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Nossa Senhora Aparecida: 300 anos do encontro da Imagem

Homilia na Paróquia N.Sra. Aparecida, de Imbuí, elevada a Santuário

Salvador, 12.10.17

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

 

O Santuário de Nossa Senhora Aparecida, no interior do Estado de São Paulo, tem uma área de 72 mil metros quadrados. O Brasil tem 8.516.000 km². No dia de hoje, essa é a dimensão do Santuário de Aparecida, pois todo o Brasil é um grande santuário mariano. A cidade de Salvador e o Estado da Bahia são parte deste imenso Santuário. Nos céus de nosso país está “uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas”. O manto azul de Nossa Senhora da Conceição Aparecida nos cobre e nos envolve.

Trezentos anos atrás, uma pequena imagem foi encontrada nas águas do Rio Paraíba. Uma pequena imagem de barro, encontrada por humildes pescadores, numa pescaria que parecia infrutífera. Quando se fala de Maria, a Mãe de Jesus, tudo é simples, tudo parece pequeno. Bem que ela proclamou no Magnificat, ao visitar sua parenta Isabel: “O Senhor olhou para a pequenez de sua serva”. “Pequenez” a seus próprios olhos. Na verdade, Maria era cheia da graça de Deus e não sabia; não tinha conhecimento do que o Senhor nela fizera. Era imaculada e bela aos olhos de Deus.

Na pequena imagem de Aparecida, Deus mostrou a grandiosidade de seu amor por nós, brasileiros e brasileiras. Vendo esse povo tão carinhoso, trabalhador e generoso, o Pai do céu quis que Maria, que tão bem havia exercido o papel de Mãe de Seu Filho, fosse Mãe também desta terra. Seria a nova Ester, a pedir pela vida de seu povo. Sua missão seria simbolizada por uma imagem que uniria o povo em torno dela. Aquela imagem que recebeu o nome de “Aparecida” foi colocada por um dos pescadores – Felipe Pedroso – no lugar mais digno que ele tinha: sua casa. Ali começaram orações e novenas à Senhora Aparecida. Ali, segundo penso, começou o Terço dos Homens, que hoje se estende por todo o Brasil.

Ao longo dos últimos 300 anos, ao lado de milagres que se multiplicaram em Aparecida, cresceu o número de peregrinos. Há os que vão a Aparecida para pedir; há os que ali vão para agradecer; e há os que simplesmente se dirigem àquele santuário para louvar a Deus, cantar suas maravilhas e homenagear a Mãe de seu Filho. Mas, por que tantas homenagens a Maria? Por que tantas manifestações de carinho para com a Mãe de Jesus? Qual a razão, por exemplo, do Ano Santo, que terminou ontem, e que foi instituído em preparação às celebrações do dia de hoje? Respondo a essas perguntas com uma afirmação: isso acontece porque há um desejo profundo no coração de todos: queremos ser alunos na Escola de Maria. Essa Escola foi aberta em Nazaré, teve Jesus como primeiro aluno, e hoje é uma grande Escola, pois tem o tamanho do mundo inteiro. Nela entra cada pessoa que deseja ser formada por Maria. E qual sua linha de trabalho? Quais as principais lições que a Mãe Aparecida nela nos dá? Penso que podemos resumir o programa da Escola de Maria em cinco lições:

1ª lição: Fazer memória de Cristo com Maria. Fazer memória não é somente lembrar-se do passado, mas ter consciência de que as obras que Deus continuam sendo realizadas hoje. Essa atualização acontece, sobretudo, na Liturgia, mas se verifica também, por exemplo, quando rezamos o Rosário. Nessa oração, Maria nos toma pelas mãos e nos conduz pelos diversos momentos da redenção operada por Cristo.

2ª lição: Conhecer Cristo por Maria. Jesus é o nosso verdadeiro Mestre. Não se trata somente de aprender intelectualmente tudo aquilo que ele nos ensinou, mas de conhecê-lo em profundidade, de entrar em sua intimidade. Ora, entre todos os seres humanos, quem melhor conhece a intimidade de Jesus? Quem conhece os sentimentos de Jesus mais do que Maria? Foram trinta anos de convivência intensa e diária numa mesma casa. Em sua Escola, a Mãe de Jesus vai nos ensinar a ler o Evangelho, a penetrar nos segredos do Mestre, a aprender os ensinamentos do Mestre a respeito da verdade e da vida, a amar o Pai, a dedicar-se aos irmãos. Ela mesma aprendeu tudo isso com Jesus.

3ª lição: Conformar-se a Cristo com Maria. Conformar-se é tomar a forma de alguém, é adquirir a forma de Cristo. O apóstolo Paulo pôde, um dia, testemunhar: “Eu vivo, mas não sou eu que vivo; é Cristo que vive em mim”. Ele havia tomado a forma de Cristo, havia se conformado a ele. Trata-se, pois, de uma experiência vital, de entrelaçar nossa vida com a dele, para ter seus sentimentos. Maria foi a criatura que mais tomou a forma de Jesus. Tendo Jesus partido para o Pai, era de Maria que os apóstolos se aproximavam quando sentiam saudades do Mestre. O rosto da Maria, seu olhar e sua delicadeza deviam lhes lembrar os traços de Jesus – ele que os convidara para serem apóstolos e com o qual conviveram por três anos. Sabiam que foi o Pai do céu o primeiro a confiar naquela mulher, deixando seu Filho Jesus a seus cuidados. Hoje, somos nós que confiamos em Maria, consagrando-nos a Cristo por suas mãos.

4ª lição: Interceder a Cristo com Maria. A conformação a Cristo supõe uma incessante vida de oração. Quanto mais rezamos, mais e melhor percebemos a vontade de Deus. Disso Maria entende. Em Caná, ao apresentar a necessidade dos noivos para Jesus – “Eles não têm mais vinho” – e ao pedir aos funcionários que fizessem tudo o que Jesus lhes mandasse (“Fazei o que ele vos disser!”), Maria nos ensinou a suplicar, a apresentar nossas necessidades a Jesus e, sobretudo, a ter a coragem de sermos ousados em nossos pedidos.

5ª lição: Anunciar Cristo com Maria. Nas diversas assembleias do episcopado latino-americano, os bispos reconheceram que, ao longo de nossa história, Maria foi a maior anunciadora de Jesus, a mais importante evangelizadora. É que em sua vida houve uma maravilhosa harmonia entre fé e vida, entre contemplação e ação, entre o crescimento espiritual e a maturidade humana, entre a santificação pessoal e a dedicação apostólica. Por isso, em nosso trabalho missionário, é importante termos a companhia de Maria, estrela luminosa em nosso caminho em direção de Jesus.

Tendo lhes falado de cinco lições da Escola de Maria, lembro-lhes que nessa Escola há vagas para todos. As inscrições de novos alunos pode ser feita em qualquer dia e em qualquer hora – neste dia memorável, por exemplo. Para isso, basta acolhê-la como Mãe e Mestra.

Na noite de hoje, estou criando o Santuário de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, aqui em Imbuí. Nele ficará esta imagem peregrina. Este Santuário deverá ser, cada vez mais, um local de atração e de irradiação. A mesma Mãe que vai atrair multidões de seus filhos para esta sua casa, para esta sua Escola, vai enviá-los em missão para aqueles lugares e situações onde vivem e, particularmente, onde seu Filho não é conhecido e, por isso, não é amado.

