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Somos todos neófitos!

Por Edson Nascimento*

“Banhados em Cristo, somos uma nova criatura. As coisas antigas já se passaram, somos nascidos de novo” (Gl 3,27).

Na Igreja Primitiva, principalmente nos séculos III e IV, àqueles que eram seduzidos pelo modo de vida dos primeiros cristãos era oferecido um autêntico itinerário pedagógico de aprofundamento da fé, marcado por etapas e ritos – o que ficou conhecido como Catecumenato. O itinerário era composto de quatro etapas: Pré-catecumenato (correspondente ao tempo querigmático); Catecumenato propriamente dito; Purificação e Iluminação, que preparava para a recepção dos sacramentos na vigília Pascal (Batismo, Crisma e Eucaristia); e a Mistagogia.

Os que ouviam a pregação querigmática e se convertiam ao Deus verdadeiro passavam por um longo tempo de aprofundamento da fé, marcado por orações, celebrações e escrutínios, professavam a fé trinitária e, pela graça sacramental, participavam do Mistério da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. Após a administração dos sacramentos, as catequeses mistagógicas tinham o objetivo de fazer com que os iniciados descobrissem o sentido dos mistérios celebrados, a grandeza de sua dimensão simbólica e tomassem consciência da nova vida na qual tinham ingressado. Inseridos na comunidade de fé, o recém batizado era chamado pelos padres da Igreja , além de cristão, de neófito (planta nova).

O neófito, a partir da iluminação batismal, torna-se uma nova criatura, um ser totalmente diferente do que era antes. Pois, de fato, como nos ensina São Paulo: “Banhados em Cristo, somos uma nova criatura. As coisas antigas já se passaram, somos nascidos de novo” (Gl 3,27). A partir dos sacramentos, o iniciado é chamado a unir-se a Cristo, pela força do Espírito Santo e ter com o Pai uma relação filial. Portanto, a união com Cristo é o grande princípio da Vida Nova. O apóstolo dos gentios ainda nos ensina: “se, pois, ressuscitaste com Cristo, procurai as coisas do alto, onde está Cristo sentado à direita de Deus Pai. Pensais nas coisas do alto, e não nas da terra, pois morrestes e a nossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Cl 3, 1-2).

A Vida Cristã, na qual se é inserido, também é caracterizada como a vida da Liberdade. O cristão é aquele que Cristo libertou para ser verdadeiramente livre, que se aceita como de fato é, e se entrega à responsabilidade de ser homem. Ele ver revelada em Jesus, Verbo encarnado, a resposta para todas as suas questões existenciais, tornando-se capaz de estar unificado dentro de si mesmo para viver uma vida nova, sem oposição a Deus. O cristão não se sente livre do pecado, mas se sente envolvido em um constante combate, um conflito entre a sua vontade e a divina, o velho homem e o homem novo, nascido do mistério de amor de Cristo. Por outro lado, o cristão se sente inteiramente envolvido pela graça de Deus e a ela recorre nos momentos de fraqueza. O neófito não se torna mero observador das regras morais da Igreja, mas um discípulo e missionário de Jesus Cristo, alguém que inicia uma caminhada em vista do dom total de si mesmo, acolhe o dom de Deus e se deixa perder em seu profundo mistério de amor.

Todavia, a grande novidade que nos é apresentada pelos padres da Igreja é de que na categoria dos neófitos não estão somente os que foram recentemente batizados, mas todos os fiéis. Isso por que a graça da fé, a conversão pessoal e o seguimento a Jesus percorre toda a nossa existência. Em relação à profundeza do mistério divino, também somos sempre neófitos. Deus que, em seu deslizar sempre constante e luminoso, vem ao nosso encontro e se dar a conhecer no horizonte histórico de nossa existência, não se deixa dominar, Ele permanece como sendo um mistério santo, infinito e sempre novo.

Tornamo-nos neófitos toda vez que celebramos o Mistério Pascal de Cristo, afinal, não invocamos um acontecimento do passado, mas fazemos memória, isto é, não somos meros espectadores, nem estranhos ao acontecimento celebrado, mas também nos sentimos envolvidos neste mistério. A Páscoa de Cristo é também a nossa páscoa. Olhando para o Mistério Pascal de Jesus, mais uma vez, o verdadeiro sentido de nossa existência nos é revelado. Descobrimos que a nossa existência só é cheia de significado na medida em que é dada; na medida em que saímos de nós mesmos para encontrar e servir aos outros.

Todo cristão deve se sentir como um eterno neófito, uma planta nova que precisa sempre ser iluminada e alimentada. É por meio da oração, da escuta da Palavra de Deus, da participação dos Sacramentos e da vida comunitária que somos fortificados para viver esta realidade, uma vida segundo a vontade do Pai, a exemplo de Cristo. Nesta nova vida, o neófito conta sempre com o auxílio do Espírito Santo. É o Espírito que através dos Sacramentos ilumina a alma humana com a luz, a presença e a semelhança de Cristo, e a torna capaz de responder ao projeto divino de salvação. Assim, somos neófitos toda vez que professamos a fé trinitária, que nos abrimos à condução do Espírito de Deus, que escutamos a sua Palavra e nos sentimos, mais uma vez, chamados a uma mudança de vida. Somos eternos neófitos! Deus nos renova sempre, pois, em seu mistério mais íntimo, é sempre novo.

*Edson Nascimento é seminarista e desenvolve estágio pastoral na Pastoral da Comunicação (Pascom) da Arquidiocese de Salvador

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