seus atos de decência duvidosa, no entanto, não exercemos a autocrítica sobre nossas pequenas ações no dia a dia.

Como superar a corrupção que destrói a nossa nação? Como erradicar essa mazela que, como um câncer em metástase, se prolifera e apodrece as relações entre os indivíduos, em todas as instâncias e espaços de convivência interpessoal, inclusive nas igrejas?

Benjamin Disraeli certa vez escreveu: “Quando os homens são puros, as leis são desnecessárias; quando são corruptos, as leis são inúteis”. Aí está o caminho da vitória: sejamos eu e você honestos. Falando assim, parece que estamos propondo o óbvio, tal como afirmar que a água é molhada ou que o sol é quente. Mas é isso mesmo! E repito: seja honesto. Não por medo da punição do crime, mas porque é o certo a ser feito. Sinta-se desafiado a deixar de ser parte do problema e tornar-se parte da solução.

Respeite as filas, não jogue lixo na rua, não pare seu carro nas vagas que não lhe são destinadas (idosos ou deficientes), use sempre as expressões “com licença”, “por favor” e “obrigado”. Pode parecer pouco, mas as grandes jornadas sempre se iniciam com pequenos passos. Você não estará sozinho. E nossa jornada irá inspirar muitos outros. Fazer o certo deixará de parecer errado em nossa nação.

“Honestidade é fazer o certo mesmo quando ninguém está olhando”. Jim Stova.

 

Christian Moreira é missionário da Comunidade Canção Nova em em Fortaleza (CE). Graduado em História, Mestre em Ciências da Educação e Especialista em Ensino Superior de História e Especialista em Gestão Escolar.


Cúria Metropolitana Bom Pastor - Av. Leovigildo Filgueiras, 270 - Garcia, CEP: 40.100-000 - Salvador -Ba. Tel.: (71) 4009-6666 | contato@arquidiocesesalvador.org.br
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