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Homilia da celebração do Te Deum pelo Dois de Julho – 2016

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia

Salvador, Te Deum – 2 de julho

Igreja de S. Pedro dos Clérigos

 

  1. O relato da perda e do encontro de Jesus, quando ele tinha 12 anos, terminou com as palavras: “Sua mãe, porém, conservava no coração todas estas coisas.” Ela conservava no coração a experiência que estava vivendo porque não conseguia compreendê-la de forma total. Conservava no coração porque não queria perder aquilo que acabara de ver e ouvir; não queria que aquele momento e situação caíssem no esquecimento. Sem dúvida, queria até que aquilo que estava vivendo com Jesus, o Filho de Deus, iluminasse o seu caminho.
  2. Cada um de nós já passou, também, por experiências inesquecíveis. Como o tempo, percebemos que aquilo que foi vivido talvez até de forma muito simples tinha um significado e uma importância especiais.
  3. Também comunitariamente passamos por momentos assim, que só fomos compreendendo aos poucos. A História é rica de situações cuja importância só acabou sendo compreendida muito tempo depois.
  4. Podemos dizer que isso aconteceu também com o 2 de julho de 1823. É verdade que aquele dia, mais do que uma data, é a síntese de uma difícil, dura e dolorosa experiência vivida na Bahia ao longo de um ano e meio. Hoje, para nós, o 2 de julho é o símbolo de uma luta pela independência do Brasil, que teve um momento significativo no dia 7 de setembro de 1822, por tudo o que esta data se reveste de importância na história da Independência do Brasil. Sabemos, contudo, que o 7 de setembro de 1822 sem o 2 de julho de 1823 não teria como resultado o Brasil que é e que somos hoje.
  5. É por isso que estamos aqui para cantar o Te Deum. Trata-se de um hino da Liturgia das Horas – isto é, da oração oficial da Igreja que bispos, sacerdotes e diáconos devemos rezar. Esse hino é rezado nos domingos e dias solenes. Segundo uma das explicações da origem deste hino, ele teria sido composto por Santo Ambrósio e Santo Agostinho, no ano de 387, em Milão, por ocasião do batismo de Santo Agostinho. A Ti, Deus, louvamos, a Ti, Deus, cantamos. A ti, Eterno Pai, adora toda a terra, proclamamos solenemente na primeira estrofe.
  6. Cantar o Te Deum é, em primeiro lugar, louvar o Pai que nos permitiu viver numa pátria livre. É agradecer-lhe por todos aqueles que deram sua vida para a independência de nosso país se consolidasse. É louvá-lo por aqueles que, com sua dedicação, suor, trabalho e generosidade muito fizeram para que tivéssemos o que hoje temos.
  7. Sabemos que nem todo o Brasil exalta o dia 2 de julho. Muitos simplesmente ignoram a importância desse dia. Outros, ao ouvir falar das festas que neste dia ocorrem na Bahia, e, particularmente, em Salvador e no Recôncavo, pensam logo nos aspectos folclóricos, secundários e, mesmo, de pouco importância. Mais e mais precisamos apresentar ao país, correta e claramente, o significado deste dia. É o mínimo que podemos fazer não só em respeito à verdade histórica mas, especialmente, em respeito àqueles que deram a vida para que a independência do Brasil fosse consolidada.
  8. Mas tudo isso ainda não basta. Aqueles que trabalharam e lutaram por um Brasil livre tinham sonhos, grandes sonhos. Sonharam com uma terra onde todos tivessem o mínimo necessário para um vida digna; sonharam com um país onde todos se considerassem irmãos; sonharam com um Brasil que fosse para todas as pessoas, independente de sua raça, religião ou idade.
  9. Por que lembro isso? Porque não podemos celebrar dignamente um acontecimento do passado se não fizermos o que estiver ao nosso alcance para construir um país justo e solidário no presente; um país em que todos tenham atendidas suas necessidades básicas: penso no alimento, na saúde, na educação e na segurança. Nosso país precisa de um mutirão de solidariedade, para o qual todos devem se sentir convidados a participar – políticos, industriais, comerciantes, agricultores,estudantes, donas de casa, trabalhadores e trabalhadoras.
  10. Há muito que fazer para que concretizemos os ideais e sonhos daqueles que são lembrados nas comemorações de 2 de Julho, e que mereceram um belo hino: Nunca mais o despotismo / Regerá nossas ações / Com tiranos não combinam / Brasileiros corações. Lembrando as palavras que o Presidente Kennedy usou quando tomou posse como Presidente dos Estados Unidos, penso que não devemos perguntar o que o país pode fazer por nós, mas o que nós podemos fazer pelo nosso país. Podemos fazer muito. Assim como um oceano é feito de pequenas gotas de água, assim a justiça e a paz nascem e crescem com a colaboração e o esforço de cada pessoa, de cada cidadão.
  11. “A mãe de Jesus conservava todas essas coisas em seu coração.” Quanta oração de louvor deve ter nascido no coração de Maria, a partir de seu encontro com Jesus. Que ela nos ensine, pois, a cantar, por tudo o que recebemos e por tudo o que estamos dispostos a fazer: Te Deum laudamus – a Ti, Deus, louvamos, a Ti, Deus cantamos!

Domingo de Ramos

Semana Santa 2016 – 1. Domingo de Ramos – 20.03.16 – Ano C

Dom Murilo S.R. Krieger, scj 

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

 

  1. Quem começou se dirigindo a nós, na Liturgia da Palavra, através da profecia de Isaias, foi o “Servo Sofredor”. É uma profecia feita 700 antes de Cristo sobre Jesus. O Servo descreve o que aconteceu com ele: foi surrado, insultado, esbofeteado, cuspido… Ele não reagiu. Como não lembrar essa profecia, vendo Jesus diante de Pilatos?… O Servo Sofredor diz palavras de conforto à pessoa abatida.
  2. Nós, seus discípulos, em cada situação difícil devemos olhar para o Senhor. Por exemplo,

– diante da experiência de dor vivida pela Igreja neste momento: perseguição em muitos países; erros de alguns de seus filhos. Vemos que levanta-se contra ela um ódio que é demoníaco. Mesmo assim, é sua missão dizer palavras de conforto às pessoas abatidas.

