Homilia da Missa pelos 75 anos de nascimento de Dom Murilo

Cada um que aqui está, veio a esta Catedral Basílica Transfiguração do Senhor por um dos três motivos

Catedral – Salvador 19.09.2018

 

  1. Cada um que aqui está, veio a esta Catedral Basílica Transfiguração do Senhor por um dos três motivos:
  • Por ser esta a primeira celebração eucarística após a reabertura da Catedral (o dia de hoje não deixa de ser, pois, um dia histórico na vida desta igreja e desta Arquidiocese);
  • Por estarmos celebrando a memória de Nossa Senhora da Salette, que 172 anos atrás apareceu no Sul da França;
  • Por eu estar agradecendo a Deus pelos meus 75 anos de vida – e celebrar um aniversário é sempre uma graça especial.
  1. (1º) A reabertura da Catedral. Esta antiga igreja do Colégio dos Jesuítas – a quarta construção neste lugar – tem uma história que começou em 1657. Inaugurada em 1672, foi concluída no final daquele século dezessete. Foi muito criticada, na época, a escolha deste lugar pelos Jesuítas, pois era uma região que ficava fora da cidade. A resposta dada pela Companhia de Jesus foi uma verdadeira profecia: “A cidade virá juntar-se ao redor desta casa”. E assim aconteceu.
  2. Hoje, esta igreja é a Catedral Primacial, por se tratar da Catedral daquela que é a primeira diocese e a primeira arquidiocese do Brasil. (A Diocese de São Salvador da Bahia foi criada em 1551; somente em 1676 foram criadas outras duas Dioceses no Brasil. Portanto, durante 125 anos, todo o Brasil pertencia a esta Diocese). Quanto a esta igreja: penso que todos concordarão com minha afirmação: trata-se de uma das mais belas igrejas de nosso país. Aqui os Jesuítas deixaram a marca de seu bom gosto artístico; aqui, os que cuidaram de sua restauração ao longo dos últimos três anos deixaram a marca de sua capacidade e dedicação.
  3. (2º) Celebramos hoje a memória de Nossa Senhora da Salette – fruto da aparição ocorrida num sábado, dia 19 de setembro de 1846. É interessante salientar que, naquela época, a Festa de Nossa Senhora das Dores era celebrada no 3º Domingo de setembro, quando a Igreja rezava: “Vede em que abundância de lágrimas está banhado o rosto da Virgem. Vós todos, que passais, olhai e dizei se há dor comparável à minha” (Lam 1,12).
  4. Maximino e Melânia, pastores que testemunharam a aparição de La Salette, contaram que Maria chorou durante todo o tempo em que lhes falou. A Mãe de Jesus lhes pediu serem portadores de uma mensagem baseada em três pontos: conversão, oração e respeito ao domingo, Dia do Senhor.
  5. Maria veio nos recordar nosso compromisso na Aliança feita pelo Senhor com Noé (cf. Gn 9,8-17) e, mais tarde, com Moisés: Deus nos ama e é fiel; espera, agora, nossa resposta de amor. Deus, segundo Paulo aos Coríntios, nos reconciliou por Cristo; deseja, agora, que nos reconciliemos com Ele. Toda a mensagem de Maria em La Salette é um convite para olharmos para Jesus, seu Filho. Um olhar que seja semelhante ao de Maria, presente no Calvário: ela, melhor do que ninguém, pode nos testemunhar quanto custou a Jesus sua missão de reconciliação.
  6. (3º) Celebro hoje 75 anos de idade. Há os que me perguntam como ficará, agora, minha situação, já que o Código de Direito Canônico prescreve: “O Bispo diocesano que tiver completado setenta e cinco anos de idade é solicitado a apresentar a renúncia do ofício ao Sumo Pontífice, que, ponderada todas as circunstâncias, tomará providências” (Cân. 401).
  7. Trata-se, pois, de “apresentar a renúncia do ofício”. Essa é a minha parte. A partir de agora, o passo seguinte dependerá do Papa, que tomará a decisão de aceitá-la quando julgar oportuno. Qualquer prognóstico que se fizer sobre quando isso acontecerá será mera especulação.
  8. No começo deste ano (12.02.18), o Papa Francisco escreveu uma Carta Apostólica que leva o título “Aprender a despedir-se”, com a qual ele regula a renúncia, por motivo de idade, dos titulares de alguns cargos de nomeação pontifícia. Ali, ele escreveu: “A conclusão de um cargo eclesial deve ser considerada parte integrante do próprio serviço, enquanto requer uma nova forma de disponibilidade”. É necessária uma disposição interior para despedir-se ou para continuar por um período maior no serviço que se exerce.
  9. Segundo o Papa Francisco, quem se despede é chamado a elaborar um novo projeto de vida e a estar disponível para outros serviços pastorais, igualmente necessários na Igreja. Portanto, não se preocupem comigo ou com a Arquidiocese. Quanto a mim: enquanto for Arcebispo desta Arquidiocese me dedicarei com amor às minhas responsabilidades, como tenho procurado fazer desde o dia de minha posse, em 25 de março de 2011. Por outro lado, tenho consciência de que, quando for aceita a minha renúncia, poderei continuar colaborando com a Igreja de outros modos. Quanto a esta Arquidiocese Primaz: o Senhor Jesus Cristo, Cabeça da Igreja, o “Salvador”, saberá escolher, no momento próprio, o pastor adequado para ela.
  10. Cresceu em mim, ao longo dos anos, uma convicção: Tudo é graça! Como Deus é misericordioso. É misericordioso porque é amor: “Deus é amor”, foi o lema que escolhi quando assumi o serviço episcopal. Uma das mais fortes manifestações desse seu amor tem sido as pessoas que Ele tem colocado ao meu lado ao longo de minha vida; pessoas que me servem e ajudam; amigos que eu não conseguiria comprar por ouro algum do mundo; diocesanos – isto é, ovelhinhas queridas – que procura apascentar.
  11. A todos: obrigado! Deus lhes pague!
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