Falar desta imagem é voltar nosso olhar para o dia 10 de setembro do ano passado, um sábado, quando nossa Arquidiocese foi buscá-la no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida. Quem não se lembra da chegada desta imagem em Salvador? A partir daquele dia, Maria se tornou peregrina em nossa Arquidiocese. Como não recordarmos, aqui, aquela tarde memorável do dia 11 de setembro, na Arena Fonte Nova? Representantes de todas as Paróquias aclamaram com alegria a Senhora Aparecida! Foi uma festa inesquecível! Depois disso, sua imagem peregrinou por todas as comunidades desta Arquidiocese Primaz. Era a resposta da Senhora Aparecida ao desejo que muitos tinham de ir como peregrino ao Santuário de Aparecida, no interior do Estado de São Paulo, por ocasião das celebrações dos 300 anos do encontro de sua imagem no Rio Paraíba. Já que muitos não poderiam ir até lá, ela mesma tornou-se peregrina e veio nos visitar. Penso que com a peregrinação desta imagem pelas onze foranias da Arquidiocese escreveu-se uma das mais belas páginas da história de nossa Igreja Particular. Para essa imagem, que nos recorda a Mãe de Jesus, se voltaram inúmeros olhares suplicantes. Quantos pedidos lhe foram feitos? Quanta dor foi colocada em seu coração materno? Quantos agradecimentos Maria escutou?

Nesta noite, fazemos à Senhora Aparecida o pedido que os discípulos de Emaús fizeram a Jesus:

Fica conosco! Fica conosco, Mãe! Sabemos que onde vais, levas o teu Filho Jesus. Assim foi em tua visita a Isabel, assim foi quando foste ao Templo de Jerusalém e o apresentaste a Simeão e Ana, assim foi quando foste para o Egito, como refugiada. Fica conosco, Mãe! É tarde! Lembra-te sempre que Jesus nos deu a ti como filhos e filhas. Nós, de nossa parte, nunca queremos nos esquecer que Jesus te deu a nós como Mãe. Ele sabia o quanto temos necessidade de uma Mãe e Mestra ao nosso lado. Dá-nos o teu Jesus, ó Mãe! Ensina-nos a amá-lo, a escutá-lo e a servi-lo. E quando encontrares alguém que não sabe te amar ou que não te aceita como Mãe, faz aquilo que sabes fazer tão bem, porque fazias isso quando Jesus era pequeno – isto é, envolve tal filho ou tal filha em teu manto de amor, envolve-o em teus braços maternos. Em qualquer situação, mostra-nos que és Mãe – Mãe de Jesus, nossa Mãe! Vá para cada uma de nossas casas, para ali continuares tua missão materna. Fica conosco, ó Mãe Aparecida, hoje e sempre! Amém!

Homilia da Missa em ação de graças pelo aniversário de Dom Murilo

19 de setembro de 2017

Leituras: Gn 9,8-18; Sl 102/103; 2Cor 5,17-21; Jo 19,25-27

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

 

A história da Revelação é uma história de aliança. Deus se revela a nós para estabelecer conosco laços, compromissos mútuos. Jesus é a aliança máxima de Deus. Ao enviar o Seu Filho ao mundo, o Pai deixa claro que não nos quer perder, não nos aceita perder; ao contrário, Ele quer nos ver participando de Sua vida divina, de Seu amor, de Sua alegria. Portanto, todas as coisas que acontecem no plano da salvação são expressões do desejo de Deus de nos unir mais e mais a Ele. São para fortalecer nossa aliança com Ele.

A história da Aliança é marcada, contudo, de nossa parte, por infidelidades; da parte de Deus, do renovado desejo de nos reconciliar com Ele. Paulo escreveu aos Coríntios: “Em Cristo, Deus nos reconciliou consigo”. Cabe-nos, agora, tomar consciência disso e fazer com que outros entendam esse projeto de reconciliação e amor de Deus, pois Ele nos confiou o ministério da reconciliação.

O ponto máximo da reconciliação foi a Cruz. Derramando seu sangue por nós, Jesus provou que os projetos de reconciliação de Deus eram verdadeiros. Ali, na escuridão da Cruz, nascia a luz da esperança.

Conta-nos S. João que “perto da Cruz de Jesus” estava Maria; estava “de pé” – portanto, em atitude de prontidão. Os evangelistas não se falam de lágrimas de Nossa Senhora. Falam, sim, do dom que Jesus nos fez de sua Mãe e do dom que fez à sua Mãe, dando-lhe cada um de nós como um filho, uma filha, para ficarmos sob sua responsabilidade.

Com isso, a participação de Maria na redenção não terminava ali. Tinha vivido até então em função e em unidade com Jesus. Sua missão passava a se estender sobre todo o mundo, sobre todo ser humano, de qualquer tempo ou lugar. Uma nova etapa da vida de Maria começou naquele momento.

No dia 19 de setembro de 1846 – portanto, há 171 anos -, a Mãe de Jesus manifestou seus sentimentos a dois adolescentes: Maximino e Melânia, a quem apareceu. O local da aparição foi La Salette, nos Alpes franceses, a 2.200 metros de altura. Aquela Senhora que brilhava transmitiu-lhes uma mensagem, que deveria ser divulgada ao mundo. Era uma mensagem de reconciliação. Lembrou-lhes a dor de Seu Filho por ver que muitos não aceitavam o Evangelho, e viviam como pagãos. Mas para aqueles adolescentes, o mais impressionante foi testemunhar que durante todo o tempo que durou a aparição, Nossa Senhora não parou de chorar.

As lágrimas de Maria foram uma demonstração de que ela não é indiferente à situação da humanidade. Afinal, tendo recebido no Calvário a missão de ser nossa Mãe, ela sofre por ver que seu Filho não é amado, que muitos rejeitam seu Filho e que, por isso, não poucos correm o risco de perder eternamente a sua alma.

Mas Maria pode chorar hoje? Jesus afirmou que haverá maior alegria no céu por um só pecador que se converte do que por noventa e nove justos que não precisam fazer penitência (Lc 15,7). Se a alegria do céu pela conversão de alguém pode crescer, como não a tristeza quando alguém não vive segundo o Evangelho? A eternidade não é um estado de imobilidade ou de indiferença.

Mas, qual o significado das lágrimas de Nossa Senhora em La Salette? São lágrimas de tristeza por todos os que rejeitam o amor de Deus; pelas famílias desagregadas; pelos jovens desorientados; pela violência que fere e mata; pelo ódio…

São lágrimas de oração: ela reza pelos que se fecham aos apelos de Deus.

São lágrimas de esperança: ela espera que nossos corações se abram a Deus.

Nossa Senhora olha para o sofrimento do mundo e procura enxugar as lágrimas dos que sofrem.

Para mim, que celebro o meu aniversário quando a Igreja faz memória da aparição de La Salette, tudo isso é muito significativo. Ainda mais que a espiritualidade que brota da aparição de La Salette tem muito a ver com o carisma de minha Congregação – a Congregação dos Padres do S.C.J. – Para Pe. Dehon, La Salette era uma fonte inspiradora de sua espiritualidade.

