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Não nos deixamos abater

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

O momento nacional pode ser visto de vários pontos de vista: o do economista, que se preocupa com o pessimismo do mercado; o do político, que vê seu mandato ameaçado; o do sociólogo, que analisa com frieza fatos e números; o do comunicador, que se surpreende com a quantidade de notícias que precisa divulgar; o do pessimista, que logo conclui que “Esse país não tem mesmo jeito!”; etc. Nós, bispos do Regional Nordeste 3 – que compreende as 22 dioceses do Estado da Bahia e as 3 de Sergipe -, reunidos de 13 a 15 de março p.p., em Salvador, analisamos os acontecimentos com o olhar de pastores. Guiou-nos, nessa análise, o comportamento de Jesus Cristo que, vendo as multidões, encheu-se de compaixão por elas, porque estavam cansadas e abatidas (Mt 9,36).

Não nos moveu, pois, nenhum partidarismo, nenhum sentimento de superioridade, nem qualquer preconceito. Sonhamos, sim, como a maioria do povo brasileiro sonha, com um país justo, fraterno e solidário. Estamos convictos de que o que desejamos é possível de ser concretizado, desde que deixemos egoísmos de lado e nos unamos em um mutirão solidário.

De nossas orações e reflexões nasceu uma mensagem, encabeçada por um depoimento do apóstolo Paulo: “Não nos deixamos abater” (2 Cor 4,16). Os tópicos a seguir são do texto que divulgamos.

“Na convivência de pastores com o nosso povo, percebemos a sua imensa angústia e apreensão diante do que está acontecendo no país: caos na saúde, milhões de desempregados, violência, criminalização dos movimentos sociais, corrupção em vários segmentos, pessoas de duvidosa reputação em postos de comando. Para culminar, as propostas de reformas do Governo Federal, especialmente a previdenciária, ameaçam os direitos sociais adquiridos pela Constituição Cidadã de 1988, penalizando, sobretudo, os mais pobres e vulneráveis.

Compreendemos a necessidade de diversas reformas para aprimorar o Estado Brasileiro, entretanto elas não devem violar direitos adquiridos e os deveres em relação ao bem comum. Conscientes de que somos chamados a ouvir os clamores dos mais necessitados, manifestamos nosso apoio e solidariedade ao povo, às suas organizações e a todas as entidades que lutam em defesa dos mais pobres.

Exortamos os parlamentares a serem sensíveis aos clamores do povo brasileiro. “Ninguém pode se sentir exonerado da preocupação pelos pobres e pela justiça social” (Papa Francisco, EG, 202). Conclamamos nossas comunidades cristãs a se unirem e a não se deixarem abater.

Na comemoração dos 300 anos do encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, confiantes em sua materna intercessão, pedimos que ela alimente nossos sonhos e sustente nossa esperança”.

Clique aqui e confira a nota da CNBB Regional Nordeste 3 na íntegra!

 

Biomas brasileiros e defesa da vida

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

           

            No início da criação, os seres humanos receberam de Deus a ordem de dominar a terra (Gn 1,28) – ordem de dominar, não de destruir o que estavam recebendo. Pouco a pouco, porém, a humanidade se  esqueceu disso e passou a pensar que era proprietária dos bens recebidos, autorizada, pois, a saqueá-los e destruí-los. Com o tempo, os efeitos da destruição da natureza começaram a se sentir.

Em resposta a isso, há vários anos a Igreja no Brasil, por meio da Campanha da Fraternidade, procura estimular os brasileiros  a  refletirem sobre questões ecológicas. Ela o faz convicta de que é necessário dar uma resposta adequada aos desastres ambientais. A Campanha da Fraternidade de 2017 segue essa linha: “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”, e como lema: “Cultivar e guardar a criação” (Gn 2,15).

A palavra “bioma” vem do grego: “bio” (vida) e “oma” (massa, grupo ou estrutura de vida). Um bioma é formado por todos os seres vivos de uma determinada região, cuja vegetação é similar e contínua, cujo clima é mais ou menos uniforme, e cuja formação tem uma história comum. No Brasil temos seis biomas: a Mata Atlântica, a Amazônia, o Cerrado, o Pantanal, a Caatinga e o Pampa. Poucos países do mundo contam com uma riqueza natural dessa grandeza. É hora, contudo, de nos perguntarmos: qual o destino que estamos dando a tantas riquezas, e que Brasil queremos deixar para as futuras gerações?

