No caminho da canonização, Beata Lindalva Justo de Oliveira recebe homenagens de devotos, em Salvador

A radicalidade de homens e mulheres que decidiram seguir a Cristo deixa rastros de amor e de bondade por todos os cantos e, em Salvador, perpetua a certeza de um local abençoado, conhecido como terra de Todos os Santos. Além da Santa Dulce dos Pobres, que percorreu ruas e bairros soteropolitanos, principalmente na região da Cidade Baixa, a capital baiana possui, ainda, uma outra mulher com sinais de santidade: a Beata Lindalva Justo de Oliveira.

Assassinada no dia 9 de abril de 1993, no Abrigo Dom Pedro II, em Salvador, a Irmã Lindalva, como era conhecida, pertencia à Congregação Filhas da Caridade de São Vicente de Paula, e vivenciava a vocação cuidando dos idosos. Na manhã daquela Sexta-feira da Paixão, quando chegou ao refeitório para servir o café aos internos, após percorrer os passos da Via Sacra, a religiosa recebeu 44 facadas que foram desferidas por Augusto da Silva Peixoto, também interno do abrigo. O motivo do crime: Augusto estava apaixonado pela Irmã e não foi correspondido.

Entre os sinais que chamaram a atenção de quem acompanhou de perto o martírio da Irmã Lindalva está o número das perfurações, que coincide com a soma dos 39 açoites e das cinco chagas no corpo de Cristo, num total de 44. O assassino estava com 45 anos e, pelas regras, não poderia ter sido acolhido no local, que era voltado para idosos a partir dos 66 anos. À época, mantido pela Prefeitura de Salvador, o abrigo havia recebido Augusto a partir de um pedido político e logo o novo interno começou a assediar a religiosa, que se negou a aceitar as provocações.

Após o assassinato da Irmã, o processo de beatificação foi iniciado em 17 de janeiro de 2000, sendo concluído em 3 de março de 2001. Por ser considerada mártir, a comprovação de milagres para ser beatificada não foi necessária, acontecendo em 2 de dezembro de 2007, no Estádio Manoel Barradas (Barradão), em Salvador. Contudo, para que a Irmã Lindalva seja canonizada, a exemplo da Santa Dulce dos Pobres, é preciso a comprovação de um milagre atribuído à religiosa, que já é intercessora de todas as pessoas, de modo especial das mulheres que ainda hoje sofrem agressões, uma vez que ela também foi vítima deste tipo de violência. 

Festa da Beata em 2022

Para celebrar o Dia da Beata Lindalva Justo de Oliveira, a Arquidiocese de Salvador, a Congregação Filhas da Caridade de São Vicente de Paula e o Santuário Santa Dulce dos Pobres organizaram uma programação especial. Confira:

Tríduo:

04 de janeiro, às 8h30 – Missa na Capela do Martírio, localizada no Abrigo Dom Pedro II, onde a beata foi assassinada;

05 de janeiro, às 16h30 – Missa na Capela das Relíquias, localizada no Instituto Nossa Senhora da Salette (Barris), onde estão sepultados os restos mortais da Beata;

06 de janeiro, às 8h30 – Missa no Santuário Santa Dulce dos Pobres.

Dia Festivo: 07 de janeiro

8h30, Missa na Capela do Martírio (Abrigo Dom Pedro II)

17h, Missa na Capela das Relíquias (Instituto Nossa Senhora da Salette)

Quem é a Beata Lindalva?

Nascida no dia 20 de outubro de 1953, no Sítio Malhada da Areia, na cidade de Açu, no Rio Grande do Norte, Lindalva Justo de Oliveira era a sexta filha de uma família com 13 irmãos. Os pais, João e Maria Lúcia Justo de Oliveira batizaram a menina no ano seguinte ao nascimento, em 7 de janeiro; e aos 12 anos Lindalva fez a Primeira Eucaristia. De origem pobre, aprendeu ainda na infância o valor da fé cristã, da família e do trabalho. Ao finalizar o Ensino Fundamental, trabalhou como babá, mudando-se para Natal, no Rio Grande do Norte, em 1971, para morar com a família de um de seus irmãos.

