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O dom da alegria

Dom Murilo S. R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

“Alegrai-vos sempre no Senhor! Repito: alegrai-vos!” (Fl 4,4). É difícil acreditar que esse convite do apóstolo Paulo à alegria tenha sido escrito não em um momento de sucesso ou de festa, mas quando ele se encontrava na prisão. Não sei o que Paulo escreveria, se vivesse no Brasil de hoje. Tenho minhas dúvidas, contudo, de que se contentasse em aumentar o coro dos pessimistas – isto é, daqueles que são levados pela onda de reclamações, críticas e insatisfações.

Nossos problemas são, reconheçamos, sérios e graves, gerando inquietação e insegurança. Como, pois, ser alegres? De que maneira, para usar a linguagem de Paulo (2Cor 7,4), estar cheios de consolação e transbordar de alegria?

Todos desejam ser felizes. Mas nossa alegria é sempre incompleta e frágil. O homem moderno, que pela técnica consegue multiplicar ocasiões de prazer, não conseguiu, ainda, “fabricar” a alegria autêntica. E, por isso mesmo, tem como constantes companheiros o tédio e a tristeza, a angústia e o desespero, a solidão e o vazio…

A  alegria somente será possível se se  fizer um renovado esforço para que todos tenham um mínimo de segurança, de justiça e bem-estar. Não há alegria em um ambiente onde  falta o sentimento de fraternidade e não se tem uma  visão poética das coisas boas que acontecem ao nosso redor.  Sem um  coração de poeta e  de criança, somos  incapazes de alegrar-nos diante da vida, do amor, da natureza, do trabalho bem feito, do dever cumprido, da partilha, do sacrifício…

A alegria duradoura, que levou Paulo a desejar experimentá-la  mesmo em  meio a  inquietações, passa pela experiência da fé. Experiência que fez o apóstolo e evangelista João exclamar: “Deus é amor!” (1 Jo 4,16 ). E Agostinho lamentar: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei!” (Confissões X, 27).

A alegria é para ser desfrutada por todos. Quando Maria Santíssima a experimentou na casa de Isabel, externou-a  num cântico  em que engrandece o Senhor (Lc 1,46-55). Jesus fez da alegria um tema constante de suas pregações. Lembrou que ela é sentida pela mulher que encontra a moeda perdida e pelo semeador que faz a colheita; pelo homem que acha um tesouro e pelo pastor que reencontra a ovelha extraviada; pelo pai que acolhe o filho e pelos pequenos que recebem a revelação do Reino. O Filho de Deus desejou que sentíssemos  a sua alegria para que, assim, a nossa fosse completa e duradoura (Jo 15,11).

Em meio a nossa crise, precisamos nos recordar de que, assim como só o poeta vê o invisível, ou seja, a essência dos acontecimentos, da natureza e das pessoas, só quem tiver o Espírito de Deus será capaz de saborear a alegria, esse dom que caracteriza os seguidores de Jesus de Nazaré.

Um mistério para ser contemplado

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

Envolvidos, no Brasil, por problemas políticos e econômicos que nos surpreendem a cada dia com novidades e surpresas, somos convidados pela Igreja, neste domingo, a elevar nosso pensamento para o alto. Não se trata de fugir da realidade cotidiana e de nos refugiarmos num mundo seguro. Queremos, sim, olhar para o alto para, então, compreender melhor os desafios que enfrentamos. Essa é a finalidade da solenidade da Santíssima Trindade, celebrada neste domingo.

Normalmente, na Igreja celebramos fatos como, por exemplo, o nascimento de Jesus (Natal), sua ressurreição (Páscoa), a vinda do Espírito Santo (Pentecostes) etc. Na solenidade da Santíssima Trindade não celebramos um fato, mas um mistério.

