70 anos de sacerdócio: padre Edson Baraúna continua respondendo “sim” ao chamado de Deus

Foto: Sara Gomes

Sentado em uma poltrona na sala da casa onde mora, o padre Edson Baraúna aguardava, com um sorriso, o momento exato no qual poderia contar a própria história. Com os cabelos alvos, este senhor que está com 97 anos de vida completa 70 anos de sacerdócio neste dia 19 de setembro; é o sacerdote mais antigo – em idade e em ministério – da Arquidiocese de São Salvador da Bahia. Para marcar essa data, o Cardeal Dom Sergio da Rocha preside a Santa Missa, às 16h, na Matriz da Paróquia Santa Teresinha do Menino Jesus e da Sagrada Face, no bairro Chame-chame, em Salvador.

Contar a história da vida do padre Edson é, sem dúvida, um verdadeiro desafio. Mas, como tudo tem um começo, nada como iniciar falando sobre a infância, momento dos primeiros passos na caminhada de fé. Filho de Alfredo de Assis Rêgo e de Zulmira Baraúna Rêgo, padre Edson nasceu em Pojuca, na Bahia, e viu, de maneira concreta, o testemunho dos pais, mas também acompanhou de perto o exemplo do padre Lourival Pinho, na época vigário paroquial.

“Eu frequentava a Catequese paroquial as quintas-feiras e aos domingos, das 15h às 16h30. Aos domingos, o encerramento era feito com a presença do vigário, que perguntava às crianças: ‘quem é capaz de dizer alguma coisa sobre o Evangelho de amanhã?’. Quem soubesse, ganhava uma medalhinha ou o famoso chocolate diamante negro”, recorda.

Seminarista Edson Baraúna – Foto: arquivo pessoal

Sempre com o olhar atento, padre Edson, quando menino, também observava a catequista, Dalva Santana, que o ofertou o livro do Novo Testamento, para que durante a semana ele pudesse ler os Evangelhos e, aos domingos, no encerramento da Catequese, pudesse responder ao padre.

A gratidão sempre fez parte da vida do padre Edson, o que ficou claro em diversos momentos da entrevista. Em um deles, com simplicidade, o sacerdote recordou a professora da escola primária onde estudou, Celisa Batista. “Ela era um encanto de professora. Certa vez, eu quebrei o braço e deixei de frequentar as aulas. Quando ela soube que eu estava com o braço encanado (engessado), foi lá em casa me visitar, caminhando de salto alto, atravessou uma grande ponte e chegou. Anos mais tarde, quando eu já era padre aqui em Salvador, soube que ela estava morando no asilo Santa Isabel e fui lá fazer uma visita para ela, e disse: ‘professora, jamais esquecerei daquele seu gesto de carinho, bondade e amor ao me visitar quando eu estava com o braço engessado’. E ela me respondeu ‘Edson, não fiz mais do que a minha obrigação'”, conta.

Entre as brincadeiras favoritas do menino Edson, estavam picula, chicotinho queimado e barra. Porém, as obrigações não permitiam que ele tivesse muito tempo para brincar. Ao completar 12 anos, Edson pediu ao sacristão que o ensinasse as respostas da Santa Missa – naquele tempo, celebrada em latim. “Ele me ensinou. No ano seguinte, o sacristão deixou o cargo e me pediu para tomar conta da Igreja. Eu passei a acordar às 5h, tomava banho, minha mãe me dava o café mais cedo para que eu pudesse fazer a primeira chamada da Missa às 6h, arrumava tudo. Faltando 5 minutos para às 7h, tocava a terceira chamada; o padre já estava paramentado e às 7h eu ia para o altar com ele, para que ele celebrasse a Santa Missa. Eu também fiscalizava a zeladora que fazia a limpeza. Lembro que quando eu me ordenei e fui celebrar a minha primeira Missa em Pojuca, ela veio me cumprimentar e me disse ‘o senhor não era mole, hein?'”, conta, sorrindo.