– diante da situação de nosso país. Quanto sofrimento! Quanto desrespeito à nossa dignidade de cidadãos! Quanto desemprego, quantos problemas no campo da saúde! Quantos confrontos e ameaças à paz! Mais do que nunca devemos olhar para o Servo sofredor que, ferido, dizia palavras de conforto às pessoas abatidas.

– com Ele, aprendemos que a violência não é a solução para nada; que a violência gera violência. Somos chamados a solucionar nossos problemas pela Lei (Constituição), pelos meios democráticos, pelo diálogo.

  1. Jesus, servo sofredor, esvazia-se, torna-se escravo, assume a morte e morte de cruz. Ele compreende as nossas dores. Mais do que nunca precisamos nos voltar para ele e lhe pedir: Piedade, Senhor, do povo brasileiro!
  2. É nossa vocação proclamar que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai. Proclamar isso por palavras e obras, dia por dia.
  3. Ouvindo a descrição da Paixão do evangelista Lucas, sentimo-nos motivados a reler esta passagem, a contemplá-la e a rezar, repetindo em nosso coração: Foi por mim que Jesus enfrentou tudo isso; foi por meus irmãos e irmãs…

Missa pelos 100 anos de nascimento de monsenhor Gaspar Sadoc

Salvador, 20.03.16 – Domingo de Ramos

Centenário de Mons. Gaspar SADOC da Natividade

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

 

  1. Não há, na Liturgia da Igreja (Liturgia no sentido do conjunto de celebrações da Igreja ao longo do ano, acompanhando a História da Salvação) não há nenhum domingo, nenhum dia como o Domingo de Ramos. É um domingo de contrastes: começa com a entrada solene, festiva, de Jesus em Jerusalém. É festa. Jesus é aclamado, louvado e recebido com roupas no chão, por onde deveria passar, e ramos nas mãos, para saudá-lo: Bendito o que vem em nome do Senhor, canta o povo à sua passagem. Depois, a celebração vai para outro extremo: é lida a descrição da Paixão, na voz do evangelista Lucas.. Ali é apresentado aquele Jesus sobre quem o profeta Elias fez uma profecia, 700 anos antes dos acontecimentos da Paixão e Morte: nele bateram, arrancaram sua barba, sofreu bofetões e cusparadas. E qual a reação de Jesus? Teve palavras de conforto às pessoas abatidas. Teve palavras de perdão.
  2. Por causa de sua obediência ao Pai e morte de Cruz, o Nome de Jesus foi elevado acima de todo nome. Hoje, somos nós que o proclamamos: “Jesus é o Senhor!”
  3. Este dia 20 de março de 2016 é também um dia de contrastes. Celebramos o centenário de um filho desta Arquidiocese – um filho que aos 13 anos deixou sua casa com um desejo: o de proclamar a todos, com sua vida, com seus trabalhos e com sua oratória vibrante: “Jesus é o Senhor!”
  4. Não vou descrever a sua vida, porque isso fugiria da finalidade da homilia. Aliás, para que descrevê-la se temos aqui inúmeras testemunhas do que Mons. Gaspar Sadoc da Natividade viveu e fez? Além disso, seria ingênuo e temerário querer descrever 100 anos de uma vida como a de Mons. Sadoc – uma vida que enfrentou muitas, inúmeras lutas.
  5. Se, mesmo sabendo do quanto seria ousada a tentativa de resumir 100 anos em poucas palavras, quisesse descrever a vida de Mons. Sadoc, iria, antes de tudo, entrevistá-lo. Mas já sei qual seria a sua resposta: seria a mesma que me deu quando lhe perguntei como gostaria de celebrar seu centenário. Ele me respondeu: “Não é preciso fazer muita coisa. Minha vida é muito simples!”
  6. Dos textos que li a seu respeito ou de palavras que ele próprio falou, colho apenas um testemunho que ele deu tempos atrás. Sabiamente, ele buscou passagens da própria Palavra de Deus para dizer como se sentia diante de tudo o que havia recebido em sua vida: “Graças a Deus, neste dia de Ação de Graças, agradecemos a Deus. E com o Salmo 100: Aclamai o SENHOR, terra inteira, servi ao SENHOR com alegria. Ide a Ele, com gritos jubilosos. Sabei que o SENHOR é Deus. Ele nos fez e a Ele pertencemos, somos o Seu povo, o rebanho do seu pasto. Entrai por Suas portas dando graças, com cânticos e louvor pelos Seus átrios, celebrai, bendizei o Seu nome, sim, porque o SENHOR é bom. O seu amor é para sempre, e sua verdade de geração em geração. E, continuando, peço-Vos, Senhor, com a prece que Vos fez Salomão: Não Vos peço honras, não Vos peço glórias, riquezas não Vos peço também. Dai-me a sabedoria para bem servir Vosso povo neste culto da amizade, louvando-Vos por agora, por hoje, por todos, por tudo, para sempre. Amém!”
  7. Neste dia, o sentimento mais forte que nasce no coração da Igreja que está na Arquidiocese de São Salvador da Bahia é o da gratidão. Gratidão a Deus, porque nos deu este seu filho, sacerdote no sacerdócio de Jesus Cristo. Gratidão aos pais de Mons. Sadoc, porque geraram e prepararam um filho para Deus e para a Igreja. Gratidão a Nossa Senhora da Purificação que envolveu este seu filho no seu manto de amor, o protegeu e trabalhou para formar seu coração segundo o coração de Jesus sacerdote. Gratidão à cidade de Santo Amaro, de rica história e de um filho tão ilustre como este.
  8. Certa vez, Mons. Sadoc assim se expressou: “Não sei quem foi que disse ser a memória a faculdade de esquecer. Pois bem, se ela é a faculdade de esquecer, o coração é a faculdade de lembrar”. Nosso coração em festa, Mons. Sadoc, neste Domingo de Ramos, dia de contrastes, se lembra das palavras de Paulo aos Filipenses: Jesus se fez “obediente até a morte, e morte de cruz”. O senhor, Mons. Sadoc, abraçou a obediência quando saiu pelas ruas e praças a anunciar que “Jesus Cristo é o Senhor!”; abraçou a obediência quando trabalhou no Seminário Arquidiocesano; abraçou a obediência quando assumiu paróquias, a última das quais foi esta, a de Nossa Senhora da Vitória; e abraçou a obediência quando o Jesus lhe pediu para fazer de sua cama o seu novo altar – altar onde, diariamente, eleva suas preces e oferece seus sacrifícios pela Igreja, pelos sacerdotes e pelo mundo. Com isso, Jesus Sacerdote quis lhe dizer que há muitas maneiras de servi-lo. Mas qualquer que seja a maneira por ele escolhida para ser servido, o que nunca pode faltar é o amor. Penso que essa é uma das lições mais importantes que, com o seu testemunho, o senhor nos dá, Mons. Sadoc. Muito obrigado! Realmente, conhecendo-o, concluímos: “Deus é amor!”

