A promoção de uma nova cultura vocacional nas nossas comunidades eclesiais

Por Pe. Alberto Montealegre[1]

 A proposta da promoção de uma nova cultura vocacional, entre os jovens e as famílias, foi feita pelo Papa João Paulo II em 1993, na mensagem para a 30º Jornada Mundial de Oração pelas Vocações. Depois de 28 anos, o Papa Francisco apresenta, para o dia de Oração pelas Vocações deste ano, a figura de São José como aquele que é modelo de uma vida vocacionada a dar e a gerar vida. De acordo com o papa, esta é a missão de toda vocação, gerar e regenerar vidas todos os dias.

Entretanto, São José, segundo o pontífice, fazia isso não através de carismas especiais, mas por meio da normalidade da sua vida. Foi assim, que ele realizou coisas extraordinárias diante de Deus[2]. É na normalidade do quotidiano da nossa vida familiar, no nosso trabalho e no dia a dia das nossas comunidades eclesiais, que podemos exercitar os nossos corações para que eles sejam abertos e capazes de realizar, no ordinário da vida, coisas extraordinárias em Deus por meio da grande generosidade na doação, da atitude compassiva de consolar as angústias e da firmeza para fortalecer as esperanças[3].

Todavia, tal realidade fruto de uma cultural vocacional semeada através do serviço e da dedicação eclesial não é possível e muitas vezes se torna problemática, a cada dia que passa, nas nossas comunidades paroquiais e instâncias eclesiais. Continuamente, cresce o número de fiéis católicos, que apesar de participarem nas nossas celebrações e momentos de oração, não se comprometem com a missão evangelizadora da Igreja. São os chamados “católicos de missa”, mas não de compromisso eclesial. Isso causa uma limitação na comunidade, sobretudo, no que diz respeito a qualidade dos nossos serviços evangelizadores e na quantidade de fiéis envolvidos neles.

Isso acontece, talvez, porque as dinâmicas das nossas comunidades eclesiais favorecem um fechamento delas à renovação de seus membros comprometidos. Não temos a cultura de fazermos sucessores, pensamos que somos eternos. De fato, o nosso estilo eclesial é muito marcado por uma cultura fundamentada no serviço religioso, sacramental e espiritual, mas não na corresponsabilidade de cada batizado para que o anúncio da Boa Nova do Senhor chegue a todos sem distinção. Na verdade, as nossas comunidades são mais conservadoras do que missionárias. Elas não se abrem para o novo, apenas conservam aquilo que já existe. Não se desafiam a ir ao encontro daquelas realidades que não fazem parte do nosso contexto eclesial e que questionam o nosso modo de viver e anunciar a fé. Por isso, existe tanta dificuldade na dimensão vocacional, chegando inclusive a faltar vocações para os diversos serviços e ministérios na Igreja.

Logo, ao refletir esta realidade eclesial, chega-se à conclusão que é de fundamental importância promover nas nossas comunidades diocesanas e paroquiais uma cultura vocacional. Contudo, para isso tornar-se uma realidade seria fundamental rever a nossa mentalidade, sensibilidade e práxis pastoral.  A mentalidade das nossas comunidades deve ter como fundamento uma teologia vocacional, isso significa reconhecer no nosso modo de ser cristão uma manifestação do Mistério de Deus, mistério de amor deste Deus que chama. Ao cultivar uma mentalidade vocacional na nossa realidade eclesial a consequência seria não somente ter pessoas que façam trabalhos dentro das nossas atividades evangelizadoras, mas cristãos que vivem a sua vocação como revelação da identidade do próprio Deus[4]. Dado que, o seu modo de ser e de agir revelam o rosto de Deus para o mundo.  Assim, não entraríamos na lógica da sociedade capitalista, que preza pelo ativismo e utilitarismo. Já que, independentemente, daquilo que as pessoas façam, a sua presença e o dom da sua entrega a Deus na comunidade já é uma contribuição para a revelação do mistério de amor do Senhor, que não esquece o seu povo e que cuida dele através daqueles disponíveis a servi-lo.

Do contrário, aqueles que não são úteis nas nossas atividades religiosas ficariam excluídos das nossas comunidades ou então fariam parte somente da massa de espectadores do culto religioso. Além disso, faríamos uma seleção de vocações importantes e menos importantes, empobrecendo, assim, a dinâmica eclesial e evangelizadora, que estaria ligada a uma urgência do serviço religioso e não daquele missionário. Logo, não podemos, como sacerdote, nos contentarmos com igrejas cheias, mas com a qualidade e a profundidade da fé e da vivência deste mistério nas nossas comunidades, pois de outro modo elas não seriam testemunhas da fé e do mistério de Deus.

Ao alimentar a mentalidade de que a nossa fé não é somente um seguimento de leis, preceitos morais e exigências religiosas, descobrimos que em cada experiência da vida encontramos com um Deus que se revela, demonstrando o seu amor por mim e pelo próximo, a partir da doação e da entrega minha e do outro, como vocacionado do Senhor. Esta dinâmica de compromisso vocacional de cada batizado é fruto de um processo de sensibilização, o qual, sobretudo, contribuirá a fim de que cada fiel respeite e contribua para que o Mistério de Deus revelado na vida e na história de cada um se torne realização vocacional. Porque aquilo que acredito teologicamente, o mistério vocacional que professo, permanece não só na mente, mas é rezado, amado, partilhado e anunciado. Assim, aquilo que acredito perfaz todo o percurso pessoal, psicológico e espiritual. Logo, a dinâmica da sensibilização das nossas comunidades cria uma teo-patia vocacional[5], isto é, o fiel começa a se sentir envolvido e implicado ativa e responsavelmente no drama da redenção a partir do respeito e valorização da sua própria história.

