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A esperança na Cruz

Dom Gilson Andrade da Silva

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador

A festa da Páscoa é celebrada a cada ano de acordo com um critério de calendário estabelecido no Concílio de Niceia, em 325 da era cristã, recordando e celebrando os fatos extraordinários ocorridos em Jerusalém, onde Jesus Cristo foi até o extremo na sua doação de amor.

A celebração anual da Páscoa do Senhor não corresponde simplesmente à uma necessidade da comemoração, mas tem um significado mais profundo. Na sua compreensão dos ciclos litúrgicos a Igreja entende que a celebração dos mistérios de Cristo coloca o cristão diante daquilo que corresponde ao sentido de sua própria vida. O cristão vive de Cristo e dos seus mistérios (cf. Col 3, 3). De muitas formas ele reproduz no cotidiano de sua existência e nas vicissitudes da história o que Cristo viveu. Portanto, celebrar hoje a Páscoa deve ter uma implicação concreta com as coisas que estão acontecendo.

A Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor não é um fato isolado da vida de uma pessoa na sua existência concreta, mas tem a ver com toda a humanidade. Jesus morreu para salvar a todos. Esta é a fé da Igreja e este é o sentido de sua missão que perdurará até a vinda do Senhor na sua glória. A salvação de Cristo é um dom que Deus faz às mulheres e aos homens de todas as épocas. Por isso, quando se celebram os eventos dos últimos dias da vida de Cristo é preciso que nós nos perguntemos sobre o seu significado para o nosso tempo.

Não pretendo aqui de modo algum fazer uma análise detalhada dos fatos que têm chamado a atenção das pessoas nos últimos tempos, mas creio que não exagero se digo que as coisas mais relevantes que se dão destaque, especialmente nos diversos meios de comunicação hoje, falam de um anseio  por esperança.

Papa Francisco em algumas ocasiões considerou como uma 3ª guerra mundial os numerosos conflitos armados espalhados pelo mundo. Uma de suas insistências tem sido a de chamar a atenção sobre o problema do descaso dos grandes quanto ao fenômeno da migração em todo o mundo. O tema da corrupção em larga escala mundial é outro fator que inquieta a paz das nações. Em nosso país há destaques diários para o tema. Sem contar os problemas infelizmente recorrentes da fome, da miséria, da injustiça e da grave crise antropológica que se reflete na educação, especialmente das crianças e jovens.

Diante de tudo isso, mais uma vez celebramos a Páscoa e destacamos a centralidade da cruz de Cristo e de sua vitória. A cruz de Cristo, escândalo também neste tempo marcado pela busca desenfreada de bem-estar qual último fim da vida, continua a ser um interrogante e uma resposta diante dos desafios que a humanidade tem que enfrentar. A cruz de Cristo fala do realismo da dor que atravessa a história da humanidade, inclusive da humanidade de Deus que se fez homem. Porém, ela proclama que precisamente ali se deve oferecer o melhor de si mesmo para poder desfrutar o bom da vida. A cruz para o cristão não é, sobretudo, sinal de dor, mas de um amor que supera os limites, de um amor que pode sempre se redescobrir como novo e capaz de vencer toda a aparente força de derrota do mal. Ela responde à pergunta inquietante das mulheres e dos homens de todas as épocas pela presença de Deus nos momentos cruciais da história, pois ela revela que Deus é companheiro do ser humano nos seus dramas e dilemas. Companhia que dilata o coração e faz de cada um e de cada uma capaz de triunfar pela força que dá sentido verdadeiro à vida humana, o amor. Sim, a cruz fala do amor como possibilidade de esperança diante das impossibilidades que tocamos na vida. Por isso, ela também hoje merece a antiga saudação: Ave, Crux, spes unica. Salve, ó Cruz, única esperança.

Um tempo para ouvir os jovens – Artigo de Dom Gilson Andrade da Silva

Após a grande reflexão sobre a família, realizada pelos dois últimos Sínodos, os nossos pastores, e com eles toda a Igreja, a convite do Papa Francisco, se debruçam agora sobre o tema dos jovens e sua relação com a fé e o discernimento vocacional.

No dia 13 de janeiro foi publicado o Documento preparatório para o Sínodo que tem como título: “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”. Dessa vez, o documento veio acompanhado de uma carta do Papa aos jovens a fim de confiar-lhes a colaboração no trabalho que será realizado durante o mês de outubro de 2018 na assembleia sinodal.

Na carta o Papa recorda dois grandes chamados bíblicos, o de Abraão a sair de sua terra e ir em direção do desconhecido que reservava para ele realizações seguras (cf. Gn 12, 1) e o convite de Jesus aos primeiros discípulos para que caminhassem com Ele (cf. Jo 1, 38-39). Os jovens são desafiados a sair ao encontro de uma nova terra, de uma sociedade mais justa e fraterna à qual aspiram e ouvir a voz de Cristo para empreender um itinerário de discernimento para descobrir o projeto de Deus para a sua vida.

Dirigindo-se aos jovens, o Santo Padre lhes recordava: “a Igreja deseja colocar-se à escuta da vossa voz, da vossa sensibilidade, da vossa fé; até das vossas dúvidas e das vossas críticas. Fazei ouvir o vosso grito, deixai-o ressoar nas comunidades e fazei-o chegar aos pastores”.

