Direito ao descanso

Cardeal Dom Sergio da Rocha

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

O ritmo de vida, para muitas pessoas, não tem permitido a experiência do repouso, seja diário, semanal ou anual. Trata-se de uma necessidade humana e um direito do trabalhador contemplado pela legislação brasileira, mas que nem sempre ocorre de modo justo, pois a questão depende do cumprimento de dispositivos legais e também de disposições pessoais. Sob o ponto de vista legal, passos significativos têm sido dados para assegurar o direito ao descanso, embora perdurem graves problemas que impedem a sua justa e universal efetivação: a pobreza, a remuneração insuficiente, a exploração do trabalhador, especialmente, a sua forma mais perversa que é a do trabalho escravo, o cumprimento de metas de produção, as exigências de especialização e atualização.

Além disso, há desafios de cunho sociocultural. Muita gente não consegue desfrutar do descanso, mesmo tendo oportunidade, por deixar-se levar pela tendência de querer acumular sempre mais ou de desfrutar de um padrão de consumo que exige trabalhar sempre mais para satisfazê-lo. Tal comportamento estressante desumaniza, podendo levar ao desgaste físico, mental e emocional, com a deterioração dos relacionamentos, a começar da vida familiar. Como num círculo vicioso, esse comportamento acaba repercutindo negativamente no próprio ambiente de trabalho. É compreensível que as exigências do trabalho ou a dedicação a outras atividades possam causar desgaste, porém, não se pode admitir que um ritmo estressante se instale, acarretando sérios prejuízos. O estresse aparece como um dos principais males da sociedade moderna e uma de suas tristes contradições, pois o desenvolvimento econômico e o progresso tecnológico pretendem trazer bem-estar, liberdade e redução da carga de trabalho. Quando o homem se deixa dominar pelo fazer, produzir, acumular e consumir, acaba negando dimensões essenciais, como a espiritual, a comunitária, a lúdica e a contemplativa, perdendo valores como a convivência fraterna, a gratuidade e a simplicidade.

É preciso dispor-se a uma vida nova. Há fatores que vão muito além do querer e agir de cada um, pois dependem de medidas a serem tomadas por empresas e poderes públicos, que devem assegurar o direito ao trabalho digno e ao descanso. Há outras que dependem, sobretudo, do empenho pessoal. É preciso organizar-se de modo a ter o devido tempo para cuidar de si, para conviver com familiares e amigos, para orar e contemplar, para descansar sem ter que gastar e desgastar-se.  É preciso reaprender o valor do repouso, enfatizado pela Bíblia desde as suas primeiras páginas. Saborear como o descanso humano se revela divino, contribuindo para restabelecer a imagem e semelhança de Deus, especialmente, a capacidade de amar, perdida ou enfraquecida pelo ritmo desgastante de vida.

*Artigo publicado no jornal A Tarde, em 12 de setembro de 2021.

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