Vamos a Belém!

Continuamos a celebrar o Natal, ocasião privilegiada para repensar o nosso modo de ver a Deus

Cardeal Dom Sergio da Rocha

Arcebispo de Salvador, Primaz do Brasil

Continuamos a celebrar o Natal, ocasião privilegiada para repensar o nosso modo de ver a Deus e ao próximo. O menino nascido em Belém é muito especial. À luz da fé cristã, ele é “Deus conosco”. Nele se revela o rosto humano de Deus, que “se fez carne e veio morar entre nós” (Jo 1,14) “Deus armou sua tenda entre nós”, conforme traduzem alguns exegetas. A boa notícia anunciada aos pastores continua a ser proclamada e alegremente acolhida por homens e mulheres de boa vontade, em nosso tempo. Deus vem habitar entre nós, fazendo-se um de nós, assumindo a nossa história, partilhando nossas alegrias e dores. O sinal da sua presença entre nós é aparentemente pequeno e frágil: “um menino nos foi dado” (Is. 9,5), um “recém-nascido envolto em faixas e deitado numa manjedoura” (Lc 2,12). O sinal era pequeno demais para ser reconhecido pelos que se julgavam grandes e poderosos, como Herodes. “Vamos a Belém”, afirmam os pastores. Vamos com eles!

Além da pequenez do sinal revelado, para chegar a Belém, era preciso admitir a presença dos humildes pastores das redondezas e os sábios estrangeiros que vieram de terras distantes. Ambos não gozavam de boa fama no meio do povo; os pastores, pelo estilo de vida que adotavam e os problemas que causavam aos agricultores; os estrangeiros, por serem considerados excluídos da salvação por muitos, naquele tempo. Não se entra sozinho na manjedoura de Belém; ou vamos juntos ou ficamos de fora; ou incluímos os pequenos, os pobres e os sofredores, em nossa longa jornada, ou não conseguiremos entrar para adorar aquele que se faz humilde e pobre.

É preciso refazer o caminho para a manjedoura acompanhado dos pequenos pastores e dos humildes sábios do Oriente, levando-os conosco no coração. Isso nos permitirá prolongar a vivência do Natal ao longo do novo ano. É bom contemplar com admiração os presépios tradicionais, artisticamente trabalhados. Contudo, é necessário contemplar os presépios vivos escondidos nas periferias das cidades e nas casas pobres da zona rural. As crianças que aí continuam a nascer participam da dignidade humana do menino nascido em Belém; merecem atenção e acolhida afetuosa. São crianças a serem amadas, cuidadas e protegidas.

Quando tomamos consciência do mistério celebrado no Natal, o olhar feliz para o menino Jesus completa-se com o olhar amoroso e responsável para as crianças que continuam a nascer hoje. A infância negada e violada em nossos dias contradiz o sentido do Natal e desafia a caminhar. Contudo, é motivo de alegria e esperança perceber que é imensa a caravana dos que estão caminhando para Belém e maior ainda a daqueles que anseiam por fazer isso. Feliz Natal a todos! Àqueles que já chegaram à manjedoura de Belém. Àqueles que se dirigem para lá. Àqueles que, acompanhados dos pastores e sábios, desejam encontrar o menino Jesus.

*Artigo publicado no jornal A Tarde, em 27 de dezembro de 2020.

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