Somos todos irmãos

"É preciso amar o próximo que pensa diferente, respeitando-o"

Cardeal Dom Sergio da Rocha

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

A encíclica “Fratelli tutti” de Papa Francisco, datada de 03 de outubro de 2020, completou três anos de publicação, continuando de profunda atualidade e urgência. O documento pontifício continua a repercutir bastante, como uma referência fundamental para todos os que se empenham em construir um mundo fraterno, onde todos sejam irmãos. O título “Fratelli tutti”, do italiano, traduzido como “Todos irmãos” ou “Irmãos todos”, reproduz o modo como “escrevia São Francisco de Assis, dirigindo-se a seus irmãos e irmãs” segundo explica o próprio Papa, logo no início do texto. É um convite à vivência, no mundo de hoje, da “fraternidade e da amizade social”, tema da encíclica. Faz pensar no caminho percorrido pela humanidade e motiva a caminhar sem jamais desistir da fraternidade para alcançar a paz, nas relações humanas e sociais, onde vivemos e, com especial ênfase, nas relações entre os países, povos e culturas.

Pelos seus argumentos e destinatários, ela se reveste de importância que vai além da Igreja Católica, interpelando a todas as pessoas de boa vontade, incentivando o respeito, o encontro, o diálogo e a solidariedade entre todos.  O próprio Papa Francisco, com este texto, pretende estabelecer “diálogo com todas as pessoas de boa vontade” (n. 6). Ele ressalta a importância das “religiões ao serviço da fraternidade no mundo”, excluindo qualquer tipo de violência que pretenda justificar-se recorrendo a argumentos religiosos. Para expressar esta perspectiva, a encíclica termina com duas orações, a “Oração ao Criador” e a “Oração Cristã Ecumênica”. É preciso amar o próximo que pensa diferente, respeitando-o. A ofensa, a vingança ou qualquer forma de violência consistem na negação do culto a Deus. Compreender e respeitar o outro não consistem na negação da própria identidade; ao contrário, permitem expressar o modo próprio de pensar e agir sem destruir o outro. A fraternidade a ser vivida com todos deve incluir especial atenção ao próximo mais sofredor e fragilizado.

Infelizmente, vivemos num mundo em que os “muros” são construídos rapidamente, através de confrontos desumanos e de armas de grande poder destrutivo. É preciso construir “pontes”, contribuindo para a aproximação fraterna, a reconciliação e a paz. Com Francisco, somos chamados a proclamar que somos todos irmãos, membros de uma grande família, a ser amada sempre mais, que habita uma casa comum, a ser preservada e defendida por todos. Reconhecer que somos todos irmãos implica em tratar o próximo como uma pessoa a ser amada como verdadeiro irmão ou irmã e não como um inimigo a ser combatido. A Fratelli Tutti desinstala quem está acomodado ou desanimado diante dos problemas sociais, reacende a esperança e estimula a caminhar na “fraternidade sem fronteiras”.

 *Artigo publicado no jornal A Tarde, em 12 de novembro de 2023.

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