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Artigo: Vamos à cidade?!

No dia de Corpus Christi, Jesus me levou pelas ruas da cidade…

Dom Estevam dos Santos Silva Filho

Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Salvador

 

No dia de Corpus Christi (22 de junho de 2011) na paróquia Nossa Senhora das Candeias, em Vitória da Conquista, da qual era pároco, logo após a comunhão iniciamos nossa procissão. Havíamos decidido levar o Santíssimo Sacramento  em um carro devidamente preparado e ornamentado para  este precioso trajeto. Já havíamos antecipado que todos participariam da procissão de carro (Carreata) utilizando pisca-aleta, buzinas e carro de som. E assim o fizemos.

Em um carro coberto com um formoso tecido chamado  pálio, segurava sobre a mesa ornamentada o ostensório com o Santíssimo Corpo do Senhor.  Fiquei o mais discreto possível para não permitir que com aquelas vestes e capas brilhosas ofuscasse  o esplendor da simplicidade de Jesus Cristo, ali disfarçado de Pão. E assim procurei fazer.

A mesa era larga e na ponta um refletor para iluminar a Jesus, o grande sol. Precisava esticar bem os braços, pois teria que segurar firme o Senhor. Ao passar por quase toda paróquia (prédios, supermercados, condomínios, faculdades, academias, colégios, clubes, etc e etc),  percebi que na verdade não era eu quem  segurava e levava o Senhor, mas, era Ele quem ia esticando meus braços e minhas mãos  e nos conduzia  para que percebêssemos  melhor  aquele  populoso bairro. Assim procurei contemplar o que Ele ia me mostrando.

Detalhes eu ia visualizando, parecia que  era urgente o que  o Cristo queria me mostrar. Mostrou-me prédios populosos com poucas janelas com lâmpadas acesas, talvez por estarem sem habitantes ou porque os mesmos já cansados, não possuíam motivos para acenderem a luz. Vi luzes que também foram acesas e pessoas tímidas e curiosas  tentando entender o que se passava. Desta maneira olhares iam se dirigindo para o “Santíssimo  Móvel”, se assim me permitem chamar.

Pessoas andando, interessante, várias “se benzendo”, outras com discretos olhares. Tenho que admitir que mesmo de dentro dos bares ou restaurantes  não vi  nenhum  desrespeito, no máximo  uma displicência de quem mesmo entendendo que passava o sagrado, já não sabiam como manifestar o seu devotamento com genuflexões ou constantes vênias. Eram pessoas abandonadas pela Matriz que eu via pelas calçadas.

A cidade não parecia que era desconhecida para Jesus. Ele parecia me apresentar aquele bairro como se já o conhecesse e nessa região quisesse visitar a todos. Um cortejo com dezenas de carro pareciam que recebiam  o combustível do ostensório. Ele, quem sabe, querendo dizer a todos os cristãos motoristas  (a maioria eram leigos engajados): “olhem meus desengajados, eles também são meus”. Vejam, parecia nos dizer: “os que não estão na procissão ou não acenderam as luzes eles são batizados, saibam que eu também estou com eles, porque vocês não vão me procurar lá também?  Não foram eles que se esqueceram desta procissãomas, os organizadores desta procissão que se esqueceram deles, por isso estou mostrando para vocês”. Assim, Ele nos mostrava e nos falava pelo caminho.

 

É na cidade que moram as pessoas, é nas pessoas que mora Cristo, é lá que Ele se encontra e foi para lá que Ele nos levou. Ao chegar ao destino final, a capela das Irmãs Sacramentinas,  tapete e sineta  somaram-se  a pequena caminhada até ao Tabernáculo.  Ali receberam a bênção quem estava presente, mas, certamente a bênção se estendeu a quem mesmo distante, Cristo Eucarístico neles estava presente.

Eu vos conheço, vocês são meus, vou tentar despertar meus padres, meu povo e minha Igreja para  me levar a vocês. Todos vocês e a cidade toda são minhas ovelhas, um dia meus discípulos abrirão os olhos para a missão,  entenderão  que a ordem querida e sonhada por mim foi: TOMAI TODOS E COMEI…

Ele nos  levou pelas ruas e avenidas daquele bairro  e chamou a todos de amigos e nos  deu a conhecer a imensidão de nossa missão… Vamos retornar a  cidade, é para lá que Cristo se dirige! Foi nestas ruas que Ele puxando-nos pelas mãos nos mostrou a cidade e nos questionou sobre a missão. Vamos agora levá-lo ao povo da cidade, pois percebi que, não foram eles que se afastaram da Igreja, mas, a Igreja que se afastou dos que estavam  ausentes…