Mas, quando a vocação foi percebida?

Aos 12 anos, o padre Edson olhou para a mãe e disse “eu quero ser padre”, e ouviu “isso é de verdade ou de brincadeira?”. Ao que o menino respondeu com convicção “é de verdade”. “Fomos falar com Antônio Francisco Fernandes, pároco da Igreja do Passo, e com Mário Fernandes, vigário em Santo Amaro. Como esse estava mais perto de nós, primeiro fomos a ele; e depois fomos ao reitor para ver o que era possível fazer”, recorda.

Ao saber que era necessário pagar pensão, o pai ficou preocupado, pois era funcionário público e tinha outros nove filhos para sustentar. Contudo, diante disso, o reitor reduziu para meia pensão. “Todo o Seminário Menor meu pai pagou meia pensão. Quando estava no sexto ano, fui para o Seminário Maior e o reitor me dispensou de pagar a pensão”, lembra.

“Eu descobri a minha vocação olhando o meu vigário, vendo as missas que ele celebrava, o amor pela catequese. Deus chama de várias maneiras e provocou em mim esse desejo”, destaca.

A entrada no Seminário

Quando eu comecei, o Seminário Menor ficava em Itaparica. Descemos a ladeira da Preguiça e eu fui pegar a lancha nas docas. Minha mãe me disse que eu estava tão alegre aquele dia que eu nem olhei para trás. Anos mais tarde retornamos para o Sodré, que abrigava o Seminário Menor, em Salvador, e onde eu passei mais quatro anos”, diz.

Junto com o padre Edson, ao todo, entraram no Seminário naquele ano 27 meninos, de diferentes dioceses: Salvador, Bonfim, Catolé, Paulo Afonso, Amargosa e Jequié. “Nós fazíamos tudo juntos: íamos para a Capela, para o refeitório… enfim, tudo juntos. No dia a dia, fazíamos a oração da manhã e depois tínhamos uma hora de aula e uma hora de estudo, intercalando durante todo o dia. Cada um era responsável por arrumar a própria cama e o sensor – seminarista que acompanhava – era responsável por checar se as camas, de fato, estavam mesmo arrumadas”, diz.

Foto: arquivo pessoal

Apesar de ser ainda um menino quando entrou no Seminário, bem como de olhar para as dificuldades e de sentir saudade da família, o seminarista Edson nunca pensou em desistir. “Isso nunca passou pela minha cabeça, nem mesmo quando eu estava no Seminário Maior, na Filosofia, quando a minha mãe veio me visitar no meu aniversário e não teve autorização para me ver, pois não era o dia da visita. Quando eu soube disso, eu senti muito, pois vir de Pojuca para Salvador não era fácil. Aquilo me chocou um pouco”, conta.

Essa atitude do reitor fazia parte do rigor da época, que não permitia muitas coisas, como: os seminaristas não podiam tomar sorvete sem a permissão do reitor e muito menos que usar perfume. “O reitor dizia somente que não podia, e nôs não tínhamos o direito de perguntar o motivo. Apenas obedecíamos”, conta.

O dia da Ordenação

Era o 19 de setembro de 1953 quando o então diácono transitório, Edson Baraúna, recebeu a Ordenação Presbiteral, na Catedral Basílica do Santíssimo Salvador, às 9h. Da turma dos 27 que entraram no Seminário, foram ordenados, pelas mãos de Dom Augusto Álvaro da Silva apenas três. “Eu, João Rêgo Diniz Carvalho e um vocacionista”, recorda.

Em agradecimento a Deus, no dia seguinte o padre Edson foi até o Santuário do Coração Eucarístico de Jesus – Igreja de São Raimundo -, onde celebrou a primeira Missa. “Eu ainda continuei os estudos de Teologia. Naquele tempo se ordenava antes de concluir os estudos, pois precisava de padres para ajudar. Eu me ordenei em setembro e concluí a Teologia em novembro”, conta.

