A lógica da gratuidade

Cardeal Dom Sergio da Rocha

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

 

O atual estilo de vida está marcado bastante pela lógica do mercado, centrada no produzir, investir, lucrar, comprar, vender e consumir, movida pela busca da riqueza, pelo interesse próprio e pelo prazer de consumir. A economia é necessária para a sociedade, porém a lógica do mercado não deve ser o paradigma regulador das relações humanas e da vida social.  De modo consciente ou não, as pessoas tendem a reproduzir tal mentalidade na vida cotidiana, favorecendo a mercantilização dos relacionamentos traduzida de diferentes modos, tais como, “vale quem tem”, “vale quem produz”, “vale quem pode consumir”; nada se faz de graça e muito se cobra por algum favor prestado. Esse modo de viver não consegue fazer as pessoas felizes, por mais bens que possam acumular ou consumir. Na rígida lógica do mercado não há espaço para a gratuidade, para o dom gratuito, de tal modo que, para muitos, a vida acaba ficando sem “graça”.

O esquema de mera recompensa ou retribuição, agravado pela lógica do mercado, não favorece a experiência da vida e do viver como dom precioso. É preciso fazer a experiência da gratuidade, que vai muito além de receber ou oferecer algo gratuitamente. Trata-se primeiramente de acolher e viver a própria vida e a vida do outro como dom, cujo sentido e realização vão muito além do que se consegue ter, produzir e consumir. A lógica da gratuidade torna-se sinal de contradição frente à lógica do mercado.

Para convencer-se a respeito do valor da gratuidade nas relações humanas, não bastam raciocínios ou cálculos; é necessário fazer a sua experiência na vida cotidiana. Dentre outros traços da lógica da gratuidade, podemos elencar os seguintes: a) fazer o bem e partilhar os bens sem “cobrar” ou esperar receber em troca; b) dar o primeiro passo, tomar a iniciativa de amar, de fazer amizade, de aproximar-se, de fazer o bem, ao invés de esperar ou exigir tanto dos outros; c) partilhar, especialmente, o supérfluo, ao invés de acumular ou gastar, experimentando a alegria da doação generosa; d) resgatar a simplicidade no viver, apreciando as coisas aparentemente pequenas da vida; e) engajar-se em causas e ações beneficentes que não trazem vantagens materiais, mas o prazer de viver e de ser solidário; f) gastar tempo com a família e as pessoas amigas, fazendo-se irmão e amigo, na convivência fraterna, sem cair no lazer consumista. Tal estilo de vida, embora tarefa permanente para cada pessoa, é antes de tudo, dom de Deus, fruto do amor divino gratuito e sem limites. A gratuidade do amor de Deus torna-se fonte e referência para a gratuidade do amor humano. Por que Deus nos amou primeiro, de graça, é que nós podemos amar, permanecendo na graça e fazendo a experiência da gratuidade. Quem se dispõe a percorrer o caminho da gratuidade alcança a alegria dos seus frutos, tornando o mundo mais humano e a vida mais feliz.