O Documento preparatório para o Sínodo tem como referência inicial a figura de João e a a narrativa da vocação dos discípulos do Batista em Jo 1,36-39. Desenvolve a sua reflexão a partir de três capítulos. O primeiro, sobre os jovens no mundo de hoje, lança um olhar para a pluralidade de mundos juvenis, identificando a urgência de “promover as capacidades pessoais, colocando-as a serviço de um sólido projeto de crescimento comum”. O segundo capítulo, Fé, discernimento, vocação, apresenta “algumas considerações para um acompanhamento dos jovens a partir da fé, à escuta da tradição da Igreja e com o claro objetivo de assisti-los no seu discernimento vocacional e nas decisões fundamentais da vida”. Mas o que significa acompanhar os jovens na acolhida da alegria do Evangelho numa época marcada pela incerteza, pela precariedade e pela insegurança?  O terceiro capítulo se ocupa do “desafio do cuidado pastoral e do discernimento vocacional, tendo em consideração os protagonistas, os lugares e os instrumentos à disposição”.

Em sua última parte, o Documento preparatório propõe um questionário para recolher dados estatísticos sobre a juventude, ler a situação dos jovens nas suas relações com a Igreja e a sociedade, a pastoral juvenil vocacional e os que acompanham os jovens, incluindo perguntas específicas de acordo com os diversos continentes. No caso do continente americano as perguntas visam responder sobre o modo como as comunidades se ocupam dos jovens que experimentam situações de violência extrema; que formação se oferece para apoiar o compromisso social dos jovens em vista do bem comum e que ações pastorais são mais eficazes para ajudar os jovens a viverem a fé recebida na iniciação cristã no atual contexto de forte secularização.

Com a finalidade de escutar os desejos, os projetos, os sonhos e as dificuldades dos jovens se prevê também uma consulta através de um site na internet. As respostas aos dois questionários constituirão a base para a redação do Documento de Trabalho, o Instrumentum laboris, que será o pronto de referência para a discussão dos padres sinodais.

O Setor Juventude terá nessas reflexões um trabalho importante para o ano de 2017, pois a Igreja quer pedir a ajuda dos jovens para identificar o modo mais eficaz de anunciar o Evangelho. “Através dos jovens, a Igreja poderá perceber a voz do Senhor que ressoa também hoje (…) Ouvindo suas aspirações, podemos vislumbrar o mundo de amanhã que vem ao nosso encontro e os caminhos que a Igreja é chamada a percorrer”.

Dom Gilson Andrade da Silva, bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador

Foto: Equipe de Comunicação da JMJ Live in Salvador

A festa da proximidade

Dom Gilson Andrade da Silva

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador

O Papa Francisco quando esteve em Cracóvia durante a Jornada Mundial da Juventude, celebrada em julho deste ano, em conversa com os bispos poloneses foi interpelado sobre como a Igreja poderia de novo oferecer a mensagem evangélica a um mundo indiferente e muitas vezes hostil à mensagem de Cristo. O Papa imediatamente recordou-lhes uma atitude fundamental que é a proximidade. E fez uma afirmação muito oportuna para os dias que estamos vivendo, na celebração do Natal do Senhor: “Sem proximidade existe apenas palavra sem carne”. Com isso queria indicar a atitude pastoral decisiva diante dos desafios que a missão dos cristãos enfrenta no momento presente. É preciso encontrar modos de aproximar-nos de todos, sem exceção.

Com muita facilidade, o cristão pode se deixar levar por uma atitude de afastamento dos seus contemporâneos por sentir a distância entre o que ele professa e o modo de pensar e agir mais coerente. O gesto de Deus foi o de se aproximar. A bela parábola do bom samaritano é emblemática neste sentido. Um estrangeiro se aproxima de um homem caído à beira da estrada e tem compaixão dele. Não se perde em perguntas acerca dos obstáculos que naquele momento podiam impedi-lo de ter o gesto de misericórdia, mas simplesmente olha o homem necessitado como se visse a si mesmo nele e se desdobra em gestos de atenção e de cuidado.

O cristianismo é pautado pela aproximação de Deus aos seres humanos. Desde a história da criação do homem e da mulher, passando pela eleição do povo de Israel até chegar ao momento sublime da encarnação do Verbo, a iniciativa foi sempre de Deus. A decisão divina foi a de se aproximar e propor a possibilidade de uma vida integrada no Seu amor, superando assim a ruptura imposta pela decisão equivocada de afastar-se de Deus, ou seja, a escolha do pecado.

Chegamos à celebração do Natal do Senhor. Não se trata simplesmente de uma recordação histórica de algo ocorrido há séculos, mas de um fato que se perpetua na história. O Messias prometido, Filho da Virgem Maria, é o Emanuel, Deus conosco para sempre. Com o seu nascimento, a história de toda a humanidade e de cada pessoa foi marcada pelo gesto de aproximação de Deus. Ele está perto de cada pessoa e essa proximidade devolve a todos a possibilidade de viver conforme o melhor que há em si, ou seja, à dignidade de filhos e filhas de Deus.

Não é por acaso que a festa do Natal tem sido assumida como inspiração para crentes e não crentes de gestos de humanidade, de renovação do olhar dos homens entre si, de acolhida mais generosa de uns para com os outros, pois o extraordinário do Deus transcendente quis ser reconhecido na imanência de um ser humano, limitado pelas contingências mais adversas, nascido na obscuridade da rejeição e de um lugar inóspito. Desse modo, Deus não apenas se aproximou dos seres humanos, mas fez a escolha de se aproximar dos últimos, dos esquecidos, dos abandonados e rejeitados, indicando assim que a dignidade de um homem e de uma mulher está na sua relação com Ele. O rosto de qualquer ser humano é reflexo do Eterno que nos nossos dias se fez homem e habitou entre nós.

