Alocuções

X CONGRESSO MARIOLÓGICO: Maria na Liturgia e na piedade popular

Aparecida, 2 a 5 de junho de 2016 / Abertura do X Congresso Mariológico

 

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

Vice-Presidente da CNBB

 

 

No começo da carta aos Efésios, o apóstolo Paulo destaca que Deus nos escolheu desde toda a eternidade, “para sermos santos e íntegros diante dele no amor” (Ef 1,4). O mundo não existia, mas nós já existíamos no coração do Criador. Assim como cada um de nós, a Mãe de Jesus podia proclamar: Ele me predestinou à adoção como filha, “por obra de Jesus Cristo, para o louvor de sua graça gloriosa” (Ef Ef 1,5-6).

Na história do mundo e da Igreja, Maria apareceu por ocasião da encarnação do Verbo: “O anjo Gabriel foi enviado por Deus… a uma virgem…[que] se chamava Maria” (Lc 1,26-27). Já na Anunciação, Maria recebeu o primeiro elogio – aliás, o mais importante que recebeu, por vir da parte de Deus: Tu és “cheia de graça”; estás repleta dos favores divinos (Lc 1,28).

O primeiro elogio que a Mãe de Jesus ouviu da parte de uma criatura partiu do coração de Isabel: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre” (Lc 1,42). Não sabemos se, além de Maria, alguém ouviu tal saudação.

O primeiro elogio público a Maria foi feito por uma mulher da qual nada sabemos, nem mesmo o nome. Escreveu Lucas: “Enquanto Jesus assim falava, uma mulher levantou a voz no meio da multidão e lhe disse: ‘Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram!’” (Lc 11,27). Aquele mulher devia estar profundamente emocionada por conhecer Jesus. Somente uma mulher para ir para além de Jesus e pensar em sua mãe – isto é, no ventre que o havia gerado e nos seios que o haviam amamentado. Sem saber, a desconhecida deu origem ao que a Igreja chamaria, um dia, de Religiosidade Popular Mariana – uma religiosidade que atravessaria os séculos.

Na História da Salvação, a Liturgia ocupa um lugar de destaque, pois nela “se exerce a obra de nossa redenção” (Concílio Vaticano II, Sacrosanctum concilium,2). Mas “a vida espiritual não se restringe unicamente à participação na sagrada Liturgia” (id., 12). O Espírito Santo encontra-se também na origem das manifestações religiosas do povo de Deus.

Piedade popular ou Religiosidade popular é a maneira pela qual o cristianismo se encarna nas diversas culturas e se manifesta na vida do povo. Trata-se de diferentes manifestações culturais, de caráter privado ou comunitário, que no âmbito da fé cristã se exprimem não com os elementos da sagrada Liturgia, mas através de formas peculiares, que nascem do jeito do povo, de sua etnia ou de sua cultura (Cf. Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Direttorio su Pietà Popolare e Liturgia, 9). Naturalmente, as expressões dessa piedade devem submeter-se às leis gerais do culto cristão e à autoridade da Igreja (Sacrosanctum Concilium, 13).

As manifestações da piedade popular referentes à Virgem Maria nasceram da fé e do amor do povo para com Jesus Cristo, e da percepção da missão que Deus confiou à Maria Santíssima, em vista da qual ela não é somente a Mãe do Senhor, mas também Mãe de todos os homens e mulheres. Isto é, porque Maria ocupa um lugar privilegiado no mistério de Cristo e da Igreja, “ela está sempre presente na alma de nossos fiéis e impregna as profundezas do seu ser, assim como neles desperta externamente muitas expressões e manifestações religiosas” (Paulo VI, Discurso aos Reitores de Santuários da Itália, 24.11.1976). De fato, “no âmbito da religiosidade popular, os fiéis compreendem facilmente a ligação vital entre o Filho e a Mãe. Sabem que o Filho é Deus e que ela, a Mãe, é mãe também deles. Intuem a santidade imaculada da Virgem e ainda que venerando-a como rainha gloriosa no céu, mesmo assim estão convictos de que ela, cheia de misericórdia, intercede em seu favor. Por isso, imploram com confiança seu auxílio. Os mais pobres a sentem particularmente próxima. Sabem que ela foi pobre como eles, que sofreu muito, que foi paciente e humilde. Têm compaixão de sua dor na crucifixão e morte do Filho e alegram-se com ela pela ressurreição de Jesus. Celebram com alegria suas festas, participam com entusiasmo de suas procissões, vão em peregrinação a seus santuários, gostam de cantar em sua honra e fazem-lhe ofertas. Não admitem que alguém a ofenda e instintivamente desconfiam de quem não a honra” (Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, Orientações e propostas para a celebração do Ano Mariano, 03.04.1987, n. 67).

Se o tema da piedade popular é importante para quem quer conhecer o lugar de Maria na vida de um povo, mais o é para nós, latino-americanos. Afinal, como lembra Aparecida, “A piedade popular penetra delicadamente a existência pessoal de cada fiel e, ainda que se viva em uma multidão, não é uma ‘espiritualidade de massas’. Nos diferentes momentos da luta cotidiana, muitos recorrem a algum pequeno sinal do amor de Deus: um crucifixo, um rosário, uma vela que se acende para acompanhar um filho em sua enfermidade, um Pai Nosso recitado entre lágrimas, um olhar entranhável a uma imagem querida de Maria, um sorriso dirigido ao céu em meio a uma alegria singela” (Aparecida, 261).

Este Congresso Mariológico pretende ajudá-los a conhecer melhor Maria na Liturgia e na piedade popular. Tenho certeza de que, tendo uma visão histórica dessa religiosidade, conhecendo melhor a relação entre a Liturgia e a piedade popular mariana, aprofundando-se nas principais expressões dessa religiosidade e analisando os desafios que ela enfrenta, as senhores e os senhores congressistas se voltarão para Jesus e proclamarão com alegria idêntica à da mulher anônima: “Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram!” (Lc 11,27).

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