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Uma nova diocese

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

 

Quando foi criada, em 1551, a Diocese de São Salvador da Bahia tinha o tamanho do Brasil – isto é, 8.516.000km². O primeiro desmembramento aconteceu somente em 1676, com a criação das Dioceses de São Sebastião do Rio de Janeiro e de Olinda (hoje: Olinda e Recife). Isso significa que, do ponto de vista da organização católica, durante 125 anos havia somente uma diocese brasileira; todo o país estava sob a dependência da nossa. Hoje, entre arquidioceses, dioceses, prelazias etc., o Brasil conta com 276.

No último dia 22 de novembro, o Papa Francisco criou uma nova diocese e aqui, perto de nós: a Diocese de Cruz das Almas, antigo sonho das comunidades do Recôncavo Baiano. Desmembrada da Arquidiocese Primaz, ela terá como padroeira Nossa Senhora do Bom Sucesso. Dela farão parte os municípios de Cruz das Almas, Cabaceiras do Paraguaçu, Cachoeira, Governador Mangabeira, Maragogipe, Muritiba, Santo Amaro, São Félix, Sapeaçu e Saubara.

Para primeiro bispo diocesano, o Papa nomeou Dom Antonio Tourinho Neto, até então Bispo Auxiliar de Olinda e Recife. Baiano de Jequié, ele tomará posse como 1º Bispo Diocesano, no dia da instalação da nova Diocese: 28 de janeiro de 2018.

Em sua saudação aos novos diocesanos, Dom Tourinho lhes assegurou: “Irei como pastor desta porção do Povo de Deus, tendo em vista um princípio: fazer-me servo por amor, pois creio que ´O amor vence tudo´. Levo comigo as palavras do Papa Francisco, dirigidas aos bispos (…): ´O episcopado é um serviço, não é uma honra para se vangloriar (…). Este ministério não se procura, não se pede, não se compra, mas se acolhe em obediência, não para se elevar, mas para se rebaixar, como Jesus que se humilhou, fazendo-se obediente até a morte e uma morte de cruz (Fl 2,8).´ Encontro-me de coração aberto e disponível para atender, na medida do possível, a solicitação de todos, sem distinção.

Tenho ciência de que preciso conhecer a realidade local e depois, em espírito de unidade, tendo Jesus em nosso meio e, pelo impulso do Espírito Santo, construirmos o rosto pastoral da nossa recém-criada Diocese, respeitando as experiências positivas já existentes, em comunhão com a ação evangelizadora da Igreja no Brasil.

Agradeço imensamente a Arquidiocese de São Salvador da Bahia pela generosidade em doar uma parte do seu território para que se constituísse uma nova Diocese em terras baianas. Deus há de recompensá-la infinitamente.”

De minha parte, saúdo Dom Tourinho: “Bendito o que vem, em nome do Senhor!”, agradeço ao Papa Francisco por sua iniciativa e felicito os fiéis da nova Diocese. Peço a Deus que ela comece sob a luz de Cristo. Nem todos veem essa luz. Cabe-nos a tarefa maravilhosa e exigente de ser seu reflexo.

Intolerância e fundamentalismo

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

 

“Diante de recentes fatos que, em nome da arte e da cultura, desrespeitaram a sexualidade humana e vilipendiaram símbolos e sinais religiosos, dentre eles o crucifixo e a Eucaristia, tão caros à fé dos católicos”, a CNBB dirigiu, na semana que passou, uma mensagem ao povo brasileiro. As frases abaixo são dessa mensagem.

Em toda sua história, a Igreja sempre valorizou a cultura e a arte, por revelarem a grandeza da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, fazendo emergir a beleza que conduz ao divino. “A arte é como uma porta aberta para o infinito, para uma beleza e para uma verdade que vão mais além da vida quotidiana” (Bento XVI).

Reconhecemos que “para transmitir a mensagem que Cristo lhe confiou, a Igreja tem necessidade da arte” (São João Paulo II – Carta aos artistas, 1999). Somos, por isso, agradecidos aos artistas pela infinidade de obras que enriquecem a cultura, animam o espírito e inspiram a fé. Arte e fé devem caminhar unidas, numa harmonia que respeita os valores e a sensibilidade de cada uma e de toda pessoa humana na sua cultura e nos seus valores.