La Salette me lembra que fui chamado a anunciar a todos a aliança que Deus quer estabelecer com cada coração e com toda a humanidade. Lembra-me,também, que o Senhor me confia o ministério da reconciliação. La Salette me faz olhar para o Calvário, para tomar consciência de que os amigos de Jesus estão de pé, a seu lado, unindo-se a seu sofrimento.

Porque estou longe de conseguir realizar esta missão é que coloco a minha vida nas mãos de Maria e conto com a oração de todos vocês. Que a graça de Deus supra aquilo que não tenho conseguido realizar e refaça o que não fiz bem.

Oficialmente, começo um tempo que eu chamo de “contagem regressiva”. A partir dos 75 anos, que espero comemorar, estarei nas mãos daquele que recebeu a missão de ser o Pastor Universal, o Papa, que me dirá até quando deverei ficar à frente desta Arquidiocese. Mas, olhando bem, não importa o tempo de nosso trabalho; o que importa é a intensidade de nosso amor, de nossa unidade com Cristo, de nossa fidelidade à aliança que Ele estabeleceu conosco.

Que Nossa Senhora de La Salette me faça compreender que suas lágrimas estão unidas a de seu Filho. Como não confiar em lágrimas assim, que têm um poder de reconciliação inimaginável?

Nossa Senhora de La Salette, rogai por nós!

Dom Murilo presidiu Missa pelos mortos em naufrágio na Baía de Todos os Santos

O Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger, presidiu na noite de ontem (30) a Missa de sétimo dia pelas almas das vítimas do naufrágio ocorrido na Baía de Todos os Santos. A Celebração Eucarística, marcada por muita emoção, aconteceu na matriz da paróquia Sagrado Coração de Jesus, em Mar Grande. Inúmeros fiéis participaram da Missa e no momento do ofertório 19 homens do Grupo de Oração Terço dos Homens (GOTH’s) ofertaram rosas brancas, recordando os mortos.

Confira, na íntegra, a homilia proferida por Dom Murilo:

Mar Grande – Ilha de Itaparica – 39.08.17

Missa de 7º dia pelos que morreram no Naufrágio na Baia de Todos os Santos

Leituras: Rm 8,14-23; Sl 22; Jo 11,17-27

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

Nesta missa de 7º dia pelos mortos da tragédia na Baia de Todos os Santos, ocorrida na manhã do dia 24 de agosto último, vou desenvolver minha homilia em dez pontos.

1º – O fato. Cada um de nós tem uma lembrança viva do lugar em que estava e da hora em que recebeu a notícia da tragédia ocorrida na Baia de Todos os Santos, na quinta-feira passada. Até então, um acontecimento assim parecia acontecer somente longe de nós, envolvendo pessoas desconhecidas. De repente, descobrimos que também perto de nós pode ocorrer uma desgraça dessas dimensões, sem limites, envolvendo pessoas ou famílias conhecidas. Pior foi a consciência que, pouco a  pouco, foi se impondo: essa tragédia não precisaria ter acontecido, não poderia ter acontecido, mas aconteceu por falhas humanas.

2º –  A comoção. Se a dor da tragédia atingiu especialmente os familiares das vítimas, tal dor foi partilhada por todos. Poucas vezes a gente sentiu de perto o quanto somos irmãos; o quanto a dor do próximo é também a nossa dor. A Ilha de Itaparica chorou; Salvador chorou; o Estado da Bahia viveu um dos momentos mais tristes de sua história. E, de repente, percebemos que todo o Brasil participava dessa dor, que o mundo acompanhou de perto. Muitos se perguntavam: Por que isso aconteceu? Por que? Como entender isso?

3º – O sofrimento. Foi (e está sendo) um sofrimento sem limite. Foi uma dor sem tamanho. Segundo uma antiga tradição cristã, no caminho que Jesus percorreu até o Calvário, uma mulher, Verônica, enxugou o seu rosto. Para recordar aquele momento, em nossas procissões de Sexta-feira Santa alguém, representando Verônica, abre um lenço onde está impresso o rosto de Cristo. Enquanto isso, ela canta: “Vós, que passais pelo caminho, vede se há dor semelhante à minha dor!” Tendo aqui, diante de nós, familiares que sofrem pela trágica ocorrência na Baía de Todos os Santos, nós nos perguntamos: “Será que há dor semelhante à dor destes nossos irmãos e irmãs?…”

4º – As reações. Técnicos deram sua opinião sobre as causas do acidente; jornalistas fizeram reportagens emocionantes sobre os fatos e as pessoas envolvidas; autoridades buscaram explicações; psicólogos analisaram as reações… A lista de pessoas que se manifestaram poderia ir longe. Todos demonstraram ter a mesma convicção: estamos diante de um acontecimento que levaremos muitos anos para entender – se é que um dia o entenderemos. A verdade se impõe: esta tragédia deixou marcas profundas na vida de inúmeras pessoas. Qualquer explicação humana será sempre limitada, imperfeita, incompleta. A fé vem nos lembrar que somos muito mais responsáveis por nossos atos do que imaginamos.

5º – A esperança. Nasce em nosso coração o desejo de que um fato como esse não volte a acontecer. Aliás, não pode acontecer! Nossa esperança não pode ser decepcionada. Todos nós temos o direito de sonhar com viagens e travessias com mais conforto e segurança. Desde que Deus disse – e isso está logo no começo da Bíblia -: “Dominai a terra!”, deixou claro que, a partir daí, a vida estaria em nossas mãos. Ele não faria intervenções a toda hora para corrigir nossos erros, completar nossas omissões ou para fazer o que cabe a nós fazer.

6º A fé. Continuo meu pensamento anterior: muitos gostariam de ter visto uma intervenção direta de Deus, para que tal tragédia não tivesse acontecido. Não é assim que age o Deus de Jesus Cristo. Ele nos deu inteligência e vontade para construirmos um mundo melhor, mais justo e fraterno. A fé, nossa confiança em Deus, não pode ser vista como uma desculpa para nossa omissão ou mediocridade.

7º – Deus. O que o SENHOR tem a nós dizer? Ele já nos falou. Sua Palavra foi proclamada no início desta celebração. Primeiramente, nos falou por meio do apóstolo Paulo:

  • “Somos filhos e filhas de Deus; filhos, portanto herdeiros”. Anima-nos, pois, a certeza: mais do que nunca, Ele está ao lado dos que estão sofrendo, pois são filhos e filhas queridas, que precisam muito de Seu carinho.
  • “Não há proporção entre os sofrimentos do tempo presente e a glória que deve um dia revelar-se a nós”. Com nossos sofrimentos, completamos em nossa carne o que falta à Paixão de Cristo.
  • “Esperamos a redenção do nosso corpo”. Um dia, o nosso corpo ressuscitado e transfigurado será chamado a participar da glória de Deus.
  • O Salmista nos conforta: “O Senhor é o meu pastor. Nada me faltará”.
  • Deus nos falou por Seu Filho, Jesus Cristo. Em resposta à observação de Marta – “Senhor, se estivesses estado aqui, meu irmão não estaria morto” -, Jesus lhe ensinou: “Teu irmão ressuscitará. Eu sou a ressurreição e a vida. Aquele que crer em mim, não morrerá para sempre”.