Na mesma ocasião mencionada acima, o Santo Padre recordou aos Bispos da Polônia que “a proximidade é tocar a carne sofredora de Cristo”. Portanto, somos convidados na oportunidade da celebração do Natal do Senhor tornar-nos próximos, sobretudo dos que se encontram mais parecidos com Cristo que assumiu as dores da humanidade precisada de esperança. Que a gruta de Belém seja o coração de cada um, capaz de reconhecer um Deus necessitado vindo ao seu encontro no rosto sofredor dos irmãos. Feliz Natal!

A vida entre o sucesso e o fracasso

Por Dom Gilson Andrade da Silva

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador

Vencer ou perder: parece que este é o grande dilema da vida e que ela poderia ser tomada como um jogo onde uns vencem e outros perdem. Esta é a sensação que normalmente se tem diante dos modelos que diariamente são apresentados pelos parâmetros que a mídia usa para falar dos vencedores ou perdedores. A vitória e o fracasso são descritos de acordo com uma conveniência relativa àquilo que o bem-estar é capaz de oferecer e, assim, são apresentados, sobretudo, com a cara do sucesso ou da derrota nos campos profissional, familiar, religioso etc. Parece que todos precisam alcançar um sucesso para dar sentido à vida, de outra forma, não teria valido a pena, por exemplo, uma vida com tantos sacrifícios como costuma ser a vida de qualquer pessoa humana.

Diante dessa realidade que faz parte do nosso dia a dia, um cristão se pergunta sobre a luz que a fé pode oferecer a essa “preocupação” que consome a vida de muitas pessoas no mundo de hoje.

Jesus, no evangelho de São Lucas, nos conta uma parábola que ilustra dois modos de viver que são determinantes para o destino final que marcará o desfecho da própria vida com a realização ou a frustração, a parábola do rico e do pobre Lázaro (Lc 16, 19-31). Nesta parábola se sugere que sucesso ou fracasso não são definitivos aqui na terra, mas é na eternidade que se revelará se uma pessoa fracassou ou teve êxito de verdade.

O rico da parábola, dotado de grande bem-estar no tempo, fracassa na eternidade e o pobre Lázaro, coberto de humilhações e desprezo durante a vida, encontra no além a realização da vida. O rico do Evangelho frustra a sua vida porque não é capaz de ler os sinais dos tempos e de perceber o que está acontecendo ao seu redor e os apelos do tempo presente. Não abre a porta ao pobre que jaz à entrada de sua casa, justamente aquele pobre que poderia abrir para ele a porta da vida. O pecado do rico, que o condena depois da morte a uma eternidade infeliz, é a incapacidade de olhar o mundo à sua volta e perceber os apelos à compaixão. É um homem que não faz mal a ninguém, mas padece de uma doença pior que a de Lázaro, está cego e não consegue olhar para além do mundo das suas satisfações pessoais e do seu bem estar. Não enxerga o pobre Lázaro, porque não se interessa com o que acontece fora do seu pequeno mundo.  Em palavras do Papa Francisco: ele “não vê com os olhos, porque não sente com o coração” (Homilia no Jubileu dos Catequistas, 25 de setembro de 2016). Desse modo, torna-se indiferente ao pobre, e seu destino será a infelicidade eterna, pois não pode ser feliz no céu quem não aprendeu que a felicidade está no encontro com o outro que sempre pede de mim atitude de acolhida e compaixão. O outro não é o inferno, como sugeriu Sartre, mas o outro é a possibilidade do meu céu.

Deus, porém, não esquece os seus pobres, são os seus filhos prediletos, prova disso é que o nome do pobre, Lázaro, é conhecido por Deus, e seu nome significa “Deus ajuda”. O rico, no entanto, não faz história, cai no esquecimento, “porque quem vive para si mesmo não faz a história” (Francisco, ibid).  No Salmo se diz que “o Senhor é fiel para sempre, faz justiça aos que são oprimidos; ele dá alimento aos famintos, é o Senhor quem liberta os cativos” (Sl 145).

O que torna bem sucedida a vida do pobre não é a sua pobreza, nem o estado de humilhação em que vive, mas a confiança em Deus, que socorre os pobres, e o consequente modo de viver sob o olhar de Deus e atento aos seus apelos.

Assim, a vida do ser humano encontra seu sucesso ou seu fracasso sempre diante da eternidade, seguindo os parâmetros que a Palavra de Deus nos indica para uma vida bem-aventurada e feliz.

Iluminar a dor

Por Dom Gilson Andrade da Silva

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador

Quantas vezes eu me deparo com pessoas que, mesmo fiéis à fé católica, ao se encontrarem mergulhadas numa dor profunda, começam a se perguntar sobre a razão daquela situação. Normalmente, nesta hora tende-se a procurar um responsável, por isso se questiona sobre o que fez para merecer passar por aquele revés, ou então se atribui a Deus ou a outros a razão da dor.