Lamentavelmente, crescem em nosso meio o desrespeito e a intolerância que destroem esta harmonia, que deve marcar a relação da arte com a fé, da cultura com as religiões. Se, por um lado, a arte deve ser livre e criativa, por outro, os artistas e responsáveis pela promoção artística não podem desconsiderar os sentimentos de um povo ou de grupos que vivem valores, muitas vezes, revestidos de uma sacralidade inviolável. O desrespeito e a intolerância, por parte de artistas para com esses valores, fecham as portas ao diálogo, constroem muros e impedem a cultura do encontro. Preocupam, portanto, o nível e a abrangência destas intolerâncias que, demasiadamente alimentadas em redes sociais, têm levado pessoas e grupos a radicalismos.

Vivemos numa sociedade pluralista, por isto, precisamos saber conviver com os diferentes. Isso, contudo, não subtrai à Igreja o direito de anunciar o Evangelho e as verdades nele contidas, a respeito de Deus, do ser humano e da criação. Em desacordo com ideologias como a de gênero, é nosso dever ressaltar, sempre mais, a beleza do homem e da mulher, tais como Deus os criou, bem como os valores da fé, expressos também nos símbolos religiosos que, com sua arte e beleza, nos remetem a Deus. Desrespeitar estes símbolos é vilipendiar o coração de quem os considera instrumentos sagrados na sua relação com Deus, além de constituir crime previsto no Código Penal.

Animamos a sociedade brasileira a promover o diálogo e o encontro, por meio dos quais as pessoas, em suas diferenças, respeitam e exigem respeito, e permitem sentir a riqueza que cada um traz dentro de si.

Ensino religioso escolar

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

            Recentemente, os meios de comunicação deram destaque ao julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal – STF, da Ação Direta de Inconstitucionalidade n.º 4.439/2010. Tal ação tinha como autor o Ministério Público Federal – MPF e o apoio de algumas entidades. Seu objetivo era que o STF declarasse inconstitucional o artigo 11, §1.º, do acordo Brasil – Santa Sé (Decreto n.º 7.107/2010) e desse uma nova interpretação ao artigo 33, §§ 1.º e 2.º da LDB, para se compreender que o ensino religioso mencionado na Constituição Federal (artigo 210, §1.º) refere-se ao ensinamento da história e da doutrina das várias religiões, sob  perspectiva laica, isto é, secular.

O STF, no dia 27.09.2017, por maioria – 6 a 5 -, julgou improcedente o pedido do MPF, declarando, em consequência, a constitucionalidade do acordo Brasil-Santa Sé. Assim, à luz do artigo 210, § 1.º da Constituição da República, o ensino religioso pode ser ministrado com caráter confessional, vale dizer, com aulas de catolicismo para os alunos católicos, com aulas de protestantismo para os alunos protestantes, com aulas de judaísmo para os alunos judeus etc.

Na prática, o que isso significa? Significa que, embora seja um Estado laico, o Brasil não se reconhece como um Estado ateu. Ele respeita a liberdade de crença a tal ponto que permite que, numa escola pública (isto é, numa escola que se mantém com o dinheiro de impostos pagos pelos cidadãos), a religião de cada aluno seja respeitada. Aliás, fique claro: nenhum aluno será obrigado a assistir a aulas de religião, nem de sua própria. Quem insinua, pois, que agora os alunos serão obrigados a assistir a tais aulas e que os professores de religião farão sua cabeça, doutrinando-os sem lhes dar liberdade de escolha, ou faz essa afirmação por ignorância (isto é, não leu os textos referentes à matéria) ou insiste nessa afirmação por má fé (contra isso, não há argumento que convença).

Como observou o Dr. Sarubbi Cysneros, “o que prevaleceu na histórica decisão do STF foi a liberdade e não a proibição. O Acórdão do Supremo protege o direito de quem crê e de quem não crê”. Defendemos que os pais são os primeiros responsáveis pelas crianças e por sua formação. Por que o Estado não poderia ajudá-los na formação de seus filhos?