“Por duas vezes, Dom Augusto testou a minha obediência. Eu queria saber para onde eu iria e ele me disse que eu seria padre em Olhos d’Água, em Alagoinhas, eu respondi que tudo bem. Em seguida, ele me disse que eu ia para a Igreja Nova. Por fim, a notícia era que Dom Antônio Monteiro, de Propriá, ia fazer uma visita Pastoral em Inhambupe e lá ia me dar a posse como vigário. E assim foi feito”, disse.

O início do pastoreio em Inhambupe não foi fácil. Ao chegar, padre Edson soube que não havia casa paroquial e que, portanto, ele não tinha onde morar, sendo necessário dormir em um quarto cedido por um paroquiano. “Passaram quatro dias e o meu pai chegou, procurou na cidade uma casa para lugar, uma senhora para ajudar na limpeza da casa, comprou o mínimo necessário, como alguns móveis e alimentos para um mês”, recorda.

Outra dificuldade enfrentada era a distância entre as capelas. Também o pai do padre Edson o ajudou comprando um cavalo. “Em Sátiro Dias – uma das comunidades – havia casa paroquial. Eu resolvi que ia fazer o inverso: ao invés de visitar Sátiro Dias, eu moraria lá, visitaria Inhambupe, deixaria a direção do ginásio, que nessa época eu já estava como diretor. Quando eu disse isso, duas casas me foram doadas em Inhambupe. Aí me mudei para uma dessas casas e fui trabalhar para construir a casa paroquial”, afirma.

Como diretor do ginásio, padre Edson se empenhou no cuidado com os alunos, da mesma maneira como foi cuidado pela professora que o visitou quando quebrou o braço. “Uma vez eu ensaiei com os alunos a peça ‘O Anjo Protetor’. A menina que faria o anjo me disse que só poderia participar se o avô dela deixasse. Então, eu fui até a casa dela e falei com o avô que eu iria tomando conta, ele deixou. Essa peça nos ajudou com o dinheiro para construir a casa paroquial”, lembra.

O pastoreio

Sempre preocupado com as crianças, padre Edson desenvolveu inúmeros trabalhos voltados para a educação. Um deles, de maneira muito específica, foi a criação do curso de Magistério, para que as meninas pudessem continuar os estudos. “Por serem pobres, elas não tinham condições de morar em uma cidade maior. Tendo o curso de Magistério ali, elas não ficariam sem trabalhar”, disse.

Foto: arquivo pessoal

A construção de capelas também foi marca do pastoreio do padre Edson em Inhambupe. Uma delas tinha 18 X 12 metros. “As três comunidades que eu cuidava, hoje são três paróquias: Inhambupe, Sátiro Dias e Baixa Grande. Para chegar em Sátiro Dias, eu saía, a cavalo, às 13h e chegava naquela cidade às 18h. Depois de quatro anos, com a ajuda de Dom Augusto e de um médico, Dr. Ivo Soveral, eu consegui comprar um Jeep”, conta.

Ao saber que a Arquidiocese de São Salvador da Bahia seria dividida, criando, assim, uma nova diocese na região que pastoreava, padre Edson pediu a Dom Avelar Brandão Vilela para continuar incardinado em Salvador, sendo transferido para a Capela Jesus, Maria e José, onde permanece até hoje. Neste tempo, inúmeras atividades foram desenvolvidas pelo sacerdote: construção do Centro Paroquial, atendimento médico, curso pré-vestibular para jovens carentes, curso de informática, curso de inglês, distribuição de vestas básicas, intensa evangelização e Catequese para crianças e adultos.

“Eu sempre quis ser padre, nunca pensei em outra coisa. Esses 70 anos de sacerdócio são de serviço e de evangelização. Digo, hoje, aos padres: continuem a trabalhar até o dia em que tiverem força. Continuem firmes”, diz.