Confira artigo escrito pelo padre Lázaro Silva Muniz, coordenador da Comissão Arquidiocesana de Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso

Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso: compreendendo o outro como irmão e irmã, em favor da Paz!

Padre Lázaro Silva Muniz

Coordenador da Comissão Arquidiocesana de Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso

Quando falamos de Ecumenismo, em tese geral podemos pensar em um apelo à unidade de todos os povos, à luz da mensagem do Evangelho de Cristo. Nessa perspectiva, podemos também compreender como um “Movimento favorável à união das Igrejas cristãs”. Do ponto de vista do Cristianismo, pode-se dizer que o ecumenismo é um
movimento entre diversas denominações cristãs na busca do diálogo e cooperação comum, buscando superar as divergências históricas e culturais, a partir de uma reconciliação cristã que aceite a diversidade entre as igrejas.

“O ecumenismo começa quando se admite que os outros – não apenas os indivíduos, mas também os grupos eclesiásticos como tais – tem também razão, ainda que afirmem coisas diferentes de nós; que possuem também verdade, santidade, dons de Deus, embora não pertençam à nossa cristandade. Há ecumenismo quando se admite que o outro é cristão não apesar de sua confissão, mas nela e por ela” [1].

Se a aceitação do outro é necessária dentro de sua confissão religiosa e por meio dela, logo precisamos compreender que vivemos num mundo plural e edificado sobre bases que não necessariamente se identificam com essa ou aquela confissão religiosa, embora devam ser respeitadas as configurações históricas nas relações religião e estado, excluindo-se o que possa funcionar como instrumento de exclusão ou de atentado à liberdade religiosa, uma vez que falamos do “estado laico” – sem uma religião definida, mas com a tarefa de manter viva a liberdade de crença e de culto.

Na compreensão de Navarro, em sua obra “Para Compreender o Ecumenismo”, Loyola, 1995, três elementos são fundamentais para um possível entendimento do movimento ecumênico: Originalidade, Atitude e desejo de Diálogo e Espiritualidade [2]. É basilar entender o Ecumenismo como um movimento original, uma experiência inédita, sem precedentes na história do Cristianismo; é uma atitude que exige organização, estrutura, estudo sistemático e acima de tudo, o diálogo; É também um movimento espiritual, carregado da consciência de que as divisões humanas e as questões doutrinais não permitem vislumbrar o retorno à unidade, mas não poderão impedir a vivência da fé, o cultivo da esperança e a prática da caridade.

Certamente alguém já te fez essa pergunta: Você concorda com o Ecumenismo? Tem o seu apoio as práticas ecumênicas pregadas em sua Igreja? Você aceita a ideia do Diálogo Inter-religioso? De imediato poderíamos afirmar que esse movimento vai muito além de um desejo pessoal ou da capacidade individual de concordância, dado que não podemos mais reduzir tal caminho a um olhar apenas do coração ou da alma do crente ou não crente. Uma verdade que se nos impõe é que tendo a religião a tarefa de edificar as pessoas numa dimensão tão transcendente, que torne seu existir, um viver feliz, logo não seria absurdo dizer que a religião toca a realidade do crente. E isto revela o sentido pleno do termo Oikumene – “Mundo habitado, Casa comum” – o que nos torna todos
responsáveis por um caminho de diálogo ecumênico e inter-religioso.

Uma atenção que precisamos ter quando falamos de Ecumenismo e Diálogo Inter-religioso, além da própria consciência do significado de cada um e dos elementos que dão transversalidade aos dois temas, é que na base dessas iniciativas e esforços, sobretudo os oficiais, deva existir sempre um compromisso de reconciliação e de restabelecimento da comunhão que inspira os cristãos e suas comunidades, assim como o respeito à diversidade religiosa, rompendo com o racismo e o ódio religioso. É preciso entender que no mundo em que estamos inseridos, crer e ter vivência religiosa, crer diferente ou contrário ao que o outro crê e não crer em nenhuma divindade ou sistema religioso são direitos iguais. A religião não pode ser um instrumento de opressão.

O Diálogo Inter-religioso é o caminho da aceitação dos diferentes caminhos, isto é, a compreensão de que a religião diferente do outro não o torna meu adversário ou inimigo, é apenas outro caminho de vivência espiritual e religiosa, que exige respeito, pois a fé do outro é tão fé como a minha. As diferentes religiões no mundo devem evitar a busca por supremacia, devem dialogar e cultivar respeito mútuo, procurando evitar conflitos, especialmente aqueles com motivação religiosa.

