Leia, na íntegra, a homilia da Missa em memória às vítimas das chuvas em Salvador

Na manhã de ontem (03), o bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador, Dom Gilson Andrade da Silva, presidiu a Missa e memória das vítimas do deslizamento de terra, ocasionado pelas

Parentes e amigos das vítimas da comunidade do Barro Branco lotaram a Matriz de Nossa Senhora de Guadalupe - (Foto: Edmilson Gomes/Tv Bahia)
Parentes e amigos das vítimas da comunidade do Barro Branco lotaram a Matriz de Nossa Senhora de Guadalupe – (Foto: Edmilson Gomes/Tv Bahia)

Na manhã de ontem (03), o bispo auxiliar da Arquidiocese de Salvador, Dom Gilson Andrade da Silva, presidiu a Missa e memória das vítimas do deslizamento de terra, ocasionado pelas chuvas que caíram na capital baiana. A Celebração Eucarística aconteceu na paróquia Nossa Senhora de Guadalupe (Alto do Peru). Acompanhe a homilia:

Homilia – 5º Domingo da Páscoa – 7º dia dos mortos na tragédia de 27 de abril (03/05/2015)

Nesta nossa celebração o que Deus nos quer dizer, partindo das coisas que vivemos nesses últimos dias, mas, sobretudo, iluminados pela Palavra da liturgia deste domingo?

Naturalmente buscamos respostas que nos ajudem a justificar a dor por que estamos passando. E o que vemos é que nossas respostas são sempre frágeis, não conseguem abarcar a realidade completa porque podem iluminar a razão, mas não abrasam o coração. Deus, ao contrário, deseja ir além, quer chegar até o coração de cada pessoa, por isso escolheu o coração para lugar do seu pouso e de sua morada.

Estamos aqui hoje para nos lembrar que quando se pensar que se perdeu tudo, sempre restam realidades de onde começar de novo, com novo empenho e com novas possibilidades. Restam-nos ainda a fé e a solidariedade.

Ter fé é acolher o convite que Jesus nos dirige hoje na Palavra que escutamos: “permaneçam em mim”. Aconteça o que acontecer, permaneçamos nele.  A vida perde sentido e direção quando nos desviamos dele, quando o olhar se perde nas inúmeras coisas que nos distraem, quando o coração se dispersa nas aflições.

Ele hoje nos diz: sem mim não podem fazer nada. De fato, sem Ele não conseguimos dar significado ao que acabamos de viver, mas com Ele o céu se abre e podemos ver que existe sempre o sol que ilumina tudo, que não é a chuva, nem as catástrofes, nem a morte que têm a última palavra. A última palavra é dele, pertence a Ele, por isso, com ar sereno, em meio a nossas aflições ele se volta para cada um e nos diz, como que querendo nos oferecer uma solução para tudo: permaneça em mim.

O que significa permanecer nele?

Primeiramente dar-nos conta de que o belo da nossa vida é uma companhia que não nos deixa nunca, nem na vida nem na morte. Ele ressuscitou e caminha ao nosso lado. Continua a atravessar conosco todas as veredas e vales. Não vivemos sozinhos, tampouco morremos sozinhos. A vida é marcada por uma companhia que nos segura em todos os momentos.

Assim, meus irmãos e minhas irmãs, afastar-se dele é arriscar cair no vazio e não descobrir a verdadeira beleza e sentido da vida.

Permanecer com Ele significa que a nossa vida é a dele, como a vida dos ramos é a da árvore. A consequência lógica da nossa união com Cristo tem a ver com o nosso estilo de vida. Qual era o estilo de vida de Jesus? Uma vida de amor. Fomos exortados na segunda leitura de hoje: “não amemos só com palavras e de boca, mas com ações e de verdade!” (1Jo 3, 18).

A hora presente nos desafia a amar como Jesus amou. O amor de Jesus foi tão grande que se manifestou numa capacidade enorme de perdoar. Quando uma tragédia acontece ao nosso redor, é natural que identifiquemos as possíveis culpas e os prováveis culpados e nesse momento o coração já sofrido pela dor da perda, se angustia com os sentimentos de ressentimentos e mágoas. Do alto da sua dor a palavra de Jesus era uma palavra de perdão. Um perdão que não significa retirada das responsabilidades, mas abertura do coração para o irmão. Diante dos fatos que vivemos é preciso assumir as devidas responsabilidades para alcançar uma resposta mais eficaz aos problemas que ameaçam os bairros periféricos da nossa cidade.

Onde a vida de um ser humano é mais ameaçada é para onde o nosso olhar deve se voltar preferentemente, como o olhar de Cristo que preferia os últimos.

Amar como Jesus amou é também amar com ações concretas. Diante da dor e do sofrimento dos nossos irmãos todos temos algo a fazer. Os fatos apelam à nossa caridade. Aos nossos irmãos que tudo perderam deve restar, além da fé, a nossa solidariedade que é uma expressão concreta do convite de Jesus que nos amemos uns aos outros. A mobilização que acontece em nossa cidade e em outros lugares para prestar socorro às vítimas é um sinal do interesse que deve haver por toda pessoa que sofre. Somos membros uns dos outros, somos irmãos, somos ramos da mesma videira que é Cristo. Só sustentados no tronco que é Ele e apoiando-nos mutuamente seremos capazes de construir um novo tempo na nossa história marcada pelo que o Santo Padre tem chamado de globalização da indiferença.

Permanecer com Cristo nos leva a superar a indiferença e a estar no lugar onde Ele nos conduz, na história concreta do único hoje que nos pertence, aquele hoje real que estamos chamados a viver.

Não deveria ser o horror de uma tragédia a nos despertar da indiferença, não deveríamos precisar de situações semelhantes para enxergar que perto de nós há irmãos que precisam de uma mão estendida.  Oxalá este fato nos sirva como a mão do agricultor de que fala o Evangelho, que se serve da poda da videira para garantir mais frutos. Que não fechemos os nossos ouvidos à Palavra que nos purifica e que hoje nos exortou a não amarmos só “com palavras e de boca, mas com ações e de verdade” (1Jo 3, 18).

Numa hora como essa são muitas as mãos que se unem, não basta apenas uma, uma vez que a situação é complexa. Cristo é sempre o primeiro a estender a sua. Na verdade temos todos que nos darmos conta do que Jesus acaba de nos dizer: sem mim…nada. É a sua presença no centro dos corações a única realidade que pode mudar tudo, que pode nos tirar definitivamente da indiferença.

Aos enlutados, aos que perderam tantas coisas a fé traz consolo, mas também abre horizonte, dá esperança e nela encontramos a coragem para atitudes de reconstrução. Não só reconstruir as casas, mas a nossa sociedade, pois uma sociedade egoísta acaba por desmorona.

Permanecer em Cristo é condição para pedir e estamos aqui apoiados na certeza de que Ele sempre nos escuta, juntos com Maria nesse mês a Ela dedicado.

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