Como objetivo geral, a Campanha da Fraternidade quer despertar em todos a preocupação de cuidar da criação, especialmente dos biomas brasileiros. Os objetivos específicos são vários: aprofundar o conhecimento de cada bioma, de suas belezas, de seus significados e de sua importância para a vida no planeta; conhecer melhor as populações que nelas vivem e reconhecer seus direitos; compreender o impacto das grandes concentrações populacionais inseridas  nos biomas brasileiros; comprometer as autoridades públicas com esse tema, motivando-as a  assumirem a responsabilidade que lhes cabe, na preservação do meio ambiente; compreender o desafio da necessária conversão ecológica etc.

É preciso superar a tensão entre economia e ecologia. Nem tudo o que é economicamente lucrativo é ecologicamente correto e adequado. O futuro da humanidade, e de todos os seres vivos que habitam a Terra, depende da união de toda a família humana na busca de um nível de desenvolvimento sustentável e integral. “Precisamos de nova solidariedade universal”. Deus nos dará força e luz para conseguirmos isso. “Ele não nos abandona, não nos deixa sozinhos, porque Se uniu definitivamente à nossa terra e o seu amor sempre nos leva a encontrar novos caminhos. Que Ele seja louvado!” (Papa Francisco, LS, 14 e 245).

Bom dia, esperança!

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

Era famosa, na mitologia grega, a figura de Pandora (em grego antigo: “Aquela que possui tudo”), que teria sido a primeira mulher que existiu. Dizia-se que, uma vez criada, Pandora recebeu inúmeros presentes dos deuses, colocados numa caixa. Um dia, inadvertidamente, ela abriu essa caixa e todos os seus bens escaparam, exceto a esperança. Era dessa maneira que os gregos explicavam aquilo que nosso povo traduz com a frase: “A esperança é a última que morre!”.

É incrível a capacidade humana de superar-se diante dos problemas. Avolumam-se os problemas econômicos, cresce o desemprego, multiplicam-se notícias da Lava-Jato… e, quando tudo faria crer que estaríamos diante de pessoas derrotadas, somos surpreendidos pelo sorriso de alguém, ouvimos um “Vamos em frente” de outro ou nos lembramos da mensagem positiva do poeta, consagrada em conhecida canção popular: “Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”.

“A esperança é a última que morre!”. Esperamos que neste ano de 2017 seja encontrada a fórmula ideal para nossos desafios econômicos; esperamos concretizar os inúmeros planos que nos acompanham há anos; esperamos que tenham fim as notícias de corrupção, falcatruas e desonestidades; esperamos que a violência e o medo se tornem apenas lembranças do passado…

A esperança é uma “flor” frágil e delicada, que precisa de muito cuidado, se não será sufocada e não nos mostrará toda a sua beleza. Cada um de nós é chamado, pois, a colaborar para que ela se mantenha viva e forte. Comecemos por nossos relacionamentos familiares, respeitando os que vivem conosco; dialoguemos com as pessoas que encontrarmos, sem querer logo impor-lhes nossas razões; assumamos o compromisso de não valorizar demais pequenos problemas que, muitas vezes, dão origem a grandes desentendimentos.

Para o cristão, a esperança é vista como um dom de Deus. Essa virtude deve animar toda a sua vida, levando-o a caminhar na alegria, mesmo em meio a sofrimentos e provações. O contrário da esperança é o desespero. Dante Alighieri, autor da “Divina Comédia” (século XIV), procurou traduzir isso de forma poética. Ele descreveu que na porta do Inferno há uma placa com a frase: “Vós, que aqui entrais, deixai fora a esperança!”.

A esperança cristã tem um nome: Jesus. Ele, que é a “nossa esperança” (1Tm 1,1), passa por nossos caminhos e nos convida a segui-lo. Por ela, desejamos, como nossa felicidade, o reino dos céus e a vida eterna; pomos nossa confiança nas promessas que ele nos fez e apoiamo-nos não em nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo. Portanto, muito mais do que um bem que ficou no fundo de uma caixa, a esperança é o motor que impulsiona nossos passos. Procuremos cultivá-la!

Descansai um pouco!

