Quem são os pobres?

Emanuel Souto

Advogado e missionário fundador da Rede Missionária de Caridade

 

Quando o Papa Francisco instituiu a Jornada Mundial dos Pobres (JMP), no ano de 2017, certamente considerou que a pobreza é inerente a todo ser humano. Todo homem é dependente de Deus e, por isto, é pobre.

Entretanto, ele seguramente observou que alguns possuem um grau de pobreza mais acentuado. São os que Santa Teresa de Calcutá chamava de: os mais pobres entre os pobres (“the poorest of the poor”).  Estes são os mais vulneráveis. São encontrados nas sarjetas, nos viadutos, nas cracolândias, nos hospitais… e, por vezes, na casa ao lado.

Essa Jornada nos inspira a olhar com mais sensibilidade as necessidades do próximo e adentrar as periferias existenciais que nos rodeiam. Há pobreza material e espiritual ao nosso redor e, como seguidores de Cristo, não devemos negligenciá-las.

No contato com a população de rua e com as famílias vulneráveis, em preparação à JMP 2023, pude conversar e ouvir as opiniões do povo sobre o tema da pobreza em nossa cidade. Ao perguntar sobre as maiores necessidades que nos rodeiam, ouvi a seguinte resposta, praticamente unânime: a população já tem auxílios financeiros suficientes e, devido à boa vontade de muitos cidadãos, é difícil encontrar alguém que efetivamente passe fome em Salvador.

Contudo, a maior queixa – dizia o povo – é sobre como as crianças e jovens estão esquecidos. Há muitos que nascem e crescem na droga, sem nenhuma assistência; isto podemos visualizar ao passar pelas esquinas da cidade.

Ao falar sobre a juventude, é oportuno mencionar que a Constituição Federal conferiu-lhe o sistema de proteção integral, afirmando que o melhor interesse da criança e do adolescente deverão ser privilegiados na tomada de decisões pelo Estado, pela sociedade e pela família. De seu turno, o Estatuto da Criança e do Adolescente afirma que a infância e a juventude gozam de prioridade absoluta na formulação de políticas públicas. Isto quer dizer que a aplicação de recursos públicos é prioritária, para fins de proteção deste segmento populacional.

Ora, não é necessário muito esforço para concluir que tais regras muitas vezes são descumpridas. A lei passa por uma crise de efetividade e se instalou também, uma grave desordem na sua autoridade. Isto atinge, de modo mais severo, os jovens.

Percebe-se que esses pequeninos estão numa periferia existencial mais distante, devido ao seu tenro estágio de desenvolvimento. Tornaram-se presas fáceis. Estão abandonados, muitas vezes, por suas próprias famílias.

Certa vez, ao fazer evangelização porta-a-porta numa comunidade pobre, apertei a campainha de uma casa. Quando a porta se abriu, por ela exalou forte odor de droga. Uma mulher, enrolada num lençol, estava à porta. Seus três filhos, crianças pequenas, sentadas no chão, compunham aquele cenário; mas suas brincadeiras infantis causavam-me a impressão de que eles não estavam, verdadeiramente, ali.

Diante daquela visão, a emoção era inevitável, mas, junto a ela, tive um grande sentimento de esperança. Lembrei-me de que somos missionários de Cristo, revestidos com os sete dons do Espírito Santo; e que na missão, cuidamos para que o amor misericordioso e apaixonado do Pai seja revelado a cada ser humano, por nossas atitudes e palavras.

Considerei que, talvez, estas periferias existenciais tenham se expandido porque nós, cristãos, deixamos adormecer o caráter de profetas que recebemos no Batismo. Na contramão do esfriamento, subsiste a Jornada Mundial dos Pobres: vem para iluminar e aquecer.