É normal que diante da dor procuremos razões, pois o hábito de pensar acompanha todas as circunstâncias que vivenciamos, das mais elementares às mais complexas. Porém, quase sempre é difícil explicar o porquê do mal que nos atinge.

Os sofrimentos provêm de muitas fontes e às vezes podemos até identificar razões plausíveis. Por exemplo, quando alguém sofre em consequência da injustiça praticada por outros. Mas como uma mãe ou um pai encontrarão razões suficientes para justificar que seu filho pequeno sofra porque lhe foi diagnosticado um câncer? Há situações onde é mais difícil poder identificar os “responsáveis” pelo sofrimento. Nesta hora, espontaneamente, muitos começam a se questionar sobre a bondade de Deus que parece assistir a dor do ser humano de forma impassível.

O mês de setembro traz no seu calendário litúrgico duas festas que nos oferecem oportunidade de iluminar essas situações com a luz dos fatos da fé. A fé é feita de um conteúdo preciso e não apenas de confiança. Esses conteúdos nos sustentam quando precisamente a confiança ameaça ser abalada. Refiro-me às festas da Exaltação da Santa Cruz e de Nossa Senhora das Dores. Ambas as festas lembram um gesto importante da ação de Deus diante do sofrimento humano que é a compaixão. A Cruz foi o lugar da compaixão de Deus para com a humanidade pecadora, Deus se aproximou do homem caído para levantá-lo através de um amor que foi até às últimas consequências. A Virgem Maria é também um sinal da compaixão materna de Deus que acompanha o homem e a mulher em sua dor e não os deixa sozinhos.

João Paulo II, certa vez, numa entrevista onde lhe perguntavam sobre por que o ser humano sofre, respondeu dizendo que o próprio Deus não se deteve em nos explicar o sofrimento, mas que diante dele assumiu a atitude de compaixão, colocou-se ao lado do sofredor, manifestando assim o seu amor. Desse modo, “o escândalo da Cruz é para sempre a chave de interpretação do grande mistério do sofrimento, que pertence de modo quase orgânico à história da humanidade. […] Cristo crucificado é uma prova da solidariedade de Deus com o homem sofredor. Deus fica do lado do homem” (Cruzando o limiar da esperança, p. 73).

Com isso, não se elucida definitivamente o problema da dor, pois ela é vivida na vida e nas circunstâncias concretas das pessoas, mas já não se está sozinho, não simplesmente por se ter uma companhia divina na hora extrema da dor, mas também porque Cristo, em vez de dar explicações sobre o sofrimento, encheu-o de sentido, o sentido do amor. Fomos salvos por causa desse amor que se doou sem reservas. Mas do que deter-se nos porquês, aprendemos com Cristo a dar um para quê às dores da vida.

No nosso sofrimento não estamos sós, Cristo conheceu a dor e nos sustenta e nos une à sua dor, pela sua graça, dando-lhe sentido divino para a salvação de todos. A fé nos oferece esse horizonte que não é teórico, mas que é parte do caminho daqueles que seguem o caminho da vida. Ao mesmo tempo nela encontramos a necessidade de tornar-nos solidários com os demais, imitando o gesto de Cristo e tornando-o presente ao lado do irmão sofredor.

A fidelidade ou o amor sem ocaso

Dom Gilson Andrade da Silva

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador

Prometer fidelidade por toda a vida é um compromisso assumido no casamento e condição para desfrutar o melhor da vida familiar. É certamente um caminho exigente percorrido no dia a dia, mas que, ao mesmo tempo, é fonte de uma felicidade que atinge a todos os membros de uma família. Trata-se de uma realidade que precisa ser redescoberta na atualidade não como um peso, mas como consequência normal de um amor que não quer ver jamais o ocaso.

A fidelidade no casamento é poder confiar-se totalmente a alguém e não voltar atrás. Dizer cada dia: «é a ele (a ela) que eu quero entregar-me». É compreender que se escolheu uma pessoa com tudo o que ela é, e não um catálogo de qualidades, vantagens ou coisas que nos agradam.

Para viver esta fidelidade é preciso aprender a cultivar o amor. Como é importante saber reservar um tempo para estar juntos. Em se tratando de casal, esse espaço da convivência mútua é uma necessidade. É como o ‘oxigênio’ que sustenta a vida do casal, sua respiração. É verdade também que no quotidiano a fidelidade passa por caminhos bem concretos, como por exemplo, a decisão de não deixar passar uma semana sem um tempo de partilha, de não deixar de pedir perdão todas as noites, pois o amor cresce à medida da capacidade de perdoar e etc.

Aprender a exercer a fidelidade nas pequenas coisas, aproveitar as pequenas oportunidades. Aqui também é valioso o conselho de Jesus: fidelidade no pouco para ser fiel no muito. É precisamente no descuido dessas pequenas realidades quotidianas que se pode arriscar a perda da fidelidade. Mas também é preciso levar em conta que se se apresenta uma tentação contra a fidelidade, a fuga é a melhor solução. Fugir daquilo que pode nos tornar infiéis. Aqui o corajoso é aquele que foge da realidade que o provoca e assim o faz precisamente porque não quer perder o que de mais valioso possui, o amor de seu casamento. Um bom conselho dava S. Josemaría Escrivá: «Não tenhas a covardia de ser “valente”; foge!»(Caminho, n. 132).