A palavra “mistério” tem vários sentidos e evoca, no pensamento de muitos, uma realidade oculta, desconcertante ou obscura. No caso da Santíssima Trindade, o sentido é outro: trata-se de uma realidade que a razão humana não consegue penetrar e compreender totalmente, pois ultrapassa a sua capacidade. Não é que Deus não queira nos revelar seus mistérios. Tanto Ele o quer que, primeiramente, nos enviou profetas e homens extraordinários, que nos deixaram palavras belíssimas a Seu respeito (Antigo Testamento); no ponto mais alto da História, ademais nos enviou o Seu Filho (Novo Testamento). A partir da revelação divina, portanto, começamos a penetrar nesse mistério, que é o mais profundo de nossa fé. Apenas “começamos a penetrar nele”, porque, como se trata de uma verdade que é ampla demais para a encerrarmos em alguma definição, acreditamos nela pela autoridade de quem a revelou.

A crença no Deus único em três pessoas (“pessoa” é alguém que tem vida própria e que se relaciona com outras) é a maior novidade do cristianismo. Todas as religiões acreditam em Deus, valorizam os seres humanos, a oração, o jejum, a paz etc. Os pagãos acreditavam em vários deuses; os hebreus, num Deus único; o cristianismo acredita num Deus em três pessoas.

Fique claro: a Trindade é una. Não professamos três deuses, mas um só Deus em três pessoas. Cada uma delas é Deus por inteiro. “Pai”, “Filho”, “Espírito Santo” não são simplesmente nomes que designam modalidades do ser divino, pois são realmente distintos entre si.

Fomos batizados em nome da Trindade (Jesus: “Ide, fazei discípulos e batizai-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”). Começamos e terminamos nossas celebrações em seu nome; rezamos ao Pai, por Cristo no Espírito Santo; repetimos, muitas vezes: “Glória ao Pai, ao Filho, ao Espírito Santo”.

Não tenhamos a pretensão de compreender esse mistério. Fomos criados para viver eternamente com a Santíssima Trindade, numa contemplação que será a razão de nossa alegria.

A verdade vos libertará

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

“Os acontecimentos não nos tornam piores: eles apenas mostram o que somos”. Lembrei-me desse pensamento, extraído do livro “Imitação de Cristo”, de Thomas de Kempis, escrito no séc. XV, ao refletir sobre o momento atual de nosso país.

Quem não tem ficado chocado com as notícias veiculadas a cada dia: desvio de dinheiro; contratos superfaturados; propinas; favores (ilícitos) mútuos; verbas que não chegam a seu destino?… A lista de crimes é enorme e mostra o tamanho da crise ética por que passa nosso país. Como chegamos a esse ponto?, perguntam alguns. Quem poderia imaginar uma situação como essa?, interrogam outros. A verdade não é agradável, mas é a verdade: a corrupção se tornou endêmica. Esse mal não é apenas fruto da ganância de um ou outro grupo; não está circunscrito a um ou outro setor. Parece tratar-se, sim, de um traço cultural de desprezo pelos princípios éticos, cuja prática se difundiu por toda parte.

Mas, e se essa rede de crimes não tivesse sido descoberta? Estaria tudo bem? Seria melhor para o país? Certamente, não. Comparo o momento que vivemos com o de uma pessoa que trabalha, faz planos e anda de um lado para outro, tranquila. Um dia, por um motivo qualquer, resolve fazer um check-up. Feitos os exames, uma descoberta: está com uma doença grave. Teria sentido, nessa hora, culpar o médico que requisitou os exames ou o laboratório que os realizou? O diagnóstico foi providencial; foi o passo necessário para o início do tratamento. Caso contrário, descoberto problema depois, talvez fosse tarde demais.

Realmente, a situação que agora se descobre não nos torna piores. Nosso país está tendo uma excelente oportunidade de recomeçar sua construção, e em bases sólidas. Nada há de mais sólido do que a verdade, pois ela nos liberta, assegurou-nos Jesus Cristo.

Essa reconstrução, contudo, não poderá ser feita a partir da violência. A democracia nos oferece inúmeras formas para expressarmos nossa alegria e apoio, nosso descontentamento e discordância em relação a uma pessoa, grupo ou situação. Ao se apelar para a violência, volta-se ao tempo das cavernas, quando o tacape era a única forma de manifestação. A História já nos demonstrou que a violência gera a violência, que gera mais violência…

Com a violência, todos perdem, todos empobrecem, todos sofrem. Mas alguns perdem, empobrecem e sofrem mais do que os outros: os mais pobres.