A Cruz de Cristo, o Poço da mulher Samaritana

Dom Estevam dos Santos Silva Filho

Bispo Auxiliar de São Salvador da Bahia 

 

O sol já começa a dar um sinal de sua força, como lá na Samaria, quando Jesus sentado à beira do poço de Jacó, pediu um pouco de água a uma samaritana (Cf. Jo 4, 4-42). O sol do meio dia estava insuportável. Depois daquele diálogo, aquela mulher, que sofrera com cinco maridos, se encheu da água viva.  Bem depressa, ela foi ao encontro da população da Samaria, para levar a tão necessária esperança a sua família. Quem toma da água que é Jesus, não tem como guardar só para si, torna-se missionário…

No dia de São José (Homem Justo), dia também de nossa Caminhada Penitencial, estamos aqui com a mesma sede de Deus que os Samaritanos. Para nós, temos como poço de Jacó, a Cruz de Jesus Cristo, poço de água viva. Nessa quaresma precisamos beber da sabedoria da Cruz, nos inclinar em gesto de adoração para carregá-la.

Diante de nós, uma réplica da cruz que foi erguida em Jerusalém. Apenas uma vaga semelhança, pois, na original se somou a cruz dos crucificados de todas as épocas, inclusive a cruz da Virgem Maria e de todas as mães do mundo.

Na cruz de Cristo está a cruz da humilhação das cuspidas, do abandono, da injustiça, da falta de amor e solidariedade. Só quem carregou ou carrega cruz sabe o que significa a solidariedade da cruz de Cristo. Ele carregou Sua Cruz com dignidade, não a abandonou, não fugiu nem traiu a ninguém, manteve-se fiel. Mostrou-nos como deve agir um filho de Deus, jamais abandonando a cruz enquanto houver irmãos sendo crucificados, colocando-se sempre no meio deles.

O Papa Francisco recordou-nos que Seguir Jesus, mas não assumir a Cruz de Jesus, não torna o católico, por mais religioso que seja, um cristão. Cristão que não enxerga a cruz de Cristo nos outros, que não consegue ver as cruzes carregadas pelos sofredores, não é cristão, é mundano.

A sede de Deus deve-nos fazer enxergar na cruz de Cristo, a cruz de todos os que a carregam com o sofrimento do dia a dia. Por exemplo, a cruz sobre todos os brasileiros com o perigo contido na reforma da Previdência Social.  Cruz do extermínio da juventude e das minorias como os homossexuais, dos exilados e refugiados. Cruz presente nas filas dos hospitais, nas mães desesperadas por tantas e diversas cruzes. Cruz que querem impor a todo custo sobre a juventude, a cruz que as famílias carregam com a imposição da Ideologia do Gênero. A pior de todas as cruzes, a gerada pela corrupção, grande parte dos corruptos se dizem cristãos…

Nesse instante permita-me dirigir-me a Nossa Senhora, aqui, a réplica da Imagem Peregrina de Nossa Senhora Aparecida. Ela veio ao encontro dos filhos há 300 anos. Veio a nossa cidade do Salvador nos ensinar a ter sede de fazer tudo o que Jesus ainda nos pede. Veio nos ensinar a compreender que a sua cor negra, é sinal de solidariedade aos filhos negros, que boa parte ainda hoje carrega a cruz do preconceito e pobreza.

Embora aqui visualizemos Maria com o título de Nossa Senhora Aparecida, recordamos nessa Caminhada Penitencial o primeiro título que Maria recebeu, e recebeu aos pés da cruz: Nossa Senhora das Dores!  Certamente a coroa de espinhos, os pregos e os açoites doeram mais em Maria que em Jesus. A lança que perfurou o coração de Jesus já não doeu em Jesus porque já estava morto. Mas dilacerou o coração de Maria que aos pés da cruz se encontrava.

Ao contemplarmos novamente a cruz e a imagem de Nossa Senhora Aparecida, relembramos a alegria da mulher samaritana, que se encheu de esperança quando, por iniciativa de Jesus, deixou o balde antigo, e com a água viva esparramou a notícia da esperança em todas as direções. No deserto Moisés concedeu água para revitalizar a força do Povo de Deus, nessa Caminhada Penitencial, encontramos finalmente o poço da água viva, que nos introduz nos rastros de Cristo, para nos converter, como os cristãos que têm sede de Deus, os cristãos que com orgulho e firmeza no dia a dia, carregam a cruz atual de Nosso Senhor Jesus Cristo.

