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A vida tem sempre a última palavra

Ir. Tomás de Aquino Santos Nonato, Obl OSB.[1]

A morte é uma realidade que, mesmo inelutável, continua a nos desconcertar. Ela desafia nossa presunção de autocontrole e domínio e nos reduz à condição de impotência que tanto nos assombra. Em nosso tempo, talvez mais do que em qualquer outro tempo, apostamos na potestade humana e confiamos em nosso saber e em nosso fazer: acreditamos em nossa pretensa autossuficiência. Eis porque a morte nos assusta tanto: ela destrói nossa ilusão de onipotência.

O modo como recolhemos a morte a um canto convenientemente escondido de nossas vistas ajuda a manter um ritmo de vida que finge que a morte não existe: expulsamos a morte de nosso cotidiano. Em uma sociedade que exalta o prazer e o poder, a morte, por inconveniente, passou a ficar escondida nos hospitais e cemitérios dos quais não falamos, pelos quais não passamos, e que fingimos que não existem até o momento em que essas realidades se impõem duras e chocantes. Vivemos como se não fossemos morrer até que… morremos.

Nesse contexto, a realidade da morte é ainda mais brutal e desconcertante: ela é um choque da realidade nua e crua da mortalidade como parte irrecusável de nossa condição humana. Isto desmonta todo o castelo de areia de uma vida completamente pensada no aqui e no agora como se a efemeridade não fosse a marca de nossa existência terrena. As notícias e as imagens de milhares de mortos, vítimas da pandemia do COVID19, que invadem nossos lares sem que possamos desviar os olhos se converteram em triste e brutal recordação da dura realidade da morte que convenientemente havíamos escondido: tudo aquilo que havíamos tão conveniente e cuidadosamente afastado de nossa vista, salta-nos agora aos olhos violentamente.

À luz do Senhor Ressuscitado, a Igreja nos convida a olhar a morte sob outro ângulo, pois, através dela, o bom Deus realiza em nós seu mistério de amor. Com linguagem poética, a Liturgia da Igreja, nossa mãe, apresenta-nos o Senhor Jesus como vencedor da morte. No hino “Vexilla Regis” das vésperas da Semana Santa, cantamos a Cruz como o estandarte da vitória de Cristo sobre a morte[2]: não a afastamos da vista, mas a veneramos como divino troféu, pois, morrendo sobre a Cruz, Jesus Cristo entrega livremente sua vida, não a tomam (Jo 10, 17-18), vence a morte pela Paixão e Ressurreição e nos assegura a salvação eterna. Portamos a Cruz de Cristo e a exibimos com alegria porque ela é o estandarte do Rei. Deus é o Senhor de tudo e de todos, até da morte (1Sm 2,6). Nós, redimidos pelo sangue de Cristo (1Pd 1,18-19), estamos sujeitos a Ele e não à morte: estamos contidos em seu senhorio. Não temos porque temer a morte que o Senhor já venceu por nós (Jo 11, 25-26). A morte não teve a última palavra sobre o Senhor Jesus. Inseridos pelo Batismo em seu Corpo Místico – que é a Igreja – (Rm 6,3-4.11), a morte também não terá a última palavra sobre nós: é para a vida que o Senhor nos chama (1Tm 6,12).

A Sequência “Victimae Paschali” da Missa da Páscoa poeticamente descreve o duelo entre a morte e a vida no mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor com a vitória da vida: “a morte e a vida se batem em um duelo admirável: o Senhor da vida, morto, reina vivo”[3]. Todo o querigma cristão gira em torno desta verdade (At 10,37-43; 1Cor 15,3-5). Por isso, a realidade da morte na vida do cristão ganha um sentido novo: a morte não é o fim, mas é uma passagem, uma páscoa, uma etapa na peregrinação para a vida plena que Deus nos preparou (Jo 14,1-3).