Uma grande prova que toda fidelidade enfrenta é o passar do tempo, a duração. A rotina pode ir deixando suas marcas negativas se não combatemos com vigor e o amadurecimento do amor pode ser confundido com a “falta do sentimento de antes”. É muito comum ouvir-se dizer que já não é mais a mesma coisa e, com muita facilidade, conclui-se que o amor acabou e a separação parece ser a única saída. Acontece que o processo do amor conjugal passa pelo crivo dos anos e vai amadurecendo. Portanto a melhor coisa nesses momentos é poder contar com a graça própria do sacramento do matrimônio e, portanto, da oração como casal. Por outro lado recorrer à ajuda de pessoas que acreditam na família e que podem orientar o casal para perceber que aquelas situações simplesmente desafiam o crescimento no amor e de modo algum são instrumentos de destruição. A solução mais fácil nem sempre é a melhor. Para que um casal seja fiel é preciso decidir escolher-se todos os dias. Aquela escolha definitiva feita no dia do casamento deve ser renovada diariamente. Cada dia como o primeiro, como o único.

Quando se faz essa escolha acaba-se por compreender que é preciso toda uma vida para aprender a amar alguém. Não bastam uns poucos anos, é preciso toda uma vida. Desse modo passa-se tranquilamente de um amor possessivo a um amor que é doação total ao outro. Mas isso não acontece num único dia, nem mesmo num mês, nem mesmo em alguns anos: é necessária a vida inteira. Passa-se por provações, desilusões, mas caminha-se em frente com a mesma pessoa. Só se cresce no amor e na unidade estando juntos e é isso que faz a nossa felicidade. O caminho da fidelidade é um caminho capaz de preencher enormemente o coração de um homem e de uma mulher, é como a realização da capacidade que o ser humano tem de amar.

É forte em nosso tempo a impressão de que tudo é inconstante, não dura muito. Essa atitude dificulta o verdadeiro conhecimento do amor que sem dimensão da fidelidade não pode preencher a necessidade de amor do coração humano que foi criado por Deus para amar com perseverança e fidelidade. Só um amor assim é capaz de tornar o homem mais humano e, consequentemente, mais feliz. Buscamos a felicidade? Tomemos a decisão da fidelidade!

Diário de Bordo: Via-Sacra com o Papa Francisco

Por Dom Gilson Andrade da Silva

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador

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Catequese na paróquia de S. Gregório, na localidade de Ruszcza.

Cracóvia, 29 de julho de 2016

São 7h30 da manhã quando, depois do café da manhã, aparece uma voluntária para nos conduzir até o lugar da catequese, desta vez a 20km de Cracóvia, mas sempre dentro da cidade, paróquia de S. Gregório, na localidade de Ruszcza. Os nomes aqui são sempre difíceis de ler e de pronunciar. Aliás, estou fazendo o propósito de aprender mais inglês, pois é o que tem salvado por aqui. Com um inglês bem macarrônico vou tentando me fazer entender.Chegamos à paróquia pelas 8h15 e fomos muito bem acolhidos pelos padres. Uma outra experiência marcante dessa jornada é a acolhida dos poloneses. Sempre muito gentis, muito atenciosos e generosos no contato conosco. Fomos logo conhecer a linda Igreja do século XIII. Quantos séculos de história e de fé. Hoje mesmo um dos bispos do Brasil que encontrei me disse que estava impressionado com o espírito de fé católica do povo da cidade. Vê-se como isso marcou profundamente a história do lugar.D. João Justino fez a catequese que hoje tratou da proposta aos jovens de serem testemunhas da misericórdia. Havia jovens de várias partes do Brasil e alguns de Portugal. Para a missa chegaram também jovens poloneses que participaram com muita devoção da celebração eucarística junto com seus padres. Como temos feito, nesses dias de catequese tenho ido para o confessionário, exercer junto aos jovens o ministério da reconciliação. Nas Igrejas que fomos sempre encontrei muitos confessionários nas Igrejas. Vê-se que o povo se confessa com frequência e penso que esse é um dos fatores que explica a forte presença na cultura da fé cristã.A missa foi votiva da Virgem Maria, Rainha e Mãe de Misericórdia. O evangelho foi lido também em polonês. Também aqui se viu a alegria e a devoção com que os jovens dela participaram, apesar do cansaço que vai sendo acumulado ao longo desses dias.Deixei um recado de manhã no whatsapp para o grupo de Cracóvia que eu celebraria aquela missa. Os jovens que foram guiados pela comunidade Verbo de Vida apareceram e participaram na missa, depois de fazer aquilo que eles chamaram de “uma viagem”, pois tiveram que pegar dois três e um ônibus para chegar lá.Após a missa fomos convidados, D. João Justino e eu, para o almoço na casa paroquial. Sendo sexta-feira foi servido também peixe. Destaco esse detalhe porque um dos padres me disse que na Polônia normalmente não se come carne na sexta-feira, em honra da Paixão de Nosso Senhor.Após a missa retornamos para nosso lugar de alojamento pelas 14h e pelas 15h já me encontrava no ônibus junto aos outros bispos para ir até o Parque Blonia onde estava planejada a Via Sacra, outro momento importante no caminho da JMJ.
Mais uma vez chovia insistentemente, uma chuva suave, mas constante. No ambiente, porém, rolava muito música ao vivo, com cantores da música católica internacional num dos palcos do evento.
Notei que o sistema de controle de entrada dessa vez estava ainda mais exigente, talvez por isso saímos mais cedo de casa. Todos fomos revistados. Há sempre uma grande preocupação com a segurança, embora, graças a Deus, nenhum incidente tenha acontecido.
O tempo de espera foi tempo de aproximação dos bispos entre si, de conhecimento mútuo e conversa amena. Terminada a chuva um sol intenso brilhou sobre o lugar.
O Santo Padre entrou no recinto por volta das 17h30, sempre hora local. Entrou de forma discreta, pois se tratava da oração da Via Sacra, cumprimentando os senhores cardeais e tomando o seu lugar no palco central. Apesar do sol sobre o seu rosto, acompanhou atentamente todas as estações da Via Sacra.
Um belo texto foi preparado, contemplando uma reflexão sobre cada uma das obras de misericórdia espiritual e corporal, apresentando antes de cada estação um pequeno vídeo apresentando instituições católicas presentes na Polônia que realizam ações de caridade de acordo com as diversas obras de misericórdia.
As estações foram sendo apresentadas com expressões artísticas como imagens em desenhos e expressões de teatro e dança, encenadas ao longo do parque e acompanhadas pelos telões.
Ao terminar a Via Sacra o Santo Padre nos dirigiu palavras muito intensas, convidando os jovens a marcarem um protagonismo no serviço quando retornarem e lembrou que a credibilidade dos católicos não depende da força das ideias, mas da nossa coerência em viver as obras de misericórdia e insistiu nisso. E manifestou o seu desejo de que os jovens fossem semeadores de esperança.