A Paixão de Jesus são seus irmãos que carregam cruzes. Paixão de Cristo, Paixão do mundo todo.

Coisas de jovens

Dom Estevam dos Santos Silva Filho

Bispo Auxiliar de São Salvador da Bahia

Referencial Juventude NE3

 

Estimados irmãos,

Iniciamos este artigo falando de sonhos. Apresentamos alguns possíveis de serem detectados em todo documento 85 (Evangelização da Juventude) de forma especial na 8ª Linha de ação: Direito a Vida.

Este breve artigo é em comemoração aos 10 anos da publicação deste documento, revendo como seus sonhos e pistas de  ações continuam atuais.

Em tempos difíceis, sobretudo para a população jovem bombardeada por uma sociedade destruidora de sonhos, cheia de desencantos e descartes, convidamos a voltar o olhar à cidadezinha de Nazaré. Cidade onde Jesus viveu sua infância, adolescência e a juventude, diga-se, com muitos sonhos e encantos, mas também perseguições. Sua família lhe trouxe muita alegria, e, ainda na primeira parte da juventude, o adolescente Jesus tornou-se o chefe da família, já que pela tradição, devido ao falecimento de seu pai adotivo José, ele assumiu importante tarefa no lar.

Eram tempos também difíceis para a família de Jesus.  O Império Romano com seus valores e culturas invadia o quotidiano de Nazaré e de parte do mundo. Porém, a Sagrada Família estava unida em um ambiente de diálogo e recíproca proteção, assim teve força para enfrentar com discernimento as perseguições. A vida ali estava preservada, desde os primeiros anos porque a mãe, Maria de Nazaré, estava centrada na firme missão de proteger a vida do filho Jesus.

Hoje vivemos culturas milhares de vezes mais poderosas e destruidoras do que na época de Cristo, mas o caminho para a preservação da vida continua o mesmo: apegar-se ao que se tem de mais precioso, o núcleo familiar, o porto seguro, a Família! Talvez não a ideal, mas a que Deus concedeu a cada um, a cada jovem. Esta por mais reduzida e complexa que seja, é, e será sempre, a melhor instituição capaz de salvaguardar o maior de todos os direitos: o direito a vida.

O Parágrafo 230 do documento 85 diz: “é necessária uma firme atuação de todos os membros da Igreja no sentido de garantir o direito dos jovens à vida digna e ao pleno desenvolvimento de suas potencialidades”.  Esta afirmação dos bispos nos faz pensar no que disse Jesus em João 10,10: “Eu vim foi para que todos tenham vida e a tenham em abundância”.

Neste mundo conectado, as parcerias, especialmente com a Pastoral da Família, podem encontrar neste expressivo documento, sobretudo na 8ª linha de ação, pistas para relevantes projetos que voltem atenção especial ao que está mais ameaçado hoje: a vida digna, principalmente da nossa juventude.

Ao contemplar a juventude de Jesus em Nazaré, nossa família diocesana e paroquial, por fidelidade ao fundador, necessita abraçar tudo o que for possível, como uma mãe boa e corajosa, para que os mesmos direitos que Jesus obteve, direito de ser feliz com seu pequeno núcleo familiar, sejam uma possibilidade a todos os jovens.

A criação de fóruns entre paroquianos e com eles encontrarem pistas de ação para acompanhamento das políticas públicas, poderá fazer a diferença e, certamente, amenizará, ao menos um pouco, os desafios aos quais não podemos assistir de braços cruzados.

A implantação do Setor Juventude, como é proposta hoje, torna-se a grande estratégia para se encontrar as devidas parcerias, cujo “foco” será sempre questões relativas aos jovens: “direitos a vida digna, educação; trabalho; lazer; renda; cultura; saúde e participação social. Tais comprometimentos nas ‘coisas dos jovens’  sejam sempre o termômetro de uma comunidade discípula missionária”.

Os sonhos propostos neste jubilar documento são sonhos que, se sonhados juntos, ajudarão a responder algumas das múltiplas necessidades de hoje, a exemplo de gerar ações que favoreçam a correta vivência da sexualidade; autocontrole diante do álcool, das drogas; educação em ética e bioética; enfim, que o sonho digno de ser ainda lido, relido e implementado seja vitorioso, pois, o sonho que se sonha junto tende a se tornar realidade.

Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, cantando as Misericórdias de Deus…

Dom Estevam dos Santos Silva Filho

Bispo Auxiliar de São Salvador da Bahia

 

Dentre os vários santos celebrados no mês de outubro, gostaria de destacar Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face.  Teresa de Lisieux, uma freira carmelita francesa, nascida em 2 de janeiro de 1873 e falecida em 30 de setembro de 1897, tornou-se um dos modelos mais venerados de santidade. Conseguiu ser freira com apenas 15 anos, morreu aos 24 anos, mas, revolucionou o mundo com seu jeito simples e apaixonado de falar de Jesus Cristo.

Ela ensinava que Deus se comove perante um pecador, como se comove perante uma criancinha que cai (um filho que se machucou), pois, para ela, Deus só possui três formas de olhar para os pecadores: a) Vendo-os como uma criancinha que se enche de ternura; b) Como um filho pequeno que cai e se machuca c) O filho pequeno que Ele avisou que não caísse.  Ela dizia que olhando para este Deus pode-se entender que Ele é bom e justo e o tempo todo só faz abaixar-se para revelar a sua infinita misericórdia…

Ao estudar a sua vida, podemos compreender o amor de Deus de uma forma absoluta. A diferença não é entre quem pecou e quem não pecou, mas entre quem necessita de amor porque pecou, e quem teve necessidade de mais amor para poder fugir ao pecado. Ela dizia que tem pessoas que ama pouco porque pensa que lhe foi perdoado pouco; há quem ame muito porque sabe que foi muito perdoado; e existe quem ama a Deus loucamente porque sabe que tudo lhe foi perdoado por antecipação, isto é prevenindo para não pecar…

Sua Biografia (autobiografia), narrada em seus diálogos sobre a misericórdia em três livros, escritos que fizeram com que o mundo pudesse conhecer mais a misericórdia de Deus são verdadeiros tesouros para nossa fé. Alguns de seus pensamentos:

QUE DOCE ALEGRIA PENSAR QUE O BOM DEUS É JUSTO. QUE TEM ATENÇÃO E COMPREENDE NOSSAS FRAQUEZAS E QUE CONHECE PERFEITAMENTE A FRAGILIDADE DA NOSSA NATUREZA. PORTANTO DE QUE POSSO TER MEDO? (Ms A, 83v)

Sobre a famosa pequena via, ela escreveu:

DEUS SUPEROU TODA EXPECTATIVA, DESDE QUE DESCOBRI NA SAGRADA ESCRITURA UM CAMINHO BELO E DIREITO, MUITO CURTO, UM PEQUENINO CAMINHO TOTALMENTE NOVO PARA IR PARA O CÉU: DEIXAR-SE LEVAR NOS BRAÇOS DE JESUS (MS C 3R).

Quando um missionário lhe escreve falando de seu medo de não ir para o céu, a freirinha Teresinha escreveu:

SEI QUE É NECESSÁRIO SER COMPLETAMENTE PURO PARA COMPARECER À FRENTE DO DEUS TOTALMENTE SANTO, MAS SEI TAMBÉM QUE O SENHOR É INFINITAMENTE JUSTO, E ESTA SUA JUSTIÇA, QUE ESPANTA TANTAS ALMAS, CONSTITUI O MOTIVO DA MINHA ALEGRIA E DA MINHA CONFIANÇA… EU ESPERO TANTO DA JUSTIÇA DE DEUS QUANTO DA SUA MISERICÓRDIA.

Não demorou muito para que ela fosse canonizada em 1925, e em 1927 o Papa PIO XI a declarou Padroeira das Missões.  Recomendo a leitura do seu diário espiritual: “História de uma alma”, acessível em todas as livrarias católicas, bem como conhecer um pouco mais da sua vida e da vida dos outros santos deste mês de outubro, como São Francisco de Assis, Santo Inácio de Antioquia, São Lucas Evangelista, Santo Antônio de Sant’Anna Galvão, São Simão e São Judas Tadeu.

 

A Palavra de Deus como alimento diário

Por Dom Estevam dos Santos Silva Filho

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador

Um experiente professor em exegese bíblica afirmava que o melhor caminho para tornar-se íntimo com as Sagradas Escrituras era proceder, diariamente, a leitura do evangelho.  Não apenas ler, mas mergulhar nos textos, e, ao menos uma vez por ano, dedicar-se de forma pormenorizada a um dos evangelistas, aprofundando o pensamento nas mensagens dele e até mesmo copiando aqueles versículos mais significativos.