8º – Nossa resposta. A partir de um acontecimento como este, o que Deus espera de nós? Ele quer que nos lembremos que a vida é frágil; é delicada como uma flor. Por isso, precisa de muito cuidado.Deus espera, pois, que aproveitemos nossos dias para consolar os que sofrem e manifestar nossa solidariedade com quem tem alguma necessidade. Espera, também, que vivamos de tal modo que estejamos sempre preparados para nosso encontro com Ele, mesmo que for inesperado. Viver na graça, viver na amizade com Deus, é a vocação que recebemos no batismo.

9º – Amigos de Jó. Há um livro bíblico que não foi aqui proclamado, mas é que de todos conhecido: o livro de Jó. Ele era um homem rico e saudável, com uma bela família. Deus permitiu, então, para testar sua fé, que ele perdesse tudo: bens, familiares e saúde. Então, Jó ficou só. Três amigos seus, de lugares diferentes, tendo ouvido falar de sua situação, foram visitá-lo, para consolá-lo. Ficaram surpresos com seu deplorável estado. Então, sem falar palavra alguma, ficaram a seu lado sete dias e sete noites, para lhe demonstrar o quanto estavam unidos a ele. Sei que as famílias enlutadas receberam muito conforto e gestos de amizade. Como isso foi importante para elas! O risco, agora, é o de esquecermos tais famílias. Isso não pode acontecer. Mais do que nunca elas devem sentir, a seu lado, amigos como os que Jó tinha.

10º – Uma preceSenhor, olha com compaixão para os que sofrem aqui, tão perto de nós. Só tu és capaz de conhecer em profundidade a dor de cada um, pois tu, Jesus, és o Homem das Dores. Na Cruz, tu assumiste todo sofrimento humano, dando-lhe sentido. Faz com que nossas cruzes sirvam para nossa santificação e salvação. Olha para cada pai que perdeu seu filho; para cada mãe que está inconsolável; para o esposo ou a esposa que chora a ausência da pessoa querida; olha para os filhos que perderam pais; olha para todos aqueles que fazem sua a dor dos que sofrem. Que ninguém se esqueça de que, mais do que nunca, tu cumpres o que prometeste: “Eis que estarei convosco todos os dias…” Todos os dias… também hoje, também nesta noite, também agora.

Amém!

Homilia da celebração do Te Deum pelo Dois de Julho – 2016

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia

Salvador, Te Deum – 2 de julho

Igreja de S. Pedro dos Clérigos

 

  1. O relato da perda e do encontro de Jesus, quando ele tinha 12 anos, terminou com as palavras: “Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas.” Ela conservava no coração a experiência que estava vivendo porque não conseguia compreendê-la de forma total. Conservava no coração porque não queria perder aquilo que acabara de ver e ouvir; não queria que aquele momento e situação caíssem no esquecimento. Sem dúvida, queria até que aquilo que estava vivendo com Jesus, o Filho de Deus, iluminasse o seu caminho.
  2. Cada um de nós já passou, também, por experiências inesquecíveis. Como o tempo, percebemos que aquilo que foi vivido talvez até de forma muito simples tinha um significado e uma importância especiais.
  3. Também comunitariamente passamos por momentos assim, que só fomos compreendendo aos poucos. A História é rica de situações cuja importância só acabou sendo compreendida muito tempo depois.
  4. Podemos dizer que isso aconteceu também com o 2 de julho de 1823. É verdade que aquele dia, mais do que uma data, é a síntese de uma difícil, dura e dolorosa experiência vivida na Bahia ao longo de um ano e meio. Hoje, para nós, o 2 de julho é o símbolo de uma luta pela independência do Brasil, que teve um momento significativo no dia 7 de setembro de 1822, por tudo o que esta data se reveste de importância na história da Independência do Brasil. Sabemos, contudo, que o 7 de setembro de 1822 sem o 2 de julho de 1823 não teria como resultado o Brasil que é e que somos hoje.
  5. É por isso que estamos aqui para cantar o Te Deum. Trata-se de um hino da Liturgia das Horas – isto é, da oração oficial da Igreja que bispos, sacerdotes e diáconos devemos rezar. Esse hino é rezado nos domingos e dias solenes. Segundo uma das explicações da origem deste hino, ele teria sido composto por Santo Ambrósio e Santo Agostinho, no ano de 387, em Milão, por ocasião do batismo de Santo Agostinho. A Ti, Deus, louvamos, a Ti, Deus, cantamos. A ti, Eterno Pai, adora toda a terra, proclamamos solenemente na primeira estrofe.
  6. Cantar o Te Deum é, em primeiro lugar, louvar o Pai que nos permitiu viver numa pátria livre. É agradecer-lhe por todos aqueles que deram sua vida para a independência de nosso país se consolidasse. É louvá-lo por aqueles que, com sua dedicação, suor, trabalho e generosidade muito fizeram para que tivéssemos o que hoje temos.
  7. Sabemos que nem todo o Brasil exalta o dia 2 de julho. Muitos simplesmente ignoram a importância desse dia. Outros, ao ouvir falar das festas que neste dia ocorrem na Bahia, e, particularmente, em Salvador e no Recôncavo, pensam logo nos aspectos folclóricos, secundários e, mesmo, de pouco importância. Mais e mais precisamos apresentar ao país, correta e claramente, o significado deste dia. É o mínimo que podemos fazer não só em respeito à verdade histórica mas, especialmente, em respeito àqueles que deram a vida para que a independência do Brasil fosse consolidada.
  8. Mas tudo isso ainda não basta. Aqueles que trabalharam e lutaram por um Brasil livre tinham sonhos, grandes sonhos. Sonharam com uma terra onde todos tivessem o mínimo necessário para um vida digna; sonharam com um país onde todos se considerassem irmãos; sonharam com um Brasil que fosse para todas as pessoas, independente de sua raça, religião ou idade.
  9. Por que lembro isso? Porque não podemos celebrar dignamente um acontecimento do passado se não fizermos o que estiver ao nosso alcance para construir um país justo e solidário no presente; um país em que todos tenham atendidas suas necessidades básicas: penso no alimento, na saúde, na educação e na segurança. Nosso país precisa de um mutirão de solidariedade, para o qual todos devem se sentir convidados a participar – políticos, industriais, comerciantes, agricultores,estudantes, donas de casa, trabalhadores e trabalhadoras.
  10. Há muito que fazer para que concretizemos os ideais e sonhos daqueles que são lembrados nas comemorações de 2 de Julho, e que mereceram um belo hino: Nunca mais o despotismo / Regerá nossas ações / Com tiranos não combinam / Brasileiros corações. Lembrando as palavras que o Presidente Kennedy usou quando tomou posse como Presidente dos Estados Unidos, penso que não devemos perguntar o que o país pode fazer por nós, mas o que nós podemos fazer pelo nosso país. Podemos fazer muito. Assim como um oceano é feito de pequenas gotas de água, assim a justiça e a paz nascem e crescem com a colaboração e o esforço de cada pessoa, de cada cidadão.
  11. “A mãe de Jesus conservava todas essas coisas em seu coração.” Quanta oração de louvor deve ter nascido no coração de Maria, a partir de seu encontro com Jesus. Que ela nos ensine, pois, a cantar, por tudo o que recebemos e por tudo o que estamos dispostos a fazer: Te Deum laudamus – a Ti, Deus, louvamos, a Ti, Deus cantamos!

