Direito de ser criança

Cardeal Dom Sergio da Rocha

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

Muitos são os problemas que implicam na negação da infância. A infância é negada, violada ou destruída em nossa sociedade, por graves situações, como a desnutrição, a miséria, a falta de assistência médica, o trabalho infantil e o abuso sexual. As crianças pobres são as maiores vítimas, revelando a face desumana de nossa sociedade e interpelando a todos nós. Contudo, outras situações têm se revelado preocupantes atingindo também as crianças de famílias com melhores condições de vida. Dentre elas, destaca-se a questão das crianças programadas pelos pais para vencer na vida e obter sucesso, sobrecarregando-as de compromissos. Com a agenda lotada e a cobrança demasiada dos pais, tais crianças correm o risco de terem sua infância negada e se tornarem adultos infelizes. O ritmo de vida de muitas crianças tende a levá-las a começar a viver o estresse dos adultos, prejudicando o seu desenvolvimento psicológico e o seu equilíbrio emocional, como alertam psicólogos e pedagogos. O direito de ser criança precisa ser assegurado, em primeiro lugar, pelos próprios pais e pelo conjunto da família.

É justo que os pais queiram preparar bem os seus filhos para a vida a fim de se tornarem jovens e adultos felizes. Contudo, não é justo sobrecarregar as crianças de atividades, tirando-lhes o direito de ser criança. É preciso bom senso e equilíbrio nesta questão. A infância é marcada pela espontaneidade, pelo brincar, pelo tempo livre, pela alegria de estar juntos sem preocupações, pela convivência com as outras crianças e com os próprios pais. Há estudos demonstrando que o brincar favorece o desenvolvimento de habilidades intelectuais e que o excesso de atividades programadas pelos adultos poderia prejudicar. Nossas crianças precisam de atenção, proximidade e afeto, da parte dos pais e familiares. Precisam preparar-se para a vida, sendo amadas e aprendendo a amar.

Há também o risco de pais projetarem nos filhos as suas expectativas e projetos, como se os filhos fossem uma mera extensão de si mesmos.  O problema se agrava quando os pais começam a definir o futuro profissional dos filhos segundo as suas expectativas ou as exigências do mercado, antecipando ou negando opções de vida que deveriam ser feitas mais tarde. É claro que, no momento oportuno, os pais deverão ajudar a refletir e a discernir, como parte de sua tarefa educativa, sem, contudo, substituir os filhos. As expectativas dos pais não podem significar um peso que oprime seus filhos.

Além disso, por mais importante que possa ser a aquisição de determinadas habilidades para a vida e o futuro profissional, não se pode sobrevalorizar ou reduzir a educação à formação técnica.

É preciso educar ajudando a crescer e a amadurecer numa perspectiva pedagógica que inclua as dimensões fundamentais da pessoa humana. A educação para a vida contempla a capacidade de convivência com o outro, o exercício da cidadania, a experiência dos valores éticos fundamentais e o cultivo da espiritualidade. Por meio da formação religiosa, os pais oferecem aos filhos o sentido e o alicerce mais profundo para a vida, que se encontra em Deus. Como a educação acontece por meio da prática e do testemunho, é grande a responsabilidade dos pais e familiares na tarefa bela e exigente de educar.

*Artigo publicado no jornal A Tarde, em 23 de maio de 2021.

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