Mesmo percebendo que a ideia de copiar soa como exagerada, sempre transmito essa sugestão em minhas catequeses. Para minha grata surpresa, na paróquia Nossa Conceição, em Valéria, uma senhora de nome Joana Medeiros apresentou-me uma coleção de cópias, feitas com sua própria letra. E ali estavam, cuidadosamente copiados, os evangelhos de Mateus, Marcos, Lucas e João.  E com muita convicção ela declarou: “tomei tanto gosto, que já estou copiando Atos dos Apóstolos”. E acrescentou: “o que passa pelos sentidos, atinge mais profundamente o coração”.

Entendo que parece utópico, em tempos corridos, com pouca dedicação aos hábitos de leitura. Mas, o fato também revela que permanecem sábias as santas palavras: “Ninguém AMA o que não conhece”. Assim, não podemos negligenciar o exemplo de dona Joana que da força de sua simplicidade dá-nos um exemplo de busca que, inicialmente cansativa, culmina por “criar gosto”, conforme disse.

No apelo da modernidade, existem cursos de bíblia pela internet. Alguns exageradamente fundamentalistas e não recomendáveis. Outros, todavia, bastante úteis. Pessoalmente, recomendo os portais católicos, dando destaque à TV Século 21 [Clique aqui].

As paróquias, muitas delas, continuam oferecendo os tradicionais cursos de bíblia, atendendo a demanda de seus paroquianos. Por outro lado, existem grupos que promovem reuniões para estudo da bíblia em suas próprias casas.

Em qualquer modalidade desses encontros, a leitura orante da bíblia é sempre o melhor caminho. A Palavra ilumina a reunião, e a troca de comentários nas reuniões edifica a vida de cada membro.

Às vezes, perguntam-me se devem levar a bíblia para a missa. Não é necessário, respondo, pois durante a missa ouvimos a Palavra de Deus no momento da liturgia da palavra. Ali está não apenas a Palavra de Deus solenemente proclamada conforme consta nos livros sagrados, mas também esclarecimentos feitos pelos celebrantes. Mas… Não podemos nos esquecer dos que não frequentam as missas. Procurar atraí-los a grupos ou círculos bíblicos a fim de evitarmos possíveis equívocos de interpretação.

Algumas pistas:

Os círculos bíblicos são encontros privilegiados, revitalizam vidas, comunidades, ruas, prédios e condomínios. Podem ser encontros semanais em família, no trabalho e com os vizinhos. Não precisa de licença do pároco para começar, basta comunicá-lo para que ele cadastre-o, unindo-o a outros grupos que também fazem o mesmo.  Os encontros podem durar cerca de uma hora e quinze minutos. Primeiro se escolhe o texto (o evangelho do domingo, por exemplo). Alguém deve ler e reler devagar, pausadamente. Cada um diz o que entendeu, uma palavra que chamou atenção e inicia então uma bela partilha que termina sempre com uma oração.

A leitura orante da Palavra de Deus, um método de leitura que ajuda a saborear utilizando alguns passos como: Leitura (pausada e sem pressa do texto); Meditação (refletir bastante sobre a texto); Oração (rezar com o coração o que o texto começa a falar a você ); Contemplar (saborear o que se rezou).

Leitura de um evangelho, cada ano a Igreja privilegia um evangelho em sua liturgia. Este ano até novembro é o Evangelho de São Lucas, a partir do advento será o evangelho de São Marcos que receberá destaque. É importante não fazer uma leitura fundamentalista do texto, mas, uma leitura de Fé. Anotar ou grifar o que deseja aprofundar, lembrando sempre que a Igreja Católica já lê este texto há mais de dois mil anos, ela tem sempre uma compreensão de cada passagem.

Feliz Mês da Bíblia para todos!!!

 

Dízimo e Catequese: um caso verídico do dízimo!

Dom Estevam dos Santos Silva Filho

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador

 

– Padre, a mulher do dízimo disse que não posso fazer meu carnê. Deixa tio, eu fazer meu carnê, tenho 50 centavos que ganhei.

Tanto achei bonito que fiz um sinal ao plantão do dízimo para que fornecesse o carnê àquele desejoso menino de sete anos, que não só se apressou em fazer sua inscrição, quanto esnobou diante da senhora que preenchia o carnezinho, mostrando seu prestígio diante do padre.

Durante o sermão, chamei o menino à frente, falei sobre o interesse dele em ser dizimista, contribuindo apenas com 50 centavos. Todos aplaudiram aquela miniatura de dizimista.

No final da missa, como costume mensal, um brinde foi sorteado entre todos os dizimistas, de forma muito solene e esperada por todos. Uma bela surpresa: o menino Nilson que, no início da missa acabara de fazer o carnê, foi o sorteado, sendo o ganhador no meio de mais de 500 dizimistas, para a alegria dele e os aplausos do povo de Planalto – BA, paróquia em que eu era o pároco.

