História a ser lembrada

Cardeal Dom Sergio da Rocha

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

 

Numa cidade com uma longa história, como Salvador, muitas datas importantes nem sempre são conhecidas ou comemoradas. O dia 10 de maio é uma data a ser mais valorizada e devidamente divulgada, pela sua importância histórica para a cidade de Salvador. Renova-se, a cada ano, na Catedral Basílica, o voto realizado em 10 de maio de 1688, pelo então “Senado da Câmara”, escolhendo São Francisco Xavier, como padroeiro da cidade, após a superação de uma epidemia que trouxe muito sofrimento e morte para a população. Com a “peste” que vitimou milhares de pessoas, em 1686, os jesuítas propuseram ao povo e às autoridades, recorrer à intercessão de São Francisco Xavier, grande missionário jesuíta canonizado por Gregório XV, em 1622. Ele havia morrido no Oriente, em 1552, debilitado pelas viagens missionárias e por uma estranha febre, que se julgava semelhante à enfermidade sofrida pela população baiana.

Com o fim da epidemia, as autoridades municipais solicitaram que São Francisco Xavier fosse declarado padroeiro da cidade. O terceiro arcebispo da Arquidiocese de São Salvador da Bahia, Dom Frei Manoel da Ressurreição (1687-1691), logo que chegou à Bahia, empenhou-se na eleição de São Francisco Xavier como Padroeiro. O Voto da Câmara Municipal foi confirmado pela Santa Sé, no mesmo ano, durante o pontificado do Papa Inocêncio XI, o pontífice que elevou Salvador à categoria de Arquidiocese, em 1676.

É difícil precisar a cronologia dos acontecimentos envolvendo a eleição do Padroeiro pela então Câmara Municipal, a aprovação do Rei de Portugal e a confirmação de Roma. No Prólogo da edição de 1853 da renomada obra, de especial importância histórica, denominada “Constituições Primeiras do Arcebispado da Bahia”, de Dom Sebastião Monteiro da Vide, quinto arcebispo de Salvador, de 1702 a 1722, encontra-se o seguinte registro histórico: “Foi Dom Frei Manoel da Ressurreição o que recolheu e publicou os sufrágios para a eleição do Apóstolo São Francisco Xavier, como Padroeiro da Cidade, em virtude do voto, tomado na Câmara no dia 10 de maio de 1688, pela peste que flagelava a Província desde 1686”. Acrescentando-se: “a 10 de maio se soleniza com procissão o dito Apóstolo das Índias, sem prejuízo para o grande Padroeiro do Bispado, o Divino Salvador”.  Por isso, até hoje, embora a festa litúrgica de S. Francisco Xavier, no calendário litúrgico universal, ocorra no dia 03 de dezembro, na cidade de Salvador é celebrado também em 10 de maio.

Na Catedral Basílica, o Padroeiro da Cidade, além do seu relicário, é lembrado em um painel na parte superior do altar-mor, juntamente com Santo Inácio de Loyola, e no belíssimo altar lateral, que merece ser visitado pelos devotos e por apreciadores da arte sacra e da história. É importante, ao mesmo tempo, que ele seja lembrado também no altar dos corações dos soteropolitanos.

*Artigo publicado no jornal Correio, em 29 de abril de 2024.