Agora, definida essa questão, há todo um trabalho pela frente: organizar o ensino confessional nas escolas públicas. Para isso, certamente, todas as religiões serão chamadas a dar sua preciosa contribuição, convictas de que o Estado brasileiro é leigo e, por isso, não pode se intrometer no conteúdo da religião. Mas não é ateu, por isso não pode propagar o ateísmo ou a irreligião, que também são formas de religião.

Enfim, prevaleceu o bom senso.

Aparecida: uma história de amor

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

 

Se alguém sair por aí perguntando: “Quem foi Pedro Miguel de Almeida Portugal e Vasconcelos?”, provavelmente ouvirá como resposta uma outra pergunta: “Quem?…” Esse português, nascido no século XVI, é mais conhecido pelo seu título de nobreza: “Conde de Assumar”. Seu nome é lembrado quando se conta a história do encontro da imagem que hoje chamamos de Aparecida – melhor, de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

Vamos aos fatos. Era o mês de outubro de 1717. O Conde de Assumar iria passar pela localidade conhecida com o nome de Guaratinguetá, no estado de São Paulo. Viajavam com ele muitos outros portugueses, a caminho de Vila Rica, em Minas Gerais, pois o rei de Portugal lhe havia confiado uma desafiadora missão: ser seu representante, para garantir que um quinto do ouro que viesse a ser encontrado por qualquer pessoa ou grupo fosse enviado para Lisboa, sede do reino português.

Por onde passava, a caravana era recebida com homenagens e fartos almoços. Não poderia ser diferente pois, em Guaratinguetá, situada à margem do Rio Paraíba. Era natural que ali, nas refeições, o peixe fosse o prato principal. Mas era preciso pescá-lo!

Três pescadores – Felipe Pedroso, Domingos Martins Garcia e João Alves – foram ao rio e começaram as tentativas para garantir a refeição. Não sabemos muitos detalhes dessa pesca. O que sabemos é que, de repente, na rede havia o corpo de uma imagem; em seguida, foi encontrada a cabeça da mesma imagem de cerâmica, enegrecida pelo lodo.

Essa imagem ficou por quinze anos na casa de um deles  –  Felipe Pedroso  –, onde foi colocada num altar. O povo, então, começou a ir ali para fazer orações e novenas, movido por uma convicção:  a função maternal de Maria em relação aos homens de modo algum ofusca ou diminui a única mediação de Cristo; antes, manifesta sua eficácia. Participamos da misericórdia de Cristo e de sua bondade. Por que, então, alguém não poderia participar de sua mediação?

Hoje, os peregrinos vão a Aparecida e olham para a pequena imagem de Maria. Essa imagem lhes lembra aquela que, permanecendo virgem, gerou, por obra do Espírito Santo, o Verbo feito carne. Desse olhar para a mãe, nasce nos peregrinos o olhar para Jesus, o Filho de Deus, o Salvador.

Em Aparecida, passados 300 anos, o povo mostra seu amor a Maria através de várias expressões de fé: celebrações, orações, novenas, Rosário… Depois, leva o que ali aprendeu para suas comunidades. Seria importante que, em nossos lares, isso se repetisse e nunca faltasse, junto com a leitura da Palavra de Deus, a oração do Terço e outras manifestações da piedade popular. Maria Santíssima poderá, então, conduzir cada pessoa e cada famílias pelos caminhos de seu Filho Jesus.

Um novo baiano

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

 

No início deste mês, numa Sessão da Assembleia Legislativa do Estado da Bahia, nasceu um novo baiano – que sou eu. Esse título foi proposto pelo ex-Deputado Yulo Oiticica, e aprovado, na legislatura passada; a sessão em que o título me foi concedido foi uma proposição do Deputado Marcelino Galo.