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

Os líderes vivem, normalmente, uma vida estressante. Sentem cansaço permanente diante das atividades, desafios e exigências que se multiplicam cada dia. Como dar conta de tudo? Como se atualizar? Como não se cansar? Se um líder não descansa, fica doente; se não se atualiza, fica repetitivo; quando se trata de um líder religioso, se não reza, torna-se uma pessoa sem entusiasmo e alegria.

O problema não é novo e o Evangelho se refere a ele. Jesus quis que os apóstolos saíssem e fossem por toda a parte, para ensinar o que haviam aprendido. Eles partiram e, quando voltaram, contaram o que tinham feito e ensinado. Nesse meio tempo, foi chegando gente de todas as partes à procura de Jesus e dos apóstolos. Vendo, contudo, que os apóstolos estavam cansados e famintos, o Mestre lhes fez uma proposta: “Vinde, a sós, para um lugar deserto, e descansai um pouco!”.  Então, entraram todos num barco e foram para um lugar deserto (Mc 6,30-32).

É necessário que, periodicamente, façamos o mesmo. E, em nosso “deserto”, procuremos responder a algumas perguntas:

1ª – O que estou fazendo, que não precisaria ser feito? Para iluminar nossa reflexão, lembremo-nos da advertência de Jesus, em Betânia: “Marta, Marta, tu te preocupas e andas agitada com muitas coisas…” (Lc 10,41).

2ª – O que estou fazendo, que poderia ser feito por outra pessoa? Facilmente nos julgamos tão importantes que acabamos menosprezado quem trabalha conosco. Pensamos: Ele não saberá fazer este trabalho tão bem como eu! Também aqui Jesus nos ensina: tendo uma multidão faminta diante de si, ordenou aos apóstolos: “Dai-lhes vós mesmos de comer!” (Lc 9,13). Eles não conseguiram solucionar o problema. Apresentaram-lhe, contudo, cinco pães e dois peixes que, abençoados pelo Mestre, multiplicaram-se, alimentando a multidão. Que alegria para aqueles pobres pescadores, por terem colaborado, mesmo que de forma simples, para a realização do milagre!

3ª – O que estou fazendo, que só eu posso fazer? Após a ressurreição de Cristo, quando perceberam que não poderiam dar conta de todos os trabalhos, os apóstolos escolheram homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, e lhes confiaram a tarefa da distribuição dos alimentos. E completaram: “Deste modo, nós poderemos dedicar-nos inteiramente à oração e ao serviço da Palavra” (At 6,4).

4ª – O que eu deveria fazer, que não estou fazendo? Voltemos a Betânia, e demos a palavra a Jesus: Marta, Marta, “uma só coisa é necessária…” (Lc 10,42).

Somente com uma séria revisão de nossas atividades, e de nossa maneira de enfrentá-las, poderemos dar um passo de qualidade em nossa vida. Se não, seremos submergidos pela rotina, pelos compromissos e pelo cansaço.

Ser cristão em tempo de férias

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

 

As férias anuais são um direito dos trabalhadores. Atualmente, a preocupação de muitos deles não é nem com as férias, mas com o próprio trabalho, já que o desemprego tem sido uma ameaça constante, em toda a parte. Para quem, contudo, tem a possibilidade de usufruir de férias, só a ideia de viajar já é suficiente para alegrar o seu coração. É inato no ser humano o desejo de ir além dos horizontes diários. Em uma época em que os meios de comunicação trazem para dentro de nossas casas as maravilhas do mundo inteiro, torna-se irresistível o desejo de viajar, para conhecer outras pessoas, para admirar outras paisagens, ou para aventurar-se no desconhecido.

Cada final e começo de ano, o litoral baiano acolhe milhares e milhares de turistas. Quem para cá se dirige sonha com umas férias inesquecíveis. Contempla o mar, desejoso de ver o infinito; sobe montes, para ver amplos horizontes; busca a solidão, para ter companhia… Todos estão em busca da felicidade, do paraíso perdido e, mesmo sem saber, do próprio Deus.

As férias são uma excelente ocasião para um encontro com a natureza.  As estrelas do céu, o sol que nasce, a planta com seu colorido, a areia da praia, o mar que é sempre diferente… tudo isso nos identifica com o coração do Salmista, que cantava: “Os céus proclamam a glória de Deus” (Sl 19).

