O “grito da paz”

 Cardeal Dom Sergio da Rocha

Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil

No encerramento do Encontro Internacional de Oração pela Paz, no Coliseu, em Roma, dia 25 de outubro, o Papa Francisco esteve presente, juntamente com líderes cristãos e representantes das religiões mundiais, abordando o tema “O grito da paz. Religiões e culturas em diálogo”. Ele tem se empenhado, incansavelmente, em promover a paz no mundo, ressaltando a gravidade do momento vivido pela humanidade, marcado por conflitos armados, particularmente na Europa, com a guerra na Ucrânia. Infelizmente, parece que se perdeu a memória das tragédias das duas guerras mundiais e a sensibilidade diante de tantas outras guerras que acontecem no mundo ou da violência no cotidiano. As consequências das guerras são sempre devastadoras, trazendo sofrimento e morte, atingindo duramente a população, especialmente os mais vulneráveis.

“O grito da paz é muitas vezes silenciado não apenas pela retórica bélica, mas também pela indiferença e pelo ódio”. É preciso ouvir o “grito da paz”, afirmou Francisco, mencionando “a paz sufocada em tantas regiões do mundo, humilhada por muita violência, negada até mesmo às crianças e aos idosos, que não são poupados da terrível dureza da guerra”. No Encontro, ele retomou o que havia afirmando na carta encíclica Fratelli tutti: “Toda a guerra deixa o mundo pior do que o encontrou. A guerra é um fracasso da política e da humanidade, uma rendição vergonhosa, uma derrota perante as forças do mal”.  

A política deve contribuir para a paz e não servir de obstáculo para alcançá-la. A construção da paz é uma tarefa permanente a ser assumida e compartilhada nos diversos âmbitos da vida social. É preciso fazer acontecer um mutirão permanente pela construção da paz, que inclui desde os gestos pequenos no cotidiano até as grandes decisões políticas nacionais e internacionais. Há um artesanato da paz, a ser construído cotidianamente por cada pessoa, nos diversos ambientes, de modo a contribuir para a superação da violência e da agressividade nas suas diversas expressões, nas redes sociais, no ambiente familiar ou nas ruas.

“A paz está no coração das religiões, em suas Escrituras e em sua mensagem”, enfatizou Francisco naquele Encontro. Os cristãos e todos os que creem em Deus das várias confissões religiosas devem colaborar, com o máximo empenho, para a convivência fraterna e pacífica entre as pessoas e entre os povos. “Não nos deixemos contaminar pela lógica perversa da guerra, não caiamos na armadilha do ódio pelo inimigo. Coloquemos a paz no centro da visão do futuro, como objetivo central de nossa ação pessoal, social e política, em todos os níveis. Desarmemos os conflitos com a arma do diálogo”. Estas palavras de Francisco possam ecoar também entre nós, indicando-nos o caminho a seguir neste período pós-eleitoral. A vida política seja sempre pautada pelo diálogo e o respeito ao outro, pela busca incansável da fraternidade e da paz.