“Cidadão Baiano”. A outorga desse título fez nascer em mim uma pergunta: Quem é baiano? Para a maioria das pessoas, não há nenhuma dificuldade em responder a essa pergunta: Baiano é quem nasceu em um dos 417 municípios da Bahia. É, portanto, baiano tanto quem nasceu em Salvador, que tem quase três milhões de habitantes, como quem nasceu em Catolândia, com seus 3.695 habitantes. Desse ponto de vista, há, hoje, pouco mais de 15 milhões de baianos. Mas ninguém escolheu nascer na Bahia. Falei “nascer na Bahia”, mas respeito aqueles que dizem que o baiano não nasce: ele estreia…

Quem é baiano? Há também os que adotaram esta terra como sua e passaram a se considerar baianos por própria conta. Foi o que aconteceu comigo. Sinto-me baiano desde o dia 25 de março de 2011, quando assumi a Sede Primacial do Brasil. Tenho um princípio de vida: “Meu coração deve estar onde estão os meus pés”. Assim, senti-me em casa desde que aqui cheguei. Não me foi difícil amar este povo – pelo contrário, sinto-me à vontade nesta terra. Não precisei de muito tempo para descobrir a capacidade de acolhida dos baianos e o carinho com que tratam seus visitantes. Livre e conscientemente adotei esta terra como minha. É verdade que não me defini entre ser do “Bahia” ou do “Vitória”: diplomaticamente, torço pelos dois; não como acarajé todas as semanas; não vou atrás de trio elétrico no carnaval e nem sei falar do jeito baiano… Mas já descobri que há muitas maneiras de ser baiano – e essa diversidade é que enriquece a Bahia.

Quem é baiano? Enfim, há os que são baianos por adoção: é o caso de quem recebe, oficialmente, o Título de Cidadão Baiano. Agora sou cidadão baiano por adoção, como já o era por livre escolha. Este Estado me adotou. Mas, ao me adotar, sei que a Bahia passa a esperar mais de mim. Agora, mais do que nunca, não posso ficar indiferente diante das alegrias e tristezas deste povo; diante dos desafios que enfrenta e dos problemas que o afligem; não posso ficar indiferente diante da insegurança em que muitos vivem ou das preocupações que cada qual tem pelo dia de amanhã. O que posso fazer diante de tudo isso? Posso fazer pouco, muito pouco. Mas não devo me preocupar: a meu lado estão mais de 15 milhões de baianos, com as mesmas preocupações e também com o desejo de ver uma Bahia melhor, um Brasil mais justo e um mundo mais fraterno.

Vamos em frente, caros conterrâneos!

Uma dor sem limites

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

 

Foi uma surpresa geral, daquelas que nunca esquecemos. Cada um de nós sabe dizer com precisão onde estava e o que estava fazendo na manhã do dia 24 de agosto passado. A notícia da tragédia na Baía de Todos os Santos imediatamente virou notícia nacional e internacional.

Depois da surpresa, vieram as perguntas: Como aconteceu? Era inevitável que acontecesse? Poderá acontecer novamente? Surgiram explicações de técnicos e autoridades, e multiplicaram-se reportagens da Imprensa. Num ponto, todos estão de acordo: trata-se de um fato de gravidade grandiosa demais, triste demais para poder ser avaliado profundamente em tão pouco tempo.

Momentos como esse têm o dom de nos fazer testemunhar gestos de amor e solidariedade que não vemos no dia a dia. Em meio a tanta notícia de assassinatos e roubos, consola-nos ver que as pessoas têm um tal potencial de bondade que faz renascer em nós a esperança no ser humano. Tomamos consciência, também, de que o homem moderno, responsável por tantas descobertas, não consegue inventar uma máquina que cure as feridas do coração.

O que a fé nos ensina sobre isso?  Qual o olhar de Jesus sobre o que aconteceu na Baía de Todos os Santos? Que respostas nós, seus discípulos, temos para oferecer às famílias atingidas pela tragédia?

Começo pelo que é fundamental: Deus não quer o sofrimento de ninguém. Seria um absurdo dizer que o que aconteceu é da vontade de Deus. Deus é amor! Seu Filho Jesus desejou que sua alegria estivesse em nós, e a nossa fosse completa. Mas, então, onde encontrar uma explicação para tanto sofrimento? É preciso levar em conta que há sofrimentos causados pela natureza: a ação de um tsunami, a erupção de um vulcão, a devastação de um tufão… Contra isso, pouca coisa podemos fazer, embora, por vezes, eles aconteçam por desequilíbrios que o próprio homem causou à natureza. Há sofrimentos que nascem de descuidos: a mão da criança que se queima porque ninguém percebeu que ela brincava com fogo. Há sofrimentos que nascem do coração humano, que premeditadamente quer fazer o outro sofrer ou morrer, e faz. E há sofrimentos que nascem de omissões ou irresponsabilidades. Não fizemos o que deveríamos ter feito, ou o fizemos de forma errada. No caso em questão, isso é o que precisa ser apurado por quem tem obrigação de fazê-lo, para que uma tragédia como essa não se repita.

