Advento: em entrevista, Dom Gilson Andrade da Silva fala sobre a expectativa para o nascimento de Jesus

"O Natal nos ajuda também a pensar que o Filho de Deus nasceu muito pobre, nasceu sem nada, mas Ele é a riqueza maior que a gente tem", afirma Dom Gilson.
“O Natal nos ajuda também a pensar que o Filho de Deus nasceu muito pobre, nasceu sem nada, mas Ele é a riqueza maior que a gente tem”, afirma Dom Gilson.

A Igreja está vivenciando o Tempo do Advento, marcado pela expectativa do nascimento de Jesus. Para melhor compreender este período, o bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador, Dom Gilson Andrade da Silva, concedeu entrevista ao programa Chão e Paz e que pode ser conferida aqui:

Patrícia Luz – Neste tempo que a gente vive o Advento, o que marca o calendário litúrgico? Por que a Igreja vive essa experiência?

Dom Gilson Andrade da Silva – O Advento faz parte deste grande calendário que nós chamamos de Ano Litúrgico, que nos ajuda a ir vivendo pouco a pouco os mistérios de Cristo no momento presente. Nós agora entramos no Advento, começamos esse tempo de expectativa, de espera da vinda do Senhor, mas o interessante é a gente ter claro que não é apenas mais um Advento: é o Advento do ano de 2016. Vivemos tantas coisas nesse ano, tantas coisas bonitas, mas também tantas coisas difíceis e a Igreja nos ajuda a olhar para Cristo: ‘olha, Cristo está chegando, se preparem que esse é o evento mais importante da história’.

Patrícia Luz – O calendário litúrgico é diferente do calendário civil. Como é que a gente pode entender a funcionalidade desse calendário para a Igreja?

Dom Gilson – Pois é, nós acabamos de começar um novo ano. Esse novo ano começa com uma preparação para a chegada de Cristo, mas ele vai se encaminhando para chegar até a Páscoa e ao fim da história que é o Cristo glorificado, que celebramos na festa do Cristo Rei. Lembrando que toda a história tem um sentido, uma direção, que a nossa história não caminha dando voltas, repetindo as coisas, mas ela vai ao encontro da vida, do autor da vida, da verdade, Aquele que é o sentido de tudo. Então, o calendário litúrgico nos ajuda a pautar o nosso calendário civil, a nossa vida, a partir dos mistérios de Cristo. Começamos com o mistério da Encarnação, a seguir vem o mistério da Páscoa que é o fim da nossa existência, aí temos a quaresma, a preparação que é o Tempo Comum, enfim… mas o centro de tudo é sempre a pessoa de Jesus Cristo.

O centro de tudo é sempre a pessoa de Jesus Cristo

Patrícia Luz – A liturgia é marcada por sinais, símbolos, para cada tempo a gente tem marcas. O que caracteriza o Advento em termos de simbolismos na Igreja?

Dom Gilson – Também no Advento o tema da expectativa é traduzido nos símbolos. Um símbolo forte, que a gente logo se dá conta, é a veste litúrgica que assume uma tonalidade de mais reflexão, mais séria, uma cor mais fechada no sentido de nos ajudar a viver esse tempo com a reflexão que a Palavra de Deus vai nos ajudar a fazer do silêncio, vivendo a expectativa. Depois a própria tradição popular criou os seus símbolos. Um símbolo forte do Tempo do Advento e que, inclusive, entre nós do Brasil começa a ter muita força é a coroa do Advento com aquelas quatro velas, que vão sendo acesas nas quatro semanas do Advento, elas significam a luz de Cristo que vai chegar, a luz plena que vai chegar e pouco a pouco vamos iluminando essas semanas com a luz das velas. Depois a tradição popular tem também o presépio sem o menino, por que estamos como Nossa Senhora e como São José esperando a vinda de Cristo. São estes símbolos e tantos outros que nos ajudam a preparar o coração para a vinda de Cristo, que é a mensagem central do Natal.

Patrícia Luz – A gente vive um tempo de expectativas e de angústias. Esta crise que não é só financeira, é uma crise social, é uma crise de ideais também. Então, como a gente pode aproveitar esse Tempo do Advento para trazer de volta a esperança, para trazer Jesus para o centro da vida da gente?

Dom Gilson – Temos três personagens que nos acompanham durante o Advento: o profeta Isaías com a mensagem de Consolação, sobretudo na segunda parte do seu livro, ele ajudou o povo a atravessar o exílio, a atravessar as crises dizendo para o povo ‘Deus vai consolar o seu povo, a nossa esperança está em Deus’. Acho que as crises do nosso tempo nos mostram que ou a gente coloca as nossas expectativas em Deus ou na Palavra de Deus e procura ser fiel a essa Palavra, ou então a gente não tem esperança.

Outro personagem é o profeta João Batista, que é o último dos profetas, é aquele que anuncia Cristo já presente e então chamava à conversão. É sempre uma renovação o Advento. Nós podemos pensar: ‘posso começar de novo, posso começar uma nova vida porque Cristo está chegando e eu quero começar’. Depois Nossa Senhora, que é uma personagem que aparece também no Advento, é aquela que se oferece, que oferece o seu ventre, que oferece a sua vida e que vai nos apresentar Jesus. Eu creio que a esperança, ressuscitar a esperança em nós, a conversão, rever a nossa vida, e depois acolher os planos de Deus de maneira concreta. Depois temos as novenas de Natal que ajudam tanto as nossas comunidades a viver em clima de oração, superando essa expectativa de tanto consumismo que também marca essa época, infelizmente. A oração em comunidade através da novena de Natal aproveitando bem a liturgia, isso tudo eu creio que pode nos ajudar a viver em cheio o Tempo do Advento.