Homilia da Missa em memória aos 300 anos da morte de Madre Vitória da Encarnação

300 anos do falecimento de Madre Vitória da Encarnação

Convento Santa Clara – Salvador – 19.07.15

16º Domingo do Tempo Comum – Ano B

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

 

  1. Qual ovelhas em torno de seu Pastor, estamos aqui para escutar o nosso Pastor, nosso Bom Pastor: Jesus. É ele que nos reúne em torno de si, repetindo o que costumava fazer com aqueles que pertenciam ao primeiro grupo de seus discípulos. Ele nos acolhe para nos falar ao coração. Mas antes de escutarmos os seus ensinamentos, ele quer nos escutar; deseja que lhe falemos sobre o que vimos e ouvimos, o que fizemos e ensinamos. Em nosso nome, é a Mãe Igreja que lhe descreve o que testemunhou ao longo de seu caminho, de sua História. Nessa descrição, fixa seu olhar sobre uma filha sua, Madre Vitória da Encarnação, que 300 anos atrás, aos 54 anos, morria aqui, nesta cidade, neste Convento, com fama de santidade.
  2. Madre Vitória da Encarnação é uma prova viva de que Deus jamais abandona o seu povo. Como nos testemunha o profeta Jeremias, ele não abandonou o povo escolhido, mesmo depois de suas inúmeras infidelidades. Permitiu, sim, que o seu povo fosse várias vezes derrotado e deportado, justamente para que não confiasse em armas, no dinheiro e no poder, mas nele, o Pastor de Israel. O SENHOR prometeu: “Suscitarei para elas [as minhas ovelhinhas] novos pastores que as apascentem; não sofrerão mais o medo e a angústia, nenhuma delas se perderá”. Deus continua suscitando no meio de nós pessoas que nos obrigam a pensar naquilo que é essencial em nossa vida.
  3. Numa época em que a vida consagrada contemplativa havia perdido muito de seu brilho, Deus fez nascer nesta cidade, e precisamente neste Convento das Clarissas, uma vocação que seria um sinal para suas coirmãs, um sinal para a Igreja. Refiro-me, sim, à Madre Vitoria da Encarnação. Tão forte foi esse sinal que apenas cinco anos após o seu falecimento, o Arcebispo da época, o grande Dom Sebastião Monteiro da Vide, publicou um livro com um resumo da vida desta religiosa.
  4. Mas, como surgiu este Convento que um dia acolheu uma santa tão extraordinária? No dia 29 de abril de 1677, chegaram à Salvador quatro Clarissas do Mosteiro de Évora, Portugal. Por alguns dias precisaram ficar no navio que as trouxe, pois as obras deste Convento, que era chamado de Convento de Santa Clara do Desterro, ainda não estavam concluídas. Acolhidas festivamente pelo povo desta terra, passaram a viver naquele que era o primeiro mosteiro feminino da Colônia portuguesa.
  5. Para as famílias da época, ter uma filha neste Mosteiro dava “status” – motivo, pois, de um certo orgulho. Quis o pai de Vitória que sua filha, que por ocasião da chegada das religiosas portuguesas tinha 16 anos, se tornasse religiosa. A reação que ouviu o surpreendeu: ela preferia que a sua cabeça fosse cortada a tornar-se freira. Mas os caminhos de Deus são surpreendentes: após algumas experiências místicas, a jovem decidiu fazer parte do Convento do Desterro. Ela tinha, então, 25 anos.
  6. Feitos os votos, abraçou decididamente o caminho da santidade – caminho que tinha, naturalmente, as marcas de sua época. Dentre as características da espiritualidade de Madre Vitória da Encarnação, destaco cinco:

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TE DEUM pelo 2 de Julho

Igreja de S. Pedro dos Clérigos

Salvador, 01.07.15

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia

 

 

