Inocêncio XI e Salvador

Dom Sergio da Rocha

Cardeal Arcebispo de São Salvador da Bahia

Aos 22 de novembro de 1676, em Roma, o Papa Inocêncio XI decretava a elevação da Igreja de São Salvador da Bahia à categoria de Arquidiocese, pelo documento pontifício intitulado “Inter pastoralis officii curas”.

A então Diocese de São Salvador do Brasil, a primeira do país, criada em 1551, passava a ser sede de uma província eclesiástica que recobria todo o Brasil. O Papa Inocêncio XI, assim fazendo, separava Salvador e, portanto, o Brasil, da Sé metropolitana de Lisboa, da qual fazia parte: “dividimos e separamos a Igreja de São Salvador da Bahia, até então dependente da igreja lisbonense, e a cidade e diocese referidas e os amados filhos, o seu clero e povo, da província lisbonense, à qual estava sujeita pelo direito metropolítico; os eximimos totalmente e os livramos quanto à superioridade, jurisdição, poder, sujeição e correção do arcebispo atual e dos diletos filhos do cabido e da cidade lisbonense”.  Apesar do gesto de importância extraordinária para a autonomia da Igreja no Brasil em relação à sede metropolitana de Portugal, não se pode considerar que Inocêncio XI estivesse decretando a independência do Brasil. Na própria bula pontifícia, ele afirma a vigência do “direito de padroado do referido Pedro e de seus sucessores, reis de Portugal e Algarves”, o que não permitia a independência do Brasil em relação a Portugal. Contudo, pode ser justo considerar a criação da Arquidiocese de São Salvador da Bahia um passo muito significativo no longo caminho para a independência do Brasil e a não submissão a Lisboa.

No mundo, Inocêncio XI, um dos papas mais importantes do século XVII, é venerado como beato pela sua santidade, tendo sido beatificado por Pio XII, em 1956. No Brasil, além disso, ele merece ser recordado com gratidão por ter tornado Salvador uma sé metropolitana independente, logo no primeiro ano do seu pontificado, que durou até 1689, pois foi eleito a 21 de setembro de 1676. Na mesma ocasião, o Papa criou as dioceses de São Sebastião do Rio de Janeiro e de Olinda, ambas passando a ser sufragâneas da Arquidiocese de São Salvador da Bahia.

Salvador, enquanto Sede Primacial da Igreja no Brasil, tem uma história longa e bela que necessita ser mais conhecida e valorizada. A decisão de Inocêncio XI não é importante somente para a Igreja Católica, mas também para o Brasil. Salvador tem muita história para ser recordada. É preciso preservar a memória histórica, pois a sua perda ou menosprezo implica em uma espécie de Alzheimer que, ao invés de neurônios, apaga progressivamente a identidade de um povo. Os 344 anos da Arquidiocese seja ocasião para fazer memória e assumir o presente com responsabilidade e esperança.

*Artigo publicado no jornal A Tarde, em 22 de novembro de 2020.

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