Domingo de Ramos

Semana Santa 2016 – 1. Domingo de Ramos – 20.03.16 – Ano C

Dom Murilo S.R. Krieger, scj 

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

 

  1. Quem começou se dirigindo a nós, na Liturgia da Palavra, através da profecia de Isaias, foi o “Servo Sofredor”. É uma profecia feita 700 antes de Cristo sobre Jesus. O Servo descreve o que aconteceu com ele: foi surrado, insultado, esbofeteado, cuspido… Ele não reagiu. Como não lembrar essa profecia, vendo Jesus diante de Pilatos?… O Servo Sofredor diz palavras de conforto à pessoa abatida.
  2. Nós, seus discípulos, em cada situação difícil devemos olhar para o Senhor. Por exemplo,

– diante da experiência de dor vivida pela Igreja neste momento: perseguição em muitos países; erros de alguns de seus filhos. Vemos que levanta-se contra ela um ódio que é demoníaco. Mesmo assim, é sua missão dizer palavras de conforto às pessoas abatidas.

– diante da situação de nosso país. Quanto sofrimento! Quanto desrespeito à nossa dignidade de cidadãos! Quanto desemprego, quantos problemas no campo da saúde! Quantos confrontos e ameaças à paz! Mais do que nunca devemos olhar para o Servo sofredor que, ferido, dizia palavras de conforto às pessoas abatidas.

– com Ele, aprendemos que a violência não é a solução para nada; que a violência gera violência. Somos chamados a solucionar nossos problemas pela Lei (Constituição), pelos meios democráticos, pelo diálogo.

  1. Jesus, servo sofredor, esvazia-se, torna-se escravo, assume a morte e morte de cruz. Ele compreende as nossas dores. Mais do que nunca precisamos nos voltar para ele e lhe pedir: Piedade, Senhor, do povo brasileiro!
  2. É nossa vocação proclamar que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai. Proclamar isso por palavras e obras, dia por dia.
  3. Ouvindo a descrição da Paixão do evangelista Lucas, sentimo-nos motivados a reler esta passagem, a contemplá-la e a rezar, repetindo em nosso coração: Foi por mim que Jesus enfrentou tudo isso; foi por meus irmãos e irmãs…

Missa pelos 100 anos de nascimento de monsenhor Gaspar Sadoc

Salvador, 20.03.16 – Domingo de Ramos

Centenário de Mons. Gaspar SADOC da Natividade

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

 

  1. Não há, na Liturgia da Igreja (Liturgia no sentido do conjunto de celebrações da Igreja ao longo do ano, acompanhando a História da Salvação) não há nenhum domingo, nenhum dia como o Domingo de Ramos. É um domingo de contrastes: começa com a entrada solene, festiva, de Jesus em Jerusalém. É festa. Jesus é aclamado, louvado e recebido com roupas no chão, por onde deveria passar, e ramos nas mãos, para saudá-lo: Bendito o que vem em nome do Senhor, canta o povo à sua passagem. Depois, a celebração vai para outro extremo: é lida a descrição da Paixão, na voz do evangelista Lucas.. Ali é apresentado aquele Jesus sobre quem o profeta Elias fez uma profecia, 700 anos antes dos acontecimentos da Paixão e Morte: nele bateram, arrancaram sua barba, sofreu bofetões e cusparadas. E qual a reação de Jesus? Teve palavras de conforto às pessoas abatidas. Teve palavras de perdão.
  2. Por causa de sua obediência ao Pai e morte de Cruz, o Nome de Jesus foi elevado acima de todo nome. Hoje, somos nós que o proclamamos: “Jesus é o Senhor!”
  3. Este dia 20 de março de 2016 é também um dia de contrastes. Celebramos o centenário de um filho desta Arquidiocese – um filho que aos 13 anos deixou sua casa com um desejo: o de proclamar a todos, com sua vida, com seus trabalhos e com sua oratória vibrante: “Jesus é o Senhor!”
  4. Não vou descrever a sua vida, porque isso fugiria da finalidade da homilia. Aliás, para que descrevê-la se temos aqui inúmeras testemunhas do que Mons. Gaspar Sadoc da Natividade viveu e fez? Além disso, seria ingênuo e temerário querer descrever 100 anos de uma vida como a de Mons. Sadoc – uma vida que enfrentou muitas, inúmeras lutas.
  5. Se, mesmo sabendo do quanto seria ousada a tentativa de resumir 100 anos em poucas palavras, quisesse descrever a vida de Mons. Sadoc, iria, antes de tudo, entrevistá-lo. Mas já sei qual seria a sua resposta: seria a mesma que me deu quando lhe perguntei como gostaria de celebrar seu centenário. Ele me respondeu: “Não é preciso fazer muita coisa. Minha vida é muito simples!”
  6. Dos textos que li a seu respeito ou de palavras que ele próprio falou, colho apenas um testemunho que ele deu tempos atrás. Sabiamente, ele buscou passagens da própria Palavra de Deus para dizer como se sentia diante de tudo o que havia recebido em sua vida: “Graças a Deus, neste dia de Ação de Graças, agradecemos a Deus. E com o Salmo 100: Aclamai o SENHOR, terra inteira, servi ao SENHOR com alegria. Ide a Ele, com gritos jubilosos. Sabei que o SENHOR é Deus. Ele nos fez e a Ele pertencemos, somos o Seu povo, o rebanho do seu pasto. Entrai por Suas portas dando graças, com cânticos e louvor pelos Seus átrios, celebrai, bendizei o Seu nome, sim, porque o SENHOR é bom. O seu amor é para sempre, e sua verdade de geração em geração. E, continuando, peço-Vos, Senhor, com a prece que Vos fez Salomão: Não Vos peço honras, não Vos peço glórias, riquezas não Vos peço também. Dai-me a sabedoria para bem servir Vosso povo neste culto da amizade, louvando-Vos por agora, por hoje, por todos, por tudo, para sempre. Amém!”
  7. Neste dia, o sentimento mais forte que nasce no coração da Igreja que está na Arquidiocese de São Salvador da Bahia é o da gratidão. Gratidão a Deus, porque nos deu este seu filho, sacerdote no sacerdócio de Jesus Cristo. Gratidão aos pais de Mons. Sadoc, porque geraram e prepararam um filho para Deus e para a Igreja. Gratidão a Nossa Senhora da Purificação que envolveu este seu filho no seu manto de amor, o protegeu e trabalhou para formar seu coração segundo o coração de Jesus sacerdote. Gratidão à cidade de Santo Amaro, de rica história e de um filho tão ilustre como este.
  8. Certa vez, Mons. Sadoc assim se expressou: “Não sei quem foi que disse ser a memória a faculdade de esquecer. Pois bem, se ela é a faculdade de esquecer, o coração é a faculdade de lembrar”. Nosso coração em festa, Mons. Sadoc, neste Domingo de Ramos, dia de contrastes, se lembra das palavras de Paulo aos Filipenses: Jesus se fez “obediente até a morte, e morte de cruz”. O senhor, Mons. Sadoc, abraçou a obediência quando saiu pelas ruas e praças a anunciar que “Jesus Cristo é o Senhor!”; abraçou a obediência quando trabalhou no Seminário Arquidiocesano; abraçou a obediência quando assumiu paróquias, a última das quais foi esta, a de Nossa Senhora da Vitória; e abraçou a obediência quando o Jesus lhe pediu para fazer de sua cama o seu novo altar – altar onde, diariamente, eleva suas preces e oferece seus sacrifícios pela Igreja, pelos sacerdotes e pelo mundo. Com isso, Jesus Sacerdote quis lhe dizer que há muitas maneiras de servi-lo. Mas qualquer que seja a maneira por ele escolhida para ser servido, o que nunca pode faltar é o amor. Penso que essa é uma das lições mais importantes que, com o seu testemunho, o senhor nos dá, Mons. Sadoc. Muito obrigado! Realmente, conhecendo-o, concluímos: “Deus é amor!”

