A Sinodalidade: Democracia na Igreja?

Por padre Jorge Valois, do clero da Arquidiocese de São Salvador da Bahia

O atual processo sinodal na Igreja vem sendo criticado por muitas pessoas, afirmando que a sinodalidade é uma espécie de “cavalo de Tróia” dentro da comunidade eclesial, cujo objetivo seria prejudicar os fundamentos da fé e da doutrina e atender a interesses de grupos ideológicos. Chegam também a qualificar o presente processo sinodal como uma “Babel sinodal”, na qual todos falam e ninguém se entende.

Essas críticas fazem-nos despertar para refletir sobre a verdadeira natureza da sinodalidade. Com razão, São João Crisóstomo afirma que um dos nomes que pode ser dado à Igreja é Sínodo. De fato, a sinodalidade é algo da natureza da Igreja, pois somos o novo Povo de Deus, conquistado pelo Sangue de Cristo e unificado pelo selo do Espírito. Portanto, já que somos o novo Israel, estamos em contínua marcha, sendo sacramento da salvação de Cristo na história e no mundo. Como povo, caminhamos juntos; não é cada um para o seu lado ou de qualquer jeito. Como ovelhas que seguem o Bom Pastor, fazemos parte de um único rebanho e que caminha em direção ao Senhor, o único Pastor.

Assim, é da natureza da Igreja ser sinodal, porque fazemos esse caminho juntos. Somos o Corpo Místico de Cristo, temos uma comum dignidade batismal, que nos torna templos do Espírito e nos capacita para acolher suas sugestões e inspirações. Como nos exorta o Apocalipse: “Ouçamos o que o Espírito diz às Igrejas” (Ap 2,7). Estejamos, portanto, atentos à ação do Espírito em todos os batizados, que, em vista do sacramento batismal que receberam, possuem também um discernimento a respeito da fé, da moral e da missão da Igreja. O exercício da sinodalidade quer ser um momento em que nos colocamos na atitude de escuta da voz do Espírito que se manifesta por meio do Seu povo.

Como um Corpo, assumimos vocações e missões diversas. Recordemos que, nas primeiras comunidades cristãs, tínhamos o grupo dos doze apóstolos, os setenta e dois discípulos, as mulheres que seguiam Jesus… Havia unidade no seguimento ao Senhor, em meio à diversidade de missões confiadas pelo Senhor. Os Evangelhos são unânimes ao contar que Jesus constituiu um grupo de doze apóstolos para serem os guias e pastores da comunidade de fé. Esses apóstolos atuariam em nome do próprio Jesus, sendo continuadores e anunciadores da missão de Cristo em meio ao mundo. Os sucessores dos apóstolos são os bispos, que exercem na Igreja o carisma de governo, já que foram constituídos em nome de Cristo Cabeça, para ensinar, santificar e governar o Povo de Deus.

Assim, o exercício da sinodalidade quer ser uma ajuda aos bispos no discernimento nas questões de fé, moral e pastoral na Igreja. Mas, cabe a eles, em vista da graça recebida com a plenitude do sacramento da Ordem, ter uma palavra final a respeito dessas questões. Portanto, os organismos sinodais, como os Conselhos e Assembleias de Pastoral, não substituem a autoridade que é própria dos bispos no governo da Igreja, mas são instâncias que os ajudam na tomada das decisões. Por isso que o exercício da sinodalidade não é transformar a Igreja em uma Babel, mas, pelo contrário, ele busca realizar na comunidade eclesial a sua vocação de ser um Cenáculo, no qual todos, iluminados pelo Espírito Santo, falam e, sob a autoridade e liderança dos apóstolos, se entendem.

Também, a sinodalidade não é transformar a Igreja em uma democracia, em que a vontade da maioria prevalece, mas em um lugar em que se escuta a todos, para, iluminados pelo Espírito Santo e sob a guia dos apóstolos, chegar ao discernimento do que é a vontade de Deus para todos. Dessa maneira, o exercício sinodal nos ensina que as decisões na Igreja não são tomadas por todos, mas, nelas, há participação de todos, que, ao serem escutados, ajudam os bispos no seu discernimento.