HOMILIA DO ARCEBISPO – MISSA DO CRISMA

Catedral Basílica do Santíssimo Salvador – 2023

Cardeal Dom Sergio da Rocha

Irmãos e irmãs, há pouco, rezamos com o salmista, louvando ao Senhor pela sua misericórdia eterna e pelo seu amor sempre fiel. “Senhor, eu cantarei eternamente o vosso amor”. Temos muitos motivos para louvar ao Senhor pelo seu amor fiel. Trazemos tesouros em vasos de barro, como afirma o apóstolo Paulo. Experimentamos, a cada dia, a misericórdia e a graça de Deus! Nós reconhecemos como é grande o seu amor em nossa vida e na vida de nossa Igreja, e hoje, de modo especial, expressamos a nossa ação de graças pelo dom da eucaristia, pela graça do sacerdócio e pelos santos óleos, que serão abençoados para a administração dos sacramentos. Trata-se de uma ocasião muito especial para a renovação de nossa vida cristã e, particularmente, do ministério sacerdotal.

Neste Ano Vocacional, nós reconhecemos com louvor a Deus que a vocação é antes de tudo dom, é graça. As dificuldades e os desafios que experimentamos na vivência das diversas vocações não diminuem a beleza e a grandeza do dom recebido. Ao mesmo tempo, o Ano Vocacional nos lembra que vocação é também missão, tarefa, o que exige compromisso e esforço sincero de cada um. Vivemos numa época em que a fidelidade e os compromissos assumidos são facilmente deixados de lado. Hoje, é grande a tentação da mediocridade, de se viver mais ou menos a vida cristã; de ser cristão pela metade; de fazer somente aquilo que se gosta. No mundo, há uma busca exagerada de bem-estar pessoal; não se admite mais renúncias e sacrifícios. Se assim fosse na vida cristã, a cruz passaria a ser apenas um objeto de ornamentação, ao invés de ser abraçada e levada a cada dia, com Cristo, por causa dele e de sua Igreja, como sinal de fidelidade. Não podemos ceder à tentação de uma vida cômoda, baseada na satisfação pessoal, no gostar ou não gostar, no consumo insaciável de bens ou no acúmulo de dinheiro. Ninguém pode se acomodar a um estilo de vida mundano, como tem alertado tantas vezes o Papa Francisco, ao referir-se ao “mundanismo espiritual” como uma das tentações dos agentes pastorais.  Num estilo de vida mundano, com uma religiosidade de aparências, não há lugar para a cruz e a fidelidade. Compromissos na vida, especialmente na vivência da vocação, sempre comportam renúncias e esforço pessoal. Por isso, irmãos no sacerdócio, irmãos e irmãs todos, sejamos fiéis e perseverantes na vocação recebida, confiando sempre na graça de Deus, com uma atitude permanente de conversão. Fidelidade, graça e conversão andam juntas.

Nesta eucaristia em que ocorre a renovação das promessas sacerdotais, quero agradecer sinceramente aos nossos sacerdotes por tanta dedicação pastoral, pelas renúncias e sacrifícios; pela vida doada a cada dia no altar e nas tarefas pastorais. Agradeço, de modo especial, aos padres e diáconos que se dispõem a trabalhar entre os pobres, nas localidades mais carentes. Agradeço a todos os que, nas diferentes funções pastorais, se dedicam a cumprir a missão de Cristo, que continua na Igreja, recordada no Evangelho proclamado e no livro de Isaías: “anunciar a Boa Nova aos pobres; proclamar a libertação aos cativos; restituir a vista aos cegos; curar as feridas da alma; consolar os que choram; e proclamar o tempo da graça”. Bendito seja Deus pelos sacerdotes que se dispõem a fazer renúncias e sacrifícios para exercer o seu ministério, mantendo-se fiéis à vocação e à missão para a qual foram chamados. Muitíssimo obrigado, queridos padres!

Nesta Eucaristia nós louvamos a Deus por cada um de vocês. Nós olhamos para vocês, nossos padres, com sincera gratidão e fraterna estima. Deus lhes conceda a graça da fidelidade generosa e do testemunho alegre e corajoso da fé.