Encontrar Deus, contudo, não é fácil. O mundo em que vivemos não oferece muito um lugar para ele. Construímos uma sociedade que acaba vivendo como se Deus não existisse. Cresce, por outro lado, uma insatisfação generalizada, uma expectativa não bem definida. Espera-se alguma coisa, mas não se sabe bem o quê, nem de que maneira ela virá. Nessa situação, sem perspectivas maiores, assume-se como filosofia de vida aquela vivida por alguns habitantes de Corinto, na época do apóstolo Paulo: “Comamos e bebamos porque amanhã morreremos” (1Cor 15,32).

Para que as férias sejam restauradoras, é preciso haver uma “alma”. Evite-se nelas, pois, tudo o que for desonesto e nocivo, e procure-se uma harmonia entre o descanso físico e as exigências espirituais.

Elas são uma excelente ocasião para o cultivo do silêncio. Não penso, aqui, na simples ausência de barulho, mas na capacidade de cada um escutar a si mesmo, aos outros e a Deus. Então, faremos nossa a descoberta feita por Santo Agostinho (séc. IV): “Tarde te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova, tarde te amei! Estavas dentro de mim e eu estava fora, e aí te procurava… Estavas comigo e eu não estava contigo… Mas Tu me chamaste, clamaste e rompeste a minha surdez. Brilhaste, resplandeceste e curaste a minha cegueira.”

É tempo de férias. É tempo de um encontro especial conosco, com os outros, com a natureza e com Deus.

Viver na era da pós-verdade

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

Anualmente, a Universidade de Oxford elege uma palavra que defina aquele ano. No final de 2016, o termo escolhido foi “pós-verdade” (“post-truth”), empregado já em 1992 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich. Nem o Aurélio, o Houaiss ou o Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa, da Academia Brasileira de Letras, registra essa palavra. Por ela procuram-se definir circunstâncias nas quais os fatos objetivos têm pouca importância. O que vale são os apelos à emoção e a crenças pessoais. A verdade como tal estaria, pois, perdendo sua importância; o fato torna-se secundário; importante são as reações – isto é, como o fato é recebido e que emoções ele desperta.

É grave uma situação em que se deixa de levar em conta a distinção entre o certo e o errado, o bom e o mau, o justo e injusto, os fatos e as versões, a verdade e a mentira. Entra-se, então, numa era em que predominam as avaliações fluidas, as terminologias vagas ou os juízos baseados mais em sensações do que em evidências. Passa a ser verdade aquilo de que gostamos, que escolhemos e difundimos, torcendo para que tenha a maior repercussão possível.

O que muito contribui para o avanço daquilo que a palavra “pós-verdade” representa são as novas tecnologias de informação e comunicação. Tudo é imediatamente transmitido, repartido e globalizado. Não há mais tempo para se checar se o que recebemos é verdadeiro; o importante é que seja o quanto antes partilhado e multiplicado. Mentiras são construídas de forma sofisticada, com ares de verdade, e são difundidas por um exército de simpatizantes. Com isso, o bom nome de muitos é destruído de forma rápida e cruel – pior, a difamação é envolvida por um ódio que assusta. Voltaire entendia disso: “Menti, menti, que alguma coisa permanecerá!”. Goebbels, chefe da propaganda nazista, dizia algo semelhante: “Uma mentira repetida mil vezes vira verdade”. Não é segredo para ninguém que as redes sociais são um campo aberto e fértil para a difusão de histórias e “fatos” que não precisam ser comprovados; basta que sejam bem apresentados.

Tendo ouvido Jesus lhe afirmar “Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade; todo aquele que é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18,37-38), Pilatos lhe perguntou: “O que é a verdade?”. Mas o governador romano não estava interessado na resposta; tanto assim que, feita a pergunta, afastou-se. Venceu a mentira e um inocente foi condenado.

Pode-se aplicar à palavra “verdade” o que Cecília Meireles aplica à palavra “liberdade”: “não há ninguém que a explique e ninguém que não a entenda”. O mundo precisa de pessoas que sejam verdadeiras no agir e no falar – inclusive, e principalmente, no uso das redes sociais.

