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Discípulos missionários na sociedade fragmentada

Diácono Sergio Esteban González Martínez, CSS

Anunciar o Amor de Deus no contexto atual é um desafio para os discípulos missionários. Proclamar com gestos e palavras o evento salvífico numa sociedade que tende a fragmentar todos os elementos perdendo a noção de unidade, é o grande obstáculo na evangelização. A mentalidade fragmentada foca a sua concentração nas partes esquecendo o todo. Isso, já tem afetado o anúncio do Evangelho.

A sociedade fragmentada não só tem atingido a vida pessoal dos discípulos missionários, senão, também, a social. Esta estrutura não olha o todo, porque significaria reconhecer e cuidar de todas as partes, principalmente, das mais frágeis que são: os pobres e vulneráveis. Esta realidade atenta contra o projeto de Deus revelado em Jesus Cristo. Se essa estrutura dominasse o coração dos discípulos missionários, impediria o projeto do Pai que quer que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade (1Tm 2,4).

O Reino de Deus que se revela em Jesus Cristo com gestos e palavras, busca insistentemente que os frágeis da sociedade sejam inseridos na unidade. A exclusão de qualquer grupo social, provoca instabilidade e é contrária ao desígnio do Pai: salvar a todos (LG, 2). A fim de garantir a inserção de todos os povos e grupos sociais, o Papa Francisco afirma: para avançar nesta construção de um povo em paz, justiça e fraternidade, há quatro princípios relacionados com tensões bipolares próprias de toda realidade social (EG, 221). Dos quatro princípios, gostaria de mencionar três.  

O primeiro princípio: o tempo é superior ao espaço, garante a construção da paz. Toda verdadeira mudança é processual e leva seu tempo de amadurecimento. Este critério elimina desde as suas entranhas a sociedade fragmentada, porque agride o efêmero, aquilo que não tem raiz sólida. Ser um discípulo missionário também acontece ao longo prazo. Não se torna um seguidor de Jesus Cristo da noite para o dia. Sempre é bom relembrar-nos da palavra do Sumo Pontífice: este princípio permite trabalhar em longo prazo, sem a obsessão pelos resultados imediatos (EG, 223).

O segundo princípio: a unidade prevalece sobre o conflito, pode tornar-se uma chave para abrir portas de esperança na pandemia. A situação social atual, nos apresenta o conflito de lidar com a Covid-19. Na presença deste mal que atenta a vida de todas as pessoas, se pode ter várias atitudes: viver como se a pandemia nunca existisse; desesperar-nos atrás das máscaras e perder a esperança; ou enfrentá-la com coragem e mudar a realidade. A missão dos discípulos missionários é clara, assim como o Mestre, enfrentar a situação à luz da fé e não parar no conflito perdendo o sentido da unidade profunda da realidade (EG, 226).

O terceiro princípio: a realidade é mais importante do que a ideia, coloca os pés do missionário no chão. Este critério faz refletir o modo de agir de Deus. Tudo o que Ele diz ou faz é com o adjetivo ‘bom’ (Gn 1,3-31). Os verdadeiros seguidores de Jesus Cristo sabem que a realidade deve ser mudada fazendo o bem, não só falando do bem. Quem compreende o projeto do Pai, não separa em sua missão palavras e fatos, porque ambos se sustentam e complementam. O discípulo que tem o ouvido afinado à voz do Senhor, coloca a realidade e a ideia em diálogo constante, evitando que a ideia acabe por separar-se da realidade (EG, 231).

 

Referências bibliográficas

BÍBLIA. Bíblia de Jerusalém. 10. ed. São Paulo: Paulus, 2015.

CONCÍLIO VATICANO II. Vaticano II: mensagens, discursos e documentos. Constituição Dogmática: Lumem Gentium – sobre a Igreja. 2. Ed. Tradução de Francisco Catão. São Paulo: Paulinas, 2007.

FRANCISCO, P. Exortação Apostólica: Evangelii Gaudium – sobre o anúncio do Evangelho no mundo atual. São Paulo: Paulus/Loyola, 2013.

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