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Diário de Bordo: Ir. Dulce aclamada na Polônia

Por Dom Gilson Andrade da Silva

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador

Cracóvia, 28 de julho de 2016

IMG_3760As manhãs de quarta a sexta são reservadas às catequeses na JMJ. Hoje também não foi diferente. Dessa vez fui com D. João Justino, de Belo Horizonte, a um lugar chamado Frydrychowice, a 60 km de Cracóvia. Ficamos felizmente surpresos quando vimos que a pequena aldeia estava depois de Wadowice, cidade natal de S. João Paulo II. E já começamos a planejar “dar um pulinho” na volta.

Chegando à localidade fomos calorosamente acolhidos pelo pároco e seu vigário. Aliás, estamos todos tocados pela acolhida gentil dos poloneses. Ofereceram um bom café, feito ao estilo local, água quente sobre o pó de café, na própria xícara, além das famosas salsichas.

Na Paróquia dos Santos Arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael, D. Justino fez a catequese e eu presidi a Eucaristia com a participação alegre e fervorosa dos nossos jovens. O tema do dia era a reconciliação a partir do Evangelho do Filho Pródigo. Ao término da missa fomos convidados pelo pároco para almoçar com os jovens na “casa da cultura” do lugar. A comida é quase sempre acompanhada de sopa. Dessa vez tinha arroz para acompanhar a sopa, em homenagem aos brasileiros.

Terminado o almoço, às 13h, voltamos a Cracóvia não sem antes passar em Wadovice, a cidade que viu nascer o grande João Paulo II. Sua casa atualmente foi transformada num interessante museu, com recursos interativos e inumeráveis fotos que contam sua vida, além dos objetos e vestes que descrevem a trajetória fecunda de toda a sua vida. Uma fila enorme diante da porta e nós com pouquíssimo tempo, pois tínhamos que estar antes das 15h em casa para ir com os demais bispos para o lugar da acolhida do Santo Padre. Os seminaristas que nos acompanhavam explicaram que se tratava de dois bispos sem tempo e gentilmente nos deixaram passar.

Certamente é uma graça pisar nesta terra que ofereceu grandes personagens para a Igreja. A imagem da casa me fez pensar na importância de uma família com profundas convicções cristãs. Na Polônia se respira um clima de prática da fé bem difundida e isso se sente na vida das famílias.

De Wadovice não tivemos tempo de ver nada além da casa natal do santo. Porém ficou o desejo de retornar para saborear um pouco mais do que vimos com pressa. Ao passar pelos cômodos da casa rezava a São João Paulo II pelos jovens e pelas famílias, suas duas grandes paixões.

De volta a Cracóvia, às 15h, os bispos foram se reunindo para o transporte que nos levaria até o lugar da acolhida do Papa pela juventude. Nesses eventos com o Papa sempre se chega com certa antecedência para garantir a organização. O interessante desses momentos é que se oferece a oportunidade de conhecer realidades muito diferentes de situações variadas da Igreja no mundo. No ônibus que nos conduziu ao lugar do evento fui sentado com um bispo da Igreja grego-católica da Romênia que me falou sobre a situação da Igreja no país e contou história dos bispos mortos no cárcere durante o regime comunista no país e do belo testemunho dos católicos naquele país.

Uma chuva suave caía, mas insistente. Todos os bispos e cardeais passaram pelo rigoroso sistema de revista devido à segurança do lugar. Com capas e guarda-chuvas seguimos em direção do lugar que nos fora reservado e ali ficamos esperando pela chegada do Santo Padre. O tempo passou rápido, pois a animação dos jovens contagiava o coração. Acompanhamos a chegada do Papa pelo telão. Ele saiu da residência do Cardeal e entrou num bonde elétrico acompanhado de jovens portadores de deficiência e assim se dirigiu até o lugar do encontro. A animação estava grande no ambiente com música de estilo jovem. Ouvi o comentário de um bispo estrangeiro sentado ao meu lado: “sou de outra época e acho muito barulhenta essa música”. Rimos sobre o assunto e a música continuava com toda a força.

