HOMILIA – ORDENAÇÃO PRESBITERAL – 22.10.2022

Leituras: Is 61,1-9; Hb 5,1-10; Jo 17,11b-19.

Ordenandos: Diáconos Alexandre, Luciano, Paulo Henrique e Rafael.

(Saudações)

A Palavra de Deus proclamada nos ilumina na reflexão sobre a identidade e a missão dos sacerdotes. Com o auxílio das leituras da Palavra de Deus, procuremos refletir sobre quem é o padre, qual é a sua missão, como viver o seu sublime ministério.

Iluminados pela profecia de Isaías, podemos dizer que o padre é chamado a ser sacerdote da misericórdia. Os que recebem a graça da ordenação sacerdotal sejam reconhecidos como padres misericordiosos, que vivem da misericórdia divina e da misericórdia para com o próximo sofredor, sempre prontos a receber ou dar o perdão. Sejam presbíteros cheios de compaixão, que abraçam generosamente a missão tão bela e exigente descrita pelo profeta Isaías, cumprida plenamente por Jesus: “levar a boa nova aos humildes, curar as feridas da alma, pregar a redenção para os cativos e a liberdade para os que estão presos; consolar os que choram; proclamar o tempo da graça” (Is 61,1-3). Queridos irmãos que estão sendo ordenados presbíteros: sejam instrumentos e sinais da misericórdia de Deus na Igreja e no mundo. Os pobres estão à espera da boa nova; os de coração ferido estão esperando por alguém que suavize as suas chagas; os cativos necessitam de liberdade; os que choram esperam por quem os console; todos anseiam pelo tempo da graça de Deus. Há muita gente esperando por vocês! Não podemos ficar indiferentes ao clamor dos que mais sofrem. Deus conta com vocês, os novos padres, para fazer chegar o seu amor misericordioso a todos.

Misericórdia é perdão. Por isso, perdoem e ajudem a perdoar, com generosidade, sem mesquinhez. Misericórdia é amor solidário ao encontro dos que sofrem. Gastem tempo para servirem os enfermos, os pobres e os aflitos. Não se acomodem jamais a uma vida restrita à casa paroquial ou à sacristia. Desde os primeiros tempos da vida sacerdotal, procurem se organizar para atender as confissões, visitar os doentes e atender as famílias que mais sofrem.  A Igreja “em saída” é a Igreja da misericórdia e da solidariedade. Estejam disponíveis para entrar nos hospitais, nas casas de famílias sofridas e nas áreas mais carentes, dentre tantas situações de sofrimento.

O sacerdócio é uma grande graça, é um dom precioso da misericórdia divina. Contudo, como frequentemente tem alertado o Papa Francisco, ele não pode ser motivo para privilégios ou pretensão de superioridade. O sacerdócio é um dom gratuito do Senhor a ser vivido com espírito de serviço. Ninguém é sacerdote para si mesmo, mas para Cristo e a Igreja. O sacerdote se faz servidor no altar e na vida cotidiana, apresentando-se perante a comunidade como servo, por causa de Jesus e em nome dele. Por isso, é muito importante cultivar um estilo de vida simples e a disponibilidade para servir, de bom grado, onde a Igreja necessitar.

Quem melhor pode cumprir a missão descrita pelo profeta Isaías é quem assume a sua condição de pobre necessitado da boa nova, de aflito consolado pelo Senhor e de cativo libertado pela graça. Assim fazendo, o padre torna-se capaz de reconhecer, humildemente, que “deve oferecer sacrifícios tanto pelos pecados do povo, quanto pelos seus próprios”, conforme a expressão da Carta aos Hebreus.

Iluminados pela Carta aos Hebreus, podemos dizer que o sacerdote é aquele que “sabe ter compaixão”. “Sabe ter compaixão dos que estão na ignorância e no erro, porque ele mesmo está cercado de fraqueza”, conforme as palavras que ouvimos.  “Sabe ter compaixão”, a exemplo de Jesus sacerdote, por causa dele e graças a ele. “Sabe ter compaixão”, quando celebra: quando reza pessoalmente ou com a comunidade, pois não reza apenas para si, mas em primeiro lugar pelo povo que lhe é confiado. “Sabe ter compaixão” quando exerce o seu ministério no meio do povo, quando vai ao encontro dos que mais sofrem, quando sai em busca da ovelha perdida, para compartilhar a boa nova, a consolação e a graça do Senhor.

O Evangelho proclamado nos faz pensar nos sacerdotes como discípulos de Cristo, “consagrados na verdade” ou “santificados na verdade”. Esta palavra de Jesus encontra-se na sua “oração sacerdotal”, como tem sido denominada a prece de Jesus ao Pai por todos nós, na última ceia. Na oração sacerdotal de Jesus estão incluídos todos os seus discípulos e por isso, abarca a todos nós. Nela, estão os sacerdotes, que pela natureza da própria vocação e ministério, ofertam ao Senhor a própria vida, unidos a Cristo. Consagrar-se é ser todo de Deus, é oferecer-se totalmente a Deus; é doar-se inteiramente. Isso é belo e traz sempre a alegria espiritual, mas comporta renúncias e sacrifícios. Por isso, Jesus suplica ao Pai: “santifica-os, na verdade” (Jo 17,17). Por isso, a Igreja aqui reunida também suplica: “santifica-os, na verdade” (Jo 17,17).

A “tua palavra é a verdade”, afirma Jesus ao Pai.  Portanto, a verdade é a Palavra de Deus; a verdade é o próprio Jesus, a Palavra que se faz carne. No mundo de hoje, em meio a tantas ideias e costumes que pretendem ser a “verdade”, necessitamos permanecer na verdade que é Cristo. Necessitamos da verdade da Palavra de Deus transmitida pela Igreja, para discernir e orientar a nossa vida e o nosso ministério, nas diversas circunstâncias, especialmente nos momentos mais difíceis. Sem a Verdade a que se refere Jesus, perde-se o rumo na vida, esvazia-se a beleza da fé e enfraquece-se a vida cristã e sacerdotal.

Sabemos bem que ninguém pode consagrar-se ou santificar-se, por si próprio, contando apenas com sua força e capacidade. Nós somos consagrados, somos santificados, por Deus. Por isso, quem é ordenado diz o seu “sim”, sempre “com a graça de Deus”, segundo o ritual de Ordenação.

Assim sendo, quem recebe a graça do sacerdócio necessita muito da oração e do apoio fraterno para viver o ministério recebido, de modo santo e fiel. Peço a todos os irmãos e irmãs: rezem pelos nossos padres; ajudem os nossos padres a serem sacerdotes santos e misericordiosos, fiéis e felizes.

Muito obrigado aos familiares e amigos dos nossos novos sacerdotes, especialmente aos seus queridos pais. Obrigado às suas paróquias e comunidades; ao nosso clero e a todos que ajudaram estes nossos irmãos na caminhada vocacional. Nossa especial gratidão aos que se dedicam generosamente à formação sacerdotal no Seminário. E por fim, obrigado, de coração, aos que estão sendo ordenados, pelo caminho percorrido e pela acolhida do dom do sacerdócio a serviço da Igreja Primacial do Brasil. Sejam sempre fiéis e felizes, com a graça de Deus, contando com a proteção materna de Nossa Senhora, a intercessão de Santa Dulce dos Pobres, da Bem-aventurada Lindalva e, hoje, de modo especial, de São João Paulo II, cuja memória é celebrada em toda a Igreja.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!

 

Dom Sergio da Rocha, cardeal arcebispo de São Salvador da Bahia