Homilia da Missa em memória aos 300 anos da morte de Madre Vitória da Encarnação

300 anos do falecimento de Madre Vitória da Encarnação

Convento Santa Clara – Salvador – 19.07.15

16º Domingo do Tempo Comum – Ano B

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

  1. Qual ovelhas em torno de seu Pastor, estamos aqui para escutar o nosso Pastor, nosso Bom Pastor: Jesus. É ele que nos reúne em torno de si, repetindo o que costumava fazer com aqueles que pertenciam ao primeiro grupo de seus discípulos. Ele nos acolhe para nos falar ao coração. Mas antes de escutarmos os seus ensinamentos, ele quer nos escutar; deseja que lhe falemos sobre o que vimos e ouvimos, o que fizemos e ensinamos. Em nosso nome, é a Mãe Igreja que lhe descreve o que testemunhou ao longo de seu caminho, de sua História. Nessa descrição, fixa seu olhar sobre uma filha sua, Madre Vitória da Encarnação, que 300 anos atrás, aos 54 anos, morria aqui, nesta cidade, neste Convento, com fama de santidade.
  2. Madre Vitória da Encarnação é uma prova viva de que Deus jamais abandona o seu povo. Como nos testemunha o profeta Jeremias, ele não abandonou o povo escolhido, mesmo depois de suas inúmeras infidelidades. Permitiu, sim, que o seu povo fosse várias vezes derrotado e deportado, justamente para que não confiasse em armas, no dinheiro e no poder, mas nele, o Pastor de Israel. O SENHOR prometeu: “Suscitarei para elas [as minhas ovelhinhas] novos pastores que as apascentem; não sofrerão mais o medo e a angústia, nenhuma delas se perderá”. Deus continua suscitando no meio de nós pessoas que nos obrigam a pensar naquilo que é essencial em nossa vida.
  3. Numa época em que a vida consagrada contemplativa havia perdido muito de seu brilho, Deus fez nascer nesta cidade, e precisamente neste Convento das Clarissas, uma vocação que seria um sinal para suas coirmãs, um sinal para a Igreja. Refiro-me, sim, à Madre Vitoria da Encarnação. Tão forte foi esse sinal que apenas cinco anos após o seu falecimento, o Arcebispo da época, o grande Dom Sebastião Monteiro da Vide, publicou um livro com um resumo da vida desta religiosa.
  4. Mas, como surgiu este Convento que um dia acolheu uma santa tão extraordinária? No dia 29 de abril de 1677, chegaram à Salvador quatro Clarissas do Mosteiro de Évora, Portugal. Por alguns dias precisaram ficar no navio que as trouxe, pois as obras deste Convento, que era chamado de Convento de Santa Clara do Desterro, ainda não estavam concluídas. Acolhidas festivamente pelo povo desta terra, passaram a viver naquele que era o primeiro mosteiro feminino da Colônia portuguesa.
  5. Para as famílias da época, ter uma filha neste Mosteiro dava “status” – motivo, pois, de um certo orgulho. Quis o pai de Vitória que sua filha, que por ocasião da chegada das religiosas portuguesas tinha 16 anos, se tornasse religiosa. A reação que ouviu o surpreendeu: ela preferia que a sua cabeça fosse cortada a tornar-se freira. Mas os caminhos de Deus são surpreendentes: após algumas experiências místicas, a jovem decidiu fazer parte do Convento do Desterro. Ela tinha, então, 25 anos.
  6. Feitos os votos, abraçou decididamente o caminho da santidade – caminho que tinha, naturalmente, as marcas de sua época. Dentre as características da espiritualidade de Madre Vitória da Encarnação, destaco cinco:

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TE DEUM pelo 2 de Julho

Igreja de S. Pedro dos Clérigos

Salvador, 01.07.15

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia

 

 

  1. A passagem do Evangelho de S. Lucas que acabou de ser proclamada (Lc 2,41-51) coloca diante de nós o comportamento da Mãe de Jesus diante de uma experiência que ela estava vivendo e que ultrapassava a sua capacidade de compreensão imediata: Ela conservava no coração todas estas coisas.
  2. Queremos fazer o mesmo – aliás, aqui estamos, porque guardamos em nosso coração momentos importantes, momentos decisivos na História de nossa Pátria. E tais momentos decisivos aconteceram aqui, neste chão, nesta terra que pisamos.
  3. São lembranças, é verdade, de um passado distante. Mas são lembranças envolvidas por vidas sacrificadas, por sofrimentos, por incertezas vividas por irmãos e irmãs nossos que, de repente, viram sua vida e seus ideais de liberdade ameaçados. Deixaram de lado, então, a rotina do trabalho e empunharam as armas para garantir a paz.
  4. Os que sobreviveram aos difíceis dias das lutas que culminaram naquele 2 de julho experimentaram a alegria da vitória. Podiam, então, dizer: Eu contribuí para manter a unidade do meu país! Estes bravos são lembrados quando cantamos: Nasce o sol a 2 de julho / brilha mais que no primeiro…/ Nossa pátria hoje livre/ dos tiramos não será.
  5. É motivo de orgulho para todos nós tomar consciência da participação da Bahia na luta pela emancipação política do Brasil. Sabemos que este nosso Estado foi o principal palco das guerras da independência; foi o local onde o conflito durou mais tempo (cerca de um ano e meio); aqui se mobilizou pela causa da independência o maior contingente de pessoas.
  6. Sabemos que o risco da divisão do território brasileiro era real. Poderíamos ter, hoje, dois países. Afinal, com a resolução do príncipe regente de permanecer no Brasil, desobedecendo as determinações das cortes de Lisboa, e a tentativa frustrada dos militares portugueses de levá-lo a Portugal, a metrópole portuguesa concentrou em Salvador todos os seus esforços militares. Era projeto de Portugal dividir o Brasil em duas regiões: o sul e o sudeste permaneceriam sob a direção de Dom Pedro I; e o norte e o nordeste, sob o domínio português.
  7. Foi graças às lutas dos baianos que a divisão do Brasil não ocorreu. No dia 2 de julho de 1823 – finalmente! – as tropas portuguesas foram expulsas daqui.
  8. Esses fatos nem sempre são contados nos livros da História do Brasil que são usadaos nas escolas. Cabe à Bahia e aos baianos recordar ao Brasil o feito daqueles que, aqui, nesta terra que pisamos, deram sua vida para que a unidade do país fosse mantida.
  9. Nossos antecipados de quase 200 anos atrás fizeram a sua parte. Mas não podemos nos fixar somente na História construída por eles. Há muito trabalho pela frente; há muitos desafios que precisam ser superados; há inúmeras iniciativas que devem ser tomadas para mantermos e consolidarmos a independência de nosso povo. Afinal, um povo só é livre quando tem seus direitos fundamentais assegurados; só é livre quando vive em segurança; quando tem saúde, educação de qualidade, emprego etc. Não podemos esperar tais dons como um presente caído dos céus ou das decisões daqueles que nos governam. Parafraseando o Presidente norte-americano Kennedy: Não devemos nos perguntar o que a cidade, o estado e o país podem fazer por nós, mas o que nós podemos fazer por eles.
  10. A construção de um Brasil digno de seus filhos e filhas ou será obra de todos – e não importante a idade, os títulos ou o cargo que cada um ocupa -, ou não haverá tal construção.
  1. Na manhã de hoje cantamos o Te Deum num agradecimento a Deus por sua presença em nossa vida e como um compromisso com os que nos antecederam. Conscientes de nossa fragilidade, nos voltamos para o SENHOR e lhe pedimos: A Vós, portanto, rogamos que socorrais os vossos servos/ a quem remistes com o vosso preciosíssimo sangue. Fazei que sejamos contados na eterna glória/ entre o número dos vossos santos. Amém.