Foi ao som de um tango cantado em polonês que o Papa apareceu no palco do lugar. A partir dali se desenvolveu a cerimônia de abertura que todos puderam acompanhar pelos meios de comunicação. Ouvimos muitos comentários sobre a beleza do momento. Houve um destaque para o tema da santidade: os santos da misericórdia e os santos jovens, pois os santos são os bem-aventurados do Evangelho.

Confesso que fiquei emocionado quando ouvi gritar nos autofalantes: “Ir. Dulce” e vi entrar a sua figura desenhada no estilo dos desenhos dos santos da JMJ em Cracóvia. Imediatamente um bispo espanhol que estava perto de mim me perguntou: quem é esta? E comecei a falar de Ir. Dulce para ele e depois para outro.

O Santo Padre na sua fala usou da boa didática do diálogo com a plateia e fez com que os jovens respondessem a algumas perguntas e afirmassem coisas que ele considerava importante. O texto pode ser encontrado em tantos sites, mas o diálogo vivemos os que ali estávamos. Uma palavra do Papa me tocou e com essa palavra voltei para casa: “Jesus Cristo é aquele que dá paixão à vida”. E esta palavra foi confirmada com o canto famosos das Jornadas “Jesus Christ, you are my life” que ficou ressoando no lugar durante muito tempo enquanto bandeiras de todos os países eram agitadas e os jovens voltavam para seus alojamentos e casas.

Até amanhã!

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Diário de Bordo: experiência de misericórdia

 

Por Dom Gilson Andrade da Silva

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador

Cracóvia, 27 de julho de 2016

DSC06318Nosso dia começou com a catequese na paróquia de Santa Jadwiga (Edwiges), às 9h, pregada pelo bispo auxiliar de Belo Horizonte, D. João Justino. Uma Igreja grande que abrigou cerca de 1.500 jovens. A animação da catequese ficou a cargo de membros da comunidade Shalom de Portugal. A catequese na JMJ se estrutura da seguinte forma: durante meia hora o bispo apresenta o tema do dia, sempre ao redor de algum aspecto da Mensagem do Papa para a Jornada, a seguir, os jovens são convidados a apresentar ao bispo perguntas ao redor da apresentação ou sobre assuntos relacionados. O ponto alto da catequese é a celebração da Santa Missa. Durante a catequese e a seção de perguntas estive no confessionário, ouvindo confissões dos jovens brasileiros e portugueses que lotavam a Igreja.

A missa foi no estilo alegre comum às nossas celebrações e o celebrante, D. Levi, bispo auxiliar de Goiânia, falou aos jovens sobre a importância de experimentar a misericórdia no sacramento da penitência como lugar de conversão e de paz e sobre como ter um coração capaz de ser misericordioso com os irmãos.

Ao terminar a missa tive a alegria de encontrar o grupo de jovens que foi com a Comunidade Verbo de Vida das paróquias de Nossa Senhora da Conceição Aparecida de Itinga, Nossa Senhora da Conceição de Periperi, São Caetano e São Cristóvão. Tive a alegria de reencontrar também a Ir. Maria Laura, da Comunidade. Partilhamos rapidamente algumas experiências da Jornada.

Encontrando alguns jovens ao longo do dia foi crescendo em mim a convicção de que a Jornada nos oferece viver experiências muito interessantes, todas elas muito boas, mas nem sempre percebidas assim. Por isso os jovens são convidados nos acontecimentos a perceber Jesus do lado deles, como com os discípulos de Emaús. E a presença de Jesus nos ajuda a ver a novidade de tudo.

Ontem um bispo me dizia que ouviu a pregação de um bispo que dizia: aqueles que dizem que tudo vai mal são ateus, podem até se dizer católicos, mas são ateus. Fiquei pensando nisso, pois a multidão de jovens aqui em Cracóvia que não para de caminhar, mostra que existe sentido, existe direção e que o mundo não está sem saída.

Após a catequese a missa foi na casa paroquial. Uma paróquia grande, com nove sacerdotes para o serviço pastoral. Ali me disseram que 75% das pessoas em Cracóvia vão à missa aos domingos. Acho que será difícil encontrar um paralelo no nosso mundo.

À tarde havia combinado com os peregrinos de Salvador um encontro no Santuário da Divina Misericórdia para a hora da misericórdia, às 15h. Quando lá cheguei fiquei tocado pela quantidade de jovens italianos que lotavam a esplanada do Santuário, mas não só; lotavam tudo. Depois pude ver que os bispos da Itália também estavam lá para celebrar com os seus jovens. Dentro do Santuário uma jovem se aproximou de mim e me pediu que a atendesse em confissão. Logo detectei uma dificuldade: ela falava inglês. Pedi que falasse devagar e acabamos por nos entender.

Esperei nossos peregrinos mas, infelizmente, não nos encontramos. Penso que Nosso Senhor queria que nós o encontrássemos primeiramente e foi o que de fato aconteceu. Fomos em horários diferentes e nos desencontramos, mas encontramos Jesus misericordioso no seu Santuário.

Na volta tive um contratempo com a condução e levei duas horas para voltar para casa. Dessa forma partilhei com os jovens suas caminhadas intermináveis e seu cansaço que renova a força de muitos e entendi que era preciso dar sempre novos passos, mesmo que cansativos e não sabendo bem onde vamos chegar. Sabemos, porém, que Ele vai conosco.