Ele pareceu dar um salto de capoeira diante do altar, ao receber o quadro de presente, uma “Santa Ceia”, que fez questão de desfilar sob aplauso e comoção de todos, fazendo-nos lembrar as palavras de Jesus: Os últimos serão os primeiros (cf. MT 20,16) e, principalmente: “Deus ama a quem dá com alegria!”( cf. 2 cor 9,7)

E não parou por aí.

Contou-me depois que vendeu o quadro, comprou com o dinheiro sementes para fazer uma horta. Passou a vender o que produzia na horta para tirar com alegria os 10% para o dízimo na paróquia. Coisas de menino! Coisas de cristão!!!

Textos para meditar:

  • “Devolvei integralmente os Dízimos ao tesouro do templo para que haja alimento em minha casa. Fazei a experiência, diz o Senhor dos exércitos, e vereis se não vos abro os reservatórios dos Céus e se não derramo a minha bênção sobre vós muito além do necessário…” (Ml 3,10-12)
  • “Pode um homem enganar a Deus? Pois vocês me enganaram! Vocês perguntam: “Em que te enganamos?” No dízimo e na contribuição.“ (Ml 3, 8)

 

A urgente necessidade de catequistas

Por Dom Estevam dos Santos Silva Filho

Bispo auxiliar da Arquidiocese de São Salvador da Bahia

Após a vinda do Espírito Santo em Pentecostes, surgiram vários ministérios na Igreja. Além dos ordenados (Bispo, Presbítero e Diácono), o Espírito Santo suscitou o ministério dos Catequistas. Esses tinham como missão partilhar os tesouros da genuína doutrina dos Apóstolos aos catecúmenos – isto é, aos que estavam se preparando para o batismo. Séculos se passaram e esse ministério continua atual e necessário para a salvação das almas.

Devido o número limitado de catequistas, acredito que, hoje, mais de 90% das crianças e jovens católicos não estão tendo a graça de se preparar para receber Jesus na Eucaristia, para serem crismados e, mesmo, batizados.  Como católicos, somos convocados a este serviço urgente e, certamente, querido por Deus: a Catequese.

A fé deve encontrar as suas razões e sem a Catequese, lamentavelmente, a ideologia da sociedade atual encontrará caminhos abertos para se impor, trazendo verdadeiros terremotos na vida dos indefesos. Pensemos nos filhos e netos que não mais crescerão em uma família e nação religiosa! Nosso “SIM!” a esta missão se faz necessário e urgente!

Jovens, pais e membros das pastorais, sobretudo da Pastoral da Família, podem e devem se tornar catequistas, sob pena de omissão. Poderão apresentar-se à paróquia ou comunidade, colocando-se à disposição da comissão catequética para contribuírem na iniciação à vida cristã. Inicialmente, em serviços simples, como a arrumação de salas, contando histórias, cantando, ajudando a criar eventos, cuidando da segurança dos pequeninos, como também em atividades de catequese para crianças especiais, como libras, por exemplo, e de esporte, lazer etc.

É importante lembrar que da catequese para a Iniciação Cristã fazem parte: os encontros de preparação para pais e padrinhos, a catequese de crianças para a Comunhão Eucarística, a preparação de adolescentes e jovens para o sacramento do Crisma, a catequese para jovens e adultos, a catequese em parcerias com as escolas etc.

Dou um testemunho: nestes anos de vida eclesial, muito estudei participando de faculdades, conferências, palestras, cursos etc. Confesso que devo ter me esquecido de centenas dessas aulas magnas. Mas, os ensinamentos que escutei de minhas catequistas na infância ainda são referenciais para minha vida. Surgirão da catequese, além de pais e famílias equilibradas, as mais diversas vocações. A Catequese é o futuro da Igreja!

O Catecismo da Igreja Católica, o YOUCAT para os jovens, o Itinerário da Iniciação à Vida Cristã, o Diretório da Catequese, a Vida dos Santos e, sobretudo, a Bíblia nas mãos das crianças e jovens são as maiores riquezas que poderemos semear. A fé dos Catequistas será essencial para a abertura dos corações, pois, como ensinava Santo Antônio: “Quando estou convencido, eu convenço!”.

 

Oração do Catequista

Senhor,

chamaste-me a ser Catequista

na Tua Igreja

e na minha Paróquia.