  1. A passagem do Evangelho de S. Lucas que acabou de ser proclamada (Lc 2,41-51) coloca diante de nós o comportamento da Mãe de Jesus diante de uma experiência que ela estava vivendo e que ultrapassava a sua capacidade de compreensão imediata: Ela conservava no coração todas estas coisas.
  2. Queremos fazer o mesmo – aliás, aqui estamos, porque guardamos em nosso coração momentos importantes, momentos decisivos na História de nossa Pátria. E tais momentos decisivos aconteceram aqui, neste chão, nesta terra que pisamos.
  3. São lembranças, é verdade, de um passado distante. Mas são lembranças envolvidas por vidas sacrificadas, por sofrimentos, por incertezas vividas por irmãos e irmãs nossos que, de repente, viram sua vida e seus ideais de liberdade ameaçados. Deixaram de lado, então, a rotina do trabalho e empunharam as armas para garantir a paz.
  4. Os que sobreviveram aos difíceis dias das lutas que culminaram naquele 2 de julho experimentaram a alegria da vitória. Podiam, então, dizer: Eu contribuí para manter a unidade do meu país! Estes bravos são lembrados quando cantamos: Nasce o sol a 2 de julho / brilha mais que no primeiro…/ Nossa pátria hoje livre/ dos tiramos não será.
  5. É motivo de orgulho para todos nós tomar consciência da participação da Bahia na luta pela emancipação política do Brasil. Sabemos que este nosso Estado foi o principal palco das guerras da independência; foi o local onde o conflito durou mais tempo (cerca de um ano e meio); aqui se mobilizou pela causa da independência o maior contingente de pessoas.
  6. Sabemos que o risco da divisão do território brasileiro era real. Poderíamos ter, hoje, dois países. Afinal, com a resolução do príncipe regente de permanecer no Brasil, desobedecendo as determinações das cortes de Lisboa, e a tentativa frustrada dos militares portugueses de levá-lo a Portugal, a metrópole portuguesa concentrou em Salvador todos os seus esforços militares. Era projeto de Portugal dividir o Brasil em duas regiões: o sul e o sudeste permaneceriam sob a direção de Dom Pedro I; e o norte e o nordeste, sob o domínio português.
  7. Foi graças às lutas dos baianos que a divisão do Brasil não ocorreu. No dia 2 de julho de 1823 – finalmente! – as tropas portuguesas foram expulsas daqui.
  8. Esses fatos nem sempre são contados nos livros da História do Brasil que são usadaos nas escolas. Cabe à Bahia e aos baianos recordar ao Brasil o feito daqueles que, aqui, nesta terra que pisamos, deram sua vida para que a unidade do país fosse mantida.
  9. Nossos antecipados de quase 200 anos atrás fizeram a sua parte. Mas não podemos nos fixar somente na História construída por eles. Há muito trabalho pela frente; há muitos desafios que precisam ser superados; há inúmeras iniciativas que devem ser tomadas para mantermos e consolidarmos a independência de nosso povo. Afinal, um povo só é livre quando tem seus direitos fundamentais assegurados; só é livre quando vive em segurança; quando tem saúde, educação de qualidade, emprego etc. Não podemos esperar tais dons como um presente caído dos céus ou das decisões daqueles que nos governam. Parafraseando o Presidente norte-americano Kennedy: Não devemos nos perguntar o que a cidade, o estado e o país podem fazer por nós, mas o que nós podemos fazer por eles.
  10. A construção de um Brasil digno de seus filhos e filhas ou será obra de todos – e não importante a idade, os títulos ou o cargo que cada um ocupa -, ou não haverá tal construção.
  1. Na manhã de hoje cantamos o Te Deum num agradecimento a Deus por sua presença em nossa vida e como um compromisso com os que nos antecederam. Conscientes de nossa fragilidade, nos voltamos para o SENHOR e lhe pedimos: A Vós, portanto, rogamos que socorrais os vossos servos/ a quem remistes com o vosso preciosíssimo sangue. Fazei que sejamos contados na eterna glória/ entre o número dos vossos santos. Amém.

Leia, na íntegra, a homilia da Missa em memória às vítimas das chuvas em Salvador

Parentes e amigos das vítimas da comunidade do Barro Branco lotaram a Matriz de Nossa Senhora de Guadalupe - (Foto: Edmilson Gomes/Tv Bahia)

Parentes e amigos das vítimas da comunidade do Barro Branco lotaram a Matriz de Nossa Senhora de Guadalupe – (Foto: Edmilson Gomes/Tv Bahia)

Na manhã de ontem (03), o bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador, Dom Gilson Andrade da Silva, presidiu a Missa e memória das vítimas do deslizamento de terra, ocasionado pelas chuvas que caíram na capital baiana. A Celebração Eucarística aconteceu na paróquia Nossa Senhora de Guadalupe (Alto do Peru). Acompanhe a homilia:

Homilia – 5º Domingo da Páscoa – 7º dia dos mortos na tragédia de 27 de abril (03/05/2015)

Nesta nossa celebração o que Deus nos quer dizer, partindo das coisas que vivemos nesses últimos dias, mas, sobretudo, iluminados pela Palavra da liturgia deste domingo?

Naturalmente buscamos respostas que nos ajudem a justificar a dor por que estamos passando. E o que vemos é que nossas respostas são sempre frágeis, não conseguem abarcar a realidade completa porque podem iluminar a razão, mas não abrasam o coração. Deus, ao contrário, deseja ir além, quer chegar até o coração de cada pessoa, por isso escolheu o coração para lugar do seu pouso e de sua morada.

Estamos aqui hoje para nos lembrar que quando se pensar que se perdeu tudo, sempre restam realidades de onde começar de novo, com novo empenho e com novas possibilidades. Restam-nos ainda a fé e a solidariedade.

Ter fé é acolher o convite que Jesus nos dirige hoje na Palavra que escutamos: “permaneçam em mim”. Aconteça o que acontecer, permaneçamos nele.  A vida perde sentido e direção quando nos desviamos dele, quando o olhar se perde nas inúmeras coisas que nos distraem, quando o coração se dispersa nas aflições.

Ele hoje nos diz: sem mim não podem fazer nada. De fato, sem Ele não conseguimos dar significado ao que acabamos de viver, mas com Ele o céu se abre e podemos ver que existe sempre o sol que ilumina tudo, que não é a chuva, nem as catástrofes, nem a morte que têm a última palavra. A última palavra é dele, pertence a Ele, por isso, com ar sereno, em meio a nossas aflições ele se volta para cada um e nos diz, como que querendo nos oferecer uma solução para tudo: permaneça em mim.

O que significa permanecer nele?

Primeiramente dar-nos conta de que o belo da nossa vida é uma companhia que não nos deixa nunca, nem na vida nem na morte. Ele ressuscitou e caminha ao nosso lado. Continua a atravessar conosco todas as veredas e vales. Não vivemos sozinhos, tampouco morremos sozinhos. A vida é marcada por uma companhia que nos segura em todos os momentos.

Assim, meus irmãos e minhas irmãs, afastar-se dele é arriscar cair no vazio e não descobrir a verdadeira beleza e sentido da vida.

Permanecer com Ele significa que a nossa vida é a dele, como a vida dos ramos é a da árvore. A consequência lógica da nossa união com Cristo tem a ver com o nosso estilo de vida. Qual era o estilo de vida de Jesus? Uma vida de amor. Fomos exortados na segunda leitura de hoje: “não amemos só com palavras e de boca, mas com ações e de verdade!” (1Jo 3, 18).