Os recentes acontecimentos, que nos envergonham perante o mundo, nos mostram como está o Brasil. Urge, portanto, que nós, brasileiros, nos unamos para construir um novo país. O conhecimento de si próprio, da própria realidade e da verdade, diziam os filósofos gregos, é o princípio da sabedoria. Que aprendamos a lição!

Arte e Fé

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

Continuamente tenho novas surpresas quando o assunto é o patrimônio artístico da cidade de Salvador.  Nem me refiro ao patrimônio cultural em geral, mas àquele que envolve igrejas, imagens e esculturas sacras. Tenho certeza de que soteropolitano algum, baiano algum é capaz de imaginar as riquezas artísticas que existem ao seu redor. É verdade que parte delas sofre com a falta de recursos para restaurá-las – trabalho que é caríssimo, dadas as exigências das leis referentes à intervenção em bens tombados.

Graças a Deus, alguns importantes passos têm sido dados nos últimos tempos. Lembro, por exemplo, a restauração da Igreja de São Pedro dos Clérigos, no Terreiro de Jesus,  e a da igreja que está ali perto, cujo titular é São Domingos de Gusmão. No momento, estão sendo dados os últimos passos na restauração da Catedral, da Igreja do Passo e do Palácio da Sé – obras de uma beleza única.

Mas é sobre outra igreja que desejo escrever: refiro-me àquela dedicada ao Santíssimo Sacramento e à Sant´Ana. Poucas igrejas têm uma história tão rica e obras de arte tão belas como essa.

Construída na metade do século dezoito, foi a primeira igreja erguida na Bahia com materiais e tecnologia 100% brasileiros. Os três principais pintores baianos nela deixaram a marca de sua genialidade: Antônio Joaquim Franco Velasco pintou a nave central; José Rodrigues Nunes, as telas dos quatro evangelistas, que se encontram na capela-mor; e José da Costa Andrade, a sacristia – uma das mais belas de Salvador.

Essa igreja também foi testemunha de fatos históricos relevantes, como o das lutas pela independência, dando  abrigo aos corpos de combatentes tombados nessas batalhas, como foi o caso do Padre Roma e de Maria Quitéria.  No século passado, ela marcou profundamente a vida daquela que se tornaria a Irmã Dulce dos Pobres, cuja família morava nos arredores do templo; ela própria relatou que foi nessa Igreja que ouviu o chamado divino para se consagrar totalmente a Deus e aos necessitados.

Dez anos atrás, os fieis que ali se reuniam sentiram necessidade de trabalhar para a restauração daquele patrimônio que se encontrava gravemente ameaçado. Começou, então, um longo e penoso “calvário” para conseguirem os recursos necessários. Fechada a igreja por motivo de segurança, comandados pelo Pe. José Abel Pinheiro, seu pároco, os voluntários multiplicaram iniciativas, fizeram campanhas, visitaram órgãos públicos etc. Era preciso, ao mesmo tempo, cuidar da parte espiritual, para que a comunidade não se desintegrasse. A perseverança de todos deu resultado: aí está uma igreja que nos mostra o feliz resultado da comunhão entre a arte e a fé. Faça a uma visita, (reze!) e comprove!

Reconhecimento e incentivo

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

Recebi, no último dia 17, a Comenda Dois de Julho, outorgada pela Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, por proposta do Deputado Alex da Piatã. Gostaria de repartir com os leitores de A TARDE as palavras que pronunciei naquela ocasião. Só terei condições, contudo, de apresentar umas poucas observações. Ei-las:

Tais honrarias servem como demonstração de reconhecimento e incentivo. De reconhecimento pelo trabalho desenvolvido aqui pela Comunidade Católica. De incentivo para eu continuar me doando ao maravilhoso povo deste Estado.

Em novembro de 2010 eu soube que o Santo Padre Bento XVI me havia nomeado para esta Arquidiocese.  Nunca alguém me havia dito que isso poderia acontecer; nem me havia imaginado como Arcebispo na capital da Bahia.  Nosso Deus gosta de nos fazer surpresas.