O apóstolo Paulo lança uma luz sobre o que estamos vivendo: “Tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8,28). “Tudo” – também, pois, os sofrimentos que nasceram aqui perto de nós, na manhã do dia 24 de agosto, na Baía de Todos os Santos, e que deram origem a uma dor sem limites. Que Deus nos ajude a tirar lições disso!

As flores da princesa Diana

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

 

“Vaidade das vaidades, tudo é vaidade” (Ecle 1,2). Essa é a ideia geral do livro do Eclesiastes, escrito no terceiro século antes de Cristo. A visão do autor (desconhecido) é um tanto pessimista, é verdade. Mas seu objetivo é claro: mostrar que a vida neste mundo passa; portanto, devemos aproveitá-la para construir nossa eternidade.

Lembrei-me desse livro bíblico diante da proximidade do aniversário (20 anos) da morte da Princesa Diana. Não tenho o direito de fazer um julgamento sobre a sua vida. O que escrevo, pois, é tão somente uma tentativa de, a partir de sua existência, tirar lições para a minha vida. Por sinal, acaba de sair na Itália o livro: “L´ultimo segreto di Lady Diana” (L. Regolo), que destaca as transformações ocorridas nos anos que se seguiram à sua separação matrimonial. Ela passou a abraçar e a incentivar grandes causas, como a dos sem-casa, das crianças doentes e órfãs, dos que têm o vírus HIV-Aids, da eliminação das minas explosivas em Angola etc.

Uma revista de circulação nacional publicou, anos atrás, duas fotos. Uma era do palácio onde a Princesa morava, tirada no dia seguinte ao acidente que sofreu: parecia um jardim imenso, tantas eram as flores. A outra foto, do mesmo local, tirada alguns anos depois, num dos aniversários de seu falecimento, mostrava que as flores ali colocadas ocupavam um pequeno espaço. O título das fotos era ilustrativo: “O ocaso da Memória”. A verdade é inexorável: ano após ano diminuirão as flores, as lembranças, o espaço que jornais, revistas e noticiários de TV dedicarão à Princesa que encantou o mundo com sua beleza. “A figura deste mundo passa” (S. Paulo, 1Cor 7,31).

Deus seja misericordioso com essa sua filha. Não temos o direito de julgá-la e, menos ainda, de condená-la. Cabe-nos, sim, tirar lições de sua morte trágica – lições de sabedoria.

Primeira lição: recebemos um dom do Senhor – a vida. Ela é preciosa demais para a gastarmos com futilidades. Vale dar atenção à frase do autor do Eclesiastes: “Teme a Deus e observa seus preceitos; é este o dever de todo homem. Deus fará prestar contas de tudo o que está oculto, todo ato, seja ele bom ou mau” (Ecle 12,13-14).

Segunda lição: em dois mandamentos se resumem a Lei e os profetas: “Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, de toda tua alma e de todo teu espírito… Amarás teu próximo como a ti mesmo”. Não levaremos para a eternidade medalhas, apartamentos, placas, fazendas ou gordas poupanças. Só levaremos o amor.

Terceira lição: “Está determinado que os homens morram uma só vez, e logo em seguida vem o juízo” (Hb 9,27). Como não haverá a possibilidade de refazermos nossa vida, aprendamos as lições deixadas por aqueles que nos antecederam.

Arthur e Charlie

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

 

Arthur Cosme de Melo era um menino brasileiro; Charlie Gard, um menino inglês. Arthur morreu com um mês de idade. Charlie, com 10 meses. Arthur nasceu de uma cesariana, após sua mãe ter sido atingida por uma bala, que também o feriu. Charlie nasceu com uma doença rara: a “síndrome de miopatia mitocondrial”, que leva à perda progressiva da força muscular e a danos cerebrais irreparáveis.

