Cardeal Dom Sergio da Rocha
Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil
Iniciamos um novo ano com gratidão e esperança. Gratidão a Deus e a cada pessoa que tem caminhado conosco, sustentando o nosso viver com o seu amor. O novo ano é um dom precioso a ser acolhido e saboreado e não um fardo a ser penosamente carregado, por maiores que sejam os desafios a serem enfrentados.
A esperança de vida nova torna-se ainda mais forte no iniciar de um novo tempo. Novo ano é tempo de esperança. Cada pessoa sempre pode ser melhor do que tem sido. Nós não somos prisioneiros do destino ou meros expectadores da história.
A vida é dom e tarefa. O novo ano é um caminho aberto a ser percorrido com passos de fraternidade e de paz. Num mundo marcado por tanta agressividade e conflitos, torna-se ainda mais necessária a tarefa do perdão, da reconciliação e da paz, a começar do ambiente familiar. Não se pode caminhar carregando pesado fardo nas costas e amargura no coração. Cargas pesadas acabam enfraquecendo as pernas, impedindo avançar no caminho novo e fazendo sofrer o coração. Há muita coisa a ser deixada para trás a fim de recomeçar. Mágoas, ressentimentos e vinganças devem ceder lugar ao perdão, à reconciliação e à paz. Não se pode simplesmente apagar o que foi vivido, mas é possível assumir com serenidade as falhas e limitações, aprender com os erros passados e dispor-se a um novo modo de viver.
Podemos recomeçar vivendo de um jeito novo as atividades rotineiras e desenvolvendo novas atitudes que nos tornem mais humanos e, por isso, mais fraternos e felizes. Há novos hábitos a serem cultivados. É importante percorrer o novo ano na simplicidade, encontrando alegria nas coisas simples e aparentemente pequenas do dia-a-dia, em contraste com o consumismo e a ambição que provocam gastos e desgastes.
Não se percorre sozinho um caminho longo. O caminho pode ser longo e difícil, mas percorrido juntos torna-se agradável. É preciso renovar a disposição de caminhar juntos neste novo tempo. O amor fraterno, a amizade sincera e o perdão tornam possível trilhar o novo ano com ânimo e alegria. Necessitamos reconhecer e valorizar mais as pessoas que têm estado ao nosso lado, mas que nem sempre têm recebido o nosso olhar fraterno e a nossa gratidão. É preciso amar mais a quem não temos amado bastante.
Nós somos corresponsáveis pela construção de um mundo novo, através do amor, da justiça e da paz. A busca da felicidade por cada pessoa não pode ignorar o que se passa na sociedade, nem implicar no fechamento sobre si. A busca egoísta da felicidade a ninguém faz feliz. Por isso, neste novo tempo, somos convidados a aceitar as mãos amorosas de Deus estendidas e a estender as mãos solidárias aos feridos na caminhada. A fé em Deus sustenta a nossa esperança, ilumina o caminho a seguir e fortalece os passos que pretendemos dar neste novo ano.
*Artigo publicado no jornal A Tarde, em 01 de janeiro de 2023.