Da cidade de Salvador eu conhecia muito pouco. Uns dois anos antes de minha posse vim participar de um Congresso e, numa tarde, visitei rapidamente a cidade. No final, pensei: Um dia voltarei para cá, para conhecer melhor tanta beleza. Jesus levou a sério esse meu desejo.

Diante da nomeação papal, eu me perguntei: Como vou trabalhar numa região tão diferente da minha? Como serei recebido? O que tenho para levar para os baianos? Lembrei-me, então, de meu lema episcopal “Deus é amor” (1Jo 4,16). E concluí: Trabalhando, um dia, na Bahia, terei um único compromisso: amar aquele povo. E foi o que procurei e procuro fazer, dia por dia.

O que encontrei ao chegar a esta terra? Encontrei belezas naturais sem par. Encontrei uma Igreja que tem uma rica história. Encontrei um povo acolhedor.

Se alguém me perguntasse: O que julga ter sido mais importante em seus trabalhos, nesses seis anos de episcopado em Salvador? Poderia falar de inúmeras iniciativas que tomei, dentro e fora da Igreja. Não quero, contudo, que minha atuação à frente desta Arquidiocese seja contabilizada. Seria muito pobre a vida de uma pessoa que fosse apresentada como um elenco de iniciativas, trabalhos e realizações. Mais importante, para mim, são os desejos que alimentam a vida de uma pessoa. À luz do que lemos no profeta Daniel (12,12), podemos dizer: Bem-aventurados os que têm grandes desejos!  Confesso: desejo ver uma Bahia mais justa e solidária. Uma Bahia de todos.

No meu primeiro artigo dominical no jornal A TARDE, logo após a minha chegada, fiz uma pergunta aos baianos: “Posso entrar?” A partir de então, portas foram sendo abertas, corações acolhedores se apresentaram e eu fico confundido com tanta bondade. Por isso, tenho consciência de que esta homenagem não me torna melhor. Mas estou tendo a possibilidade, sim, de fazer uma inesperada experiência: a de descobrir que meu coração “abaianou-se”.

As Instituições Filantrópicas

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

“A reforma da Previdência, proposta pelo Governo Federal, trouxe à tona o debate sobre o fim da isenção da contribuição para a Seguridade Social de inúmeras entidades, prevista no artigo 195 § 7 da Constituição Federal de 1988. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB reconhece que é necessário, de fato, rever a isenção de algumas entidades, para que elas se justifiquem pelo serviço prestado aos pobres.”

Assim começa a Nota que a CNBB emitiu em defesa da isenção das instituições filantrópicas. É uma resposta aos que propugnam o fim dessas desonerações. Ora, as instituições filantrópicas que prestam reais serviços nas áreas da saúde, educação e assistência social são respeitadas pela sociedade. “Muitas destas instituições estão presentes onde, inúmeras vezes, há ausência do Estado. A isenção não significa doação ou favor, mas uma contrapartida do Estado, ao serviço que lhe caberia prestar aos mais pobres.”

Vejamos em números: existem, no Brasil, 1.400 instituições filantrópicas na área da saúde, mais de 2.100 na área da educação e mais de 5.000 na área da assistência social (cf. Fórum Nacional das Instituições Filantrópicas). Isso significa que 53% dos atendimentos do Sistema Único de Saúde – SUS são feitos por entidades filantrópicas; na educação, são 600 mil alunos que recebem bolsas; já no campo da assistência social, 62,7% de todo atendimento gratuito em assistência social é realizado por essas instituições.

“As entidades filantrópicas, acostumadas a fazer o mais com o menos, são fundamentais para a implementação de políticas públicas e para diminuir desigualdades sociais. Dados dos Ministérios da Saúde, Educação e Desenvolvimento Social e da Receita Federal revelam que, para cada “um real” de isenção previdenciária, a contrapartida pelas entidades é de “5,92 Reais”, ou seja, ‘seis vezes mais do que receberam em desoneração previdenciária’” (CNBB)”.