A hora presente nos desafia a amar como Jesus amou. O amor de Jesus foi tão grande que se manifestou numa capacidade enorme de perdoar. Quando uma tragédia acontece ao nosso redor, é natural que identifiquemos as possíveis culpas e os prováveis culpados e nesse momento o coração já sofrido pela dor da perda, se angustia com os sentimentos de ressentimentos e mágoas. Do alto da sua dor a palavra de Jesus era uma palavra de perdão. Um perdão que não significa retirada das responsabilidades, mas abertura do coração para o irmão. Diante dos fatos que vivemos é preciso assumir as devidas responsabilidades para alcançar uma resposta mais eficaz aos problemas que ameaçam os bairros periféricos da nossa cidade.

Onde a vida de um ser humano é mais ameaçada é para onde o nosso olhar deve se voltar preferentemente, como o olhar de Cristo que preferia os últimos.

Amar como Jesus amou é também amar com ações concretas. Diante da dor e do sofrimento dos nossos irmãos todos temos algo a fazer. Os fatos apelam à nossa caridade. Aos nossos irmãos que tudo perderam deve restar, além da fé, a nossa solidariedade que é uma expressão concreta do convite de Jesus que nos amemos uns aos outros. A mobilização que acontece em nossa cidade e em outros lugares para prestar socorro às vítimas é um sinal do interesse que deve haver por toda pessoa que sofre. Somos membros uns dos outros, somos irmãos, somos ramos da mesma videira que é Cristo. Só sustentados no tronco que é Ele e apoiando-nos mutuamente seremos capazes de construir um novo tempo na nossa história marcada pelo que o Santo Padre tem chamado de globalização da indiferença.

Permanecer com Cristo nos leva a superar a indiferença e a estar no lugar onde Ele nos conduz, na história concreta do único hoje que nos pertence, aquele hoje real que estamos chamados a viver.

Não deveria ser o horror de uma tragédia a nos despertar da indiferença, não deveríamos precisar de situações semelhantes para enxergar que perto de nós há irmãos que precisam de uma mão estendida.  Oxalá este fato nos sirva como a mão do agricultor de que fala o Evangelho, que se serve da poda da videira para garantir mais frutos. Que não fechemos os nossos ouvidos à Palavra que nos purifica e que hoje nos exortou a não amarmos só “com palavras e de boca, mas com ações e de verdade” (1Jo 3, 18).

Numa hora como essa são muitas as mãos que se unem, não basta apenas uma, uma vez que a situação é complexa. Cristo é sempre o primeiro a estender a sua. Na verdade temos todos que nos darmos conta do que Jesus acaba de nos dizer: sem mim…nada. É a sua presença no centro dos corações a única realidade que pode mudar tudo, que pode nos tirar definitivamente da indiferença.

Aos enlutados, aos que perderam tantas coisas a fé traz consolo, mas também abre horizonte, dá esperança e nela encontramos a coragem para atitudes de reconstrução. Não só reconstruir as casas, mas a nossa sociedade, pois uma sociedade egoísta acaba por desmorona.

Permanecer em Cristo é condição para pedir e estamos aqui apoiados na certeza de que Ele sempre nos escuta, juntos com Maria nesse mês a Ela dedicado.

Confira a homilia de Dom Murilo realizada durante a Missa da Vida Consagrada

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia e Primaz do Brasil

Ano da Vida Consagrada

Salvador, 31.03.15 – Santuário Nossa Senhora de Fátima

Leituras da Terça-feira da Semana Santa: Is 49,1-6 e Jo 13,21-33.36-38

 

 

  1. Estamos aqui na consciência de que um dia Deus – que segundo a descrição feita pelo profeta Isaías, chamou para uma missão seu “Servo” -, chamou também cada um de nós: O Senhor me chamou antes de eu nascer, desde o ventre de minha mãe ele tinha na mente o meu nome… Sobre mim e sobre você foi feita a mesma observação: Tu és o meu Servo.
  2. Estamos aqui para celebrar o dom do nosso chamado à vida consagrada. É o Papa Francisco que nos convida: “Juntos, demos graças ao Pai, que nos chamou para seguir Jesus na plena adesão ao seu Evangelho e no serviço da Igreja e derramou em nossos corações o Espírito Santo que nos dá alegria e nos faz dar testemunho ao mundo inteiro do seu amor e da sua misericórdia” (Carta Apostólica às Pessoas Consagradas, 21.11.14).
  3. Algumas convicções alimentam nossa espiritualidade e a animam. Na carta que nos dirigiu, o Papa Francisco lembrou algumas dessas convicções:
  • cada um de nossos Institutos tem uma rica história carismática; por isso, somos convidados neste ano a recordar os seus inícios e o seu desenvolvimento histórico. Lembra-nos o Papa Francisco: “Repassar a própria história é indispensável para manter viva a identidade e também robustecer a unidade da família e o sentido de pertença dos seus membros. (…) Narrar a própria história é louvar a Deus e agradecer-Lhe por todos os seus dons” (I – 1);
  • nossos Fundadores e Fundadoras “sentiram em si mesmos a compaixão que se apoderava de Jesus quando via as multidões como ovelhas extraviadas sem pastor”. Isso nos motivou, quando fizemos nossa profissão religiosa, a prometer a Jesus que ele seria nosso primeiro e único amor; sabíamos que somente assim poderíamos amar verdadeira e misericordiosamente cada pessoa que encontrássemos em nosso caminho (I – 2);
  • a esperança que nos anima “não se funda sobre números ou sobre as obras, mas sobre Aquele em quem pusemos a nossa confiança (cf. 2Tm 1,12) e para quem “nada é impossível” (Lc 1,37); anima-nos, também, a certeza de que o Espírito Santo quer que enfrentemos o futuro , “a fim de continuar a fazer, conosco, grandes coisas” (I – 3);
  • sabemos que somos chamados “a experimentar e mostrar que Deus é capaz de preencher o nosso coração e nos fazer felizes, sem necessidade de procurar em outro lugar a nossa felicidade” (II – 1);
  • nossa vida deve falar, “uma vida da qual transparece a alegria e a beleza de viver o Evangelho e seguir a Cristo” (id.);
  • não podemos ficar prisioneiros de nossos problemas. Esses se resolverão se procurarmos ajudar os outros a resolver os seus problemas, anunciando-lhes a Boa Nova. “Encontrareis a vida dando a vida, a esperança dando esperança, o amor amando” (II – 4).
  1. Nós, consagrados, somos chamados a deixar de lado nossos projetos pessoais para imitar Jesus Cristo, que foi um irmão universal. Com nossa vida, mesmo que silenciosa, mesmo que contemplativa, gritamos ao mundo que Deus nos basta, pois Ele é plenamente capaz de dar sentido à nossa vida. Só Deus merece ser amado por Ele mesmo.
  2. Temos consciência de que o valor de nossa vida não se mede por números, pela nossa fama ou eficácia; mede-se, sim, pela intensidade de nosso relacionamento com Deus. E como é importante termos consciência disso, pois continuaremos contribuindo com o dom de nossa vida para a glória de Deus e a salvação dos irmãos também quando ficarmos doentes ou incapacitados de trabalhar.
  3. A vida consagrada não é um bem somente para a Igreja, mas para toda a humanidade. E como a humanidade precisa desse bem! Nos consagrados e nas consagradas, Cristo continua a debruçar-se sobre doentes em hospitais; a cuidar de crianças em creches; a educar crianças, adolescentes e jovens em colégios; a visitar casas de pessoas necessitadas; a cuidar de centros de encontros; a trabalhar em paróquias; a atender bispos e padres; a assistir círculos bíblicos, pastorais e movimentos; a acolher peregrinos em albergues; a olhar com carinho para idosos em asilos; a cuidar de menores abandonados e de jovens dependentes de drogas; a evangelizar através de livros e de outros meios de comunicação… Em cada consagrado e consagrada, é Cristo que passa pelos caminhos do mundo.
  4. Se há uma diocese que deve louvar e agradecer o Senhor pelo dom da vida consagrada, essa diocese é a nossa. A presença de religiosos nesta Arquidiocese Primaz aqui desde 1549 foi essencial para que Jesus Cristo fosse conhecido e servido, amado e seguido. Milhares de homens e mulheres, vindos de diversos países, demonstraram sua disposição de ser aqui um sinal para todos – sinal do amor de Deus e do privilégio de alguém seguir o Seu Filho pelos votos de pobreza, castidade e obediência. S. José de Anchieta, a Bem-aventurada Lindalva e a Bem-aventurada Dulce dos Pobres são exaltados e admirados; na verdade, eles são exemplos de uma santidade escondida em conventos, nas periferias de nossas cidades, em mosteiros contemplativos e paróquias.
  5. Por tudo isso, que bom termos um ano para conhecer melhor a vida consagrada e promovê-la! Espero que, como primeiro resultado, cresçam em nossa Arquidiocese as vocações para essa vida, particularmente nas congregações que aqui atuam. Será uma humilde forma de retribuirmos à Igreja o bem que consagrados e consagradas já fizeram ou continuam fazendo aqui em tantos campos e necessidades.

