A ética na campanha eleitoral

O bem comum da população, especialmente dos pobres e fragilizados, necessita ser colocado acima dos interesses particulares

Cardeal Dom Sergio da Rocha

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

O período da campanha eleitoral, pela sua decisiva importância política para o país, requer especial atenção e empenho não somente dos candidatos e dos partidos políticos, mas também dos eleitores. Participar da vida política do país tem sido uma tarefa cada vez mais difícil, mas irrenunciável numa sociedade democrática. O descrédito ou a indiferença diante da política ou dos políticos não devem pautar a conduta dos cidadãos, cuja participação se faz muito necessária não somente na época das eleições. O tema da campanha eleitoral e, de modo particular, da propaganda eleitoral gratuita, suscita diferentes reações e questões, que merecem ser consideradas com a devida atenção e profundidade. Não sendo possível uma abordagem completa do assunto, ressalta-se aqui um dos seus aspectos mais relevantes e urgentes: a conduta ética que se espera dos candidatos e eleitores diante dos adversários políticos, a ser pautada pelo respeito ao outro.

A Igreja Católica, através dos pronunciamentos do Papa Francisco e da Conferência Episcopal, tem insistido na necessidade de respeito entre as pessoas ou grupos de diferentes tendências políticas. Numa sociedade democrática, há lugar para a diversidade de opiniões políticas, mas jamais para a agressão, seja nas redes sociais, em casa, nas ruas, no ambiente de trabalho ou em qualquer outro. Os adversários no campo político não podem ser vistos como inimigos a serem destruídos. As lideranças políticas e, de modo particular, os candidatos, têm a responsabilidade de colaborar para a convivência respeitosa entre as pessoas, especialmente neste período eleitoral.

A discussão de ideias políticas não pode ser motivo para agressões ou para a divulgação de fake-news. A polêmica ofensiva deve ceder espaço para o diálogo construtivo em que as propostas políticas sejam claramente apresentadas. A busca honesta da verdade possa prevalecer sobre as fake-news. O crescimento da influência das redes sociais na vida política merece especial atenção para o exercício consciente e responsável da cidadania. É necessário redobrar o cuidado com as informações veiculadas, por mais curiosas que possam ser, procurando conferir a sua veracidade, sempre que oportuno, antes de compartilhar com pessoas ou grupos. Os eleitores necessitam conhecer, de fato, os candidatos a partir do seu histórico pessoal e das propostas políticas que defendem.

O bem comum da população, especialmente dos pobres e fragilizados, necessita ser colocado acima dos interesses particulares. A afirmação da ética na política deveria ocorrer já durante a campanha eleitoral para se prolongar após as eleições durante o mandato dos eleitos. O resgate da ética e da credibilidade na política necessita do empenho de todos, da sociedade civil organizada, das Igrejas, dos poderes públicos e, especialmente, dos próprios políticos. Isso deve ocorrer já na campanha eleitoral.

*Artigo publicado no jornal Correio no dia 29 de agosto de 2022.

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