Nasceu para nós um menino

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia

 

“Nasceu para nós um menino” (Is 9,5), anunciou o profeta Isaías. “A graça de Deus se manifestou” (Tt 2,11), proclamou o apóstolo Paulo a Tito. “Eu vos anuncio uma grande alegria… nasceu para vós um salvador” (Lc 2,10-11), disse o anjo, aos pastores de Belém. Eis três maneiras diferentes de falar da noite de Natal.

O evangelista Lucas refere-se à viagem feita por Maria e José a Belém, por causa do recenseamento ordenado pelas autoridades e lembra palavras de incentivo do anjo aos pastores: eles não deveriam ter medo; ao contrário, eram convidados a experimentar alegria, por serem lembrados e amados por Deus.

Não nos sentimos satisfeitos, contudo. Celebrando o Natal deste ano de 2016, queremos mais. Desejamos penetrar na essência dessa festa. Em vista disso, procuramos experimentar o que sentiram Maria e os pastores, naquela noite memorável.

      Quando tomou o Menino Jesus em seus braços, Maria fez uma experiência única: sabia que aquela criança era sua; mas sabia, também, que o recém-nascido era sobretudo do Pai. Ela, que costumava guardar tudo em seu coração, jamais se esqueceu da noite em que, numa gruta de Belém, podia adaptar para si a expressão profética de Isaías: “Nasceu para mim um menino”.

      Os Pastores, por sua vez, fizeram a experiência da glória do Senhor, que os envolveu em luz; viram e ouviram um anjo, anunciando-lhes uma alegre notícia. Sabiam não ter nenhuma importância na sociedade; tanto, que nunca alguém olhou para eles. Por que Deus, então, olharia? Só havia uma maneira esclarecerem essa dúvida e saber se estavam sonhando ou não: ir ao local indicado, para verificarem se naquela noite realmente havia nascido o Salvador, o Cristo Senhor. Foram, viram e passaram a cantar as maravilhas de Deus.

Neste Natal de 2016, nós é que estamos diante de Jesus. Sua presença silenciosa no presépio é um grito que deve penetrar em nossos corações: somos amados, somos muito amados pelo Pai do céu – tanto, que Ele nos deu seu Filho único.

No Natal, Jesus não destaca sua grandeza ou seu poder divino; ele se mostra como aquele que é capaz de se humilhar para entrar em comunhão conosco. Depois disso, como não amar cada pessoa que é amada por ele e que, como nós, é um seu irmão ou uma sua irmã?

No Natal, o Filho de Deus se faz pequeno e pobre. Uma vez que estamos cercados de pobres e pequenos, de pessoas carentes – carentes de pão, de carinho, de atenção e de amor – podemos ir ao encontro do Senhor e acolhê-lo em nosso coração. Assim, a graça do Natal se perpetuará em cada dia de nossa vida.

Neste Natal, como Maria, somos convidados a buscar a vontade de Deus; como os pastores, a maravilhar-nos com sua misericórdia. Afinal, “nasceu para nós um menino!”

Aborto: uma questão religiosa?

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

Numa entrevista dada ao jornal “O Estado de S. Paulo” (01.12.2016), a respeito da decisão da 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal que, no dia anterior, entendeu que não é crime a interrupção da gravidez até o terceiro mês de gestação, o ministro Luís Roberto Barroso falou sobre o aborto: “A decisão procura fazer com que cada pessoa possa viver a própria crença e convicção… [O Estado] deve permitir que cada um viva a própria crença… Se você utiliza um argumento religioso, você exclui do debate quem não compartilha do mesmo sentimento religioso.”

Para mim, aqui está um ponto que, pela sua gravidade, merece uma reflexão: julgar  a questão do aborto como se esse tema fosse  apenas de ordem religiosa. É verdade que a Igreja Católica sempre defendeu a vida, reafirmando que a vida humana começa a existir a partir do  momento da concepção. Aliás, por que razões ela começaria a partir dos noventa dias de gestação? Por que o aborto não seria crime no – por exemplo – 87º dia de gestação e seria no 95º? O que aconteceria no 90º dia para afirmar que abortar antes não seria matar uma pessoa e abortar depois o seria?

A Embriologia nos ensina “que o desenvolvimento do embrião é regulado por propriedades próprias, ou seja, é um crescimento contínuo, interno, coordenado e gradual. Ele é um “ser” totalmente diferente da mãe. O que a mãe oferece é apenas o ambiente adequado (útero) e os nutrientes necessários para ele se desenvolver. O embrião “está” na mãe, mas não é da mãe nem uma parte dela, assim como um recém-nascido não é da mãe” (G. Cipriani).