A maneira como a questão da isenção das entidades filantrópicas é por vezes colocada faz crer que os problemas da Previdência Social têm como causa tal isenção. Ora, na verdade, elas representam somente 3% da receita previdenciária. Quem está à frente de uma dessas instituições pode testemunhar que há uma contínua fiscalização feita pela Receita Federal, para verificar se a entidade preenche os requisitos legais para usufruir da isenção. Mesmo assim, podem estar ocorrendo abusos aqui e ali – abusos que devem ser punidos. O que não se pode fazer é querer resolver um problema (diminuir o déficit do orçamento) criando um outro maior (aumento dos problemas sociais).

Por fim, um convite: visite uma entidade filantrópica. Já prevejo o que, então, acontecerá: tal entidade ganhará mais um benfeitor…

Não nos deixamos abater

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

O momento nacional pode ser visto de vários pontos de vista: o do economista, que se preocupa com o pessimismo do mercado; o do político, que vê seu mandato ameaçado; o do sociólogo, que analisa com frieza fatos e números; o do comunicador, que se surpreende com a quantidade de notícias que precisa divulgar; o do pessimista, que logo conclui que “Esse país não tem mesmo jeito!”; etc. Nós, bispos do Regional Nordeste 3 – que compreende as 22 dioceses do Estado da Bahia e as 3 de Sergipe -, reunidos de 13 a 15 de março p.p., em Salvador, analisamos os acontecimentos com o olhar de pastores. Guiou-nos, nessa análise, o comportamento de Jesus Cristo que, vendo as multidões, encheu-se de compaixão por elas, porque estavam cansadas e abatidas (Mt 9,36).

Não nos moveu, pois, nenhum partidarismo, nenhum sentimento de superioridade, nem qualquer preconceito. Sonhamos, sim, como a maioria do povo brasileiro sonha, com um país justo, fraterno e solidário. Estamos convictos de que o que desejamos é possível de ser concretizado, desde que deixemos egoísmos de lado e nos unamos em um mutirão solidário.

De nossas orações e reflexões nasceu uma mensagem, encabeçada por um depoimento do apóstolo Paulo: “Não nos deixamos abater” (2 Cor 4,16). Os tópicos a seguir são do texto que divulgamos.

“Na convivência de pastores com o nosso povo, percebemos a sua imensa angústia e apreensão diante do que está acontecendo no país: caos na saúde, milhões de desempregados, violência, criminalização dos movimentos sociais, corrupção em vários segmentos, pessoas de duvidosa reputação em postos de comando. Para culminar, as propostas de reformas do Governo Federal, especialmente a previdenciária, ameaçam os direitos sociais adquiridos pela Constituição Cidadã de 1988, penalizando, sobretudo, os mais pobres e vulneráveis.

Compreendemos a necessidade de diversas reformas para aprimorar o Estado Brasileiro, entretanto elas não devem violar direitos adquiridos e os deveres em relação ao bem comum. Conscientes de que somos chamados a ouvir os clamores dos mais necessitados, manifestamos nosso apoio e solidariedade ao povo, às suas organizações e a todas as entidades que lutam em defesa dos mais pobres.

Exortamos os parlamentares a serem sensíveis aos clamores do povo brasileiro. “Ninguém pode se sentir exonerado da preocupação pelos pobres e pela justiça social” (Papa Francisco, EG, 202). Conclamamos nossas comunidades cristãs a se unirem e a não se deixarem abater.

Na comemoração dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, confiantes em sua materna intercessão, pedimos que ela alimente nossos sonhos e sustente nossa esperança”.

Clique aqui e confira a nota da CNBB Regional Nordeste 3 na íntegra!

 

Biomas brasileiros e defesa da vida

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

           

            No início da criação, os seres humanos receberam de Deus a ordem de dominar a terra (Gn 1,28) – ordem de dominar, não de destruir o que estavam recebendo. Pouco a pouco, porém, a humanidade se  esqueceu disso e passou a pensar que era proprietária dos bens recebidos, autorizada, pois, a saqueá-los e destruí-los. Com o tempo, os efeitos da destruição da natureza começaram a se sentir.

