Dom Valter Magno de Carvalho
Bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador
Há quase dois anos, a humanidade foi surpreendida pela pandemia do novo coronavírus. Desafios novos foram impostos em todos as situações e ambientes. O mundo se viu exposto a uma doença desconhecida, que trouxe consequências inimagináveis a todos os povos e culturas nos quatro cantos do planeta: milhares de pessoas contraíram o vírus, mais de 4 milhões de vidas foram ceifadas, a miséria e a fome bateram à porta de milhares de famílias, profissionais de saúde tiveram que se desdobrar no cuidado da vida e os cientistas tiveram que correr contra o tempo em busca de vacinas que pudessem combater o vírus mortal.
No contexto eclesial não foi diferente. A Igreja enfrentou imensos desafios. E no dizer de muitos, teve que se reinventar para continuar sua missão evangelizadora. Ao longo deste tempo tão sofrido e desafiador, a Igreja se colocou, e não poderia ser diferente, na defesa da vida. Houve paralizações de atividades pastorais, cuidado com o distanciamento social e higienização dos ambientes celebrativos e conscientização das pessoas acerca das orientações estabelecidas pelas autoridades sanitárias com o parecer da ciência. Depois deste caminho percorrido, pode-se afirmar que a Igreja deu uma contribuição decisiva para o cuidado da vida e o combate da pandemia.
Cercada de desafios, a Mãe Igreja não se furtou da missão de anunciar a Boa Nova do Evangelho, razão primeira de sua existência: a pastoral da comunicação teve papel de grande relevância na transmissão das celebrações litúrgicas, especialmente a Eucaristia, fazendo com que as pessoas pudessem alimentar a sua fé; houve inúmeras “lives” com reuniões e formações dos agentes sobre os mais diversos temas pastorais.
Conscientes de que a vivência da fé cristã é essencialmente comunitária, mesmo com o distanciamento imposto pela pandemia, nossas comunidades eclesiais continuaram vivas e ativas nos serviços de anúncio e de vivência da caridade.
A pandemia ensinou a todos muitas lições: toda a humanidade está num mesmo barco e só se conseguirá sair desta situação com a contribuição de todos; a fé e o amor são verdadeiros alimentos da esperança de que dias melhores virão; mergulhado na dor e na morte, o cristão continuou firme no anúncio da vida; em meio às tristezas do tempo presente manteve-se os olhos fixos em Jesus, esperança e razão de ser da existência para quem crê.
Não se sabe por quanto tempo ainda se terá de conviver com esta realidade pandêmica, mas, é certo que se aprendeu a viver e conviver com esta realidade. O discípulo de Jesus, solidário com o sofrimento do mundo, mergulhou seu coração na certeza de que o Senhor sempre esteve do seu lado. Esta alegria da presença salvadora de Cristo Jesus há de guiar todos pelos caminhos da história, para em Seu Nome, anunciar ao mundo a alegria que vence toda dor e a vida que vence a morte.
A história é implacável no julgamento das ações dos líderes dos povos, nações e religiões. E, não será diferente desta vez. A história saberá absolver aqueles que se colocaram ao lado da vida e condenará aqueles que por ignorância, maldade ou omissão favoreceram que a doença e a morte avançassem sobre as populações do mundo.
A Igreja de Jesus Cristo, neste tempo desafiador, escolheu o caminho da valorização e cuidado da vida. E, por estar ao lado da vida, é a mesma Igreja que pede ao Senhor que tenha misericórdia do mundo.