Confiaste-me a missão

de anunciar a Tua Palavra,

de denunciar o pecado,

de testemunhar,

com a minha vida,

os valores do Evangelho.

É pesada, Senhor,

a minha responsabilidade,

mas confio na Tua graça.

Faz-me Teu instrumento

para que venha o Teu Reino:

Reino de amor e de Paz,

de Fraternidade e Justiça.

Amém

Vamos à cidade?! Ao se aproximar a festa de Corpus Christi, recordei-me a solenidade em 2011

Dom Estevam dos Santos Silva Filho

Bispo Auxiliar de São Salvador da Bahia

Na Solenidade de Corpus Christi no ano de 2011, na Paróquia Nossa Senhora das Candeias (Vitória da Conquista), onde dediquei-me como pároco, logo após a comunhão iniciamos a solene procissão. Fomos com o Santíssimo Sacramento em um carro devidamente preparado e ornamentado para  este precioso trajeto, com faróis de dezenas de automóveis piscando, tocando as buzinas e com potente carro de som.

No veículo coberto com um formoso tecido chamado pálio, segurava sobre a mesa ornamentada o ostensório com  o Santíssimo Corpo do Senhor.  Fiquei o mais discreto possível para que as vestes e capas brilhosas que eu estava paramentado não ofuscassem  o esplendor da simplicidade de Jesus Cristo, que estava na aparência de Pão. Fiquei também recolhido, confesso, pois na avenida mais movimentada da cidade sentia-me um tanto tímido e preocupado de como seria a recepção daquela procissão.

A mesa era larga e na ponta um refletor para iluminar Jesus Cristo, o “grande Sol”. Era preciso esticar bem os braços, porque eu teria que segurar firme o Senhor. Ao passar por quase toda paróquia (prédios, shopping, condomínios, faculdades, academias, colégios, clubes etc.),  percebi que na verdade não era eu quem  segurava e levava o Senhor, mas era Ele quem, puxando meus braços e minhas mãos, nos  conduzia   para que conhecêssemos  melhor  aquele  populoso campo de missão.

Pude compreender a novidade que o Cristo me mostrava: prédios populosos com poucas janelas e lâmpadas acesas, também algumas casas com luzes apagadas. Entretanto vi iluminação e pessoas curiosas  procurando entender aquela expressão pública. Desta maneira, olhares iam se dirigindo em direção ao Santíssimo que ia passando e abençoando a todos.

Pessoas durante a passagem do Santíssimo faziam o sinal da cruz, algumas olhavam discretamente. Não houve sinal de desrespeito, no máximo uma displicência. Muitos não sabiam como se comportar diante do sagrado, eram pessoas batizadas e abandonadas pela igreja matriz que saíam de bares e clubes dezenas delas emocionadas.

Ao chegar ao destino final, capela das Irmãs Sacramentinas,  tapete e sineta  somaram-se  a caminhada até o Tabernáculo. Em seguida todos receberam a bênção do Santíssimo. Parecíamos escutar Cristo Eucarístico dizendo-nos: “Esta bênção chega aos ausentes, que também são minhas ovelhas! Um dia meus discípulos  abrirão os olhos para a missão,  entenderão  que a ordem querida e sonhada por mim foi: TOMAI TODOS e COMEI (Cf Mc 14, 22s),  e por isso não me deixarão preso aos mesmos devotos…”

Até hoje guardo o recado do Senhor, que nos  levou pelas ruas e avenidas daquele bairro  e chamou a todos de amigos, dando-nos  a conhecer a imensidão de nossa missão… Vamos retornar à avenida levando ao menos o Pão da Palavra? É para lá que Cristo se dirige! Foi pelas ruas que Ele, nos puxando pelas mãos, nos mostrou a cidade e nos questionou sobre a missão. Vamos agora levá-lo ao povo da urbi, pois não foram eles que se afastaram da Igreja, mas a Igreja que se afastou dos que estavam ausentes…

CURSO DE BATISMO ou INICIAÇÃO À VIDA CRISTÃ?

“Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19)

+ Estevam dos Santos Silva Filho

Bispo Auxiliar de Salvador

 

Não restava dúvida, os batizados realizados por Sr. Francisco, às margens da rodagem, periferia de minha primeira paróquia na cidade de Iguaí -BA ( 1995), eram, na declaração do meu bispo, ilícitos, porém válidos. Aconselhou-me a conhecer de perto aquela estranha prática de batizar crianças e adultos, na sexta- feira da Paixão.  O objetivo da minha visita era para retificar aquela situação. Verifiquei a idoneidade do ancião que ministrava o referido sacramento. Notório, era venerado por centenas de afilhados, um verdadeiro ícone daquela periferia.

