Entidades defendem direitos humanos no lançamento do Grito dos Excluídos

Nesta quarta-feira, 02, a quilombola Rosemeire Messias dos Santos participou de um evento público pela primeira vez após a morte de seu pai, vítima de infarto três dias após uma

Nesta quarta-feira, 02, a quilombola Rosemeire Messias dos Santos participou de um evento público pela primeira vez após a morte de seu pai, vítima de infarto três dias após uma discussão com oficiais da Marinha, na comunidade Rio dos Macacos. Neste local, os conflitos começaram na década de 70, depois que a Base Naval de Aratu foi construída e a União pediu a desocupação da área. O depoimento da líder comunitária foi prestado durante o lançamento da campanha do Grito dos Excluídos, cujo tema este ano é “Vida em primeiro lugar” e o lema, “Que país é esse que mata gente, que a mídia mente e nos consome?”. Essa bandeira será defendida em uma marcha, no dia 7 de setembro, do Campo grande à Praça Castro Alves, a partir das 8h.

Rosemeire Messias dos Santos testemunha violação de direitos humanos na comunidade quilombola onde vive
Rosemeire Messias dos Santos testemunha violação de direitos humanos na comunidade quilombola onde vive

Rosemeire denunciou a ocorrência de mortes durante todo o período de conflitos, além de episódios de violência praticados por militares. “Eles colocaram uma portaria e as pessoas só podem entrar ou sair com autorização deles. Eu já fui amarrada com fios, jogada dentro de uma caminhonete e agredida. Há pouco tempo, teve um assassinato dentro da comunidade”, relatou. De acordo com a quilombola, os moradores da comunidade sofrem perseguição. “Eu tenho uma filha que não pode ir para a escola, senão pode ser morta”, lamentou, após afirmar que é analfabeta. “Não tenho vergonha de dizer isso, quem tem de ter vergonha é o governo”, disse.

Por meio de nota, o Comando do 2º Distrito Naval informou que “todas as denúncias que chegam ao conhecimento da MB são devidamente apuradas, por meio de inquéritos policiais militares posteriormente encaminhados ao Ministério Público Militar. Entretanto, não foram encontrados indícios que permitissem confirmar as acusações”. Sobre o controle de acesso, o texto esclarece que “por se tratar de propriedade da União, sob administração militar, todas as pessoas que entram na área precisam ser identificadas e estarem devidamente autorizadas. Esse tipo de controle vale tanto para os membros da comunidade do Rio dos Macacos, como para os familiares dos militares que residem na VNB e também para todo e qualquer visitante”.

Entidades assistem ao vídeo sobre o Grito dos Excluídos
Entidades assistem ao vídeo sobre o Grito dos Excluídos

A situação existente na área entre as cidades de Salvador e Simões Filho está entre os mais de 23 mil conflitos por terra registrados em 30 anos no Brasil. A informação consta em uma publicação da Comissão Pastoral da terra (CPT), que aponta ainda 1.723 assassinatos nessas disputas em todo o país, de 1985 a 2014. Na Bahia, nove pessoas foram mortas nos anos de 2013 e 2014 por tensões no campo. “Tivemos 500 anos de escravidão e nos deram esse projetinho ridículo do quilombo dos macacos”, afirmou o frei Luciano Bernardi, coordenador da CPT, sobre a delimitação de terra feita pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), que reconheceu no ano passado 104 hectares como pertencentes aos quilombolas.

Frei Luciano Bernardi, coordenador da CPT, fala sobre conflitos agrários no Brasil
Frei Luciano Bernardi, coordenador da CPT, fala sobre conflitos agrários no Brasil

Representantes da Ação Social Arquidiocesana (ASA), Cáritas Regional Nordeste 3, Pastoral Carcerária, Pastoral da Saúde, Levante Popular da Juventude, entre outras entidades, participaram do encontro, para reafirmar a necessidade de levantar cada uma das bandeiras ali defendidas. “Todos os dias, os direitos humanos são desrespeitados e é na rua que os movimentos sociais se articulam”, afirmou o pastor da Igreja Batista, Joel Zeferino, vice-presidente da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE).

Fotos: Catiane Leandro

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