Numa declaração conjunta entre Igreja Católica e Islã, sobre a fraternidade Humana, encontramos esta afirmação: “O primeiro e mais importante objetivo das religiões é o de crer em Deus, honrá-Lo e chamar todos os homens a acreditarem que este universo depende de um Deus que o governa: é o Criador que nos moldou com a Sua Sabedoria divina e nos concedeu o dom da vida para o guardarmos” [3].

Nesse mesmo documento, de forma magistral, oxalá seja a prática, encontramos uma grande riqueza de afirmações, sobretudo no propósito de garantir a fraternidade, a liberdade e a paz.

“De igual modo declaramos – firmemente – que as religiões nunca incitam à guerra e não solicitam sentimentos de ódio, hostilidade, extremismo nem convidam à violência ou ao derramamento de sangue. Estas calamidades são fruto de desvio dos ensinamentos religiosos, do uso político das religiões e também das interpretações de grupos de homens de religião que abusaram – nalgumas fases da história – da influência do sentimento religioso sobre os corações dos homens para os levar à realização daquilo que não tem nada a ver com a verdade da religião, para alcançar fins políticos e econômicos mundanos e míopes. Por isso, pedimos a todos que cessem de instrumentalizar as religiões para incitar ao ódio, à violência, ao extremismo e ao fanatismo cego e deixem de usar o nome de Deus para justificar atos de homicídio, de exílio, de terrorismo e de opressão. Pedimo-lo pela nossa fé comum em Deus, que não criou os homens para ser assassinados ou lutar uns com os outros, nem para ser torturados ou humilhados na sua vida e na sua existência. Com efeito Deus, o Todo-Poderoso,  não precisa de ser defendido por ninguém e não quer que o Seu nome seja usado para aterrorizar as pessoas. […] A liberdade é um direito de toda a pessoa: cada um goza da liberdade de credo, de pensamento, de expressão e de ação. O pluralismo e as diversidades de religião, de cor, de sexo, de raça e de língua fazem parte daquele sábio desígnio divino com que Deus criou os seres humanos. Esta Sabedoria divina é a origem donde deriva o direito à liberdade de credo e à liberdade de ser diferente. Por isso, condena-se o fato de forçar as pessoas a aderir a uma determinada religião ou a uma certa cultura, bem como de impor um estilo de civilização que os outros não aceitam” [4].

No documento do Vaticano II, intitulado Nostra Aetate, sobre a relação com as Religiões não-cristãs, a Igreja prega o caminho da fraternidade universal e reprova toda a discriminação racial ou religiosa: “Não podemos, porém, invocar Deus como Pai comum de todos, se nos recusamos a tratar como irmãos os homens e mulheres, criados à Sua imagem. De tal maneira estão ligadas a relação com Deus Pai e a sua relação aos outros, seus irmãos, que a Escritura afirma: «quem não ama, não conhece a Deus» (1 Jo. 4,8). A Igreja reprova, por isso, como contrária ao espírito de Cristo, toda e qualquer discriminação ou violência praticada por motivos de raça ou cor, condição ou religião”[5 ].

Diante de tais afirmações podemos aplicar um velho adágio atribuído ao movimento ecumênico, que funciona como uma recomendação amorosa: Devemos fazer juntos tudo o que a fé não nos obriga a fazer separados”. Um critério válido para ambos os movimentos, revelando ao mesmo tempo audácia e singeleza, intrepidez e ternura, consciência e fé, além de uma profunda disponibilidade de alma e coração para contemplar e viver no outro o mandamento do amor: Amai-vos…!

[1] Y Congar, Cristianos Desunidos, Verbo Divino, Estella, 1967, p. 12: Citado na Obra de Juan Bosch Navarro, Para
Compreender o Ecumenismo, Loyola, São Paulo, 1995, p.12
[2] Navarro, Juan Bosch. Para Compreender o Ecumenismo, Loyola, São Paulo, 1995, p. 13-15

[3] A FRATERNIDADE HUMANA. Documento assinado pelo papa Francisco e o Grão Imame de Al-Azhar, Ahrmad AlTayyerb, em Abu Dabhi, em 04 de Fevereiro de 2019, http://www.vatican.va, acesso 26.02.2021
[4] Idem
[5] Nostra Aetate, Declaração sobre a Igreja e as Religiões não Cristãs, VAT II, Outubro de 1965

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