Leia, na íntegra, a homilia da Missa em memória às vítimas das chuvas em Salvador

Parentes e amigos das vítimas da comunidade do Barro Branco lotaram a Matriz de Nossa Senhora de Guadalupe - (Foto: Edmilson Gomes/Tv Bahia)

Parentes e amigos das vítimas da comunidade do Barro Branco lotaram a Matriz de Nossa Senhora de Guadalupe – (Foto: Edmilson Gomes/Tv Bahia)

Na manhã de ontem (03), o bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador, Dom Gilson Andrade da Silva, presidiu a Missa e memória das vítimas do deslizamento de terra, ocasionado pelas chuvas que caíram na capital baiana. A Celebração Eucarística aconteceu na paróquia Nossa Senhora de Guadalupe (Alto do Peru). Acompanhe a homilia:

Homilia – 5º Domingo da Páscoa – 7º dia dos mortos na tragédia de 27 de abril (03/05/2015)

Nesta nossa celebração o que Deus nos quer dizer, partindo das coisas que vivemos nesses últimos dias, mas, sobretudo, iluminados pela Palavra da liturgia deste domingo?

Naturalmente buscamos respostas que nos ajudem a justificar a dor por que estamos passando. E o que vemos é que nossas respostas são sempre frágeis, não conseguem abarcar a realidade completa porque podem iluminar a razão, mas não abrasam o coração. Deus, ao contrário, deseja ir além, quer chegar até o coração de cada pessoa, por isso escolheu o coração para lugar do seu pouso e de sua morada.

Estamos aqui hoje para nos lembrar que quando se pensar que se perdeu tudo, sempre restam realidades de onde começar de novo, com novo empenho e com novas possibilidades. Restam-nos ainda a fé e a solidariedade.

Ter fé é acolher o convite que Jesus nos dirige hoje na Palavra que escutamos: “permaneçam em mim”. Aconteça o que acontecer, permaneçamos nele.  A vida perde sentido e direção quando nos desviamos dele, quando o olhar se perde nas inúmeras coisas que nos distraem, quando o coração se dispersa nas aflições.

Ele hoje nos diz: sem mim não podem fazer nada. De fato, sem Ele não conseguimos dar significado ao que acabamos de viver, mas com Ele o céu se abre e podemos ver que existe sempre o sol que ilumina tudo, que não é a chuva, nem as catástrofes, nem a morte que têm a última palavra. A última palavra é dele, pertence a Ele, por isso, com ar sereno, em meio a nossas aflições ele se volta para cada um e nos diz, como que querendo nos oferecer uma solução para tudo: permaneça em mim.

O que significa permanecer nele?

Primeiramente dar-nos conta de que o belo da nossa vida é uma companhia que não nos deixa nunca, nem na vida nem na morte. Ele ressuscitou e caminha ao nosso lado. Continua a atravessar conosco todas as veredas e vales. Não vivemos sozinhos, tampouco morremos sozinhos. A vida é marcada por uma companhia que nos segura em todos os momentos.

Assim, meus irmãos e minhas irmãs, afastar-se dele é arriscar cair no vazio e não descobrir a verdadeira beleza e sentido da vida.

Permanecer com Ele significa que a nossa vida é a dele, como a vida dos ramos é a da árvore. A consequência lógica da nossa união com Cristo tem a ver com o nosso estilo de vida. Qual era o estilo de vida de Jesus? Uma vida de amor. Fomos exortados na segunda leitura de hoje: “não amemos só com palavras e de boca, mas com ações e de verdade!” (1Jo 3, 18).

A hora presente nos desafia a amar como Jesus amou. O amor de Jesus foi tão grande que se manifestou numa capacidade enorme de perdoar. Quando uma tragédia acontece ao nosso redor, é natural que identifiquemos as possíveis culpas e os prováveis culpados e nesse momento o coração já sofrido pela dor da perda, se angustia com os sentimentos de ressentimentos e mágoas. Do alto da sua dor a palavra de Jesus era uma palavra de perdão. Um perdão que não significa retirada das responsabilidades, mas abertura do coração para o irmão. Diante dos fatos que vivemos é preciso assumir as devidas responsabilidades para alcançar uma resposta mais eficaz aos problemas que ameaçam os bairros periféricos da nossa cidade.

Onde a vida de um ser humano é mais ameaçada é para onde o nosso olhar deve se voltar preferentemente, como o olhar de Cristo que preferia os últimos.

Amar como Jesus amou é também amar com ações concretas. Diante da dor e do sofrimento dos nossos irmãos todos temos algo a fazer. Os fatos apelam à nossa caridade. Aos nossos irmãos que tudo perderam deve restar, além da fé, a nossa solidariedade que é uma expressão concreta do convite de Jesus que nos amemos uns aos outros. A mobilização que acontece em nossa cidade e em outros lugares para prestar socorro às vítimas é um sinal do interesse que deve haver por toda pessoa que sofre. Somos membros uns dos outros, somos irmãos, somos ramos da mesma videira que é Cristo. Só sustentados no tronco que é Ele e apoiando-nos mutuamente seremos capazes de construir um novo tempo na nossa história marcada pelo que o Santo Padre tem chamado de globalização da indiferença.

Permanecer com Cristo nos leva a superar a indiferença e a estar no lugar onde Ele nos conduz, na história concreta do único hoje que nos pertence, aquele hoje real que estamos chamados a viver.

Não deveria ser o horror de uma tragédia a nos despertar da indiferença, não deveríamos precisar de situações semelhantes para enxergar que perto de nós há irmãos que precisam de uma mão estendida.  Oxalá este fato nos sirva como a mão do agricultor de que fala o Evangelho, que se serve da poda da videira para garantir mais frutos. Que não fechemos os nossos ouvidos à Palavra que nos purifica e que hoje nos exortou a não amarmos só “com palavras e de boca, mas com ações e de verdade” (1Jo 3, 18).

Numa hora como essa são muitas as mãos que se unem, não basta apenas uma, uma vez que a situação é complexa. Cristo é sempre o primeiro a estender a sua. Na verdade temos todos que nos darmos conta do que Jesus acaba de nos dizer: sem mim…nada. É a sua presença no centro dos corações a única realidade que pode mudar tudo, que pode nos tirar definitivamente da indiferença.