Em resposta a isso, há vários anos a Igreja no Brasil, por meio da Campanha da Fraternidade, procura estimular os brasileiros  a  refletirem sobre questões ecológicas. Ela o faz convicta de que é necessário dar uma resposta adequada aos desastres ambientais. A Campanha da Fraternidade de 2017 segue essa linha: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”, e como lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15).

A palavra “bioma” vem do grego: “bio” (vida) e “oma” (massa, grupo ou estrutura de vida). Um bioma é formado por todos os seres vivos de uma determinada região, cuja vegetação é similar e contínua, cujo clima é mais ou menos uniforme, e cuja formação tem uma história comum. No Brasil temos seis biomas: a Mata Atlântica, a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Caatinga e o Pampa. Poucos países do mundo contam com uma riqueza natural dessa grandeza. É hora, contudo, de nos perguntarmos: qual o destino que estamos dando a tantas riquezas, e que Brasil queremos deixar para as futuras gerações?

Como objetivo geral, a Campanha da Fraternidade quer despertar em todos a preocupação de cuidar da criação, especialmente dos biomas brasileiros. Os objetivos específicos são vários: aprofundar o conhecimento de cada bioma, de suas belezas, de seus significados e de sua importância para a vida no planeta; conhecer melhor as populações que nelas vivem e reconhecer seus direitos; compreender o impacto das grandes concentrações populacionais inseridas  nos biomas brasileiros; comprometer as autoridades públicas com esse tema, motivando-as a  assumirem a responsabilidade que lhes cabe, na preservação do meio ambiente; compreender o desafio da necessária conversão ecológica etc.

É preciso superar a tensão entre economia e ecologia. Nem tudo o que é economicamente lucrativo é ecologicamente correto e adequado. O futuro da humanidade, e de todos os seres vivos que habitam a Terra, depende da união de toda a família humana na busca de um nível de desenvolvimento sustentável e integral. “Precisamos de nova solidariedade universal”. Deus nos dará força e luz para conseguirmos isso. “Ele não nos abandona, não nos deixa sozinhos, porque Se uniu definitivamente à nossa terra e o seu amor sempre nos leva a encontrar novos caminhos. Que Ele seja louvado!” (Papa Francisco, LS, 14 e 245).

Bom dia, esperança!

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

Era famosa, na mitologia grega, a figura de Pandora (em grego antigo: “Aquela que possui tudo”), que teria sido a primeira mulher que existiu. Dizia-se que, uma vez criada, Pandora recebeu inúmeros presentes dos deuses, colocados numa caixa. Um dia, inadvertidamente, ela abriu essa caixa e todos os seus bens escaparam, exceto a esperança. Era dessa maneira que os gregos explicavam aquilo que nosso povo traduz com a frase: “A esperança é a última que morre!”.

É incrível a capacidade humana de superar-se diante dos problemas. Avolumam-se os problemas econômicos, cresce o desemprego, multiplicam-se notícias da Lava-Jato… e, quando tudo faria crer que estaríamos diante de pessoas derrotadas, somos surpreendidos pelo sorriso de alguém, ouvimos um “Vamos em frente” de outro ou nos lembramos da mensagem positiva do poeta, consagrada em conhecida canção popular: “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

“A esperança é a última que morre!”. Esperamos que neste ano de 2017 seja encontrada a fórmula ideal para nossos desafios econômicos; esperamos concretizar os inúmeros planos que nos acompanham há anos; esperamos que tenham fim as notícias de corrupção, falcatruas e desonestidades; esperamos que a violência e o medo se tornem apenas lembranças do passado…

A esperança é uma “flor” frágil e delicada, que precisa de muito cuidado, se não será sufocada e não nos mostrará toda a sua beleza. Cada um de nós é chamado, pois, a colaborar para que ela se mantenha viva e forte. Comecemos por nossos relacionamentos familiares, respeitando os que vivem conosco; dialoguemos com as pessoas que encontrarmos, sem querer logo impor-lhes nossas razões; assumamos o compromisso de não valorizar demais pequenos problemas que, muitas vezes, dão origem a grandes desentendimentos.