Neste contexto, a espiritualidade não é um mero conceito abstrato e cultual, mas é fonte de relações humanas e evangélicas, fundamentadas na relação que o batizado-vocacionado desenvolve com o Deus-que-chama na sua história. Portanto, tal espiritualidade madura, coloca-o em contato com a voz de Deus, que não é sua, nem de seus sentimentos, gostos e desejos muitas vezes pessimistas, tendenciosos e contraditórios. Contudo, é fruto deste diálogo que Deus faz com ele e com a sua história pessoal. Desta maneira, conclui-se que espiritualidade cresce e amadurece a partir do momento em que o cristão reconhece esta voz que o interpela na sua caminhada pessoal. Por isso, que o Papa Francisco apresenta São José como aquele que sonha o sonho de Deus, assim sendo, torna-se um exemplo de vocacionado para a Igreja. O papa continua afirmando que os sonhos introduziram José em aventuras, que nunca teria imaginado. Dando a ele a possibilidade de arriscar e abandonar-se naquilo que Deus lhe pede e naquilo que ele acredita[6]. Tal abandono só foi possível, porque São José permitiu que Deus dialogasse com os seus sonhos, anseios, medos, ou seja, com a sua história incerta e cheia de dúvidas.

Portanto, para superar a falta de compromisso eclesial seria primordial adotar na nossa pastoral quotidiana a práxis vocacional. Logo, a opção vocacional não seria situada necessariamente ao fim de um caminho de fé e nem como uma resposta de uma carência do serviço religioso, mas poderia servir de motivação para seguir e aprofundar a minha experiência com Deus. Dado que, o ser humano está interessado em dar sentido à própria vida. Isso só é possível quando ele se disponibiliza para o serviço, pois é servindo que ele se encontra com o Senhor que o chama e o cura nas suas contradições e dúvidas. Entretanto, a pedagogia vocacional que desenvolvemos na Igreja é insuficiente para realizar tal projeto, porque se contenta em semear por meio do anúncio de um Deus amoroso, mas não acompanha o vocacionado para que ele seja ajudado no processo de discernimento daquela voz que chama, possibilitando que o próprio Deus dê um novo significado às suas feridas e contradições existenciais. Estamos acostumados, por exemplo, com eventos de massas e multidões. Entretanto, não nos acostumamos a rezar com as experiências da vida e a ler o mistério da ação de Deus na nossa história. Esta realidade só seria possível por meio do acompanhamento integral no itinerário de discernimento vocacional, onde os aspectos espirituais estejam bem integrados com o humano e o social[7].

No entanto, a partir da pandemia fomos obrigados a pensar em um serviço vocacional que privilegie, por meio dos instrumentos tecnológicos atuais, o acompanhamento individual e integral. As estruturas eclesiais que temos nas nossas comunidades não favorecem uma escuta e um acompanhamento vocacional dos jovens, nem tampouco de todos os fiéis que alcançam esta espiritualidade inquietante na escuta da voz de Deus. Portanto, a mentalidade e a sensibilização que as nossas comunidades desenvolvem nos nossos fiéis batizados não é de uma cultura vocacional. Visto que a fé com seu modo de anuncia-la e celebrá-la não é baseada em um relacionamento com um Deus-que-chama para a responsabilidade com gratuidade ao compromisso com o drama redentor da humanidade. Porém, é uma cultura religiosa compreendida e vivenciada de modo mercantil, por meio de uma oferta de serviços religiosos e de milagres, muitas vezes alienantes, massificantes e desencarnados da realidade humana. Logo, tal modo de vivência da fé não se envolve com os dramas humanos, mas se torna insensível e distante deles.  A consequência disso não é uma Igreja vocacionada a gerar comunhão e a ser sinal de salvação no mundo hodierno[8], mas vocacionada a exclusão e divisão, onde os chamados por Deus fazem parte de um grupo de privilegiados, que muitas vezes aparentam frieza e insensibilidade com os combates existenciais dramáticos, enfrentados por tantos que precisam deste Redentor que a Igreja anuncia e celebra.

[1] É Doutor em Direito canônico pela Pontifícia universidade Lateranense, Vigário Judicial do Tribunal Eclesiástico interdiocesano de Salvador, Reitor do Seminário Propedêutico Santa Teresinha do Menino Jesus e Coordenador do Serviço Arquidiocesano de Animação Vocacional.

[2] Cfr. Mensagem do Papa Francisco para 58º dia Mundial de oração pelas vocações em 25 de abril de 2021.

[3] Cfr. ibidem.

[4] Cfr. CENCINI, A. Construir cultura vocacional. Ed. Paulinas: São Paulo. 2013, pp.  25-27.

[5] Cfr. ibid., p.38.

[6]  Cfr. Mensagem do Papa Francisco.

[7] Cfr. XV ASSEMBLEIA GERAL DO SÍNODO DOS BISPOS. Os Jovens, a fé e o discernimento vocacional. n. 99.

[8] Cfr. Lumen Gentium, n. 1 e Gaudium et Spes, n. 1

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