Brinquedos que falam: a arte de brincar na catequese

Pe. Sergio Esteban González Martínez, CSS

Vigário da Paróquia São João Evangelista (Mussurunga)

A catequese com criança emprega elementos diferenciados com relação às outras etapas empreendidas, pois ela utiliza uma pedagogia própria nessa idade. Educar na fé exige aperfeiçoar duas atitudes: a busca de espaços que fomentem a comunicação da criança por meio dos brinquedos e o desenvolvimento da capacidade de interpretá-los. Sendo assim, os brinquedos são uma maneira de comunicar conteúdos e de escutar o mundo da criança ao servir como parâmetro para identificar a capacidade de percepção da sua realidade. As associações mentais dos objetos e a interpretação do contexto são manifestadas no momento da brincadeira, por isso elas precisam ser observadas, “é recomendável que os responsáveis pela iniciação das crianças aprendam a “ler” o que a expressão corporal infantil revela e o que, no profundo do ser, tenta comunicar com expressões, desenhos, olhares e gestos” (INICIAÇÃO À VIDA CRISTÃ, n. 213).

Os brinquedos não representam só objetos de entretenimento ou elemento pedagógico de transmissão da fé, eles colocam em evidência – para aqueles que escutam e interpretam essa arte – o mundo interno e externo das crianças; a maneira pela qual são educadas; o acompanhamento dos pais e padrinhos; a vida interna familiar; o relacionamento escolar; a capacidade e dificuldade de apreender; e especialmente, as suas angustias e seguranças, por isso um instrumento valioso que devemos usar na catequese. Os catequistas dessa etapa precisam ter um olhar minucioso no momento do acompanhamento, devendo considerar a existência de três elementos que auxiliam a arte da educação da fé: proximidade, escuta e relação. O brincar proporciona compreender esses três elementos ao mostrar o mundo interno da criança, ao permitir uma escuta de quem está acompanhando e ao criar relação. Em síntese, a prática desse trinômio ajuda ao catequista a perceber os conteúdos do “universo infantil: brincadeiras, situação escolar e familiar, histórias em quadrinhos e filmes que as crianças preferem, literatura infantil de boa qualidade” (DIRETÓRIO NACIONAL DE CATEQUESE, n. 198).

O brincar para a criança não representa uma ação isolada, sem lógica nem sentido. Ele – além de ser um instrumento que desenvolve a criatividade e potencializa a imaginação – é a porta de acesso de mensagens guardadas no inconsciente e ferramenta que podem ser potencializadas para a relação e encontro com a realidade. O educador da fé precisa de experiência e conhecimento para que os brinquedos na catequese ocupem o seu devido lugar. Um catequista sem preparação e sem atualização considera a criança brincando como uma atividade sem conexão; para um “observador não treinado, o brinquedo de uma criança tem pouco sentido ou um sentido muito genérico. Se ele vê um menino brincando com uma bola e lhe pergunta o que está fazendo, poderá receber uma resposta: “Eu sou o Pelé” (RYAD, 1986, p. 8). Essa afirmação da criança manifesta seu mundo interno, um conteúdo cheio de símbolos linguísticos que precisa ser decodificado. O catequista preparado, de contínua formação e atualização, vê na arte da relação criança-brinquedo, “um campo de exame a ser investigado com árduo, intuitivo e corajoso trabalho” (RYAD, 1986, p. 8).

As crianças na atualidade vivem na era digital, desde cedo observam-se o contato com telefones, tablets ou computadores. O avanço tecnológico possibilitou a comunicação ampliando a capacidade de chegar a mais pessoas e em menos tempo, mas essa maneira de comunicar não substitui o encontro nem o toque dos brinquedos, em vista que as crianças necessitam de proximidade, contato, de fazer experiência com o objeto externo. Nas famílias, nas escolas e na catequese devem buscar-se espaços para o contato, não é a mesma coisa brincar no telefone, isolado da realidade do que fazê-lo com uma pessoa e tocando os objetos. Sem dúvida, o contato com o outro fomenta o sentido de identificação da criança e o toque dos objetos abre caminho para o sentido de pertença com os objetos. A brincadeira cria uma infância saudável, “o brincar facilita o crescimento e, por tanto a saúde; o brincar conduz aos relacionamentos grupais; o brincar pode ser uma forma de comunicação” (WINNICOTT, 1975, p. 70).

A finalidade da brincadeira na catequese com criança é colocar as bases para a formação de um verdadeiro discípulo missionário. A prática de brincar abre a possibilidade da compreensão da experiência da dor; quem brinca pode cair ou machucar-se, isso fortalece a capacidade de recuperar-se de uma experiência dolorosa e pode ajudar a tomar consciência da limitação dos atos. Brincar implica sujar-se no contato com o brinquedo e suar nos movimentos das ações. Brincar é criar e arriscar-se; a sua prática fomenta relacionamento e fortalece o exercício de sair de si ao encontro do outro.

Referências bibliográficas

CNBB. Diretório Nacional de Catequese. Documentos da CNBB 84. Brasília: Edições CNBB, 2006.

CNBB. Iniciação à vida cristã: itinerário para formar discípulos missionários. Documentos da CNBB 107. Brasília: Edições CNBB, 2017.

RYAD, S. Introdução à psicanálise: Melanie Klein (Temas básicos de psicologia: v. 17). Coordenação Clara Regina Rappaport. São Paulo: EPU, 1986.

WINNICOTT, D. W. O brincar e a realidade (Coleção Psicologia Psicanalítica). Coordenação Pedro Paulo de Sena Madureira. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

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