A sociedade e suas instituições devem estar sempre a serviço do ser humano. Existe um conjunto de direitos (“direitos humanos”) que ninguém pode restringir; cabe à sociedade, pois, o dever de proteger cada ser, seja qual for o seu estágio de desenvolvimento, pois o primeiro e mais importante direito de uma pessoa é o de viver e de conservar a sua vida. Estamos aqui, pois,  diante de um bem fundamental, que é condição para que  os demais direitos também sejam garantidos.

Numa recente Nota (“Em defesa da vida”), a CNBB afirma  que “respeita e defende a autonomia dos Poderes da República. Reconhece a importância fundamental que o Supremo Tribunal Federal (STF) desempenha na guarda da Constituição da República. Discorda, contudo, da forma com que o aborto foi tratado num julgamento de ´Habeas Corpus´, no STF”. Além de reafirmar sua incondicional posição em defesa da vida humana, a CNBB condena toda e qualquer tentativa de liberação e descriminalização da prática do aborto.

O que fazer? Devemos rezar  por causa deste momento que estamos vivendo, para que Deus ilumine a todos e, sempre que pudermos, manifestar nossa opinião em defesa da vida humana, desde a sua concepção. Deus nos propõe a vida e a morte. Que Ele nos ajude a escolher a vida (cf. Dt 30,19).

Jogos de Azar

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia

Primaz do Brasil

 

Um amigo meu fez uma excursão às Cataratas do Iguaçu. À noite, ele e os membros de seu grupo receberam uma proposta: atravessar a Ponte da Amizade, para conhecer um Cassino no Paraguai. Um carro, do próprio Cassino, foi pegá-los no hotel. Gentileza da casa… Eles foram, viram, jogaram e perderam. Quando retornavam para o lado brasileiro, esse meu amigo fez uma pergunta ao motorista que os conduzia: “Há quanto tempo você faz esse serviço?”. A resposta saiu rápida: “Há cinco anos!”. Nova pergunta: “Nesses cinco anos, você levou de volta para o hotel alguém que tenha ganhado muito dinheiro lá no Cassino?”  Tivesse perguntado se os marcianos também vão ao Cassino a pergunta não teria causado tanta surpresa ao condutor. “Alguém que ganhou muito dinheiro? Nunca!”. Foi um “Nunca” arrastado, acentuado, num tom elevado.

Essa é a história que se repete em cada Cassino, de qualquer país. Ora, não bastassem os problemas que o Brasil enfrenta – preciso elencá-los? Problemas econômicos, sociais, políticos etc. -, querem agora, “a toque de caixa”, e “na surdina da noite” (desculpem-me esses lugares comuns!), aprovar a legalização dos jogos de azar no Brasil. Sim, aí está, e em avançada tramitação na Câmara dos Deputados e no Senado Federal, o PL 442/91 e o PLS 186/14.

A CNBB se posicionou contra esse projeto, numa nota de 16.11.16 – que pode ser encontrada facilmente na internet [Confira aqui].

São muitos os argumentos defendidos pelos que defendem a legalização dos jogos de azar: aumentará a arrecadação de impostos, favorecerá a criação de novos postos de trabalho e contribuirá para tirar o Brasil da atual crise econômica. Tais defensores não se têm manifestado a respeito da possível associação dos jogos de azar com a lavagem de dinheiro e o crime organizado.

Mais uma vez, o que se vê? “A falta de uma discussão aprofundada da questão e a indiferença de muitos, frente às graves consequências da legalização dos jogos de azar no Brasil.”

Está provado que o jogo de azar “traz consigo irreparáveis prejuízos morais, sociais e, particularmente, familiares”. O Código Internacional de Doenças da Organização Mundial da Saúde considera o jogo compulsivo uma doença. “As organizações que têm o jogo como negócio prosperam e seus proprietários, os “senhores do jogo”, se tornam cada vez mais ricos. Nosso país não precisa disso!”

É bom lembrar que a autorização dos jogos de azar não tornará esses jogos bons e honestos. Aliás, vale aqui a observação de Jesus: uma árvore má não pode dar frutos bons (cf. Mt 7,18).

