Tempo Quaresmal

Cardeal Dom Sergio da Rocha

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

 

A vivência da Quaresma tem sofrido mudanças significativas num contexto social marcado pela pluralidade cultural e religiosa e pela tendência à secularização. Além das mudanças culturais rápidas e profundas que repercutem no cenário religioso, a Igreja promoveu alterações significativas na vivência quaresmal, especialmente em relação às práticas penitenciais. Entretanto, permanece o sentido fundamental da Quaresma, enquanto tempo de conversão em preparação à Páscoa, por meio da oração, da penitência e da caridade. Embora sucedendo o período do carnaval, a razão de ser da Quaresma não se encontra nele, mas sim na Páscoa. A cor litúrgica roxa, estampada nas igrejas, não significa tristeza, e sim um sinal de conversão e de penitência, que integram o caminho para a Páscoa.

Os dias e as formas de penitência quaresmal sofreram mudanças. Atualmente, são apenas dois os dias obrigatórios de jejum, a quarta-feira de Cinzas e a sexta-feira santa, permanecendo o caráter penitencial das outras sextas-feiras da Quaresma, com a abstinência de carne. Isso não significa perda ou enfraquecimento do sentido quaresmal. Ao contrário, busca-se sempre mais a fidelidade às raízes bíblicas da espiritualidade quaresmal, destacando-se a prática da caridade e da misericórdia, o perdão e a reconciliação, o amor fraterno e solidário, que tornam ainda mais necessárias a oração e a penitência. No Brasil, desde 1964, a Igreja desenvolve, a cada ano, a Campanha da Fraternidade como um meio de vivência da Quaresma, através de gestos concretos de amor fraterno, de solidariedade e partilha. Neste ano, o tema da Campanha é “Fraternidade e Amizade Social” e o lema “Vós sois todos irmãos e irmãs” (cf. Mt 23,8).

O Tríduo Pascal, que se inicia na noite da Quinta-Feira Santa, com a Missa da Ceia do Senhor e do Lava-Pés, e que se estende até a Vigília Pascal, foi revalorizado na reforma litúrgica. Foi retomado o sentido de recolhimento do sábado, véspera da Páscoa, denominando-o “sábado santo” e não mais “sábado de aleluia”, como muitos se habituaram a chamá-lo. A solene Vigília Pascal passou a ser celebrada na noite do sábado para o domingo da Páscoa, e não mais durante a manhã do sábado santo.

A vivência quaresmal não acontece somente no âmbito pessoal, mas também comunitário. A Caminhada Penitencial, ocorrida recentemente em Salvador, pela 39ª vez, reunindo milhares de pessoas, expressa justamente a dimensão comunitária. Caminhar juntos pelas ruas quer ser sinal de uma caminhada que deve ocorrer no dia-a-dia, iluminada pela fé e sustentada pelo amor fraterno. Necessitamos, hoje, de gente disposta a erguer os braços em oração e a estender as mãos ao próximo, especialmente aos que mais sofrem, num grande mutirão de fraternidade, reconciliação e paz.

*Artigo publicado no jornal A Tarde, em 10 de março de 2024.