Termino com duas observações: a primeira é do Papa Bento XVI – observação que foi retomada pelo Papa Francisco na Carta que nos enviou: “Vós, [consagrados e consagradas] não tendes apenas uma história gloriosa para recordar e narrar, mas uma grande história a construir! Olhai para o futuro, para o qual vos projeta o Espírito [Santo] a fim de realizar convosco ainda coisas maiores”. A segunda observação que lhes faço é, na verdade, um convite: tomem consciência de que é para cada um de nós que o Senhor faz a afirmação: Eu te farei luz das nações, para que minha salvação chegue até aos confins da terra (Is 49,6b).

10 anos de falecimento do Cardeal Dom Lucas Moreira Neves, OP

Dom Murilo S.R. Krieger, scj

Arcebispo de São Salvador da Bahia – Primaz do Brasil

Catedral Metropolitana de Salvador, 08.09.12

10 anos de falecimento do Cardeal Dom Lucas Moreira Neves, OP

 

  1. Uma homilia deve explicar a Palavra de Deus proclamada na Liturgia – e essa Palavra é escolhida pela Igreja em função da celebração do dia. Além da explicação, cabe ao Presidente da celebração aplicar essa Palavra à vida do dia a dia da comunidade.
  2. Reunidos nesta manhã de sábado por causa dos dez anos de falecimento do Cardeal Dom Lucas Moreira Neves, temos, a orientar a nossa reflexão, a Liturgia da Natividade de Nossa Senhora. Como quase todas as solenidades principais de Maria, também a Natividade é de origem oriental. Foi introduzida na Igreja latina pelo Papa oriental São Sérgio I, pelos fins do século VII. Originalmente, devia ser a festa da dedicação da atual basílica de santa Ana, em Jerusalém. De fato, a Tradição indicava esse lugar como a sede da humilde morada de Joaquim e Ana, longínquos descendentes de Davi, pais de Nossa Senhora. Devemos buscar neste culto da Natividade de Maria uma verdade profunda: a vinda do homem-Deus à terra foi longamente preparada pelo Pai. Crer nos preparativos da Encarnação significa crer na realidade da Encarnação e reconhecer a necessidade da colaboração da pessoa humana na salvação do mundo.
  3. Não foi o Cardeal Dom Lucas que escolheu morrer no dia da Natividade de Nossa Senhora. Mas, se tivesse podido escolher o dia de sua morte, creio que consideraria uma graça especial poder terminar os seus dias em alguma festa mariana. Como não lembrar seu amor a Maria, testemunhado perante 100 mil pessoas, reunidas na Fonte Nova, aqui em Salvador, no encerramento do Congresso Arquidiocesano do Coração de Jesus? Dirigindo-se a Maria, ele afirmou: “Para ser Mãe de Jesus Cristo Deus, foste pelo Pai ornada de todos os dons e carismas: Cheia de graça, imaculada desde o primeiro instante da tua conceição e, portanto, Preservada do pecado original e de todo o pecado; Virgem antes do parto, no parto e depois do parto; Elevada ao céu em corpo e alma. Ser Mãe do Verbo e Filho de Deus humanado e, portanto, Mãe de Deus, como te proclamou o concílio de Éfeso, em 431, é tua graça e tua glória primordiais” (“Oração de amor e desagravo”, in Memorial de Fogo e outras crônicas, p. 275).
  4. A passagem evangélica que acabamos de escutar leva nosso olhar para longe. Ela apresenta a história de Israel a partir de Abraão como uma peregrinação que, com subidas e descidas, por caminhos breves e longos, conduz por fim a Cristo. A genealogia de Cristo, com suas figuras luminosas e obscuras, com pessoas santas e pecadoras, nos demonstra que Deus pode escrever direito também pelas linhas tortas da nossa história. Deus nos dá a liberdade e, contudo, sabe encontrar em nossas limitações e fraquezas novos caminhos para manifestar o seu amor. Deus não falha. Assim, esta genealogia é uma garantia da fidelidade de Deus; uma garantia de que Deus continuamente orienta nossa vida para Ele, porque quer que caminhemos sempre de novo para Cristo.