Na adolescência, Lindalva participava de atividades na Igreja, mas ainda não havia decidido pela Vida Religiosa, que foi despertada quando ela ainda morava em Natal, através do convite de uma amiga chamada Conceição. Irmã Lindalva foi admitida à Congregação no dia 16 de julho de 1989, em uma Missa celebrada por Dom Hélder Câmara. Um mês depois, ela escreveu uma carta para a amiga Conceição com as seguintes palavras: “Eu estou muito feliz, é como se eu tivesse sempre morado aqui; O meu destino está nas mãos de Deus, mas desejo de todo coração servir sempre com humildade, no amor de Cristo”. Após concluir a segunda etapa do Postulado, ingressou no Noviciado.

A conclusão do Noviciado foi em 26 de janeiro de 1991. Como de costume, ao término deste período, as Irmãs são enviadas para missão: Irmã Lindalva foi enviada para o Abrigo Dom Pedro II, em Salvador, na Bahia, onde assumiu o ofício de coordenadora do pavilhão de idosos.

Martírio e Beatificação

No Dom Pedro II, a Irmã cuidava dos idosos com muito amor, dedicação e alegria, sempre cantando e rezando o Terço com eles. Suas ações de caridade não se restringiam apenas ao abrigo, ela também participou do Movimento Voluntárias da Caridade, do núcleo da Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, onde visitava idosos e doentes nas periferias.

Em janeiro de 1993, uma recomendação política permitiu que Augusto da Silva Peixoto, aos 45 anos, conseguisse ter comida e moradia no abrigo, no qual era necessário ter uma declaração de abandono, por parte da assistência social, e uma idade mínima de 66 anos. Augusto se apaixonou pela Irmã Lindalva, que sempre deixou claro que não poderia corresponder aos sentimentos dele. Mesmo assim, os assédios prosseguiram.

“Prefiro que meu sangue se derrame, do que ir embora”, respondeu Irmã Lindalva, quando lhe perguntaram por que não deixava o abrigo.  A Irmã procurou a diretora do setor social e pediu que chamasse atenção do homem, mas, sem contar sobre suas indiretas indecentes, apenas sobre seus comportamentos inadequados em relação às regras do abrigo, acreditando que isso seria suficiente para fazê-lo parar. Mas, ao contrário do que era esperado, só fez aumentar o ressentimento dele, por não ser correspondido.

O martírio aconteceu no dia 9 de abril de 1993. Era Sexta-feira Santa, e a Irmã havia participado da Via Sacra, que teve início às 4h30. Em seguida, voltou ao abrigo para servir o café aos idosos. Quando estava atrás do balcão onde ficavam os alimentos, foi surpreendida com um toque nas costas. Ao virar, recebeu uma facada mortal na clavícula esquerda. Mesmo caída, continuou tendo o seu corpo perfurado por Augusto. Foram 44 perfurações. O assassino permaneceu no local esperando que a polícia chegasse, e, em depoimento, declarou que havia cometido o crime porque a Irmã Lindalva nunca cedeu aos seus desejos.

No dia 2 de dezembro de 2007, a Irmã Lindalva foi beatificada em cerimônia presidida pelo então Arcebispo de Salvador e Primaz do Brasil, Cardeal Dom Geraldo Majella Agnelo – atualmente Arcebispo Emérito -, no estádio do Barradão. Mais de 25 mil fiéis participaram deste importante momento, além dos irmãos e da mãe da bem-aventurada, na época com 85 anos de vida. Por conta do martírio, não foi necessária a comprovação dos três milagres para que se tornasse beata, por isso, o processo foi considerado um dos mais rápidos da história. Mas, para a canonização, é necessária a comprovação de um milagre que tenha acontecido após a beatificação. No caso da Beata Lindalva, já existe um episódio sendo analisado pelo Vaticano. O dia da Beata Lindalva é comemorado em 7 de janeiro, data em que foi batizada.

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