A consciência da morte como uma realidade alcançada e redimida pelo Sacrifício Pascal de Cristo é central para a vida cristã: para nós, “a vida não é tirada, mas transformada. E desfeito o nosso corpo mortal, nos é dado, nos céus, um corpo imperecível” (Prefácio dos Fiéis Defuntos I do Missal Romano). Os santos viveram com impressionante clareza essa realidade. São Bento, entre os instrumentos das boas obras contidos no capítulo quarto de sua Regra dos Mosteiros, ensina o monge a “ter diariamente diante dos olhos a morte a surpreendê-lo” (RB 4,47)[4]. Já São Francisco de Assis chama-a com carinho de “nossa irmã morte”[5] no Cântico das Criaturas. Não se trata de um pensamento macabro, mas de uma leitura profunda do mistério da morte que nos liberta do medo e da insegurança: é para a vida que caminhamos através das portas da morte. Pensar na morte, tê-la diante dos olhos cotidianamente, é fazer o exercício diário de colocar em perspectiva toda a realidade da vida humana: o valor de cada coisa é medido em relação a sua importância para a vida eterna, afinal, de nada vale ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a verdadeira vida (Cf. Mc 8,36-67).

Contudo, isto não quer dizer que o cristão não sofra a tristeza da morte. Deus nos criou dotados de corpo, alma e espírito e as realidades físicas nos tocam profundamente. O próprio Jesus, Homem-Deus, experimentou a tristeza da morte física em sua relação com seu povo (Lc 7,13), entre seus amigos (Jo 11,33.35) e em sua própria angústia de morte (Mt 26,38; Mc 14,33-34; Lc 22,44). Mediante o Mistério da Encarnação, nosso Deus conheceu toda a realidade de nossa humanidade, exceto o pecado, e nela experimentou o sofrimento e a morte: ele tem compaixão de nós, ele sabe quão dolorosa é a experiência da morte. Podemos recostar nosso coração ao seu e encontrar consolo para nossas dores (Mt 11,28-30). Mas, sabendo em quem acreditamos (2Tm 2,12), olhamos para a morte, para além da tristeza e da dor da separação física, com a alegre esperança naquele é o Vivente e tem “as chaves da Morte e do Hades” (Ap 1,18), que é o “caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6) e que nos chama à vida em abundância (Jo 10,10).

Aprouve à Divina Providência permitir que a Santa Páscoa da Ressurreição do Senhor neste Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de 2020 – que se estende por cinquenta dias até a Solenidade de Pentecostes – ocorresse em meio à pandemia do COVID19 que lança sobre o mundo uma sombra de angústia, sofrimento e morte. Em meio a nuvens tão tenebrosas, erguemos os olhos ao Senhor Ressuscitado do qual nos vem o nosso socorro (Cf. Sl 120 [121], 1-2). Ele, qual “sol nascente que nos veio visitar”, dissipa de nossos corações as sombras de morte, guia nossos passos em sua paz (Lc 1,78-79) e enche nossos corações de renovada alegria pascal, alegria da vida que vence a morte.

Que o Senhor nos conceda a graça de viver todos os dias com coerência a nossa vocação cristã para que, diante da morte que cedo ou tarde nos colherá uma única vez (Hb 9,27), possamos bendizer a Deus com viva gratidão por tudo o que vivemos (2Tm 4,7-8). E, ante as portas da Jerusalém Celeste, nossa mãe, que nos abre a nossa irmã morte, possamos cantar alegremente com o salmista “que alegria quando ouvi que me disseram, vamos à casa do Senhor” (Sl 121 [122], 1), enquanto ouvimos a doce voz do Senhor a nos dizer: “vinde, benditos de meu Pai” (Mt 25,34). Então, haverá vida plena e Deus será tudo em todos (Cf. 1Cor 15,28).

[1] Oblato Secular Beneditino da Arquiabadia de São Sebastião da Bahia, da Congregação Beneditina do Brasil.

[2]Vexilla regis prodeunt, fulgit crucis mysterium” que a Liturgia das Horas no Brasil traduziu como “Do Rei avança o estandarte, fulge o mistério da Cruz”.

[3]O Missal Romano em vernáculo aprovado para uso no Brasil traduz o original latino “mors et vita duelo conflixere mirando: dux vitae mortuus, regnat vivus” como “duelam forte e mais forte: é a vida que enfrenta a morte”.

[4] “Mortem cotidie ante oculos suspectam habere”.

[5] “Laudato si’ mi’ Signore per sora nostra morte corporale”.

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