  5. Se nós, desta Igreja Particular de São Salvador da Bahia, estimulados pela genealogia apresentada pelo evangelista Mateus, fôssemos fazer a lista dos Bispos e Arcebispos que estiveram à frente desta Arquidiocese Primaz, teríamos que ressaltar que Dom Lucas Moreira Neves foi o seu 25º Arcebispo, ocupando a cátedra que está nesta Catedral Basílica de 1987 a 1998. Quiséssemos, em seguida, traçar o perfil biográfico deste Cardeal, nos sentiríamos perdidos. O que ressaltar? Suas origens mineiras, vindo de uma família profundamente católica? Seu carisma dominicano, que fazia seu coração se queimar, na ânsia de dedicar-se à transmissão da verdade? Sua atuação, como sacerdote, nas décadas de cinqüenta e sessenta, na Ação Católica – particularmente na JEC e na JUC? Seu interesse pela Pastoral Familiar? Ordenado Bispo, em 1967, dedicou-se particularmente aos leigos, o que certamente levou o Papa Paulo VI a chamá-lo para a Vice-Presidência do Conselho para os Leigos, em Roma. Já o Bem-aventurado Papa João Paulo II o nomeou Secretário da Congregação para os Bispos. Começou, depois – estamos em 1987 -, o período de Salvador, e desse período temos aqui muitas testemunhas. O que ressaltar em sua longa passagem por esta terra e Bahia de Todos os Santos? Sua incansável dedicação, apesar das limitações de sua saúde? As congregações e institutos europeus que trouxe para esta Arquidiocese? Seu cuidado com as vocações sacerdotais? O sábio uso que fez dos meios de comunicação? Seus programas de rádio e seus escritos?A importância que deu à evangelização? Sua atuação à frente da CNBB?… Chamado novamente para Roma, tornou-se um auxiliar direto do Bem-aventurado Papa João Paulo II, pois foi colocado à frente da Congregação para os Bispos – um dos cargos mais importantes na Cúria Romana. E o que dizer de sua devoção e estudos sobre Teresinha de Lisieux? Dos títulos que recebeu de diversas universidades e entidades? De sua eleição para a Academia Brasileira de Letras, onde honrou o nome da Igreja?
  6. Sempre muito ativo, sentiu o quanto as limitações de sua saúde o impediam de fazer o que deveria ser feito. Tendo apresentado ao Papa sua renúncia aos cargos que exercia, recebeu uma bela carta de João Paulo. Nela, entre outras coisas, seu grande amigo, que havia feito questão de visitá-lo aqui em Salvador, em 1991, testemunhava: “Com grande disponibilidade e sem poupar energias, o senhor se prodigalizou no serviço do povo de Deus nas várias funções que lhe foram confiadas, dando sempre prova de grande fidelidade e de alto senso de responsabilidade.”
  7. Já antecipei que não pretendo apresentar, aqui, a biografia deste Bispo que faleceu há dez anos – bispo que tive a alegria de conhecer. Aliás – e foi ele que me lembrou isso -, fui nomeado Bispo Auxiliar de Florianópolis, em 1985, quando ele era Secretário da Congregação para os Bispos. Sou, como muitos de vocês, testemunha de seu amor pela Igreja, de sua coerência e de sua inquietação vendo as dificuldades enfrentadas para a expansão do Reino de Deus.
  8. Nossa presença aqui, nesta manhã, tem, pois, uma dupla finalidade. Em primeiro lugar, pedimos a Deus que dê a Dom Lucas a paz eterna. Depois, queremos agradecer ao SENHOR por este pastor que Ele deu à nossa Igreja Particular. Não só eu, mas todos nos beneficiamos de seus trabalhos, de sua inquietação apostólica e de sua criatividade pastoral.
  9. Termino com a passagem de um das crônicas do Cardeal Dom Lucas, escrita quando celebrava seu jubileu de vida religiosa dominicana. Depois de lembrar que, aos 19 anos de idade, quando lhe foi perguntado pelo Superior o que pedia, o jovem Lucas lhe respondeu: “A misericórdia de Deus”. Cinquenta anos depois, testemunhou: “Celebro o jubileu repetindo em silêncio que o importante é a fidelidade, isto é, saber renovar a consagração da autora no ofertório do anoitecer” (“O Ofertório do anoitecer”, inMemorial de Fogo e outras crônicas”, p. 259). No longo ofertório que foi a vida do Cardeal Dom Lucas Moreira Neves, essas duas palavras – misericórdia e fidelidade – sintetizaram seus sonhos, suas lutas e a razão de sua dedicação alegre e criativa. Em resposta à sua fidelidade, possa este nosso irmão cantar eternamente as misericórdias de Deus.

Apresentação de Dom Giovanni Crippa, IMC

Dom Murilo S.R. Krieger, scj
Apresentação de Dom Giovanni Crippa
Catedral Basílica, 30.06.12
Textos Bíblicos: Ef 4,1-13; Mc 16,15-20

1. “Então os discípulos foram anunciar a Boa Nova por toda a parte”. Aquilo que aconteceu
logo após a morte, a ressurreição e a ascensão do Senhor Jesus, em relação aos
apóstolos, acontece em nossos tempos. Giovanni Crippa, filho da Itália, membro do
Instituto Missionário Consolata, ouviu o apelo: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai a Boa
Nova a toda criatura”, e veio para o Brasil. Queria fazer aqui o que havia feito em seu
país. Veio, pois, “Para edificar o corpo de Cristo”.