Aos enlutados, aos que perderam tantas coisas a fé traz consolo, mas também abre horizonte, dá esperança e nela encontramos a coragem para atitudes de reconstrução. Não só reconstruir as casas, mas a nossa sociedade, pois uma sociedade egoísta acaba por desmorona.

Permanecer em Cristo é condição para pedir e estamos aqui apoiados na certeza de que Ele sempre nos escuta, juntos com Maria nesse mês a Ela dedicado.

Confira a homilia de Dom Murilo realizada durante a Missa da Vida Consagrada

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

Ano da Vida Consagrada

Salvador, 31.03.15 – Santuário Nossa Senhora de Fátima

Leituras da Terça-feira da Semana Santa: Is 49,1-6 e Jo 13,21-33.36-38

 

 

  1. Estamos aqui na consciência de que um dia Deus – que segundo a descrição feita pelo profeta Isaías, chamou para uma missão seu “Servo” -, chamou também cada um de nós: O Senhor me chamou antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe ele tinha na mente o meu nome… Sobre mim e sobre você foi feita a mesma observação: Tu és o meu Servo.
  2. Estamos aqui para celebrar o dom do nosso chamado à vida consagrada. É o Papa Francisco que nos convida: “Juntos, demos graças ao Pai, que nos chamou para seguir Jesus na plena adesão ao seu Evangelho e no serviço da Igreja e derramou em nossos corações o Espírito Santo que nos dá alegria e nos faz dar testemunho ao mundo inteiro do seu amor e da sua misericórdia” (Carta Apostólica às Pessoas Consagradas, 21.11.14).
  3. Algumas convicções alimentam nossa espiritualidade e a animam. Na carta que nos dirigiu, o Papa Francisco lembrou algumas dessas convicções:
  • cada um de nossos Institutos tem uma rica história carismática; por isso, somos convidados neste ano a recordar os seus inícios e o seu desenvolvimento histórico. Lembra-nos o Papa Francisco: “Repassar a própria história é indispensável para manter viva a identidade e também robustecer a unidade da família e o sentido de pertença dos seus membros. (…) Narrar a própria história é louvar a Deus e agradecer-Lhe por todos os seus dons” (I – 1);
  • nossos Fundadores e Fundadoras “sentiram em si mesmos a compaixão que se apoderava de Jesus quando via as multidões como ovelhas extraviadas sem pastor”. Isso nos motivou, quando fizemos nossa profissão religiosa, a prometer a Jesus que ele seria nosso primeiro e único amor; sabíamos que somente assim poderíamos amar verdadeira e misericordiosamente cada pessoa que encontrássemos em nosso caminho (I – 2);
  • a esperança que nos anima “não se funda sobre números ou sobre as obras, mas sobre Aquele em quem pusemos a nossa confiança (cf. 2Tm 1,12) e para quem “nada é impossível” (Lc 1,37); anima-nos, também, a certeza de que o Espírito Santo quer que enfrentemos o futuro , “a fim de continuar a fazer, conosco, grandes coisas” (I – 3);
  • sabemos que somos chamados “a experimentar e mostrar que Deus é capaz de preencher o nosso coração e nos fazer felizes, sem necessidade de procurar em outro lugar a nossa felicidade” (II – 1);
  • nossa vida deve falar, “uma vida da qual transparece a alegria e a beleza de viver o Evangelho e seguir a Cristo” (id.);
  • não podemos ficar prisioneiros de nossos problemas. Esses se resolverão se procurarmos ajudar os outros a resolver os seus problemas, anunciando-lhes a Boa Nova. “Encontrareis a vida dando a vida, a esperança dando esperança, o amor amando” (II – 4).
  1. Nós, consagrados, somos chamados a deixar de lado nossos projetos pessoais para imitar Jesus Cristo, que foi um irmão universal. Com nossa vida, mesmo que silenciosa, mesmo que contemplativa, gritamos ao mundo que Deus nos basta, pois Ele é plenamente capaz de dar sentido à nossa vida. Só Deus merece ser amado por Ele mesmo.
  2. Temos consciência de que o valor de nossa vida não se mede por números, pela nossa fama ou eficácia; mede-se, sim, pela intensidade de nosso relacionamento com Deus. E como é importante termos consciência disso, pois continuaremos contribuindo com o dom de nossa vida para a glória de Deus e a salvação dos irmãos também quando ficarmos doentes ou incapacitados de trabalhar.
  3. A vida consagrada não é um bem somente para a Igreja, mas para toda a humanidade. E como a humanidade precisa desse bem! Nos consagrados e nas consagradas, Cristo continua a debruçar-se sobre doentes em hospitais; a cuidar de crianças em creches; a educar crianças, adolescentes e jovens em colégios; a visitar casas de pessoas necessitadas; a cuidar de centros de encontros; a trabalhar em paróquias; a atender bispos e padres; a assistir círculos bíblicos, pastorais e movimentos; a acolher peregrinos em albergues; a olhar com carinho para idosos em asilos; a cuidar de menores abandonados e de jovens dependentes de drogas; a evangelizar através de livros e de outros meios de comunicação… Em cada consagrado e consagrada, é Cristo que passa pelos caminhos do mundo.
  4. Se há uma diocese que deve louvar e agradecer o Senhor pelo dom da vida consagrada, essa diocese é a nossa. A presença de religiosos nesta Arquidiocese Primaz aqui desde 1549 foi essencial para que Jesus Cristo fosse conhecido e servido, amado e seguido. Milhares de homens e mulheres, vindos de diversos países, demonstraram sua disposição de ser aqui um sinal para todos – sinal do amor de Deus e do privilégio de alguém seguir o Seu Filho pelos votos de pobreza, castidade e obediência. S. José de Anchieta, a Bem-aventurada Lindalva e a Bem-aventurada Dulce dos Pobres são exaltados e admirados; na verdade, eles são exemplos de uma santidade escondida em conventos, nas periferias de nossas cidades, em mosteiros contemplativos e paróquias.
  5. Por tudo isso, que bom termos um ano para conhecer melhor a vida consagrada e promovê-la! Espero que, como primeiro resultado, cresçam em nossa Arquidiocese as vocações para essa vida, particularmente nas congregações que aqui atuam. Será uma humilde forma de retribuirmos à Igreja o bem que consagrados e consagradas já fizeram ou continuam fazendo aqui em tantos campos e necessidades.

Termino com duas observações: a primeira é do Papa Bento XVI – observação que foi retomada pelo Papa Francisco na Carta que nos enviou: “Vós, [consagrados e consagradas] não tendes apenas uma história gloriosa para recordar e narrar, mas uma grande história a construir! Olhai para o futuro, para o qual vos projeta o Espírito [Santo] a fim de realizar convosco ainda coisas maiores”. A segunda observação que lhes faço é, na verdade, um convite: tomem consciência de que é para cada um de nós que o Senhor faz a afirmação: Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até aos confins da terra (Is 49,6b).


Cúria Metropolitana Bom Pastor - Av. Leovigildo Filgueiras, 270 - Garcia, CEP: 40.100-000 - Salvador -Ba. Tel.: (71) 4009-6666 | contato@arquidiocesesalvador.org.br
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