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Cultura consumista

Cardeal Dom Sergio da Rocha

Arcebispo de Salvador, Primaz do Brasil

 Vivemos num contexto sociocultural marcado fortemente pelo consumismo, alimentado pelo mercado globalizado e estimulado pela propaganda. As pessoas tendem a reproduzir largamente em suas vidas, sem a devida consciência crítica, a mentalidade e os hábitos consumistas. O consumismo se edifica sobre o pressuposto de que a felicidade é proporcional ao consumo de bens. O padrão de consumo vai sendo definido pelo mercado através de ousado investimento em marketing, criando falsas necessidades que acabam se transformando em “sonhos de consumo”, expressão comumente empregada pelas pessoas sem pensar no seu real significado. A mentalidade consumista traz consequências danosas para as pessoas, dentre elas, o grande número de consumidores compulsivos. Como todo comportamento compulsivo, consumir comprando, cada vez mais, sem critérios justos e responsabilidade, exprime a negação da pessoa, enquanto perda da consciência e da liberdade. Os sonhos de consumo, num estilo de vida consumista, podem acabar em pesadelos. Isso não se deve apenas às consequências do uso irresponsável de dinheiro, com dívidas contraídas sem maior necessidade, mas pela postura fundamental equivocada diante da vida.

O prazer de viver não pode depender do consumo de bens supérfluos, embora deva ser assegurado a todos condições de vida digna. O sentido da vida e as perspectivas de futuro não encontram lugar nos limites estreitos do consumismo. É preciso redescobrir o valor das coisas simples e aparentemente pequenas que fazem as pessoas felizes no seu dia a dia. As ondas de consumo passam. A felicidade vem de dentro; não se adquire com dinheiro; ele ajuda a obter inúmeros bens, mas não garante a felicidade que tanto se deseja, pois não está radicada nas mercadorias, nem é comprada em lojas. É alimentada pela gratuidade e pela simplicidade de vida.

Criar relacionamentos humanos baseados na gratuidade e recriar um estilo de vida simples permitem grandes passos na superação da cultura do consumo, bem como, do descarte, que tendem a transformar pessoas em mercadorias a serem consumidas e depois descartadas. É preciso superar a mercantilização dos relacionamentos humanos, em que as pessoas valem somente pelo que produzem e consomem, ou enquanto podem ser “úteis”. A economia é necessária para a sociedade, porém a lógica do mercado não deve ser o paradigma regulador das relações humanas e da vida social. A mentalidade do “vale quem tem”, “vale quem produz”, “vale quem pode consumir”, contradiz a dignidade humana e desumaniza.

Nesse contexto social, a experiência da gratuidade do amor de Deus, isto é, da graça, torna-se ainda mais significativa e necessária, permitindo a redescoberta da gratuidade nos relacionamentos, a alegria de viver sem exageros de consumo e o valor inviolável de cada pessoa humana.

*Artigo publicado no jornal Correio, em 5 de outubro de 2020.

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