A história de Arthur foi contada pela nossa Imprensa, na semana que passou. É uma história triste: fala de violência, de balas perdidas, de uma mãe que estava no lugar errado, na hora errada. Como se fosse errado uma mãe andar por uma rua qualquer, mesmo que essa rua se situe na Favela do Lixão, em Duque de Caxias, no Estado do Rio de Janeiro.

A história de Charlie teve maior repercussão internacional, porém foi menos divulgada em nosso país, envolvido que está por outras tristes histórias, principalmente as ligadas à corrupção. Charlie estava internado em um hospital em Londres, onde era mantido vivo com a ajuda de aparelhos. Diante da alegada impossibilidade de uma reversão de sua situação, a Corte Europeia de Direitos Humanos decidiu pelo desligamento dos aparelhos e pela cessação do uso dos substratos médicos que o mantinham vivo. Portanto, o Estado se julgou no direito de decidir sobre a preservação ou não da vida de Charlie. Ignorou que a vida humana deve ser preservada, mesmo que se trate de uma criança gravemente enferma. Julgou, sim, que algumas vidas não merecem ser mantidas. Quem mais precisava de alguém que defendesse seus direitos (a Corte Europeia foi criada para esse fim!), foi condenado à morte. Não foi concedida à família de Charlie o direito de fazer suas próprias escolhas.

Diante da decisão desse órgão colegiado, divulgada pelas redes sociais, os pais de Charlie receberam promessas de acolhida e assistência ao filho, tanto na América do Norte como na Itália, que ofereciam alguma chance de reversão de seu estado. O Papa Francisco chegou a pedir que não se ignorasse o desejo dos pais de acompanhar e tratar o próprio bebê até o fim. O tratamento no exterior não traria custo algum para o governo britânico, mas a corte suprema do Reino Unido não permitiu tal viagem, afirmando ser irreversível a situação do bebê. O Estado exigiu que fosse respeitado o seu direito de matar.

Arthur faleceu no dia 30 de julho. Charlie havia falecido dois dias antes.

Lê-se, na Convenção sobre os Direitos da Criança, da ONU, ratificada por 196 países: “A criança, em virtude de sua falta de maturidade física e mental, necessita de proteção e cuidados especiais, inclusive a devida proteção legal, tanto antes quanto após seu nascimento”.

Arthur e Charles morreram sem saber disso.

Como se vissem o invisível

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

Uma das passagens mais profundas da Bíblia é a do começo do Evangelho de S. João: “No princípio era a Palavra, e a Palavra era Deus. Ela existia, no princípio, junto de Deus. (…) E a Palavra se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,1-3.14). Quando Jesus, a Palavra do Pai, falava, todos ficavam admirados com seus ensinamentos, pois ele ensinava como alguém que tem autoridade. Ao terminar sua missão, reuniu seus discípulos e deu-lhes uma ordem: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa Nova a toda criatura!” (Mc 16,15). Depois de ter-se elevado aos céus, “recebeu o Espírito Santo que fora prometido pelo Pai e o derramou” (At 2,33) sobre o mundo. Então, “os discípulos foram anunciar a Boa Nova por toda parte” (Mc 16,20). Começava a ser escrito o Atos dos Apóstolos; esse livro ainda não foi concluído, porque a ordem que lhe deu origem – “Ide pelo mundo!… – ainda não foi cumprida integralmente.

A Igreja atua no mundo a partir de uma convicção iluminada pela fé: Cristo é o único salvador de todos, o único capaz de nos revelar Deus e de nos conduzir a ele. Nele o Pai revelou-se de forma definitiva e deu-se a conhecer de modo pleno. Em Jesus Cristo, o Pai disse à humanidade quem é. A Igreja existe para revelar ao mundo essa verdade.

Para contatar as pessoas e apresentar-lhes sua proposta, Jesus procurou lugares altos e subiu em barcas, falou a multidões e entrou em casas, atendeu a pessoas importantes e deu atenção aos excluídos. Os apóstolos, por sua vez, foram a cidades desconhecidas, enfrentaram viagens perigosas e passaram fome. Ao longo da História, os evangelizadores escreveram livros, fundaram universidades e aprenderam línguas desconhecidas. Foi dessa maneira que a Boa Nova chegou até nós. Ao recebê-la, assumimos a missão e a responsabilidade de, por nossa vez, a levarmos a todos – e a levarmos com alegria! Como fazer isso?