Ao conhecê-lo, rendeu graças a Deus, semelhante ao “velho Simeão” e depois de reservar o dia da primeira celebração da Santa Missa com seus “protegidos”, disse-me, “agora que a Igreja veio até meus netos, posso partir em paz”. Surgiu neste local a comunidade São Francisco com a atuação de missionários da Pastoral de Iniciação Cristã (Pastoral do Batismo na época) que passou a ser uma prioridade na periferia.

Recordo também que nesta cidade, uma mãe com dois filhos procurou-me querendo dispensa do curso de batismo, mas ela foi tão bem acolhida que depois de três anos, fui convidado a ser padrinho de seu filho, tempo que a mesma já era uma das melhores catequistas do batismo.

Cinco anos depois, em outra paróquia (Poções), e ainda muito sensibilizado com aquela lição que me foi dada pelo Sr. Francisco, senhoras de uma área bem desassistida, demonstrando intensa vergonha, aproximaram-se de mim, expressando-se da seguinte maneira: “por que como mães solteiras não podemos batizar os nossos filhos? Pois as mulheres do curso de batismo disseram que nós não poderíamos, por não sermos casadas!”. Ao marcar um encontro com as interessadas, verifiquei pessoalmente que não eram poucas, necessitamos até de um aparelho de som para nos comunicar, e não demorou muito, um “curso de batismo” foi organizado  ali e logo uma capela, uma verdadeira comunidade foi instituída.

Sempre em férias retorno a estes lugares, e verifico a presença viva daquelas comunidades que antes eram um pequeno número de pessoas que viviam afastadas, porém hoje além de possuírem templos bem construídos, são exemplos vivos de convite à conversão pastoral que fui tendo em minha vida de pastor.

Aqui em Salvador, onde a maioria das paróquias não batizam 40 crianças por ano, na Paróquia Cristo Operário, em Castelo Branco, fomos surpreendidos por um charlatão que se apresentou na periferia fazendo-se passar por padre. O mesmo foi ajudado por seus vizinhos a alugar uma garagem e estabelecer uma verdadeira e frequentada Igreja.  Somente foi descoberto, quando os membros depois de sentirem-se lesados nas parcas economias, procuraram a Matriz da paróquia para se informarem. O falso padre desapareceu, mas a comunidade permaneceu e com boas perspectivas de futuro, pois o nosso povo tem fome e sede da Palavra de Deus.

O Diretório Litúrgico-Sacramental da nossa Arquidiocese de São Salvador da Bahia aprovado em 1º de janeiro de 2016, é um excelente revitalizador para todas as “equipes de batismos para pais e padrinhos”. Convida-nos a transformar os “cursos” em “verdadeiras equipes de Iniciação à Vida Cristã”. As indicações contidas neste diretório; conteúdo e Celebrações; Vivência e Apostolado e as indicações do Itinerário da Iniciação à Vida Cristã, são diretrizes que devem ser vistas mais como “remédios acalentadores” do que “diagnósticos desalentadores” (EG). São essenciais para uma revitalização da nossa ação evangelizadora nas secretarias paroquiais e no serviço dos catequistas envolvidos, sobretudo indicando a importante parceria com a Pastoral Familiar.

O parágrafo 17 do referido diretório diz: “Quando houver situações pastorais delicadas em relação ao padrinho e madrinha, sejam os párocos, e não as secretárias paroquiais ou outros, a buscar uma solução”. Na minha experiência de 18 anos de pároco, procurei contar sempre com casais convertidos à missão, que, tão logo eu percebia que era necessário adiar algum batismo, os encaminhava aos pais ou padrinhos que com muita “unção e atenção”, realizavam encontros normalmente nas residências, e sempre encontravam um caminho favorável de acolhimento na comunidade.

O Papa Francisco na sua Exortação Apostólica Evangelli Gaudium (Alegria do Evangelho), tem insistido a considerarmos as possibilidades e não nos desesperarmos com as dificuldades no cotidiano na nossa ação evangelizadora. (EG 49). A Catequese da Arquidiocese já prepara encontros para auxiliar a revitalização destes “cursos” nas diversas paróquias. Acredito que seja urgente a atenção de todos à proposta de um verdadeiro caminho de conversão pastoral, a todos nós, pastores e leigos, para darmos pleno cumprimento ao mandato de Jesus: “todo poder me foi dado (…). Ide, pois, fazer discípulos entre todas as nações, e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (Mt 28,19).


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