É sempre uma renovação o Advento. Nós podemos pensar: ‘posso começar de novo, posso começar uma nova vida porque Cristo está chegando e eu quero começar’

Patrícia Luz – Tem muita gente que tem dificuldades em fazer a experiência do Natal. Estamos muito perto do fim do ano, vem toda aquela retrospectiva, talvez de frustrações, de ter planejado algumas coisas que não deram certo; outras pessoas associam ao momento que é muito familiar, a perda de um parente, enfim, tem muita gente que acaba não celebrando o Natal. Como é que essas pessoas que não conseguem fazer essa experiência podem redescobrir essa riqueza do Natal?

Dom Gilson – A Palavra de Deus sempre nos ilumina, sempre nos ajuda. Quando nesse tempo a gente começa a relembrar coisas tristes e, de fato, há pessoas que me dizem ‘olha, eu não gosto do Natal porque o Natal me faz lembrar fulano que se foi, fulana que há tanto tempo eu não vejo’, parece que é uma data de tristeza porque? Por que Natal é realmente uma festa de família, em família, onde a gente sente mais a presença da família junto da gente. E é bom estar em família, porque Deus nasceu numa família. Mas, a gente precisa também ampliar esse horizonte da família: de quantas pessoas a gente pode se aproximar nesse tempo? Quantas pessoas podem ser para nós a oportunidade do encontro com o Cristo, da surpresa de Deus. Eu creio que o Natal é uma oportunidade que a gente também tem de se deixar surpreender por Deus. Deus traz sempre uma novidade. Aliás, eu penso e cada vez estou mais convencido de que a grande novidade desse mundo é Jesus Cristo e a sua mensagem. O nosso mundo está envelhecendo com coisas que sempre existiram, mas se a gente acolher essa mensagem de Jesus Cristo, o Evangelho de Jesus Cristo, o nosso mundo seria outro. Esses dias o Santo Padre, o Papa Francisco, dizia que se cada um procurasse colocar em prática uma obra de misericórdia, ia acontecer uma revolução no nosso mundo. Então, eu penso que essas pessoas podem redescobrir o lugar da caridade, do encontro com Cristo no pobre, no necessitado, abrir o coração para receber a alegria de Deus, não ficar com a sua tristeza.

Eu creio que o Natal é uma oportunidade que a gente também tem de se deixar surpreender por Deus. Deus traz sempre uma novidade

Patrícia Luz – A gente vive também nessa experiência de fim de ano, do Natal, do encerramento também do calendário civil, essa busca desenfreada pelo consumo. Isso casa com a proposta de Cristo?

Dom Gilson – O consumismo de jeito nenhum. Até porque o consumismo nós dá aquela falsa sensação de ser o que a gente tem e a gente não é o que a gente tem; a gente é muito mais do que o que tem, a gente é filho de Deus, a gente é amado por Deus. Existe o tema dos presentes, que é muito próprio dessa época e que a gente procura gastar algum dinheiro para presentear as pessoas que a gente ama, mas isso não pode ser desvinculado do sentido da fé. O maior presente foi Cristo, não adianta a gente ganhar presente ou dar presente se de repente o Natal não for marcado por uma forte presença de Jesus Cristo, uma busca de uma conversão maior, do encontro com Cristo nas pessoas dos irmãos mais necessitados. Então, de fato o consumismo não combina conosco. Eu me lembro do Papa Bento que anos atrás dizia que nós católicos precisávamos dar o exemplo de uma vida mais austera no nosso mundo e nós estamos vivendo uma crise muito grande, que não é só uma crise financeira, é uma crise mesmo antropológica, da pessoa, e a gente precisa se redescobrir, nós não somos o que compramos, nós não somos o que temos, nós somos muito mais do que isso. Então, o Natal nos ajuda também a pensar que o Filho de Deus nasceu muito pobre, nasceu sem nada, mas Ele é a riqueza maior que a gente tem.

Patrícia Luz – O senhor poderia deixar uma mensagem de Natal?

Dom Gilson – Há muitas crises no nosso mundo e quem sabe haja crise até na sua família, e por causa dessa sombra da crise a gente pode pensar ‘o Natal esse ano vai ser um pouquinho obscuro’, mas não vai não! Porque no meio de uma noite escura, num lugar miserável onde ninguém podia jamais imaginar que um ser humano pudesse viver, nascer, Deus se manifestou. E olha, nessas crises que nós estamos vivendo – econômica, política, moral, ética, antropológica etc. – é o lugar para a estrebaria, é um lugar onde Deus também pode se manifestar e trazer novidades. Então, convido você a abrir o seu coração para colher Jesus Cristo na fé, na nossa fé Católica, mas acolher também Jesus Cristo na pessoa de um irmão necessitado que, atenção, pode estar aí do seu lado. Desejo para você um santo e feliz Natal, um abençoado Natal, sem crise no seu coração, sem crise na sua vida, por que onde Cristo está há sempre a possibilidade de um tempo novo, de um recomeço, de uma vida nova, de uma força nova. Que por intercessão de Nossa Senhora, de São José, o seu Natal seja abençoado.

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no whatsapp

Assine nossa News

Seja o primeiro a receber nossas novidades!

Contatos

© Copyright Arquidiocese de São Salvador Bahia. Feito com por
© Copyright Arquidiocese de São Salvador Bahia. Feito com por