Hoje, é muito difícil entrar na casa de desconhecidos para lhes apresentar o Evangelho. Precisamos, pois, ser criativos e, na comunidade em que estivermos inseridos, descobrir meios de fazê-lo. Importante é não nos esquecermos de que, em Jesus Cristo, a mensagem estava inteiramente unida ao mensageiro. Ele proclamou a Boa Nova tanto pelo que falou quanto pelo que fez. Nós, seus discípulos missionários, somos chamados a ler sua Palavra, a colocá-la em prática e, então, a ensiná-la. Afinal, os homens e as mulheres de hoje só aceitarão Jesus Cristo se nós mesmos o tivermos encontrado. O testemunho da vida cristã é a primeira e insubstituível forma de missão, conforme nos ensina Paulo VI: “O mundo reclama evangelizadores que lhe falem de um Deus que eles conheçam e lhes seja familiar, como se eles vissem o invisível” (EN 76).

A paz é fruto da justiça

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

 

Recentes pesquisas mostraram que uma das maiores preocupações dos brasileiros, atualmente, diz respeito à segurança. Nossas cidades estão se tornando cada vez mais violentas. A violência gera medo. Quando o medo domina, a paz desaparece. Em época de eleições, demonstrando conhecer bem quais são os grandes anseios da população, os candidatos prometem que, uma vez eleitos, tornarão a vida de todos mais segura.

Não se garante uma vida mais segura pelo simples aumento do número de policiais, de armas ou de detenções. A segurança é fruto da paz e “a paz é fruto da justiça”, segundo ensinava o profeta Isaías, sete séculos antes de Cristo (Is 32,17).

Nós, discípulos de Jesus de Nazaré, somos chamados a trabalhar pela paz: “Felizes os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus” (Mt 5,9). Vemos que, em nossa sociedade, a convivência entre as pessoas está ficando cada vez mais difícil e tensa. As agressões verbais e físicas estão se tornando sempre mais comuns, e por motivos banais. Parece até que o filósofo inglês Hobbes (†1679) tenha se referido ao nosso tempo, quando escreveu: “O homem é o lobo do homem”.

A partir dos valores que Jesus veio nos ensinar, somos chamados a mostrar que uma outra sociedade é possível – isto é, uma sociedade envolvida pela cultura da paz. A Igreja não tem respostas técnicas para os problemas que desafiam a nossa sociedade; tem, sim, princípios capazes de fazer nascer uma grande reflexão sobre o valor da paz.

Em síntese: cabe-nos desenvolver nas pessoas a capacidade de reconhecer as consequências da violência em sua vida pessoal e social, para que assumam sua própria responsabilidade; denunciar as injustiças na vida pública; demonstrar que uma das causas da violência é a negação dos direitos das pessoas; favorecer a criação e a articulação de redes sociais populares e de políticas públicas, com vistas à superação da violência e de suas causas e à difusão da cultura da paz; multiplicar ações solidárias em favor das vítimas da violência; apoiar as políticas governamentais valorizadoras dos direitos humanos; lutar contra a impunidade etc.

A paz é fruto da justiça. Todo ato de injustiça e desamor é pecado e fonte de violência. A violência sempre aparece quando é negado à pessoa aquilo que lhe é de direito, a partir de sua dignidade, ou quando a convivência humana é direcionada para o mal. A violência nega a ordem desejada por Deus.

Deus nos criou por amor e para o amor. Fomos criados à Sua imagem e semelhança. Nosso Deus é o Deus da paz. Por isso mesmo, a construção da paz é uma das maneiras de lhe demonstrarmos o nosso amor. Se houver paz entre nós, todos viverão felizes e, com razão, seremos chamados de “filhos de Deus”.


Cúria Metropolitana Bom Pastor - Av. Leovigildo Filgueiras, 270 - Garcia, CEP: 40.100-000 - Salvador -Ba. Tel.: (71) 4009-6666 | contato@arquidiocesesalvador.org.br
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