Cardeal Dom Sergio da Rocha
Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil
O visual colorido nas ruas e as inúmeras propagandas sinalizam que o Natal chegou ou está chegando. A tradicional preparação festiva para o Natal, alimentada sobretudo pelo comércio, se torna comemoração antecipada. Nas celebrações da Igreja Católica, neste período, utiliza-se a cor litúrgica roxa, própria do Advento, indicando que é tempo de preparar o Natal através da conversão, da oração e da reconciliação. Muitos estranham a opção pela cor roxa neste tempo que antecede o Natal, por identificá-la equivocadamente com a tristeza. A espera alegre do nascimento do Salvador exige preparar a casa por meio da conversão do coração a Deus e ao próximo. É compreensível que quem prepara uma festa muito esperada já participe de algum modo de sua alegria ou quem espera alguém muito querido antecipa a alegria de sua chegada. O Natal ainda não chegou, mas já está à vista, o seu brilho já salta aos olhos. Contudo, não se pode esquecer que uma grande festa exige muita preparação, esforços e até sacrifícios. Não se improvisa aquilo que é importante; ao contrário, prepara-se muito bem e, às vezes, longamente.
Em relação ao Natal, enquanto festa cristã do nascimento de Jesus, a preparação deve ser, sobretudo, espiritual. Apesar das transformações rápidas e profundas no contexto cultural contemporâneo, o Natal continua a encantar e a promover a fraternidade e a paz, conservando seu aspecto de festa em família, continuando a favorecer o encontro e a alegria entre as pessoas. Em muitos casos, o Natal representa uma trégua, aproximando pessoas que dificilmente estariam juntas ou reunindo gente que pensa diferente a política e a religião.
Num mundo marcado por tanta agressividade e violência, o Natal é sinal e recordação de que a fraternidade e a paz trazem alegria, que é possível viver as relações humanas de um jeito novo, fraterno e pacífico. Para tanto, é preciso preparar-se empenhando-se para oferecer aos familiares e amigos os presentes mais valiosos que brotam do coração, a amizade, a solidariedade e o perdão, que nos permitem desejar à todos e a viver um feliz Natal. O próximo que mais sofre não pode ser esquecido; necessita ser tratado com maior atenção e generosidade.
O cultivo da espiritualidade natalina deve merecer especial empenho, pois a celebração do nascimento de Jesus é iluminada pela fé. Não se trata de uma simples festa fraterna, por mais importante que deva ser a fraternidade, mas da celebração de um evento que marca a história da humanidade de modo permanente e singular. O mistério natalino de Deus “que se faz carne e vem habitar entre nós” necessita ser acolhido na fé, fonte e sustento da celebração alegre e fraterna que buscamos, de tal modo que continue a ser Natal do Menino Jesus.
*Artigo publicado no jornal A Tarde, em 10 de dezembro de 2023.


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