Para o cristão, a esperança é vista como um dom de Deus. Essa virtude deve animar toda a sua vida, levando-o a caminhar na alegria, mesmo em meio a sofrimentos e provações. O contrário da esperança é o desespero. Dante Alighieri, autor da “Divina Comédia” (século XIV), procurou traduzir isso de forma poética. Ele descreveu que na porta do Inferno há uma placa com a frase: “Vós, que aqui entrais, deixai fora a esperança!”.

A esperança cristã tem um nome: Jesus. Ele, que é a “nossa esperança” (1Tm 1,1), passa por nossos caminhos e nos convida a segui-lo. Por ela, desejamos, como nossa felicidade, o reino dos céus e a vida eterna; pomos nossa confiança nas promessas que ele nos fez e apoiamo-nos não em nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo. Portanto, muito mais do que um bem que ficou no fundo de uma caixa, a esperança é o motor que impulsiona nossos passos. Procuremos cultivá-la!

Descansai um pouco!

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

Os líderes vivem, normalmente, uma vida estressante. Sentem cansaço permanente diante das atividades, desafios e exigências que se multiplicam cada dia. Como dar conta de tudo? Como se atualizar? Como não se cansar? Se um líder não descansa, fica doente; se não se atualiza, fica repetitivo; quando se trata de um líder religioso, se não reza, torna-se uma pessoa sem entusiasmo e alegria.

O problema não é novo e o Evangelho se refere a ele. Jesus quis que os apóstolos saíssem e fossem por toda a parte, para ensinar o que haviam aprendido. Eles partiram e, quando voltaram, contaram o que tinham feito e ensinado. Nesse meio tempo, foi chegando gente de todas as partes à procura de Jesus e dos apóstolos. Vendo, contudo, que os apóstolos estavam cansados e famintos, o Mestre lhes fez uma proposta: “Vinde, a sós, para um lugar deserto, e descansai um pouco!”.  Então, entraram todos num barco e foram para um lugar deserto (Mc 6,30-32).

É necessário que, periodicamente, façamos o mesmo. E, em nosso “deserto”, procuremos responder a algumas perguntas:

1ª – O que estou fazendo, que não precisaria ser feito? Para iluminar nossa reflexão, lembremo-nos da advertência de Jesus, em Betânia: “Marta, Marta, tu te preocupas e andas agitada com muitas coisas…” (Lc 10,41).

2ª – O que estou fazendo, que poderia ser feito por outra pessoa? Facilmente nos julgamos tão importantes que acabamos menosprezado quem trabalha conosco. Pensamos: Ele não saberá fazer este trabalho tão bem como eu! Também aqui Jesus nos ensina: tendo uma multidão faminta diante de si, ordenou aos apóstolos: “Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Lc 9,13). Eles não conseguiram solucionar o problema. Apresentaram-lhe, contudo, cinco pães e dois peixes que, abençoados pelo Mestre, multiplicaram-se, alimentando a multidão. Que alegria para aqueles pobres pescadores, por terem colaborado, mesmo que de forma simples, para a realização do milagre!

3ª – O que estou fazendo, que só eu posso fazer? Após a ressurreição de Cristo, quando perceberam que não poderiam dar conta de todos os trabalhos, os apóstolos escolheram homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, e lhes confiaram a tarefa da distribuição dos alimentos. E completaram: “Deste modo, nós poderemos dedicar-nos inteiramente à oração e ao serviço da Palavra” (At 6,4).

4ª – O que eu deveria fazer, que não estou fazendo? Voltemos a Betânia, e demos a palavra a Jesus: Marta, Marta, “uma só coisa é necessária…” (Lc 10,42).

Somente com uma séria revisão de nossas atividades, e de nossa maneira de enfrentá-las, poderemos dar um passo de qualidade em nossa vida. Se não, seremos submergidos pela rotina, pelos compromissos e pelo cansaço.


Cúria Metropolitana Bom Pastor - Av. Leovigildo Filgueiras, 270 - Garcia, CEP: 40.100-000 - Salvador -Ba. Tel.: (71) 4009-6666 | contato@arquidiocesesalvador.org.br
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