Diante dos desafios na vida sacerdotal, além da oração e do apoio da comunidade, é indispensável a fraternidade no clero, a ajuda mútua entre os que são ordenados, assim como entre os consagrados. Isso, não apenas por razões de ordem prática, isto é, para ter forças para superar as dificuldades, mas porque a comunhão pertence à natureza da Igreja e, particularmente, do sacerdócio. Sejam os sacerdotes instrumentos e sinais de comunhão na Igreja. São João Paulo II afirmou no documento sobre a formação dos sacerdotes, Pastores dabo vobis, que “o ministério ordenado tem uma radical forma comunitária e pode apenas ser assumido como obra coletiva/comunitária”, isto é, em comunhão.

Por isso, nesta manhã, a renovação da vida sacerdotal, embora de cunho pessoal, acontece de forma comunitária, com o presbitério reunido com os bispos, ao redor do altar. Este gesto que acontece a cada ano não é simples rito. Tem um significado profundo. Eu renovo as promessas sacerdotais junto com os meus irmãos no sacerdócio, em meio ao presbitério, reunindo padres diocesanos e religiosos. Eu renovo os compromissos sacerdotais diante do altar, fonte e sustento do sacerdócio, confiante na graça de Deus. Eu renovo as promessas sacerdotais contando com os fiéis unidos em oração. Portanto, para reavivar o dom de Deus recebido na ordenação, é preciso este tríplice olhar: para o altar, para o presbitério e para o povo. E durante o ano, este mesmo olhar deve se repetir a cada dia, para que cada um possa experimentar sempre mais a alegria de ser discípulo e sacerdote do Senhor, na Igreja.

Quero estender o agradecimento a todos os irmãos e irmãs, os diáconos, os consagrados e consagradas, os fiéis leigos e leigas, que acompanham os nossos padres, com as suas orações, com a fraterna estima, com o apoio e a colaboração pastoral. Continuem a ajudá-los; estejam ao lado deles; rezem por eles. Muito obrigado, de modo especial, pela presença de vocês nesta Eucaristia. A vocação e a missão de cada um são muito importantes na Igreja. Vamos cada vez mais caminhar juntos, viver a comunhão, a participação e a missão, conforme tem enfatizado o Papa Francisco no caminho sinodal que estamos percorrendo.

A Igreja necessita de “evangelizadores que rezam e trabalham”, segundo as palavras do Papa Francisco na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. Evangelizadores leigos. Evangelizadores padres, diáconos e consagrados, que não cedem a tentação do desânimo ou do pessimismo, mas que se animam e se alegram por servir os irmãos. As dificuldades não devem ser motivo para desânimo. Ao contrário, podem ser ocasião para o nosso crescimento e amadurecimento na vocação.

Para dar pleno cumprimento à missão que Cristo confiou à Igreja, nesta Eucaristia, será consagrado o óleo do Crisma e serão abençoados os Santos Óleos do Batismo e dos Enfermos. Por meio deles, a Igreja continua a anunciar a Boa Nova aos pobres e sofredores, a levar a liberdade aos cativos, a luz aos que não enxergam, o tempo da graça e da vida nova aos que se encontram oprimidos. Deus conta conosco para que sua graça seja acolhida e possa dar frutos na vida dos que recebem os sacramentos. Vocação é graça e missão que necessita de “corações ardentes e pés a caminho”, conforme o lema do Ano Vocacional. Necessitamos ser Igreja missionária, em saída, ao encontro de todos e especialmente dos que mais sofrem. Há muita gente sofrida necessitada de oração, de presença amiga e de solidariedade, dentre os quais, devem receber especial atenção e afeto, os pobres e os enfermos. Há muitas situações de violência fazendo tantas vítimas em nossa cidade e em nosso país, causando sofrimento e morte em nossas famílias, necessitadas de justiça e paz. Precisamos ser mais solidários com as vítimas da violência e jamais desistir de contribuir para a construção da paz, não somente por iniciativas pessoais, mas também por ações comunitárias. Procuremos promover a paz nas famílias, nas redes sociais e nas ruas. Sejamos instrumentos de reconciliação e de perdão, de justiça e de caridade. Que o “sim” a Deus, nas diversas vocações, seja sempre um “sim” à fraternidade e à paz.

Ungidos pelo Espírito, unidos como Igreja, especialmente, unidos ao Papa Francisco, vamos redobrar os nossos esforços para que todos possam acolher a graça da vida nova em Cristo e experimentar a alegria do Evangelho. A Virgem Maria, Mãe da Igreja, nos acompanha com o seu exemplo e intercessão, ajudando-nos a dizer o nosso “sim” ao Senhor, com fidelidade e alegria!

 Louvado seja N. Sr. Jesus Cristo! Para sempre seja louvado!