Artigo: Café sem cafeína, leite sem lactose, doce sem açúcar, cristão sem fé

Por padre Jonathan Jesus

Pároco da Paróquia São Francisco de Assis (Saramandaia) e

reitor do Santuário Mãe, Rainha e Vencedora Três Vezes Admirável de Schoenstatt

Em uma conversa informal à mesa com alguns amigos, o assunto era sobre restrições alimentares, mas, espontaneamente um deles disse: “Estamos em um mundo estranho, café sem cafeína, leite sem lactose, doce sem açúcar, não é de se estranhar cristão sem fé”, ao final da pérola lançada rimos muito com a anedota. Entretanto, aquilo que poderia ser uma piada, infelizmente, não é. E aqui vem um tema, acho que é delicado, até mesmo espinhoso, mas que precisa ser conversado em nossas rodas de conversa, de amigos, de família, de igreja, de trabalho, e as vezes até no ponto de ônibus. Até onde minha religiosidade fala sobre minha fé? E aí vamos nos dando conta que uma coisa não depende da outra, mas podem se ajudar, vividas harmoniosamente.

Ninguém nasce com fé, somos abertos a transcendência, ou seja, somos preparados para recebermos a fé. Esta, por sua vez, é um dom recebido, ninguém nasce com ela, mas se recebe. No batismo, após a profissão de fé o ministro do batismo diz: “Essa é a nossa fé que da Igreja recebemos e sinceramente professamos…” Opa, outro ponto importante! Recebemos por meio do Batismo que nos é dado pela Igreja, e seu resumo está naquilo que chamamos símbolo da fé, ou popularmente, credo, onde proclamamos os artigos da fé que a Igreja nos concedeu: Crer em Deus Pai, em Jesus Cristo, no Espírito Santo, na Igreja, na Ressurreição…

Mas a fé, assim como os outros dons que de Deus recebemos precisa ser exercitada para que possa crescer sempre mais. Quem tem o dom de cantar, exercita constantemente a voz, quem tem o dom de nadar, se exercita diariamente para progredir no esporte, e por aí vai. Quem tem o dom da fé, faz crescer por meio da religiosidade, pela adesão a comunidade cristã, pela frequência sacramental, pelas orações pessoais e comunitárias… Contudo, lembremos que a fé deve preencher de sentido a religiosidade, até porque essa é um produto humano.

Ao passear pelas redes sociais não é difícil perceber que a internet virou também um ringue de nocautes religioso, o respeito cristão ficou escanteado, o que vale é a defesa das próprias ideias, dos grupos afirmativos das próprias verdades e interpretações doutrinárias, e um retorno de uma apologética (defesa da fé) vintage, ou seja, algo antigo com roupagem nova. Assim, crescem o número mais católicos e menos cristãos. Sim, é de assustar!

No antigo escrito, datado aproximadamente no ano 120 D.C., um anônimo escreve uma carta a um recém convertido chamado Diogneto apresentando o modo de viver dos cristãos, o texto ficou conhecido popularmente de Carta a Dogneto, e no capítulo 6 ele escreve: “Assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo”. Mas, vendo as postagens dos super católicos da internet me pergunto? Que tipo de alma está sendo oferecida ao mundo pelos atuais cristãos? Ataques ao Santo Padre, a CNBB, disputas de concepções teológicas entre grupos rivais, sempre agressivas e que se afastam drasticamente do conselho de Jesus a sua comunidade “entre vós não seja assim” ( Mt 20,26), a esse fenômeno Jesus chamou de fermento dos fariseus, o Papa Francisco de mundanismo espiritual. Acho que aqui se encacha a definição do meu amigo, cristãos sem fé, e o pior é que a caricatura é de fé demais.

Concluo essa inquietação com uma estrofe da poesia-canção do padre Jesuíta chileno Cristóbal Fones, originalmente em espanhol, Tu modo (Teu jeito): “… Que eu encontre uma harmonia entre o que creio e quero ser. Meus olhos sejam fontes de alegria, que abrace sua maneira de ser. Jesus ensina-me o teu jeito, de fazer sentir o outro mais humano, que teus passos sejam os meus passos, teu modo de proceder”. Por mais cristãos parecido com Jesus…