Manifeste-se, pois, aos Deputados Federais e aos Senadores. Peça-lhes, suplique-lhes e insista para que seu voto não seja um desprezo por nossas famílias e seus valores fundamentais.

A presença dos que partiram

Dom Murilo S. R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

Por causa do dia de Finados, neste mês de novembro temos um apelo e uma motivação maior para fazer uma avaliação de nossa vida. Uma das características principais do ser humano é justamente essa: ser capaz de refletir sobre si mesmo e sobre tudo aquilo que o rodeia. Se aceitarmos o desafio de “olhar para trás”, surgirão, diante de nós, lembranças, de acontecimentos e, principalmente, de rostos e nomes. Iremos recordar nossos pais e irmãos, amigos de infância e colegas de escola, companheiros de trabalho e pessoas que talvez tenhamos encontrado poucas vezes no correr dos anos, mas que, mesmo assim, deixaram em nós marcas profundas. É possível que nem todas essas pessoas continuem presentes em nossa vida. Falo da presença física, palpável, que nos permite olhá-las, dar-lhes um sorriso e manifestar-lhes a nossa amizade. Talvez um parente ou amigo tenha viajado para longe e, com isso, perdemos o contato com ele. Ou então, por causa de estudos ou emprego, nós é que nos mudamos para cidades ou países distantes, perdendo o contato com inesquecíveis amigos. Pode também ter acontecido que a realidade da morte se tenha imposto, obrigando-nos a nos convencer de que não haverá mais o reencontro desejado com tais pessoas. Então, uma luz irá surgindo, uma verdade irá impor-se: as pessoas que amamos e perdemos já não estão onde estavam, mas onde estamos.

Tais pessoas encontram-se presentes não somente em nossas lembranças, mas também nas ideias que defendiam e que assimilamos; presentes em nossas horas de alegria, de trabalho ou naquelas em que enfrentamos desafios. Como essas lembranças nos fazem bem! Como é agradável sentir que não estamos sozinhos e que o passado deixou marcas positivas em nós!

Não há estátuas dessas pessoas que foram importantes para nós e que muito nos influenciaram; elas não ganharam ruas com o seu nome; ninguém se preocupou em escrever sua biografia. Para nós, isso nem é necessário, pois tais honrarias não mudariam o conceito que temos delas – poderiam, até, nos decepcionar, pois jamais conseguiriam exprimir a importância que elas tiveram e têm para nós. Parece até que, à medida que o tempo passa, mais e melhor percebemos seu valor.

Para quem tem fé, a recordação do passado se enriquece com a certeza de que, em Deus, tudo adquire um sentido novo, um valor e uma dimensão que o tempo não destrói. A certeza da eternidade – quando, se tivermos sido fieis ao Evangelho, estaremos junto da Santíssima Trindade e ao lado das pessoas que foram importantes para nós –, essa certeza, longe de ser uma fuga, se impõe como uma resposta adequada para a fome de infinito que há em nós. Sentimos que seria absurda uma vida que se resumisse no aqui e agora. Como aceitar que, um dia, com nossa morte, fossem morrer também nossos sonhos? Que a insatisfação que nos acompanhou ao longo da vida não terá resposta? Foi à luz dessas perguntas que Santo Agostinho observou, numa prece dirigida a Deus: “Criaste-nos para ti, Senhor, e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em ti”.

Se as pessoas que amamos e perdemos não estão onde estavam, mas onde estamos, como não agradecer ao Senhor por tê-las colocado em nossa vida? Certamente, não aceitaríamos trocar tais presenças e suas recordações por nada deste mundo. Ou, dito isso com palavras que se tornaram clássicas: “Se procuro entre minhas lembranças as que deixaram um gosto durável, se faço um balanço das horas que valeram a pena, certamente só encontro aquelas que nenhuma fortuna no mundo ter-me-ia presenteado” (Exupéry).

Se é verdade que em nossa vida sempre falta alguém, não menos verdade é que nela há presenças tão ricas, fortes e positivas que nos levam a olhar o mundo e nossos contemporâneos com esperança e otimismo.


Cúria Metropolitana Bom Pastor - Av. Leovigildo Filgueiras, 270 - Garcia, CEP: 40.100-000 - Salvador -Ba. Tel.: (71) 4009-6666 | contato@arquidiocesesalvador.org.br
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