2. Em sua ordenação episcopal, no dia 13 de maio último, vimos o resultado de sua
presença evangelizadora na Diocese de Feira de Santana: muitos amigos, agradecidos,
testemunharam o quanto estavam felizes por terem conhecido e se enriquecido com
esse missionário amigo. Lá estavam para rezar por seu Pároco, Professor, Orientador,
Amigo.

3. Hoje, somos nós que o acolhemos na Catedral Basílica da Arquidiocese para a qual o
Papa Bento XVI o destinou: Arquidiocese de São Salvador da Bahia.

4. Gostaria de lhe fazer uma apresentação desta Arquidiocese, Dom Giovanni. Confesso-lhe
que seria temerário. Estou aqui há apenas um ano e três meses. Sei, pois, que dentre os
sacerdotes que aqui estão, dentre os diáconos, as religiosas e religiosas, os seminaristas,
dentre os leigos e leigas desta Arquidiocese, haveria muitos que teriam muito mais
condições do que eu de lhe apresentar esta Arquidiocese Primaz.

5. Meu projeto, por isso, é mais modesto. Vou lhe apresentar alguns lugares desta
Arquidiocese que julgo particularmente expressivos, para que o caro irmão passe a lhes
dar uma atenção especial e, assim, pouco a pouco, entre no coração desta realidade e
deste povo.

6. O primeiro lugar que lhe apresento é esta Catedral. Seu nome: “Basílica Catedral
Metropolitana Transfiguração do Senhor”. Era uma igreja dos jesuítas. Não preciso lhe
falar da importância de uma Catedral na vida de uma Diocese. Chamo sua atenção, sim,
para alguns túmulos que aqui estão. São de irmãos bispos que aqui trabalharam. Eles
representam vários outros, que não estão sepultados aqui. Eles tiveram em comum um
grande amor a Jesus Cristo e uma grande paixão pela Igreja, além de terem deixado um
exemplo edificante de fidelidade à fé e às suas responsabilidades. Todos nós podemos
aprender muito com eles.

7. O segundo lugar que lhe apresento: o Santuário do Senhor do Bonfim, também Basílica.
Naquele Santuário se confundem fé e tradição, religiosidade popular e catequese, oração
e emoção. Você vai se sentir bem lá; vai gostar de rezar com aquele povo que é de
muitas paróquias, de muitas cidades, de várias dioceses. Como o Santuário é do Senhor
do Bonfim, é o Santuário de todos.

8. O terceiro lugar: a Basílica Nossa Senhora da Conceição da Praia. Com esse título,
e por causa da devoção que ali começou, ela é a Padroeira da Bahia. O Santuário é
muito bonito; a devoção mariana do povo que ali acorre, é mais bonita ainda. Você vai
perceber que aquela Basílica é uma extensão da casa de Maria em Nazaré – portanto,
um lugar que é fonte de bênçãos e onde os filhos que Jesus confiou à sua Mãe sentem-se
bem acolhidos.

9. O quarto lugar: a Bahia de Todos os Santos. Será difícil passar um dia sem que você a
contemple. Parecerá que, embora seja sempre a mesma, a Bahia de Todos os Santos
cada dia é outra; cada dia ela nos apresenta novas cores e novos aspectos de suas
maravilhas. Fosse poeta, você teria motivos mil para compor hinos ao Criador de tanta
beleza.

10. O quinto lugar: o Recôncavo. Nos municípios que circundam a Bahia de Todos os Santos
se misturam o verde da vegetação com a abundância das frutas; as expressões da
religiosidade popular com as tradições das festas, a bondade do povo com a beleza das
igrejas e de suas imagens. Como a partir de novembro deste ano o caro irmão irá residir
em Cruz das Almas, daqui a um ano quem poderá nos descrever o Recôncavo será o
próprio…

11. E um sexto lugar: a Ilha de Itaparica. Ora você pensará que é uma Ilha que fica muito
perto, mesmo porque a verá com frequência; ora descobrirá que precisará se programar
para visitá-la e nela cumprir um compromisso, dado tempo necessário para a travessia.
Lá você encontrará um povo que parece ter todo o tempo do mundo, pois não precisa se
programar para ver lugares bonitos. Ele vive permanentemente num lugar belíssimo.

12.Poderia lhe apresentar outros lugares. Deixo-os de lado para lhe dizer que o que
esta terra tem de melhor: o seu povo. É um povo alegre, hospitaleiro, cordial. Por
toda a parte, vão lhe deixar logo à vontade. Vão lhe pedir sua bênção, vão desejar
cumprimentá-lo, vão a toda hora bater palmas de alegria. E o jeito que o povo daqui tem
para fazê-lo sentir-se em casa. Tenha certeza, também, de que prestarão muita atenção
à sua palavra, a seus ensinamentos, às suas observações, ainda mais sabendo que o caro
irmão veio aqui “Para edificar o corpo de Cristo”.

13. Para mim, responsável primeiro por esta Igreja Particular, sua vinda é motivo de grande
conforto. Sei que poderei contar com mais um irmão na divisão de responsabilidades
e serviços. Saiba que Dom Gregório e Dom Gílson o consideram “velho” amigo desde
o momento em que foi anunciada sua vinda. Nós três sabemos que poderemos contar
com seu testemunho de amor a Jesus Cristo, com seu amor à Mãe de Jesus, com sua
sabedoria e experiência.

14. Obrigado por ter dado um “sim” ao convite do Papa Bento XVI. Aproveito a presença de
Dom Itamar Vian, Arcebispo de Feira de Santana, aproveito a presença de “ovelhinhas”
de sua Arquidiocese, para lhes dizer que a presença de Dom Giovanni em nosso meio é,
também, a presença de vocês. Deus os abençoe por terem colaborado na preparação

daquele que seria, um dia, nomeado Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Salvador da
Bahia.

15. Na alegria, ofereçamos, nesta Eucaristia, nosso irmão Dom Giovanni Crippa ao SENHOR.


Cúria Metropolitana Bom Pastor - Av. Leovigildo Filgueiras, 270 - Garcia, CEP: 40.100-000 - Salvador -Ba. Tel.: (71) 4009-6666 | contato@arquidiocesesalvador.org.br
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