Em vários palcos na cidade estão distribuídos espetáculos, shows, apresentações, entre eles, o Halleluya, da Comunidade Shalom. Um enorme afluxo de jovens peregrinos por todas as partes. Como sempre não param de caminhar e nos estimulam a deixar nossas posições cômodas e sair em busca da novidade que o Senhor prepara para todos.

A grande novidade do dia: a chegada do Papa na Polônia, às 15h50 daqui (10h50 do Brasil) e a expectativa para o primeiro contato com os jovens às 20h, quando o Papa, da janela da sede do arcebispado de Cracóvia.

Nada mais aparecer na janela o Papa quis dar uma notícia triste aos jovens: pediu aos jovens silêncio e comunicou que o jovem que fez todos os desenhos da JMJ, em novembro teve diagnóstico de um câncer e os médicos não puderam fazer nada. Ele queria chegar vivo na visita do Papa, já tinha a passagem para estar no bonde que conduzirá o Papa, mas morreu 2 de julho. O Papa pediu silêncio e que pensássemos neste jovem e que com o coração rezássemos por ele. Assim começou… Certamente nossa Jornada é uma experiência profunda de misericórdia através da dedicação de muitas pessoas que se doam para que os corações sejam tocados.

Confira fotos!

Diário de Bordo: encontrando os jovens pelas ruas, início da JMJ 2016

Por Dom Gilson Andrade da Silva

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador

Cracóvia, 26 de julho de 2016

JMJEste dia marca o início oficial da JMJ Cracóvia 2016. Na famosa Praça do Mercado, em Cracóvia, foi colocado sobre a entrada principal da Basílica de Santa Maria um relógio digital com a contagem regressiva até o início do evento. Hoje, pela manhã, quando passei pelo relógio, indicava 06:23:34. Estávamos a apenas algumas horas do início do maior evento de juventude que alguém conseguiu reunir nos últimos tempos.

A parte da manhã me dediquei a conhecer o centro histórico de Cracóvia, junto com o bispo auxiliar de Belo Horizonte, D. João Justino, e a experimentar a Jornada Mundial da Juventude que acontece pelas ruas.

Descobrir monumentos é visitar a história. Fomos ao coração da história polonesa, visitando o Wawel, um dos complexos arquitetônicos mais valiosos do mundo, onde os nomes gloriosos da história do país deixaram sua marca. E pensava no que aquilo poderia significar para a vida daqueles jovens, de culturas tão diferentes, mas cuja expressão do rosto transparecia o assombro diante da maravilha que a arte humana pode fazer para traduzir sua fé e sua história. A Jornada permite isso, um mergulho de coração aberto na história do outro para se deixar enriquecer por ela.

Pelas ruas da cidade tudo ganhava vida pela presença numerosa e barulhenta dos jovens, agora já munidos dos respectivos gritos de guerra de cada país. Ouvi muito o grito dos italianos: Italiani batti le mani (italianos, batam as mãos). Nem preciso dizer que eram palmas pra todos os lados porque numa JMJ todos se sentem como se fosse membro do outro país que se manifesta. Ao passar os jovens me perguntavam: Are you from?? Você vem de onde? E assim a comunhão se intensificava entre todos preparando as grandes reuniões que começaram no início dessa noite de 26 de julho.

Em dois momentos me aconteceu algo interessante. Cumprimentei brasileiros, facilmente identificados com a bandeira nacional, e para minha surpresa eram pessoas que eu conhecia e que ao dizerem meu nome fixei o olhar e as reconheci. Um inclusive da minha cidade do interior do Estado do Rio.

No percurso feito não encontrei ninguém de Salvador. Certamente estavam por lá, mas a multidão os escondia e apresentava outros rostos, oferecendo assim ocasião para conhecer jovens de outros lugares.

No final da tarde os bispos foram conduzidos por vários ônibus até Blonia, um parque onde se montou a estrutura para alguns eventos da JMJ. Hoje foi o dia da abertura oficial realizada durante a Missa, em honra de São João Paulo II, presidida pelo seu antigo e fiel secretário, o Cardeal Estanislau Dziwisz. Chovia inicialmente, mas nada detinha os jovens. Ondas enormes de jovens passavam com suas capas coloridas rumo ao lugar da Santa Missa.

A celebração foi marcada pela mensagem da misericórdia. Enquanto os bispos entravam se cantava o hino da Jornada. O Cardeal deu as boas vindas a todos e antes de iniciar a missa foram introduzidas as relíquias de São João Paulo II e de Santa Faustina e a chama acesa por São João Paulo II no Santuário da Misericórdia e que se conserva lá até hoje. Um bispo ao meu lado me disse que ao final da Jornada, jovens representantes do mundo inteiro vão levar essa chama da misericórdia para o mundo todo.

Uma celebração marcada pela simplicidade e pela beleza. Um bispo me confidenciou que apesar de não ter entendido uma palavra aquela missa o ajudou a rezar. A experiência de sempre da misericórdia é precisamente a do amor que supera os obstáculos.

Assim vivi eu o dia da abertura da Jornada Mundial da Juventude. Confesso que a cada momento pensava nos nossos jovens e desejei muito que estivesse aqui para partilhar com outros jovens da beleza de sua fé.

 


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